17/09/2008

À Lareira

A António de Albuquerque

Louvado seja Deus, aquela casa da Tia Maria Lorna era das mais remediadas lá da aldeia, e até das mais alegres. Tinha por fora uma varanda de pedra para onde se subia por degraus também de pedra; em baixo as lojas, onde os laregos e uma burra se arrumavam; a tulha; uma despensa; e ao lado, arrumada a ela, a grande curralada dos bois, enorme, atulhada de feno e de palha nas sobrelojas, com uma quadra muito espaçosa para as ovelhas, quando as ovelhas não pernoitavam pelas terras, farta manjedoura pràs vacas, e a um recanto, no chão, a cama onde ficava o moço. Na varanda, estava sempre o Caramujo, um demónio de cão pequeno muito assanhado, ruivo de cor, que levava os dias a ladrar muito enraivado, porque não havia ninguém que por aí passasse que não tivesse que contender com o Caramujo.
– Eh, mal-encarado! Eh, inimigo!
Lá por dentro, a casa da Tia Maria Lorna podia-se ver. Tudo arrumado, as coisas todas no seu lugar. A Comadre Aniceta chamava-lhe até «um oratório» e não se fartava de mirar tudo, de reparar com reverência naquele arranjo de todas as coisas, e se ia à despensa até se benzia:
– Nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo! Ora não há! Assim, até parece que faz gosto a gente viver, só pra se regalar de ver este asseio!
– Do meu corpo me sai, comadre! Do meu
corpo me sai! – dizia-lhe muito enlevada a velhota.
– Bem se lembra como a gente principiou: – pobrezinhos...
A Sr.ª Aniceta começava a limpar os olhos com o mandil.
– Para o meu José mercar aos irmãos as duas sortes que tinham nesta casa – continuava a Tia
Maria –, sabe Deus, sabe Deus! Trabalhou muito, chorámos ambos muita lágrima, prô ganhar...
Lacrimejava, a Sr.ª Aniceta.
– E depois compô-la, arranjá-la?
A comadre fazia que sim com a cabeça, de um modo que bem se via ponderar as dificuldades, as terríveis dificuldades da empresa...
– Começaram a vir os filhos... – Ó Ana, Ana! – chamava ela lá para cima – traz cá depressa o gato, que parece que vi um leirão no meio das talhas.
Confessava a Sr.ª Comadre que os ratos eram uns inimigos: –«só o que eles roubavam à nossa boca...»
– E depois feios?! – dizia a Sr.ª Aniceta cheia de nojo, tirando a tampa à sua caixinha redonda de lata, onde trazia muito moídas as pontas das cigarrilhas do seu José. – Uma pitada, minha comadrinha, sempre alivia as memórias – dizia ela oferecendo a caixa.
Mas começaram a vir os filhos: primeiro a Teresa, depois o José, logo pelo S. João do outro ano o Francisquinho que nos morreu, depois a Ana, e já se v& que não havia remédio senão ir aumentando o buraquinho...
– Ora viva a linda flor! – cumprimentou a rir a Sr.ª Aniceta, festejando a filha da sua comadre, que chegava com o gato dependurado.
– Mete-o ali, anda – dizia-lhe a mãe. – Ai não... entre essas duas talhas... mais adiante...
– Ó minha mãe! – replicou-lhe zangada a rapariga. – Vossemecê é melhor agarrar o leirão, e metê-lo aqui na boca do gato.
Ria a Sr.ª Aniceta enquanto a Ana desandava outra vez para o seu serviço, não olhando sequer para nenhuma delas. Embirrava com a Aniceta; – foi dizer à irmã que estava lá em baixo e enzoneira.
– Pois já se não vai sem levar maquia! – acudia logo a Teresa.
E para empontar a criatura pôs-se logo a chamar pela mãe:
– Ó minha mãe, minha mãe! Olhe que se vão fazendo horas de mandar o jantar ao pai.
– Vou-me lá, vou-me lá, minha comadrinha!
Demais a mais, trazemos obreiros, e inda não é tanto pelo meu José; mas o rapaz, se ouve tocar ao meio-dia, e não vê lá a cesta do jantar, à noite ninguém o atura!
– Pois vá, vá! – fazia logo a outra, despedindo-se. E respondendo à conversa em que estavam, ainda rogou outra praga aos invejosos.
– Pois olhe que os tivemos, comadrinha! Essa curralada aí fora, olhe que nos está num ror de dinheiro – concluiu, rodando a chave da despensa, a boa da Tia Maria Lorna.
Escondeu a Sr.ª Aniceta, debaixo do mandil, o pedaço do unto que já levava, embrulhado numa folha de couve, e lá se foi rogando bênçãos:
– Nosso Senhor lho aumente, minha comadrinha, mais aos seus filhos e ao seu homem!
– Adeus, comadre, adeus! – E ainda por cima desculpava-se: – É pouco, mas de boa mente.
Quando subiu, não olhou para as filhas, que também não olharam para ela. Tinham visto da janela sair com as mãos debaixo do avental a «comadrinha». Mas daí por um instante, quando o argadilho já rangia porque a Tia Maria se sentara a dobar, a Teresa, como mais velha das filhas, foi metendo logo o seu remoque:
– Assim vale a pena! São duas avenças! O homem faz a barba e ganha a sua, que não é ela tão pequena...
– Três alqueires medidos por mim –
confirmou a Ana – e que por sinal foram rasoirados da última vez...
– Demais a mais! – tornou logo a outra. – A «comadrinha» (e metia no diminutivo um acento irónico), essa porque será a avença?
Houve um silêncio; e porque a mãe não respondia, vinha logo a outra:
– Nosso Senhor me perdoe, mas o meu gosto, há bocado, era atirar-lhe com o gato mesmo à cara!
Só ela vale por seis leirões!
Exageravam. A Tia Maria Lorna bem sabia o que fazia, e o que dava bem sabia porque o dava. As filhas, se eram poupadas, com a mãe tinham aprendido. Deixou-as falar. Só quando se lhe acabou a meada, e se levantou para ir arrecadar o novelo, disse às filhas:
– Pois sim, sim! Mas eu sempre quero ver em me eu morrendo com quem se vossemecês encontram pra uma doença...
Era a velha resposta. As duas riram-se.
– Olhe, minha mãe, mal por mal antes com o homem, antes com o Ti José Bernardo. Esse ao menos, quando foi a doença do Francisquinho...
– Diz, diz, vai dizendo! – pediu agora a mãe.
E como as duas se calassem, comprometidas com a objecção, concluiu ela:
– Quando foi da doença do Francisquinho, levou ai três noites sem dormir, só para ajudar a morrer o anjinho; e quando morreu – vi-o chorar!
Quem sabe lá se outros se riram!
Calaram-se. Com a cesta à cabeça, abalou a Teresa a levar o jantar ao pai mais ao irmão, e ao voltar veio com este recado:
– Diz o pai que faça favor de mandar dizer ao Ti José Bernardo que se não esqueça de vir cá à noite.
– Ele, teu pai, está doente?! – perguntou assustada a Maria Lorna, porque o José Bernardo era o cirurgião do lavrador.
– Não senhora. Diz que é por amor de lhe ser testemunha numa coima, porque foi ele, píos modos, que enxotou uns porcos do nabal, não sei de quem eram.
– Uns porcos do nabal! – repetiu suspensa a Tia Maria.
Tinha sido o caso que, passando, pouco antes de chegar a Teresa com o jantar, um rapaz pela cortinha onde lavravam, dissera-lhe ele cá do caminho:
– Ó Sr. José! saberá que lhe andavam uns porcos no seu nabal, e lá lhos botou fora o Ti Zé Bernardo.
– Hã, rapaz! Tu que dizes?!
– Uns porcos no seu nabal.
– E de quem? – perguntou já zangado o José Lorna.
– Não sei – tornou-lhe o rapaz a gritar. – Eu ia a passar cá no caminho, e não sei.
– Sejam muito boas testemunhas! – vociferou o lavrador para os obreiros, atordoado com a má nova, como se se tratasse de um caso de morte.
– Mas testemunhas de quê, ó Sr. José? – perguntara um dos obreiros, que ia sendo uma vez preso por jurar verdade. – Testemunhas de quê?!
– Em como diz aquele rapaz que me andavam uns porcos no nabal!
– Ai, lá isso sim! – fizeram todos. – Isso ouvimos nós.
De modo que nem quase jantou, o José Lorna, como a Teresa disse à mãe, e estava todo enfrenesiado – jurando também o filho, o António...
– Ele que jurou, esse inimigo?! – perguntou a mãe muito assustada, pondo a mão na testa para se
benzer.
– ... que ainda havia de partir as pernas aos porcos, mais a quem os deixa andar a comer o que é dos outros, e ir dali para a cadeia, com umas algemas!
– Credo! Santo nome da Virgem! Nunca a gente há-de estar sossegada! – gritou a Tia Maria Lorna, andando e desandando no meio da casa, desvairada de ouvir a ameaça.
E chegando à janela chamou a comadre que morava defronte:
– Ele está lá, o seu homem, ó comadre?
– Não está, minha comadrinha, foi ver o morgado a Vila de Aia, que dizem que está com umas sezões e que deu uma queda da égua preta.
– Da égua preta?! Isso o morgado? Olha o pobre! Mas ele há-de vir hoje, e então faça o favor de lhe dizer que se não deite sem cá vir.
– Ai, não deita! Eu digo-lhe.
– Então faça favor. Até logo. Ora o pobre do morgado!...
E voltando a pegar na conversa:
– Mas, ó comadre, sabe se andavam alguns porcos no nosso nabal?
– Alguns porcos?! Não sei... – fez a outra muito estranha.
– E que diz que foi hoje; e que foi até o compadre José Bernardo que os botou fora, porque ia a passar não sei pra onde.
– Olhe! então havia de ser para a Vila de Ala!
Pois não sei! Mas eu à noite mando-o lá a casa tão depressa chegue.
– Pois sim, pois sim. Ouve? E a comadre venha com ele, e pode vir também o afilhado. Ouve? Traga a meia, porque faz cá o serão.
– Pois sim, minha comadrinha. Tanto iremos que enfadaremos.
E até já as raparigas ficaram mortas que chegasse a noite, para saberem do Ti José Bernardo como fora o trambolhão do morgado.
«Havia de ser preciso mandar o paquete a Vila de Ala, disse logo a velha; um dia não são dias, e as ovelhas podiam ficar na cortinha.» – É obrigação mandar saber do pobre rapaz.
– Sim, minha mãe – concordou logo a Ana. – O Sr. Morgado também mandou saber de mim quando estive doente.
Sorriu-se a Teresa, que andava, como de costume, na jurisdição da casa; e a Ana, que fazia ao pé da janela uma camisa para o irmão, picou-se na agulha sem querer. A Tia Maria Lorna, essa, acrescentou com muito carinho:
– Há-de-se-lhe mandar dizer que já prometi uma novena a Nossa Senhora, se melhorasse. E a Teresa, a sorrir, mirando a irmã cabisbaixa:
– E eu outra...
Pouco depois do anoitecer, por conseguinte quando já tinham tocado às Trindades, e a Tia Maria Lorna fora em pessoa contar e recolher as galinhas, seu desvelo muito particular, ouviu-se da rua a voz do filho do Lorna, do António, dizendo para a irmã que estava ao lume, a ajudar a Teresa a acabar a ceia:
– Ó Ana! Ana! Traz cá baixo a lanterna.
– Lá vai! lá vai! – acudiu a mãe. – Ana, avia-te, leva luz a teu irmão, e teu pai que venha pra cima. – Teresa, atiça bem esse lume, e chega as brasas cá pra fora.
Mas o velho Lorna vinha já então a entrar a porta:
– Boas noites! – disse ele com a sua voz de bordão. – Inda não veio o José Bernardo?
– Ora deixa-te agora de José Bernardo, deixas? Ele virá. Agora tira-me dos pés esses sapatos. – Olha como vêm esses sapatos! Toma lá os socos, homem de Deus – e chega-te ali prò pé do lume. Teresa, essas batatas já estão cozidas, aviar! – disse ela beliscando uma batata na panela de ferro. – Aviar!
– E o caldo? – perguntou o José Lorna, que passaria sem tudo menos sem caldo.
– Bem esverçadinho foi! – sossegou-o a Tia Maria. – Plas minhas mãos, e com a sua batatinha picada. Já a Teresa o esta a lançar. Teresa, avia-te! Esse caldo pra teu pai!
E para que não houvesse demoras, ela mesma foi à janela dizer aos de baixo que se aviassem também, a tempo que já a luz da lanterna, segura no ar pelo braço de Ana, alumiava na rua o grupo vivo, no meio das sombras que ondeavam: – as duas vacas; o António que as recolhia; e mais atrás, no meio das ovelhas silenciosas e dos cordeirinhos novos que as seguiam, aquele batoque do José Redondo, ainda embrulhado na manta.
– Olha o que vens de frio! – ralhou de cima a Tia Maria. –Depressa, António, que vai o caldo prà mesa. E só recolher as vacas, porque a manjedoura já está feita. – E para o José Redondo: – Olha tu lá, mandrião: as ovelhas ficam aí?!
– Ó minha mãe! – acudiu o António já agastado – mas o rapaz há-de primeiro aguardar que entrem as vacas! Vossemecê também, parece às vezes que não vê as coisas!
– Deixa-os! – avisou do lume o José Lorna. – Põe tu a mesa e deixa-os lá.
Baixou a tia Maria a mesa de escano, pôs-lhe em cima a toalha de linho, muito lavada, ao mesmo
tempo que a Ana, já de volta, tirava do secrinho e punha na mesa o pão centeio de sete arráteis.
Abancou o José Lorna, defronte da sua grande malga castelhana, e pôs-se a partir as fatias. Tinha já na mão a sua tigela, a Tia Maria; em frente do velho, sobre a mesa, fumegava a outra para o António; estava em cima do morilho a do José Redondo, com o respectivo carolo em cima; e junto do louceiro, muito desembaraçadas, as duas irmãs aviavam o resto: a Teresa debulhava as batatas, e a Ana repartia-as por três grandes pratos em que previamente fizera o molho.
Entretanto, chegava o António: logo atrás dele o José Redondo; e a ceia começava: o caldo desapareceu e a seguir ao caldo as batatas cozidas. Levantou-se o velho, e os outros também, e deram as graças:

