16/09/2008

Linha Quebrada

Decidiu-se combater, na ilha da Purificação, o vício do alcoolismo. A ver­dade é que o álcool, sob as suas várias formas, desde o carrascão básico até às superaguardentes, corroía miseravelmente toda a raça. Como é óbvio, porém, para um ataque eficaz de uma mazela assim ancestral, de uma assim obsti­nada borrachice avoenga, só o calor de um ideal e, sendo possível, mas mais tarde, o calor de um cacete. Naturalmente, portanto, começou-se pelo Ideal.

Mas como o Ideal, noutras tentativas de que falava a História, se reduzira sempre a cuspo e palanfrório, decidiu-se calar-lhe a boca e metê-lo à forma de um rigor prático. Eram ao tempo uns dez iniciados, ardentes de regeneração, submissos à chefia do Casimiro. E após várias reuniões para se resolver qual a linha a seguir, Casimiro encerrou as discussões com uma palavra de ordem:

- O que uma visão prática elementar neste momento aconselha é desenca­dearmos uma ofensiva teórica.

Eram dez, valiam por dez mil. Em menos de oito dias, arrasaram os nervos dos três milhões de habitantes. E em menos de oito meses eram uma força temerosa. Como se declaravam «restauradores da saúde», chamavam-lhe os saudáveis; e como proclamavam a excelência da água, também lhes chama­vam os aguadeiros. Mas em breve a chalaça amochou diante deles, porque algum tempo depois o ministro da Polícia era um «restaurador» e uns meses a seguir «restaurava-se» o Governo todo. Naturalmente, logo que se empalmou o poder, uma fúria vinicida assolou a Ilha inteira. Arrancaram-se as vinhas, escacaram-se os tonéis e atulharam-se as cadeias com os borrachos renitentes e subsersivos. Alarmados com a política ferozmente aquática do Governo, velhos bêbedos de carraspana diária, cozidos de aguardente, subtraíam à devassa dos beleguins algumas pipas de vício e vinham para a rua berrar por água, queriam água ali, andavam pelas fontes a beber com alarde; bêbedos moderados, de piteira hebdomadária, exigiam a criação de postos de água exemplares nos sítios das antigas tabernas, reclamavam se prescrevesse uma litrada diurética pela manhã para maiores de 15 anos, o duche frio e até mesmo, incrivelmente, a prática regular do clister; finalmente, os fanáticos desvairavam de excessos, pregando a doutrina, gargarejando ou bochechando em público, utilizando slogans a cada instante como in aqua ventas, in vino mendactum, ou até mesmo nos cumprimentos, nas felicitações ou nos pêsa­mes, sendo de uso também abrirem ou fecharem uma conferência com a frase breve e simbólica de água vai. Houve mesmo um doido que chegou a organi­zar, como em Legenda Dourada, uma biografia dos que ele declarava os «pre­cursores» do movimento e que vinham a ser os que tinham morrido afogados ou morrido de hidropisia. Do alto, naturalmente, o Governo protegia e fomentava o entusiasmo; e para lhe dar, de resto, um apoio oficial, celebrava mensalmente a grande festa da Agua. Nesse dia, era um delírio. Bebia-se água com alarido, acreditava-se na existência de Deus se chovesse, havia tipos que ficavam de molho numa tina o dia inteiro para se purificarem, e um ou outro (sem o conhecimento oficial, aliás, das autoridades) chegava mesmo a amar­rar pés e mãos e atirar-se aos poços, entrando assim, sem medo de arrepender-se, na glória da Legenda. Era então que se organizava, entre outras manifes­tações, um banquete solene, a meio da Praça, com o Chefe do Governo, ministros e apaniguados. Antes, porém, do banquete, e em homenagem à pureza dos costumes, procedia-se à tão falada cerimónia do lava-pés geral (dos comensais e criadagem), tomando ainda Casimiro, como chefe exemplar, um banho breve e puramente simbólico de semicúpio.

