13/09/2008

A noite luminosa


Houve um tempo em que as noites e os dias não tinham nome. Sucediam-se porque assim tinha de ser. Um Sol obstinado e sem descanso crestaria a Terra. Uma Lua imutável, reinando sobre a noite eterna, apagaria a vida.
Sendo de natureza tão contrária, a noite e o dia completam-se. Não podem passar uma sem o outro. Tal como a Lua não dispensa o Sol nem o Sol a Lua. Tal como o mar e a terra. Tal como o fogo e a água. Tal como o vento e a calma. Tal como o homem e a mulher.
Tal como metade de tudo e a outra metade de tudo, que juntamente consumam o redondo do Universo.
Tal como o archeiro Hau-Ngai e a sua indiscreta esposa Seong-Ngó...
Vamos contar.

Há muitos e muitos anos, no reinado do perfeito imperador Ü, havia um homem que manejava o arco e a flecha como nunca voltou a haver outro igual em toda a China. Chamava-se Hau-Ngai, o exímio archeiro, e era comandante da guarda imperial e herói do império.
Herói porque com as suas setas mágicas já salvara províncias inteiras de uma catástrofe. Uma terrível inundação.
Foi assim.
O Rio Liung-Lo todos os invernos transvazava do seu leito e esparramava-se pelas planícies em redor. Não era um mal, antes pelo contrário, pois os camponeses já contavam com a ajuda do rio e do lodo que ele arrastava para o sucesso das culturas. Desde que ele recuasse no tempo próprio, depois da época das chuvas, os solos adubados perdoariam os danos.
Mas, para lhe domar os excessos, os camponeses erguiam, na estação seca, ao longo do leito, comportas e valados de resguardo. Os arrozais agradeciam.
Tinham inclusivamente, com o esforço de muitas aldeias, levantado um grande dique - numa garganta, a montante da planície - com troncos, barros e estacaria, de modo a que parte do caudal da enchente aí se conservasse por todo o ano. A água que ultrapassasse o dique inundaria as terras baixas. A que ficasse retida alimentaria os regueiros, no Verão, até aos pomares sequiosos.
Mas veio um ano de chuvas bravas. Temendo o destino da sua frágil engenharia, os homens escoraram o dique com rochas e mais troncos.
Hau-Ngai, surpreendido pelo dilúvio na caça ao veado, acorreu em ajuda dos camponeses. Desesperados e cobertos de lama, trabalharam no conserto da barragem até onde puderam. Mas os esforços eram desproporcionados com a inclemência do tempo. Então, refugiaram-se nas montanhas, temendo o pior.
Nuvens desapiedadas largavam água sobre água. Trovejava. O chão estremecia a cada ribombo faiscante.
Parte do bordo do dique começou a esbarrondar-se. Se a força das águas o derribava, o tropel do caudal em fúria arrasaria culturas e aldeias. Nisto tudo pensavam os homens, sem nada poderem fazer.
Até que um brado da altura de um trovão lhes sobressaltou os pensamentos negros. Era Hau-Ngai que gritava para as nuvens, que desafiava os raios. Exigia-lhes que estancassem as chuvas. Despedia-as para outras paragens.
Elas não o ouviram. Então o archeiro Hau-Ngai pôs-se a desferir para o escuro do céu as suas flechas. Atirava às nuvens. Com umas flechas partia coriscos, com outras asseteava os lombos das mais nutridas.
Fugiram as nuvens, açodadas. Do susto em que ficaram nesse ano não voltou a chover.
Nunca tal se vira - um homem a defrontar a tempestade. E a vencê-la.
Aclamado como herói, Hau-Ngai continuou a sua vida de soldado em tempo de paz. Dava instrução de arco aos mais novos e caçava.
Que, note-se, não caçava para ele. Hau-Ngai, em tudo diferente dos outros mortais, só se alimentava de essências de flores.

Ora aconteceu que, um dia, o céu acordou com mais nove sóis além do sempre bem-vindo fundador da luz. Foi um clamor de pânico por toda a terra.
Brincadeira de espelhos das divindades que regem a mecânica do Universo? Disputa entre astros, a quererem, todos à uma, alumiar o nosso minúsculo planeta? Maldição desvairada contra os habitantes da Terra? Fosse do que fosse eram sóis a mais.
Tantos sóis a despejar calor sobre o verde da erva, o azul das águas, o vermelho dos frutos, o branco dos olhos, alcançariam por junto o mesmo fim - tudo converterem a torresmos e a uma única cor, o amarelo. Mais insistindo promoveriam o castanho a cor universal e após ele o luto e o cinzento da morte. Acabava-se o mundo.
O imperador, aflito com os queixumes do povo e também aflito por si e pêlos seus, que nenhum guarda--sol protegeria, decidiu chamar ao palácio Hau-Ngai.
- Trespassa esses sóis maléficos como trespassaste as nuvens - suplicou-lhe.
Súplica de imperador vale mais do que uma ordem. Hau-Ngai subiu à mais alta montanha do império e lá do cimo assestou um virotão ao arco. De olhos semi-cerrados, contra o encandeamento da luz, atirou a primeira seta. Ela percorreu a direito o espaço e acertou num dos sóis excedentes. Brrumm! Um estampido imenso abalou o céu. Rebentara o sol como um balão.
Depois deste mais um e outro e outro... nove sóis rebeldes despedaçaram-se num estridor, despejando esquírolas de fogo que chegavam à terra em chuva de cinza.
O último, o décimo, fugia já para poente quando Hau-Ngai, que ia a visá-lo, se lembrou:
- Depois deste não resta nenhum... E poupou-o. Graças que a tempo assim tivesse acontecido senão ficávamos para sempre às escuras.