Caminhamos e andamos,
Damos graças ao Senhor
Em seu bendito louvor.
Assim como nos deu pra agora,
Nos dê pra sempre a toda a hora
Que o quisermos comer.

E benzeram-se todos:
– Em nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo.
Os três filhos, mais o paquete, pediram a bênção aos velhos:
– «Deus os abençoe, Deus os abençoe» – e o serão principiou, ao menos prà Tia Maria Lorna, que enfiou a roca e se pôs a fiar.
Levantou a mesa a Ana; meteu a louça na caldeira que estava ao lume; e a Teresa, pegando-lhe pela asa e levando-a, pôs-se logo a lavar a louça, para fazer na água a vianda para os leitões, que já na loja, por baixo da cozinha, grunhiam como desesperados.
– Lá vai! já lá vai! – gritava-lhes de cima a Tia Maria.
– – É que os animais têm fome! –insinuou o José Lorna.
Como não pastam no que é dos mais...
– Então passaste plo nabal? – quis saber agora a Sr.ª Maria.
– Lá passei plo nabal! Por onde atravessaram, parece mesmo que foi uma foice! Aquilo não eram
dentes: era o diabo! Mas estou morto que venha o compadre; e se os porcos forem de quem eu penso, bem mas paga o José da Loja.
– Pois caros lhe ficam os porcos, ao homem!
– exclamou a Sr.ª Maria. – Só o compadre António Fagote já lhos encoimou umas poucas de vezes!
– Bem no merece, aquele judeu! Veio pra aí a pão pedir, e agora não fia a um pobre cinco réis. Lá
fez a sua casa nova, lá vai apanhando à roda aquilo que pode – hoje aumenta um palmo a uma parede, amanhã aumenta outro, e não há uma junta de paróquia, uma Câmara, um diabo, que ponha cobro à ladroeira!
– São todos assim! – confirmou baixo o António. – Daqui a pouco tiram-nos os olhos; depois levam-nos a camisa; e como vão medrando como os tortulhos, não há-de tardar que se não vejam aí senão judeus!
A um canto, o José Redondo tirava os ceifões. O velho interrogou-o:
– Houve alguma novidade, ó José?
– Não houve, meu amo. Estive até ao meio dia na cortinha de Milhares, e dali fui prò Marmoniz.
– E esses cordeiros medram?
– Não tem dúvida, meu amo, hoje fartaram-se bem. Vão uns rexelos de respeito!
– Pois então, voltas amanhã prò Marmoniz.
Levara a Teresa a vianda aos laregos; a Ana arrumara a cozinha; e já as duas vinham também para o lume a fazer serão: – uma a dobar meadas, e a outra, a mais nova, a fazer ao canhão as meias azuis.
Quando sentiram bater à porta...
– Há-de ser o compadre! – disse logo o José
Lorna. – Vai lá abrir, á Ana. Avia-te.
A rapariga foi à janela:
– Quem é?
– Minhas frieiras no teu pé! – respondeu da rua uma voz que não conheceu.
E como o António corresse à janela: – «Espera aí, á malandro! Espera aí, que eu te coço as frieiras!» – nem ele nem a irmã reconheceram o vulto que fugia, porque fazia escuro lá fora.
– E o caso é que já uma vez me vi comida plas frieiras, e inda hoje estou pra saber quem foi o almanicha que mas passou! – disse a velha muito fiadas a rir. – Isso o melhor, ó Ana, é escaldares os pés ao deitar da cama.
– Nada! – emendou de sorna o lavrador. – Pó-de-maio é que faz bem...
Mas não tardou muito que se não sentissem os passos pela escada acima, e logo, empurrando a porta, aquela voz do José Bernardo:
– Licença, Sr. Compadre?
– Entre! Homem! pensei que não vinha hoje!
Entraram. Adiante o José Bernardo, e a reboque do José Bernardo, com o xaile pela cabeça, a Sr.ª Aniceta de roca na mão.
– Licença pra dois, Srs. Compadres!
– Então o pequeno? – perguntou a Tia Maria Lorna.
– Ficou ali, já vem. André, avia-te! – chamou ela para a rua escura.
Foram os cumprimentos; entrou o André, que beijou a mão aos Srs. Padrinhos e às Sr.ª Madrinhas; e fechada a roda à volta do lume, ficando só à mesa o Tio José Lorna, e da outra banda, sentado também no escano, defronte dele, o seu compadre José Bernardo, rompeu a conversa, enquanto o José Redondo, que repartira o seu talho com o André, carregava de lenha seca o lume vivo.
– De quem eram os porcos, ó compadre? – desfechou logo o José Lorna.
– Não sei, futuro só – respondeu o barbeiro de velhaco.
– Homessa! – fez espantado o velho.
Ia a intervir a Sr.ª Aniceta, mas preveniu-a logo o José Bernardo de que mulheres – «com licença das comadrinhas» – não tinham que ver com aquelas coisas...
– Mas tenho eu! – impôs muito zangado o José Lorna.
– Tenho eu! De quem eram os porcos, ó compadre? O compadre, de quem eram os porcos?
O barbeiro ia propor com gestos uma conciliação...
– Já sei! Eram do patife do José da Loja! – aventou o lavrador.
– Eram, ó compadre? Diga lá se eram desse cão! – rogou agora o António Lorna.
– Já disse que não sabia, futuro só! – defendeu-se outra vez o barbeiro. – Amanhã é que hei-de saber, porque como ia de caminho pra Vila de Ala, e só agora é que cheguei, não tive tempo de botar inculcas.
O lavrador já bufava!
– Ó compadre! assim o Deus salve?! – intimou ele desconfiado. – De quem eram os porcos, ó compadre?
– E ele a dar-lhe! – formalizou-se todo o José Bernardo. – E ele a dar-lhe e a burra a fugir! O Sr.
Compadre, se não se quer acreditar em mim, o melhor é dizê-lo! Bem vê que nestas coisas não se
vai levantar um falso testemunho...
Admoestou a Tia Maria Lorna – «que o Sr. Compadre tinha razão».
– Qual razão, nem qual diabo! ele conheceu os porcos! – teimou na sua o José Lorna. – E na mesma toada de inda agora: – De quem eram os porcos, ó compadre?...
Ia já levantar-se o José Bernardo, para se ir embora, quando as três mulheres de casa, mais o António, intervieram todos nas mesmas pazes:
– Não senhor! Isso agora também é teima! – disseram todos para o José Lorna. – Deixa lá averiguar o compadre! – interveio a Tia Maria. – Amanhã já ele nos pode dizer de quem eram os
porcos.
E o José Lorna sempre na sua:
– Última vez, ó compadre! Não me diz de quem eram os porcos?!
– Pois se o meu pai não sabe! – acudiu agora lá do canto, quase a chorar, aquele rapazelho do André.
– Ora vês aí! – rematou a Tia Maria. – Da boca dos inocentes é que saem as verdades.
O José Lorna amainou então:
– Pois bem, compadre! Sempre estou pra ver se me não diz amanhã de quem eram os porcos!
– Hei-de fazer por isso – disse o barbeiro fisgando a mulher. – E agora deixe-me aqui! que nem eu sei como trago a cabeça!
– É verdade, o morgado...
– Pois é por via disso!
Ó compadre... – ia a dizer outra vez o José Lorna. Mas emendou: – Não! diga lá o que estava a dizer: o morgado...
– Que ficou como uma salada, o pobre rapaz!
– Ora! Ora! – exclamaram todos em coro.
– Se não é ter a sorte de cair prà esquerda, se cai prà direita em cima dum montão de pedras, matava-se! Pus-lhe umas bichas na maçadura. Mas que bichas! Primeiro que as malditas pegassem, roguei mais pragas que o diabo! Ainda lhe disse que quem tinha em casa bichas daquelas tinha obrigação de não dar quedas!
– Mas assim coisa séria? Costela partida ou coisa que o valha? – perguntou a Teresa com muito
interesse.
– Apalpei-o, hum! não me pareceu... – tranquilizou-as o barbeiro.
– E quem o trata? – quis também saber, mas arrependendo-se logo da pergunta, a Aninhas...
– Quem me trazia o vinagre e ensopava os parches era aquela Maria do Outeiro, que foi ama do padre Serafim, uma gorda...
– Olha que o José Redondo tem de ir amanhã a Vila de Ala – lembrou então a Tia Maria. – Mal
parece, devendo-lhe a gente tantos favores, que nunca aqui passa que não entre, não mandarmos saber dele.
– Pois sim – concordou o velho. E para o rapaz: – Abalas de manhãzinha, e que vais do nosso mando a saber se está melhor o Sr. Morgado, e se precisa de nós pra alguma coisa.
Bateram à porta. Desta vez foi o António à janela, e ouviu o que lhe diziam da rua. Depois respondeu:
– Não. Só temos uma. Havemos de comprar outra na feira. Teu pai que desculpe. – Era o filho do António do Cabeço, a ver se emprestávamos uma engrideira – explicou ele ao pai.
– Mas então compadre, que há de novo? – perguntou, já conciliado, o velho José Lama.
– Não sei nada. Que está o céu escavado...
– «Céu escavado aos três dias é molhado» – comentou o velho.
E puseram-se os dois a falar do tempo, e da sua provável acção nos trabalhos agrícolas, enquanto o António, que os ouvia, arranjava para o André uma esparrela.
Já no grupo das mulheres, as velhas de uma banda, e da outra as raparigas, se estabelecera inteira concórdia, ao menos por essa noite. A Sr.ª Aniceta, que no fundo era dedicada à família dos Lornas, e especialmente à sua comadre, tivera de segredar ao ouvido da Teresa, a propósito do morgado, certa coisa que a fez rir... A Aninhas desconfiou; e deixando passar um bocado, espevitou a candeia do velador, a cuja luz contava e tornava a contar as malhas da meia que ia fazendo, e perguntou à irmã, muito em segredo:
– A comadre disse-te alguma coisa?...
A Teresa riu-se; mas a Aniceta, que percebera, piscou-lhe o olho para que se calasse:
– Sempre quero ver agora se me diz os segredos. Ouviu, minha comadrinha?
A Aninhas baixou a cabeça para a não verem corada, e pôs-se outra vez a contar as malhas...
– Credo, rapariga! – disse-lhe a mãe. – Bem digo eu! Toma lá a roca e dá-me cá a meia! Tu esta
noite não fazes senão contar as malhas...
– Coitadinha! – desculpou-a a Sr.ª Aniceta. – É que talvez lhe falte a vista! – insinuou a rir...
Todos riram. A Sr.ª Aniceta insistiu «que talvez fossem belidas» – e pôs-se-lhe de lá a fazer cruzes:
Por aqui passou Santa Luzia, Três novelos na mão trazia...
– Ó comadre!... – rogou a Aninhas envergonhada.
Mas a outra, a um aceno da Teresa, continuou:
Com um urdia, com outro tapava.
Com outro as belidas desfazia.
Agora foi a Tia Maria Lorna que concluiu:
Em louvor de Santa Luzia,
Padre Nosso, Ave Maria.
Deu um guincho o André, porque o José Redondo, no serobico, bico, bico, beliscou-lhe com força uma das mãos.
– Ó judeu! – repreendeu-o o José Bernardo. E como todos olhassem para o José Redondo, e o 97
José Redondo olhasse para todos, o barbeiro mostrou a cara do rapaz:
– Olhem aquilo! Pra levar a cesta dos pregos nas endoenças! Tem mesmo cara de quem é capaz de deixar um cão sem ceia! Bem se vê que és zorro.
Era zorro, com efeito, o José Redondo. Tinha sido exposto da Santa Casa, medrara na roda, e quando chegara aos sete anos fora entregue ao José Lorna pela justiça.
– É bem boa rês, é! – concordou o velho Lama, que afinal gostava do rapaz por ser obediente. – Vai-te à cama, rapaz! Vossemecês regalam-se de estar ao borralho, mas depois vem o dia, e põem-se pra aí a dormir atrás de uma parede, e cá está quem paga as diferenças...
Ia a levantar-se o José Redondo; mas como ficasse triste o André, a Sr.ª Aniceta pediu que deixasse estar o rapaz mais um bocado – «porque uma noite não eram noites».
– Demais a mais – reforçou o José Bernardo – é preciso ver qual de vocês dois encarreira melhor essa perlenda!
Os rapazes começaram a rir:
– Sou eu!
– Sou eu!
– Mas isso agora é o que nós vamos a ver! – desafiou-os o compadre barbeiro. – Vá lá tu a das
Meninas de Vale da Sancha!
E os dois, ao mesmo tempo, atiraram-se logo à perlenda:

As meninas de Vai’ da Sancha,
Engancha, engancha!
Têm meias amarelas,
Andarelas,
Que lhas deram os pastores,
Andadores,
Por lh’ mudar as cancelas
Andelas.

Foi uma risada.
– Disse melhor o André! – preferiram as mulheres.
– Disse melhor o José Redondo! – contestou o grupo dos homens.
– Outra! Outra! – meteu-os logo à bulha o José Bernardo.
– Agora aquela de Roma!
E os rapazes atiraram-se logo, aqui caio além me levanto, ambos muito desembaraçados, à perlenda que lhes pediam:

No meio de Roma está uma rua
No meio da rua está uma casa,
No meio da casa está uma banca,
No meio da banca uma gaiola,
Na gaiola está um ninho,
Dentro do ninho um passarinho!