Durante largo tempo, os costumes mantiveram-se ferreamente ortodoxos. Aqueles que se queriam distinguir, proclamar com destaque a sua virtude, tinham então uma vida difícil, porque desde a Cabeça do Poder até aos mem­bros secundários, até mesmo às partes viscerais mais ordinárias desse Poder (como a Polícia Secreta), uma água límpida lavava o pais da corrupção. Aconteceu porém um dia que a Cabeça se constipou. Com efeito, S. Ex.a o Chefe Casimiro, após, aliás, um duche frio, e segundo o testemunho da sua guarda pessoal, deu três espirros seguidos. Foi um alarme em toda a Ilha e os três milhões de habitantes sofreram em público. Felizmente os espirros de S. Ex.a não tiveram seguimento. Eram três espirros, realmente, três espirros con­cretos, mas as partes de S. Ex.a postas em causa por eles, portaram-se bem. No entanto, e de acordo com o parecer do Governo, Casimiro, nesse mês, não tomou o semicúpio. Mas no mês seguinte tomou. E quando o Sistema fez um ano, foi mesmo lavado em público todo o corpo de S. Ex.a, que era branco e rosado, segundo a opinião devota das senhoras correligionárias.

Ora um dia, aliás por distracção dos Serviços Informativos, foi dado o agrément a um representante diplomático de uma «grande potência». A eco­nomia da Ilha era difícil, porque se o álcool estoirava os fígados individuais, a verdade é que sem ele estoirava o bem-estar colectivo: os vinhos da Ilha tinham fama em todo o mundo. Justamente a «grande potência» era um dos principais importadores. Homens sensatos, aliás de espírito perfeitamente hidrófilo, chegaram a propor que se mantivessem algumas vinhas para álcool de exportação. Apanharam todos eles cinco anos de reeducação numa zona insalubre, a mais própria, naturalmente, para reeducar, e que era no centro da Ilha. Aconteceu porém que o diplomata da potência, segundo já tarde se soube, gostava de molhar a palavra ou mesmo só o sítio dela, quando a não havia. E correu mesmo o boato, depois infelizmente confirmado, de que uma das suas missões era justamente a de restaurar a vinha para a sede da potên­cia, e de que entre a sua bagagem vinham setenta e duas garrafas clandestinas do veneno. Um frenesim pavoroso abalou todo o corpo governativo. Cinco sessões plenárias não decidiram a questão. Até que Casimiro, com a sua pala­vra vertical, carimbou o problema:

- Concretamente, há que não perturbar as nossas relações diplomáticas. O representante da potência ama o álcool. Admite-se aliás que o toma com alguma repulsa e por indicação médica. Seria gentil da nossa parte que durante a recepção lhe oferecêssemos um cálice.

Um cálice? Mas onde o cálice, uma gota, uma memória viva da droga? Foi então que um membro dos mais activos do regime foi a casa e trouxe uma garrafa. Casimiro olhou-o com olho baixo e franzido. Mas o membro explicou: para reactivar o seu ódio, e segundo receita colhida em certo livro, con­servara a garrafa, expunha-a todos os dias diante da família e atirava-lhe insultos primeiro ele, depois a mulher, depois os filhos a começar no mais velho. Casimiro achou graça e deu-lhe palmadas nos ombros. Deu-se todavia o caso que o enviado da potência, posto em xeque na recepção, por ninguém mais beber, se recusou também a beber. Foi um incidente diplomático de que o próprio Casimiro se havia de penitenciar duramente. Por sorte, teve no pró­prio instante uma decisão de emergência. E mandou vir cálices e todo o corpo da recepção bebeu uma gota simbólica, excepto dois membros que beberam o cálice inteiro. Houve uma alegria enorme em toda a governação, porque era evidente que assim se desanuviava a situação internacional e que, pela conces­são de uma gota, se podia difundir pelos povos da Terra precisamente o ideal aguadeiro.