Herói que era, mais herói não podia ser. Todas as benquerenças da terra seriam poucas, trazidas em procissão. Era indispensável, agora, uma prenda maior do que todas as outras. Qual?
A imperatriz do Poente, que com seu esposo, o imperador do Levante, geraram as duas forças que equilibram o mundo, cuidou da recompensa, uma recompensa perante a qual todas as riquezas passariam por insignificantes.
O archeiro Hau-Ngai livrara os homens e os restantes seres da condenação pelo fogo. Pois então que ficasse ele livre também da fatalidade da morte. A imperatriz do Poente concedeu a Hau-Ngai a Pílula da Imortalidade. Era justo.
Mas, ao entregar-lha, numa caixa de nácar, qual pérola preciosa, advertiu-o:
- Mortal que és, terás de apagar em ti toda a mancha humana. O torvelinho dos sentidos, a precipitação da vontade, a maré alta dos desejos, tudo escoarás de ti em doze meses de abstinência e silêncio. Se nada desejares e se, depois de nada desejares, nem desejares ser imortal, então, só então, a Pílula da Imortalidade surtirá efeito.
O eco desta recomendação acompanhou-o no caminho de regresso a casa.
Quando chegou, passou pela mulher como por uma estranha e fechou-se no quarto. Arrecadou os seus poucos bens numa trouxa, lavou-se e, antes de sair, arrumou a caixa de nácar muito escondidamente numa trave junto ao tecto.
Depois atravessou o pátio da casa e, sem se despedir da mulher, fechado como uma pedra, caminhou para as montanhas em busca de uma gruta onde resguardar-se em meditação durante um comprido ano de mudez.
Mas um archeiro como Hau-Ngai não pode converter-se em eremita sem ser incomodado pela sua antiga fama. Sabendo-o no refúgio da montanha, vieram de um povoado próximo pedir-lhe auxílio.
- Carecemos de força e engenho para nos livrarmos de um salteador que nos rouba haveres e rebanhos - disseram. - Só a tua coragem poderá capturá-lo. Ajuda-nos.
Que havia Hau-Ngai de responder-lhes? Ele nem o arco tinha consigo... Resignou-se a voltar a casa para buscá-lo.

Entretanto, a mulher de Hau-Ngai, intrigada com o comportamento do marido, deitava-se sozinha com a sua insónia. Da cama, lançando os olhos ao tecto, reparou num esplendor que vinha da trave mais alta. Levantou-se.
Um delicioso perfume dimanava da caixa escondida. Na tampa, os seguintes dizeres: «Remédio para fadas». Seong-Ngó, assim se chamava a mulher do archeiro, não hesitou. Abriu a caixa e engoliu a pílula lá guardada.
Deu um grito:
- O chão está a fugir-me. Acudam-me!
Levitava. A pílula tinha-a arrancado à lei da gravidade. Sentiu-se mais leve do que uma pena. Seong-Ngó perdeu o medo e pôs-se a dançar, como se nadasse no ar, esquecida do corpo, dos pés, de tudo... Era bom.
Nisto, ouviu chamar pelo seu nome. Reconheceu a voz do marido e, temendo-o, fugiu pela janela como uma mosca amedrontada.
Mas Hau-Ngai ainda conseguiu vê-la. Olhou para a trave e percebeu.
Lançou um dos seus brados assustadores. Com o impulso da raiva ele próprio voou em perseguição da mulher.
Ou porque ela fosse mais leve ou porque o vento contrariasse as braçadas desesperadas do archeiro, o certo é que Seong-Ngó foi ganhando distância. Era inalcançável.
Do alto de um sicómoro Hau-Ngai amaldiçoou-a:
- Renego-te, mulher sem vergonha. Nunca mais poisarás os pés na Terra. Que um ciclone te sopre para o fim do mundo, bruxa dos pântanos.
Muito assustada, Seong-Ngó voou, voou, até se perder no céu.
Escurecia. Cada vez mais longe da Terra e perto da Lua, Seong-Ngó rumou em direcção ao astro da noite.
É onde ela vive. Mas, castigada por se ter apoderado abusivamente da Pílula da Imortalidade, viu-se transformada em rã de três pernas. Na carapaça viscosa, imune às flechas que nela resvalam sem a ferirem, a rã exótica tem gravado um número. Oito. Que quer dizer?
Não é segredo, por isso contamos. Ora tomem atenção que vale a pena.

O exasperado marido de Seong-Ngó não encontrava na terra nenhum lugar do tamanho da sua cólera. Onde viver o mais longe possível da Lua, morada eterna da esposa? Só no Sol, no único sol que ele poupara às suas setas.
Aí construiu um palácio. Aí se refugiou a uma imensa distância de tudo e de todos. Mas sabe-se que, de longe em longe, apesar do agastamento invencível a que a mulher o condu-ziu, sente saudades dela e de outros tempos felizes. E ela dele...
Irresistivelmente os dois astros, na sua constante rota anual, atraem-se um ao outro. Apro-ximam-se. Na décima quinta noite da oitava lua do ano estão mais perto; tão perto que o impulso do amor apaga conflitos, vence distâncias.
A rã da Lua recupera o corpo esbelto, radioso, de Seong-Ngó e o archeiro Hau-Ngai, o castelão do Sol, esquece velhas afrontas...
É a noite mais brilhante do ano, dizem em Macau. Não admira.


António Torrado