– Upa! rapazes! Agora, agora! – desafiaram todos. – Agora é que são elas!
E os rapazes atacaram o resto:

Passarinho ao ninho,
Ninho à gaiola,
Gaiola à mesa,
Mesa à casa,
Casa à rua,
Rua a Roma!

Tiveram uma ovação; e até o Caramujo, que sonhava detrás do morilho, levantou a cara para os ouvir.
Desta vez não foi preciso pedir-lhes:
– Lá vai outra!
E largaram ao desafio:

Na ponte do Val d’Armeiro
Vint’ cinco cegos vão,
Cada cego leva um moço,
Cada moço leva um cão,
Cada cão leva um gato,
Cada gato o seu rato,
Cada rato sua espiga,
Cada espiga tem seu grão.

Ladrou o Caramujo, como se entendesse, e gostasse também da brincadeira; mas de repente
calaram-se, escutando...
– Parece que estão a bater... – disseram eles todos.
– Entre quem é! – disse o José Lorna.
Ouviu-se à porta uma voz de mulher, muito dorida:

Esmola ao m ‘nino do fol’,
Que quer falar e não pode!

Era um gaguinho. Talvez a Maria da Eufrásia, que tinha um pequeno preso da fala...
– Ana – disse a Tia Maria Lorna –, leva-lhe lá um chouricinho.
Todos se calaram, muito doridos diante daquela desgraça. Ouvia-se a criança vagir abafada pelo xaile da madrinha. Tirou da estaca um chouriço, a Ana, e depois de o beijarem todos – pela fisga, sem olhar, passou-o a quem estava de fora, que era com efeito a comadre da Eufrásia.
– Também, foi bem infeliz, coitada! – reataram as mulheres. – Morre-lhe o primeiro afogado, e este depois vem-lhe assim, que parece mesmo que é parvinho!
– Eu assim o tenho! – abonou o barbeiro com autoridade.
– Mas isto do pequeno faz-nos lembrar agora o que talvez não saibam...
– O quê? o quê? – perguntaram todos muito curiosos.
– A história do Ti João Beitão... – sondou, a ver se sabiam, o José Bernardo.
Não sabiam. «O pobre do homem ninguém já ouvia falar nele. Parecia mesmo que tinha morrido!
Apanhou a filha bem casada; e como era surdo como uma porta, pediu-lhe uma cama para se deitar, um caldo para comer, e não quis saber de mais nada! Estava na cama havia uns poucos de anos! Nem falava nem ouvia falar! E como o caldinho lhe ia às horas, e o mais, comia e virava-se prà parede, até que chegasse o outro quartel.» – Era a vida dele! – dizia o barbeiro.
– Mas ele então nem se levanta? – quiseram saber as mulheres.
– Qual levanta! Isso sim! – confirmou o José Bernardo.
– Está são como um pêro, é o que está; mas não perdeu inda a balda, aquele almanicha! Está sempre a rabujar: co a filha, co as netas, co a moça quando lhe leva o caldo, co ele mesmo se não tem com quem! Uma ladainha pegada.
– Mas a história? Mas então? – quiseram saber todos.
– Ora que ainda não sabem a história! – exclamou o José Bernardo. – Pois foi outro dia, quando foi do Senhor-aos-enfermos. A poder de muitos pedidos, de muitos gritos por uma coisa que lá têm que parece uma cometa, e que o genro lhe mandou vir do Porto, a filha lá o resolveu a confessar-se...
– Olha o João Beitão a confessar-se! – riram-se todos como se fosse um disparate.
– Aquilo foi uma cerimónia, bem entendido! – atenuou o barbeiro. – Plos modos ele não ouviu palavra, e roncava a tudo que sim. Mas quando foi depois o Nosso-Pai, que o pálio parou à porta e o Sr. Prior entrou com os mais para a comunhão, isso então é que foram elas!
– «Meu pai!» gritava-lhe a filha. O João Beitão – moita... Vinha a neta, que é lá da sua paixão: – «Meu avô!» – «Que é!» (O barbeiro dizia estas coisas imitando as vozes). – «O Sr. Padre Joaquim.» – «Há?» – «Está aqui o Sr. Padre Joaquim!» – «Pois deixa-o estar!» – disse-lhe muito alto o João Beitão, sem se virar.
Aqui, foi já uma risota; os dois rapazes tudo era estarem aos pulos em cima do talho; suspendera
o trabalho do canivete o António Lorna; as mulheres haviam parado de trabalhar; e quanto ao velho lavrador, já os olhos se lhe queriam encher de lágrimas –de contente.
O barbeiro continuou:
– Mas esperem lá que não acaba aqui! Disse-lhe então a rapariga: – «Mas traz-lhe o Nosso-Pai!»
E o João Beitão: – «Pois que o leve!» – concluiu já a rebentar de riso o José Bernardo, no meio dos mais que arrebentavam de riso. – «Pois que o leve!»
– Pois que o leve! – repetiam todos às gargalhadas. – Pois que o leve!
Cuidaram de morrer a rir, e com a sua roca fora do cós, a Tia Maria mais que os outros – benzendo-se e tornando-se a benzer com o cabo do fuso:
– Credo, homem! que isso até é pecado!
Abrenúncio! Santo Breve da Marca!
Mas nisto, ouviu-se tocar às Almas; puseram-se todos de pé, e começaram a rezar, de mãos postas, baixinho. Os rapazes inda fungaram a sua risada; mas a um olhar severo do José Lorna contiveram-se cheios de medo.
– Nosso Senhor as tenha em descanso! – rogou no fim o velho, benzendo-se.
– E a nós quando deste mundo formos! – responderam em coro os demais.
E benzeram-se, tornando-se todos a sentar. De uma pilheira na parede, a Tia Maria Lorna sacou então do seu rosário de contas de pau, com sua cruz de osso no fim, e passou-o ao velho para que «contasse» a coroa. Logo os dois turnos se estremaram: faziam os homens o «bordão», e respondiam, em toada mais fina, as vozes das mulheres, cada uma no seu serviço, e, com as mulheres, os dois rapazes.
– Padre Nosso, que estais no Céu, santificado...
– O pão nosso de cada dia nos dai hoje...
– Ave Maria, chei’ sois de graça, Senhor é convosco.
– Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós...
Até ao fim, à Gloria Patri, depois da qual se benzeram todos, para começarem, por meia hora, as outras rezas de todas as noites, mas essas, agora, dirigidas pela Tia Maria: – «A Senhora Santa, Luzia, pra que nos dê vista e claridade na alma e no corpo, Ave, Maria.» E por aí fora a todos os santos, cada qual segundo o seu valimento e intercessão: a S. Jerónimo e a Santa Bárbara virgem, advogados das trovoadas; a S. Brás, que nos livre das dores de garganta; a S. Sebastião, contra a fome, a peste e a guerra; contra o mal nos laregos a outro santo; a outro contra o mal das galinhas; a um terceiro que protege as vacas; a outro que livra do bicho as árvores do campo; e assim, até esconjurarem todos os males. Acodem depois as necessidades espirituais dos que morreram: pais, irmãos, parentes e algum amigo; os votos para que Deus nos dê felicidade e nos preserve de todo o mal na alma e no corpo; pela Santa Igreja e pelo Vigário de Cristo na terra; plos nossos inimigos, aos quais perdoamos pra que Deus nos perdoe; pelos hereges e infiéis, que o Senhor os converta à sua divina graça; plos que andam nas águas do mar, pra que Deus os traga a porto salvo; plos que andam em pecado mortal, pra que eles se convertam; plas almas que estão nas penas do Purgatório, pra que Deus as chame à eterna glória para que foram criadas; pela alminha mais necessitada que houver nas penas do Purgatório, que não tenha quem por ela peça, que Nosso Senhor a remedeie com a sua divina graça e ela peça ao Senhor por nós; pelo primeiro que de nós faltar, que Nosso Senhor nos ache em estado de graça e nos tome as contas com piedade, seja tudo plo amor de Deus; por aqueles que nos encomendam nas suas orações, pra que os encomendemos nas nossas; plos que andam em erro pra que o Senhor os ilumine co a sua divina graça; por todos os santos e santas da corte do Céu, pra que eles peçam e roguem ao Senhor por nós; enfim, plas obrigações e penitências mal cumpridas, e pra que à hora da nossa morte o Santíssimo Sacramento nos visite. Amen, Jesus.
Foi então a vez de perguntar o José Lorna ao seu compadre se tinha trazido as cartas.
– Não trarei eu a cartilha! – acudiu logo o barbeiro sacando do estojo, e de dentro do estojo o baralho das cartas. – Mas cá sem o «ripanço» ninguém me apanha fora de casa.
– Por mal dos meus pecados! – comentou do lado a Sr.ª Aniceta, dando um suspiro...
– Mulheres! – exclamou o José Bernardo, encolhendo os ombros. – Como se a gente, por essas freguesias, não precisasse matar o tempo!
Baixara a Teresa a mesa do escano, dependurara no escano a candeia de ferro, e já o barbeiro baralhava. Cuspiu nas mãos, depostas as cartas com força, e voltou-se para o José Lorna:
– Parta lá, Sr. Compadre!
– Bom há-de ser à de três, vamos a isso! Mas veja lá como dá! Isso agora, mestre, faça de conta
que me não está a fazer a barba...