Pareceu, porém, a alguns membros ofensivo que em outras recepções a novos representantes o álcool não estivesse presente, ainda que sob a forma aleatória de uma qualquer água-pé. Tornava-se aliás ridículo ostentar com intransigência uns princípios já bem enraizados no espírito da Ilha. Recusar um cálice, em obediência a «princípios», era afirmar que eles não eram sóli­dos. Um restaurador que se prezasse deveria suportar perfeitamente o prazer da bebida sem se lhe sentir escravizado. Persistir na rigidez do radicalismo apostólico era provar escandalosamente que o espírito de toda a Ilha se não libertara ainda da borrachice. E foi assim que em todas as recepções diplomá­ticas começaram a aparecer duas ou três garrafas discretas, e de bebidas bran­cas, para desse modo manterem a lembrança da água. Naturalmente, com vista às exigências destas circunstâncias excepcionais, plantaram-se novas vinhas mas apenas, disciplinarmente, nos terrenos do Estado.

E eis que, porém, nesta aparente infracção do espírito revolucionário, os fanáticos do regime começaram a refilar. Uma extrema esquerda, de princípios enxutos, disseminava panfletos acusando o Governo de trair a revolução. E o Governo, de começo, tentou reconduzir esses exaltados aos varais da sensatez. Mas para os colocar no mocho de criminosos, pespegou a cada um com um rótulo difamante: eles eram os aguadilhistas. «Aguadilhistas» era naturalmente um rotulo inofensivo. Mas porque era um rótulo e os afastava assim do Grémio legal, tinha a força de qualquer palavra mágica, capaz de aglomerar o odioso que se quisesse. Um aguadilhista era um espírito estreito, chilro de ascetismo, com um sangue dessorado, só com glóbulos brancos. «Agualhidismo», porém, era um rótulo um tanto vago. Servia, naturalmente, para um ataque genérico. Mas havia as gradações e o Poder Constituído não podia esquecê-las. A ala esquerda do Partido incluía os aguadilhistas propriamente ditos, de pelangas flácidas, os aguadilheiros, que eram os mais aguerridos, e os aguadilhões, tipos vivaços que aparentavam uma certa tolerância com a gota diplomática, mas que no fundo davam a clara suspeita de quererem empalmar o Poder.

Dado, porém, que se fez uma certa concessão ao apetite vinícola, as direi­tas do Partido começaram a agitar-se. Não tinham elas enfim razão? O país já superara absolutamente a crise da borrachice, podia agora beber o seu copo dentro da conta e medida. Com que olhos os povos estrangeiros olhariam a Ilha? Havia aliás os casos clínicos que exigiam um cálice de generoso, com ou sem gemada, havia as constipações que só cediam a um ataque de aguardente, havia os casos especiais como o de um ou outro desesperado que sustava a tentação do suicídio com dois ou três cálices de cachaça. Naturalmente, a doutrina do Governo foi clara: a Ilha não estava ainda em condições de tole­rar a excepção de um caso particular. E para travar desmandos, carimbou os das direitas de chora-vinho. Como ter, no meio disto, opinião? O carimbo vinha aí como ferro em brasa. Assistiu-se então à sarabanda dos que queriam a todo o custo ser «fiéis» ao Governo. Tanto mais que, em certa recepção, um jornal estrangeiro publicara um retrato de Casimiro empunhando um copo de briol. O Governo bebia ou não bebia? Defender a água, que era naturalmente a política do Governo, podia dar a suspeita de que se atacava o Governo, ser portanto «infiel». Defender o vinho era trair a revolução. Defender a água-pé era obedecer a tendências para a esquerda ou para a direita, ser portanto um inimigo declarado do regime. Não defender nada era colaborar com a subver­são. Defender tudo era ser inimigo da Ordem ou ser pelo menos tarado.