– Olhe, a barba que lhe eu faço é isto! – e cortou-lhe logo a primeira mão. – Repare vossemecê que trunfo é paus. Depois, não venha cá teimar que se esqueceu!
Agora, enquanto os dois jogavam, com o António a fazer de mirone, pegara por banda das mulheres o bocadinho da má-língua.
– Mas se eu logo a avisei! – dizia a Sr.ª Aniceta. – Quem vai agora entregar o fumeiro à Teresa das Patas! Só aquela desmazeladona da Antónia, que foi sempre uma desmazeladona! – continuava a mulher do barbeiro, batendo com a mão em cima do joelho. – Foi bem feito, e foi bem feito! e eu hei-de sempre dizer que foi bem feito! – insistia ela com acinte.
Pediram informações as raparigas: – «Mas então, como é que tinha ela estragado aquilo tudo?»
– Boldreguices! – resumiu a Tia Aniceta. – Boldreguices! Tinha-se lá por muito sabichona, e, além dos temperos de toda a gente, aí se põe a botar na massa, daqui uns alhos pisados, mais uns oregos dali, dacolá umas porcarias! Aquela burra!
– Ó comadre, mas vossemecê ainda lá andou uns poucos de dias? – perguntou a Teresa. – Pois não andou?
– Ó menina, deixe-me aqui! – exclamou arrependida a Sr.ª Aniceta. – Bem teimei, bem me ralei! Mas aquela canastra: «que não senhora; que se havia de fazer o que ela mandasse; que o fumeiro era ela que o fazia; e porque torna, e porque deixa!» Alvorei! – Fica-te, co os diabos, mais quem te atura! – Agora, dizia-me outro dia lá na igreja aquela seresma da Amónia, que aquilo é mesmo uma seresma: – «Ai, Sr.ª Aniceta, bem me dizia vossemecê!» – e porque assim e porque assado; e porque eram coisas que só a ela aconteciam; e já não houve nome feio que lhe não chamasse, nem praga que lhe não rogasse! Ai, agora é que abres os olhos? – Pois regalei-me!
– E diz que inda lhe atirou tudo ao redor dumas quatro moedas! – informou a Tia Maria Lorna.
– Sim, sim, coitada! Mas antes isso que dá-lo à botica! – adoçou a Aninhas.
– Algum deu também à botica, minha comadrinha, algum deu também à botica! – aumentou a mulher do barbeiro. – Diz que o homem que lhe foi às costas; e mais ele que não era capaz! Mas nunca as mãos lhe doam! E tantos anjos o acompanhem ao reino da glória, como bofetadas lhe pregou naquela cara! Muito bem feito!
E assim por ai fora, porque neste ponto, já se vê, entrou a conversa a ramificar-se.
– Ora melhor fora que ensinásseis a doutrina aos rapazes –dissera ainda o José Lorna, de uma
vez que dava cartas. – Trunfo é copas.
– Bem vejo. Deve três – lembrou o barbeiro lambendo os dedos.
– Dois! – contestou o José Lorna.
– Três! – teimou mais alto o José Bernardo. –
Não comece vossemecê, Sr. José, porque quem joga não guarda cabras!
– Mas se lhe digo eu que são dois! – insistiu por sua banda o lavrador.
– Ó meu pai – interveio o António acalmando-o –, com perdão de vossemecê, mas o Tio José Bernardo tem razão...
– Vê? – argumentou o barbeiro.
– É que vossemecê não conta o capote – esclareceu o António Lorna.
– Não conta! – disse a rir o José Bernardo. – Ele conta lá o capote! Lá lhe parece que por estarmos no Inverno os capotes não se contam... Mas cá vão três bolinhas de centeio, que é pra não tornar a haver mais enganos.
– Pois seja lá o que você quiser! – fechou zangado o lavrador. – Tenho esta! – E sem dever jogar atirou prà mesa uma carta que lhe saiu o sete de trunfo.
– E eu esta! – fez com rópia, pegando-lhe no erro e pregando-lhe em cima com o ás, o José Bernardo.
– Não vale! Foi engano! Largue! pensei que era um seis! –protestava muito alto o lavrador.
– Larga o quê?! Está jogada! Então isto é bisca de rapazes?! – defendia-se o mestre barbeiro.
– Leve lá agora esse terno! Jogue-lhe!
Perdeu também esse jogo o lavrador; e enquanto não começava a desforra, disse ao filho que fosse à despensa por uma pinga. Deu um estalo com a língua o José Bernardo; e como o António, já de pichel na mão, oferecesse o bico da candeia ao gamão que a irmã acendera, o barbeiro alvitrou por graça:
– Ó Sr. António, se vossemecê não quer, deixe que eu vou à cuba...
Riram-se os rapazes.
– Que estão vocês a rir? – perguntou, fingindo-se zangado, o José Bernardo. – Ora sempre quero saber qual de vocês, ouviram? qual de vocês dois há-de encontrar este ano, pla Páscoa, um ninho de perdiz.
– Aonde? – perguntou o André.
– Aonde? – estranhou o José Bernardo. – Quem sabe lá! No domingo de Páscoa, inda de noite, o primeiro que for à torre e tocar o sino encontra um ninho de perdiz.
– Ora! – disseram os dois sem acreditar.
– Não é «ora», é isto mesmo! – confirmou o José Bernardo.
O José Lorna pôs-se a rir. Contou que no seu tempo, devia ter os seus doze anos, fora ele que 09
tocara o sino...
– E achou o ninho, ó Sr. José? – perguntou logo o filho do barbeiro.
– Já se vê que sim! O caso é procurá-lo...
Os rapazes não perceberam...
E, como chegasse o pichel do vinho, atrás do pichel as duas canecas, e começassem as libações, a conversa entrou a animar-se, porque também, num covilhete, deitaram as duas velhas a sua pinguinha – pondo-a ao lume a quebrar da friura...
– Com um bocadinho de mel, ó comadre! – dissera delambido o José Lorna. – Está o mundo perdido!...
O José Bernardo, que empinava a segunda caneca, espirrou sem querer uma fungadela.
– «Está o mundo perdido!» – repetiu ele a rir.
– Lembrou-me agora por isto o padre José da Saldonha, ó compadre, que principiava assim todos os sermões: – «Está o mundo perdido!» Mas apostar que vossemecês inda não sabem a melhor do padre José?
– A sova que deu nos ciganos? – perguntou o António Lorna.
– Qual! Aquela da Santa-Unção... outro dia...
Não sabiam. – «Ora que não sabiam!»
– Pois esta inda é melhor que a do João Beitão!
– Conte lá, ó compadre, conte lá! – rogaram ao mesmo tempo a Maria Lorna mais as filhas.
– Ora imaginem vossemecês – começou o barbeiro molhando a palavra –, imaginem vossemecês, que outro dia deu lá um acidente a uma rapariga, à filha do António Chimeco, uma que é picada das sardas. Perdeu os sentidos a moça, e zumba! cai-te redonda no meio do chão! O pai despede-te logo não sei quem, a chamar à Saldonha o padre José: – «que viesse depressa com a Santa-Unção, que tinha a filha a morrer-lhe.» Abalou o padre por aqueles caminhos, a cavalo numa burra, com a saquinha dos santos óleos diante dele – picaque- pica, pica-que-pica, por ali fora, debaixo dum nevão de rachar!
– Olha o pobre do velho! – fez compadecida a Maria Lorna.
– Mas espere! que ao chegar onde começam as hortas, quem há-de o padre José encontrar! a filha do Chimeco, já muito lampeira!
– Ó compadre! – interrompeu incrédulo o José Lorna – essa agora é de sua casa!
– Não é, Sr. Compadre! assim me Deus salve como não é! Encontra o padre a rapariga, e fica-se
muito espantado: – «Então para quem é a Unção?!» – pergunta-lhe ele muito estranho.
Começaram todos a rir.
– Esperem lá! mas esperem lá! – atalhou o José Bernardo.
– «Era pra mim, Sr. Padre José... – Foi uma coisa que me deu, mas agora já estou boa.»
– E o padre? e o padre? – perguntaram todos muito curiosos.
– Desceu-se da burra com’um raio, e sem a largar, nem largar a saquita vermelha, filou por um
braço a rapariga: – «Ah, grande desavergonhada! Pois já que cá vim, não te escapas sem os azeites. Rode lá já diante de mim!»
Ia indo a casa abaixo, coas gargalhadas!
E aos pulos no meio da cozinha, o José Bernardo declarou às mulheres «que a rapariga tinha apanhado os azeites, pois então!»
– «Cá te ficam prà outra vez!» disse-lhe no fim o padre José, quando abalou na burra prà Saldonha.
O André foi lá fora, mais o José Redondo, e as mulheres puseram-se a limpar os olhos com os aventais, de tanto que haviam rido.
– Cale-se lá, ó compadre, cale-se lá! – rogava já afrontada a Tia Maria Lorna, enquanto o velho, inda aos murros em cima da mesa, jurava que coisa assim nunca tinha ouvido: – Ai que até me escacho! ai que até me escacho!
– Ó compadre, vá lá mais uma pinga! – disse o lavrador empinando-lhe na caneca o resto do pichel, até entornar por cima da mesa. – Quer você uma azeitona? Inda se bebe outro pichel! Vai lá por outro pichel, ó António! – Ai, que diabo de história! Ai, que diabo de história! – repetia às casquinadas o lavrador. – «Pois já que cá vim...», ele como é, ó compadre? «Pois já que cá vim.., não te escapas sem os azeites!» Ora aquele demónio do padre José, que há-de ser sempre o mesmo homem! O demónio do padre José!
– Vam’ lá à desforra, ó Sr. Compadre! – disse outra vez o barbeiro, porque enfim, sempre gostava de fazer jus ao novo pichel.
– Pronto! – anuiu o lavrador, inda a rir, limpando com as costas das mãos os olhos molhados. – Esta agora – continuou ele sempre aos frouxos –, esta agora há-de ser à de nove. Ora o demónio do padre José! Aquilo é o demónio, que não é homem!
Já os rapazes haviam regressado, adiante do António a rir-se...
– Não se envergonham, estes mariolas! – dizia ele para os denunciar. – Nem que trouxessem ainda cueiros, já não digo calças rachadas!
Fizeram-lhes uma assuada as mulheres: – «se não tinham vergonha naquela cara?» – Mas eles,
para disfarçar, pediram às mulheres que lhes contassem uma conta...
– Isso queriam vocês, seus marotos! – disse a fingir-se zangada a Tia Maria Lorna. – Não há cá histórias! – E lambicando o fio do linho, do segundo manelo já dessa noite, porque era muito desembaraçada a fiar, fechou pra lhes meter ferro:
– E mais, ainda ontem me lembrou uma que é bem bonita!
– Conte, ó minha madrinha, conte! – rogava o André com muito bons modos.
– Ó minha ama... – is a arriscar também o José Redondo.
– Não há cá histórias, já disse! – teimou a velha para os arreliar. – Não está hoje o forno para rosquilhas! E se vos não calais, olhai, olhai que vos mato! Andai lá!
E enquanto o José Lorna e o compadre prosseguiam na bisca, mas esta muito mais ralhada do que a anterior, a Tia Maria entrou a falar em coisas de casa a propósito das galinhas que trazia no choco, intervindo desta vez também o António, a quem o jogo fazia sono. Demais, diante do pai e da mãe, nem que soubesse o António pegaria nas cartas. Mas não sabia. No baralho só conhecia os valetes, de ter jogado com umas raparigas o mafarrico, numa noite de Natal, fazendo horas para a missa do galo.
Mas quando os rapazes menos o esperavam, em pausa que fez a conversa, a Tia Maria começou:
– «Era uma vez uma raposa e um lobo...»
Grande atenção por banda dos rapazes, que principiaram logo a esfregar as mãos! A Tia Maria
continuou, sem tirar os olhos da roca:
– «Foram-se uma noite a um galo, estava o pastor a dormir, e furtaram um carneiro.»
– Ó minha madrinha, mas os cães? – interrompeu o André muito interessado.
Ela fez que não ouviu; e sem despegar os olhos do manelo de estopa, e sem afrouxar no giro
o fuso vivo, continuou:
– «Furtaram um carneiro, e o lobo, por agradecido, disse logo para o repartirem. Mas como era mais manhosa, a raposa disse-lhe assim: – «Fica isso pra amanhã, ó compadre. Hoje tenho de ir a um baptizado, um raposinho que nasceu pra aí pra baixo, e então pode ficar isso pra amanhã.» – O lobo disse que sim: – «Pois sim, comadre, fica então isso pra amanhã.» – «Enterra-se o carneiro?» disse-lhe a raposa. O lobo respondeu que sim, e que se lhe deixava de fora a ponta do rabo, pra saberem onde o tinham enterrado.
«Assim fizeram, e o lobo e a raposa inda foram juntos o seu bocado, e depois separaram-se.»
– Oh! oh! – entraram a rir-se os dois rapazes, prevendo já judiaria grossa...
– Ó Ana, deita ai azeite nessa candeia, e atiça-a! – recomendou à filha a Maria Lorna. – Esse
morrão a espirrar é sinal de chuva.
– E depois, ó minha madrinha? Mas depois?
– E depois – continuou a velha – a raposa foi-se ao carneiro onde ele estava, e desenterrou-o e
comeu-lhe um bocado, mas deixou-lhe outra vez de fora a ponta do rabo.
– Ai a matreira! – exclamou o José Redondo muito interessado.
– No outro dia à noite – prosseguiu a Tia Maria – apareceu o lobo no mesmo sítio, e logo atrás do lobo a comadre raposa. «Adeus, compadre!» diz a raposa. – «Adeus, comadre!» disse-lhe o lobo. – «Vamos então a isto?» – A raposa fez uma cara de muita pena: – «que tinha de ficar prò outro dia, se lhe não custava, porque tinha ainda outro baptizado!»
Agora foi o André que interrompeu, de olhos muito esguichos:
– Ai a desavergonhada!
– Mas o lobo disse-lhe que sim – continuou a velha.
– Esse diabo então andava farto! – acudiu de lá o José Bernardo.
– Disse-lhe que sim o lobo – repetiu a Maria Lorna – e perguntou então à comadre raposa que
nome é que tinha posto ao raposinho.
– «Começoxe» – respondeu a raposa.
Os rapazes riram-se mas não entenderam. A Tia Maria explicou-lhes – Ó tontos! Começoxe, porque a raposa tinha começado a comer o carneiro! Vocês não entendem?!
Entenderam. Foi uma risota!
– Mas depois? Mas depois?
– Mas depois, a raposa voltou lá, e comeu o carneiro até ao meio!
– Ai a grande ladra! – disseram, arregalando muito os olhos, os dois rapazes.
– Torna o lobo às horas marcadas – prossegue a Tia Maria – e já te lá estava a raposa, mas desta vez muito mais chorosa que das outras duas! – «Pois que tem, ó comadre?!» perguntou-lhe o lobo sem atinar. – «Que hei-de eu ter, compadre?! Deixe-me aqui!» respondeu a raposa muito consumida. «Inda não podemos hoje comer o carneiro!» – «Outro baptizado, aposto?» perguntou
o lobo muito fiado. – «Sim, mas este agora de circunstância!» disse-lhe a raposa já a chorar. – «Pois não se aflija!» – tornou-lhe o lobo. «E o afilhado de hoje, que nome lhe pôs?» – «Meioxe», respondeu a raposa. – «Gosto mais.» – ainda lhe disse o lobo muito satisfeito.
– Era bem bruto esse diabo! – comentou a rir o José Lorna, que acabara de recolher a mão. E todos desataram a rir, enquanto a Tia Maria Lorna prosseguia, não despegando de dar no fuso!
– Vai essa tarde a raposa, e come do carneiro o que faltava...
– Menos as pontas, ó comadre! Essas achei-as eu! – disse num aparte o José Bernardo.
– ... Menos o rabo – continuou a rir a Tia Maria – porque esse tornou outra vez a deixá-lo de fora, que era para se saber onde ficava a cova.
Chega o lobo na terceira noite, e perguntou à raposa:
«E hoje, ó comadre?» – «Hoje é que sim!» disse-lhe a raposa muito lampeira. – «Valha-nos Deus, que não há amanhã outro baptizado!» tornou-lhe o lobo, já a delamber-se. «E o raposinho de hoje, como é que se chama?» quis ele saber.
– «A caboxe», respondeu a raposa. – «Mas vamos então a isto?» – disse o lobo. – «Vam’lá» – respondeu a comadre. «Puxe lá pio rabo, o Sr. Compadre!» – «Não! Há-de ser a minha comadre!» – ofereceu o lobo. – E cerimónia pra aqui, cerimónia pra ali... – continuou a Tia Maria.
– Cerimónia prà direita, cerimónia prà esquerda... – repetiu o José Bernardo. – Jogue, compadre! que este tamém acaboxe, comá conta do outro!
– Mais um cumprimento daqui, mais um cumprimento dali – continuou a velha, sempre foi o lobo, que está de ver que tinha mais fome, quem se resolveu a puxar plo rabo. Esgueirou-se logo a raposa, aos pulinhos, e foi-se a pôr em cima duma fraga, por trás dum sobreiro, e o bruto do lobo nem sequer deu fé.
– E depois? E depois? – perguntaram muito vivos os dois rapazes.
– E depois... E depois... morreram-se as vacas e ficaram os bois! – disse o José Bernardo, que pregara no José Lorna outro capote.
– Depois – rematou a velha –, como o lobo puxou com gana, deu pra trás uma grande queda, e ficou-lhe na boca só o rabo; e a raposa, lá de cima, tudo era rir como uma perdida, e afinal botou a
fugir!
Foi uma galhofa para os rapazes!
– Ai a matreira! Ai a matreira! – diziam eles a sapatear.
– Pronto, seu compadre, como a história da minha comadre!
Mas aqui foi vossemecê que fez de lobo, não é por o ofender! – disse o barbeiro, que tornara a ganhar. – Vamos à pinga! Vamos à pinga! – dizia ele esfregando as mãos – que esta bem ganha foi!
– Com muita súcia de trampolinice! – tornou-lhe o José Lorna. – Mas eu cá me hei-de vingar quando lhe medir a avença, deixe você estar!
Riram. E para que a conversa não esmorecesse, logo que empinou a primeira caneca diz o barbeiro para os rapazes:
– Queremos saber agora quantos pães é que fartam a barriga depois da barriga cheia?
Os rapazes não sabiam...
Sois uns brutos! E esta: que é? que é? preto por fora, amarelo por dentro; pendura-se na parede
e chama-se tacho?
– E um tacho! – fizeram os dois rapazes ao mesmo tempo.
– Olha o milagre! – riram-se todos.
– E de cobre e é redonda; tem um X no meio e é de dez réis. E esta? – tornou a perguntar o José
Bernardo.
– Ora! Essas não prestam! – disseram agastados os rapazes.
A Tia Maria, então, fez-lhes a vontade:
– Que é? Que é?
Uma dama bem toucada,
Dois leões a estão estripando,
Ao tocar da castanheta
As tripas lhe vão tirando.