Até que, providencialmente, Casimiro expôs a doutrina ao Governo. Limpo o sarro da nação, podia agora avançar-se de alma escarolada. Era evi­dente que se tinham cometido excessos. Era evidente que o justo zelo dos res­tauradores tinha ido longe de mais. Não estava provado, por exemplo, que fosse inteiramente benéfico tomar um clister diário. Mas o excesso era o preço normal de toda a grande empresa humana. Agora que o vício se extir­para, o Governo ia rever a sua política para os casos excepcionais, desde as festividades que exigiam alegria - a alegria humana, a alegria saudável - e que um cálice incentivava, até à constipação renitente ou aos falhos de apetite. Paralelamente, o Governo decidira replantar algumas vinhas para equilibrar a balança com exportações, acrescendo que essa medida activaria as relações com os outros povos, «que são povos amigos, a despeito das leis iníquas que lhes impõem o álcool para simples defesa dos interesses dos vinhateiros».

A linha imposta por Casimiro teve logo efeitos benéficos. Prenderam-se os aguadilhistas e reabilitou-se a memória dos homens «sensatos» que tinham morrido no desterro. Quanto aos chora-vinho, que eram das direitas, prende­ram-se também, evidentemente, visto que estavam vivos e tinham sido da oposição. E aclarada assim a doutrina do Governo, toda a Ilha cerrou fileiras em torno do seu chefe. Não era agora, pois, raro encontrar-se um noctívago berrando por Casimiro, atirando-lhe vivas a horas mortas, aos bordos pelas ruas desertas, sob o olhar compreensivo da Polícia. As sessões de propaganda da política aquática multiplícavam-se pelas cidades e aldeias; e para a clara demonstração de que o espírito da Ilha se libertara inteiramente do seu atá­vico vício, as sessões acabavam sempre em grande festa, com vivório, foguetório e carraspana geral. Foi uma era de paz. Casimiro sabia-o bem quando ao décimo aniversário da revolução promoveu festas em grande para os três milhões de habitantes. Fez-se o banquete na praça, houve a cerimónia da purificação, já, é certo, sem banho de semicúpio ou lava-pés, evidentemente grosseiro, mas com uma simples purificação dos dedos em breves taças de cristal, executada à uma por todos os comensais a um gesto de Casimiro. Ficaram celebres essas festas nos anais da Ilha. Casimiro, de olho torvo, com uma taça de champanhe na mão, equilibrando-se com dificuldade, bramiu contra os adversários do regime, afirmou que o combate à borrachice alastraria pelo mundo e que a Ilha se orgulhava de ter encabeçado esse combate. Os mais renitentes escravos do vício tinham enfim reconhecido lealmente quanto uma política estruturalmente aguada beneficiava e assegurava o futuro da raça. Estavam ali reunidos para festejar o triunfo definitivo da ideia nova. Ele bebia e pedia a todos que bebessem pela glória da Ilha, pela saúde do povo, esse povo admirável que tanto se sacrificara e tão bem compreendera um ideal ao serviço do mais alto destino da Humanidade.

E todos, à uma, beberam.

No dia seguinte, ninguém na Ilha trabalhou. Pelas ruas e praças, pelos becos, estendidos nos passeios, estendidos pelos jardins, velhos e novos, civis e homens fardados com o dólmen desabotoado, pessoal dos transportes, gente do comércio, funcionários do Estado e vadios, tudo dormia entre cacos de vidro, estoirados da refrega. A pedido dos estudantes, houve mesmo «perdão de exame» nesse ano - excepto (como os próprios rapazes reconheceram justo e aplaudiram) do exame na cadeira «Fundamentos da Hidrofilia» que fazia parte do Programa de Estudos, desde a Escola Primária até à Universidade.

O aguadilhismo, naturalmente, não desarmava. E mesmo da região insalu­bre ia atirando panfletos que todavia se afirmava serem ao menos em parte forjados pela polícia para prender os suspeitos que os lessem ou divulgassem. A verdade, porém, é que o esforço aguadilhista era vão: o povo abraçara a causa do Governo, como aliás o Governo proclamava. No entanto, a todo o momento se esperava uma revolta que se supunha rebentar num qualquer ani­versário da Revolução. Não se chegou porém a confirmar tal boato. Porque Casimiro, como outros adeptos mais chegados, morreu afinal no seu posto, com a sua cirrose figadal.

Vergílio Ferreira, Contos