Fartaram-se de disparatar os rapazes: cada um dizia sua coisa.
– Não é nada disso! Não é nada disso! – dizia, fazendo-se zangada, a Tia Maria Lorna. – O que é, está aqui ao pé de nós...
Tudo era porem-se os dois rapazes a esquadrinhar o que estava à roda, e os mais a rirem-se daquela faina.
– Nada, nada! Está mais perto! – ensinava o lavrador.
A Tia Aniceta, muito disfarçada, apontou então para a Tia Maria.
– E vossemecê! – disseram logo os dois rapazes.
Foi uma risota.
– Vocês parecem parvos! – exclamou a Teresa para lhes chamar a atenção. E num rápido movimento mostrou-lhes a roca onde também fiava.
– E uma roca! – disse logo o José Redondo.
– Ai é! – contestou o filho do barbeiro.
– É uma roca! sim senhor! acertou o José Redondo! – interveio a Aninhas. – «Uma dama bem toucada», a roca. «Dois leões a estão estripando», são os dedos, não vês?; «ao tocar da castanheta», porque os dedos, olha, parece que estão a tocar castanheta. «As tripas lhe estão tirando», porque o manelo vai-se fiando, e cá está no fuso a maçaroca.
O José Bernardo, que estava agarrado a uma «paciência», atirou esta sem despegar:

Tenho um brinco que brinca,
Que de brincar endoidece,
Quanto mais o brinco brinca
Mais a barriga lhe cresce.

Riram-se todos. Nem a Tia Maria Lorna, nem o José, nem as filhas, sabiam aquela. O rapaz do barbeiro coçava a cabeça a ver se se lembrava, porque o pai já lha tinha ensinado. A mãe fez-lhe um sinal...
– E um fuso! É um fuso! – gritou ele.
– Ai é! – disse agora o José Redondo.
E atiravam-se um ao outro, se não acode de lá o Tio José Lorna:
Alto cavaleiro
Abrem-se-lhe as bolsas,
Cai-lhe o dinheiro.

– Essa – disse a Teresa – também é assim:

Pinglo-pinglo, está pingando
Funglo-funglo, está fungando...

O Tio José Lorna interrompeu a filha, fazendo que não com a cabeça:
– Não senhora, não senhora...
– Sim, meu pai, com perdão de vossemecê:

Se o pinglo-pinglo não pingara
Funglo-funglo não fungara

– Não! – insistiu o pai. – Essa, é o porco debaixo do castanheiro: – funglo-funglo, pinglopinglo;
porque o porco faz fum, e os ouriços pingam as castanhas.
A Teresa concordou:
– Pois é, é, sim senhor! Perdoe vossemecê.
– Mas a do Sr. Compadre – interveio agora a Tia Aniceta – é só o castanheiro quando se lhe
abrem os ouriços.
– Ah! – fez a Teresa anuindo.
– Mas são verdes! – rematou o José Lorna, teimando na sua.
E foi então a vez do António:

– Que é? Que é?
Pucarinhos, pucaretes,
Ó que lindos ramilhetes!
Nem cozidos nem assados,
Nem mexidos com colher.
Não adivinhas este ano
Nem prò outro que vier,
Só se to eu disser.

– Essa agora é que há outra como ela! – explicou o José Lorna:
Tenho casa de alicerce...
– Não! Não vale! – rogou a Teresa. – Ó meu pai!
– Mas tanto monta! – insistiu o José Lorna. – Como são iguais, deixá-las ir ambas.
– Então vai também a minha, porque eu inda sei outra que é também romã – disse de lá a Tia
Maria.
– Ó minha mãe! vê?! Já disse o que era! – lastimou agora o António, no meio dos outros que
se riam. – A que a mãe queria dizer começava assim:
Rica e bela fui eu...
– Era assim, era! – disse-lhe a mãe inda às risadas. – Eu sempre sou muito tola!
– Não é, Sr.ª Comadre – fez de velhaco o barbeiro. – Às vezes descuida-se...
– Mas então – prosseguiu ele muito animado – lá vai também a minha! Mas esta agora há-se ser
ao ouvido da minha comadre! – E agarrando-se à velha, como quem a beija, disse-lhe ao ouvido uma adivinha, que todos ouviram...
Foi uma gargalhada geral!
– Ai este ladrão! Ai este ladrão! – dizia a velha a bater-lhe com o fuso. – Vá-se daqui! Vá-se vossemecê daqui! Olhem com o que ele se cá vem!
– Outra, Sr. Compadre! – clamou o barbeiro, agarrando-se logo ao lavrador. – Arreda! arreda! –
fazia o José Bernardo para os rapazes, que se queriam ambos intrometer no segredo. – Mas vossemecê é surdo, Sr. Compadre, o melhor é dizê-la de alto:

Pequeno como um tostão,
Abre e fecha sem cordão?

Cuidaram de estoirar de riso, com a nova adivinha do José Bernardo!
– Essas são boas, ó compadre! Essas são boas! – dizia, afogado de riso, o lavrador. – Ai o
diabo da lembrança!
Mas a Aninhas, purpureada, deitou água na fervura:
– Que é? que é?...
O barbeiro puxou-lhe na deixa... – que passa na água e não molha o pé?
– Um vitelinho na barriga da mãe! – adivinharam logo os dois rapazes. – Mas diga lá a sua, ó minha ama, diga lá a sua! – pediu, já confiado, o José Redondo.
Estava o José Bernardo agarrado outra vez ás cartas, e a Aninhas sempre conseguiu dizer a adivinha:

– Que é? que é?
Em Inglaterra fui feita,
Em Portugal fui vendida,
Se me prendem estou salva,
Se me soltam estou perdida.

– É que nem sei como a comadre velha não disse já que era uma agulha! – tornou muito ronceiro o José Bernardo, estendendo outra paciência.
A Aninhas zangou-se, quase chorou.
– Tem termos, homem, tem termos! –
admoestou-o a Sr.ª Aniceta. – Diga outra, ó minha comadrinha, diga outra, que os pequenos sabiam essa, não sabíeis?
– Sabíamos – disseram eles.
E para a prova de que sabiam, disseram outra igual, ambos em coro:

Anda de buraco em buraco
Sempre co as tripas de rasto.

A Teresa, para dar tempo a que a irmã se desgastasse, disse então esta:

É branca como a neve,
Preta como o pez,
Fala e não tem boca,
Anda e não tem pés?

– Ó compadre – disse o José Lorna para o barbeiro, depois de se lhe pôr a mirar a jaqueta com
que fora visitar o morgado, e que era a melhor da arca fateira. – Deixe que lhe não pintou nada mal a história de matar o lobo! – Deu-lhe a patente da Câmara para essa jaqueta... e pra que mais, ó compadre?
– Ora! que é uma moeda? – fez com desprezo o barbeiro.
– Que é uma moeda?! – repetiu, espantado com a pergunta, o lavrador.
– É uma libra com três tostões, bem sei – continuou o barbeiro. – São doze cruzados. Ponha lá que pra me dar pra esta jaqueta, pra uma saíta barata prà mulher e pra um fato prò rapaz, custou!
– Esse pouco! – admirou-se o José Lorna. – E bem melhor que rapar queixos, e andar por esse mundo a receitar mezinhas. E o filho da Trasga, é verdade, como vai o pequeno?
– Mal. Aquilo se assim vai, o rapaz vira!
– Pois é pena! – Pois é pena, que vinha a herdar uma boa casa!
– Mas eu é que não volto lá – declarou o barbeiro. – Foram-se aos Cortiços plo Doutor Albino, e agora que se arranjem...
Nesta altura, tinham os rapazes acertado com a adivinha, à custa de muitos sinais da Tia Maria:
– É uma carta!
– Pois já se vê – disse a velha. – Pois o que é que leva o João Correio, quando passa aí a cavalo
no macho?
– Leva sono! – tornou a meter-se o José Bernardo, que embirrava com o João Correio.
– Pois digo-lhe eu que era bem melhor matar lobos que rapar queixos! – insistiu o José Lorna, pondo-se outra vez a apalpar a fazenda.
– Mas se há mais bodes que lobos, ó Sr. José!? A gente que há-de fazer?! – E como se pusesse a teimar com o seu compadre, a ver se lhe entendia a «paciência», foi, enfim, para a linda Aninhas, a vez de propor a adivinha:

– Que é? que é?
Somos ambos dois irmãos
De diferente condição,
O meu irmão vai á missa,
Eu à missa não vou, não,
Para gostos e temperos
A mim me convidarão,
Para mesas e banquetes
Falem lá com meu irmão?

– É verdade! E essa? – perguntou aos rapazes a Tia Maria Lorna. – Era eu bem pequenina quando minha mãe ma ensinou; lembra-me bem que estávamos ao lume a assar castanhas – recordou ela. – Onde isso lá vai!
– Então não adivinhas? – perguntou a Ana já impaciente, com a agulha da meia encostada ao
lábio...
– É agulha! – aventou o José Redondo.
– É meia! – afirmou o André.
– Nem agulha nem meia! É...
– Não diga! Não diga, a ver se a gente
adivinhamos! – rogaram ambos juntos à Aninhas.
– Quem ensaiará este ano as loas prà festa, ó comadre? – perguntou a Tia Maria Lorna, que já se
aborrecia de tanta adivinha.
– Isso há-de ser lá a Sr.ª Infância, que pra essas coisas não há como ela. Só aqueles lindos versos do outro ano, que nunca me hão-de esquecer! Fala o anjo embaixador:

Já chegámos à igreja
Com prazer e alegria,
Vamos oferecer o ramo
À sempre Virgem Maria.
Por sorte me pertenceu,
Dentre as nobres jerarquias,
Ser eu participante
Das presentes alegrias.

– O último é que era bonito! – fez por se lembrar o António.
– Quando o anjo embaixador se ia embora, e deixava na capela as raparigas. Ele como é?
– Essa também me não lembra... – confessou com pena a mulher do barbeiro.
– Pois era assim! – recordou-se o filho do Lorna:

Tende, pois, enquanto eu volto,
As alâmpadas ardentes,
Porque há diferença nas virgens
Entre as loucas e as prudentes...

– Pois era assim, era! – confirmou arrebatada a Sr.ª Aniceta.
– E dizia muito bem as loas, e ia muito guapo, aquele filho do João Caseiro!
– Ele haverá entremez este ano? – perguntaram muito curiosos os dois rapazes, não se importando já com a adivinha.
– É vinho e vinagre! – ensinara-lhes por fim a Aninhas. – Não adivinharam! Surriada, que não adivinharam!
– Ai, é vinho e vinagre... – repetiram indiferentes os dois rapazes. – Mas ele este ano haverá entremez? – insistiram eles e também as mulheres.
– Ali o meu José é que há-de saber – disse a Tia Aniceta. –O José, sabes se sempre há entremez
na festa?
– Agora esta carta, já vê, muda-se pra ali... – prosseguia o barbeiro.
– Mas olhe o que lhe perguntam – avisou o José Lorna.
– Não sei! Eu sei lá se haverá entremez! Já ouvi dizer que só pauliteiros, e que vem também o Tio João Tambor, e dois gaiteiros de além do rio.
– Pois vamos lá, que já não é pouco!
– Qual não é pouco! Festa como a que mandou fazer o António Fagote, é que já aí não torna outra! – exclamou o José Bernardo. – Foi de ventas! Deixou a vara ensilveirada pra um par de anos, sou eu que o digo! Eh, caramba! só aquele sermão!
– E o macaco de fogo, ó Sr. José?! – lembrou o paquete muito admirado.
– O que disse daquele púlpito abaixo aquela alminha! – continuava abismado o barbeiro. – E depois, bom homem! por lhe fazer a coroa deu-me um pinto: – «Mestre, aí vai para as amêndoas.»
Aquilo sim! – Também eu – gabou-se o José Bernardo – fiz-lhe um favor! apresentei-lhe no púlpito uma limonada, que era de se lhe tirar o chapéu três vezes!
– O que ele disse a Nossa Senhora! – rememoravam ainda pasmadas as mulheres. – O que ele disse voltado pra aquela divina imagem!
– «Ó Virgem!...» – rompeu a declamar o barbeiro, imitando o pregador.
– Há-de perdoar, compadre, mas vamos lá às cartas! – interrompeu o José Lorna. – Com santos
não se brinca...
– Nem isto é brincar, Sr. Compadre! – observou com sinceridade o José Bernardo.
– Bem sei! – confirmou o lavrador. – Vossemecê não era capaz, mas os santos é que podem entender que é brincadeira. Nestas coisas, é bom acautelar. Vá lá: muda-se então pra ali esta carta... – E para o filho: – Dá-me daí com as tenazes nesse tição, e esperta-me esse lume.
Abriu a boca a Tia Maria, e perguntou, já por demais, arredando-se do lume esperto:
– E como estará do erisipelão a Maria Espanhola?
– Mal! Plos modos inda lá vai a benzedeira, mas aquilo está muito mal, coitada! E depois aquela carga de filhos! A Mónica sabe benzer, isso sabe. Mas vão lá saber se a mulher anda em graça de Deus...
– A mulher, qual mulher? – perguntou o barbeiro.
– Não é da tua conta! – respondeu-lhe a Aniceta. – Meta-se lá no que está a fazer, e deixe conversar os mais à sua vontade.
– Bem ouvi.., a Maria Espanhola... Essa está mas é na graça do grande diabo que a carregue! E outra que tal como aquele do Balsemão, que diz que tem uma cruz no céu da boca. Eu já uma noite, no arraial, lhe pedi que me mostrasse a cruz, mas ele não caiu nessa...
– Pudera! se é a sua «virtude»! – desculparam-no as mulheres.
– Ao menos os dentes! inda lhe eu disse.
Quero ver quantos anos tem!
– Ó Sr. José Bernardo... – repreendeu-o a Tia Maria Lorna.
– Ó minha comadre!... – retrucou-lhe o barbeiro no mesmo tom. – Se não houvesse tolos, não havia aldrabões!
– Ó António – interveio o velho Lorna –, vai lá ver que tal está a noite; e se estiver amanhã capaz, hás-de chegar ao Picão do Corvo, pra ver lá isso da alvaneira.
– Está a nevar – disse da janela o filho do Lorna.
– Melhor! – tornou o lavrador. – «Prò ano ser de pão, sete neves e um nevão.» Tu, olá, já sabes – continuou ele a dar as ordens. – De manhãzinha, rodas-me a saber do Sr. Morgado: que lhe mandamos todos muitos recados e saber se está melhor. Passas à vinda por Vale de Ferreiros, e
cortas uma carga de lenha, que há-de ser preciso alguma fornada.
– Ele inda aí há pão... – disse, mas condescendendo, a Tia Maria.
– Inda aí há, inda aí há, mas com tempo é que se aviam as coisas, e o rapaz aproveita caminho! –
teimou o Lorna pondo-se de pé.
– Está bem de ver – concordou o barbeiro já a abrir a boca.
– E nós vam’ lá com Deus, que isto já hão-de ser horas. André – gritou ele ao filho –, arriba! Estás a dormir, grande maroto? Olha que Lenha verde mal acende, Quem muito dorme pouco aprende.
– Basta que saia ao senhor seu pai! – disse, inda despeitada, a Aninhas, enrolando com o fio as agulhas da meia.
– Mau! ó minha comadrinha! Mas o que eu não quero é que fique zangada comigo! – rogou o José Bernardo pondo-se de pé, no meio dos outros todos já levantados. – Fica zangada, minha comadrinha?
– E era bem feito que ficasse! – repreendeu-o a Sr.ª Aniceta.
– E eu não lhe dançava na boda! – fez o barbeiro dando-se por pago, e acendendo na brasa o cigarro brejeiro.
– Olhem agora a grande desgraça! – tornou-lhe com desprezo a Aninhas. – Deixe estar que ninguém o convida! – concluiu ela já a sorrir.
Acendera a sua luz o velho José Lorna, e todos se davam já as boas-noites.
– Agora não se constipe, ó comadre! – recomendou a Maria Lorna. – Como está a nevar, ponha bem o xaile pla cabeça, e cautela com as escadas.
– Não tem dúvida, Sr.ª Comadre, muito boa noite; e muito boa noite, minhas comadrinhas!
Anda lá adiante, André! Esperta, olha não caias, André! Adeus, Sr. Compadre, com bem passem, e muito obrigado por este bocadinho.
– Adeus.
– Adeus.
– Não traga cá a luz, Sr. António, a gente já está avezada co as escaleiras. Muito boa noite, a todos, muito boa noite! Adeus.
– Adeus, adeus, embrulhem-se!
E como o José Lorna fosse também à janela para alumiar, ouviu-se-lhe a voz de bordão, dizendo para o outro que ia descendo:
– E olhe lá isso dos porcos, ó compadre!
Sempre quero saber de quem eram os porcos!
– Safa! que ele cai a valer, ó Sr. José! – exclamou, debaixo da nevada surda, o José Bernardo. – Cerre a janela, cerre a janela, que um catarral como quer se apanha! – recomendava ele já do meio da rua, que era à luz das candeias como um lençol.
– Mas olhe-me lá isso dos porcos, compadre! – teimava ainda o lavrador. – Eu quero saber de
quem eram os porcos!
Rangeu a porta do José Bernardo, quase fronteira; e já encafuado em casa, diz-lhe o barbeiro por uma frincha:
– Ó Sr. Compadre! Sr. Compadre!
Voltou atrás o lavrador.
– Que é?
– Ora sempre lhe quero dizer.., que eram meus os raios dos porcos!
– O quê?! Ó seu alma do diabo! Que diz você?! – atacou furioso o José Lorna, atirando os braços a um pau de lódão, enquanto as filhas o seguravam.
– Mas não tem dúvida – tornou-lhe de lá o barbeiro, atirando-lhe uma gargalhada:
– MATAM-SE!


Trindade Coelho, Os meus amores