27/09/2008

Idílio Rústico


A Fialho de Almeida


Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele, era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas. Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo companhia aos novilhos. De onde em onde, galos madrugadores entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma estúrdia, a desoras…
Mas, passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho em ziguezagues. Fulgiam no céu azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima do rumor brando dos choca-lhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando a marcha se de novo ele se punha a caminhar.
Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro, que o eco levou para longe.
– Não gastes pólvora, António! – recomendou o pastor. – Ouviste?
E logo a voz do guardador:
– Madrugas hoje, Gonçalo!
– Pra que saibas! Cá um homem não tem medo!
– Está bem. Adeus!
– Saudinha.
A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham atitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra... Neste assomo de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços. De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens secas, onde algum réptil passasse vagaroso.
– Busca, Turco! – fazia-lhe o Gonçalo, que tinha medo às cobras. – Busca, valente!

À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se, mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de paciência, – reflectia o pastor, a quem abor¬reciam de morte os intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado, o Gonçalo desabafou: – Uff! até que enfim! – E pensava aliviado: – Nada mais fácil do que terem-me saído os lobos!...
Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda acidentada de rochedos informes, blocos medonhos por entre os quais no inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num descuido involuntário – simples remadela pouco a tempo, manobra menos segura de leme, ou impulso errado de vara.
E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo limitada a paisagem.
A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e manso, e sem o mínimo ruído.
Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.
– Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada...
E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:
– Ora se será ela?...
Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.
– Ai, se fosse a Rosária!... – disse consigo.
E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.
«O rebanho parecia ser o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser outro que não a Rosária...» Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.
No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:
– Eh lá, Gonçalo, és?
O pastor desatou a rir.
– Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!
E logo a voz fresca da rapariga lembrou:
– Não te esqueceu a moda, rapaz!
– Isso esquece ela!... Ouviste, Rosária? – Se outra fosse que ma tivesse ensinado...
Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:
– Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?
– Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p’r’as ovelhas. Han?
– Basta!
E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a pouco entrava, mais o rebanho, pela velha ponte mourisca, toda severa de construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas bravas.
A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que era como um talismã precioso para livrar de maiores desgraças – naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles caminhos escabrosos que eram um perigo constante para homens e animais.
Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual seguida do seu rebanho.
– Ora viva a Rosária! – disse o pastor muito alegre, parando defronte da cachopa.
– Bons-dias, Gonçalo! Então que ventos?
Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da feira dos Caniços.
– Por sinal que nem rez se vendeu! – lembrou o Gonçalo.
– Por sinal! – disse com pena a Rosária.
Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que a encontrava. – «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de sonhar! Nanja ele...»
– Mas se eu estive tão doente! – volveu triste a Rosária.
E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:
– Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era mesmo lume, desde manhã até ao escurecer... Uma assim!
E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados, como agora tinha acontecido, – «tal e qual».
– Assim te Deus salve, ó Rosária! – atalhou rápido o pastor, a quem enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.
– Assim; pois que dúvida? – tornou-lhe confiada a Rosária.
– Não! – disse agastado o Gonçalo. – Não hás-de dizer assim... Dize certo, hás-de jurar direito.
– Pois assim me Deus salve…
– Como é verdade... Dize, tudo, Rosária! – suplicava o pastor.
– Sim – volveu-lhe paciente a companheira – como é verdade que sonhava que nos encontrávamos – concluiu por fim muito risonha.
E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também não a esquecera. – «Tanto é que tirava da frauta as cantigas todas que ela lhe tinha ensinado.»
– Lembras-te?
A Rosária fez que sim com a cabeça. E logo, batendo na frauta de sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:
– Saem daqui sem falhar uma! – E resoluto: Vá feito, Rosária, pede por boca!
A Rosária pediu então a Pastorinha.
– Eu é da que mais gosto – explicou. – É a mais linda.
E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a Pastorinha, enquanto a Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:
Onde vás, ó pastorinha,
Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé...
– Sabes essa! É mesmo assim! – disse-lhe a Rosária a rir-se.
– É como vês! – afirmou contente o Gonçalo.
Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois reba¬nhos, confundidos, andavam na pasta-gem.
– Olha as ovelhas juntas! – notou o Gonçalo.
– Também nós nos quedámos juntos, – volveu-lhe a pequena, sorrindo. – As pobres dão-se bem, são amigas... – continuou com júbilo.
– E nós também, ora também, Rosária?
– Também – respondeu afoita a pastora.
E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.

*

A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela de alva fenecera por fim, e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam despertar tudo: a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de asas – passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre renques verdejantes, gente em mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cada chó! que se ouvia na outra ladeira. Já nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a ave-marias. Nas quintas e casais fumegavam os tectos, dizendo horas de almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante, no céu imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores e continuavam conversa.
Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a Rosária...
– Mas o cabelo assim cortado... – disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça nua, e passando a mão pela dele – é que te não fica bem!
«Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças! Negras, de mais a mais, que era como ele gostava...»
– Promessa da mãe se eu melhorasse – explicou a Rosária. – Lembranças... A gente quando está aflita...
– Quando está aflita... – repetiu como um eco o pequeno. E depois, amuado: – Se te promete os olhos...
A rapariga fitou-o, espantada.
- ...é porque tos tirava! – concluiu convicto.
Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.
– Não falas, Rosária? – perguntou o pastor sem levantar os olhos para ela.
– Também tu... – começou com medo a pequena, – logo te zangas! Olhem a lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo! – E depois animando-se: – Já foste à Senhora dos Remédios?
O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.
– Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.
O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E para acabar com ela:
– Que enfim como melhoraste... – fez que concordava, pondo o bilro a girar. – Olha como dança... – E depois, mais pensativo, batendo com o bilro nos dentes:
– Que às vezes as promessas pouco valem... – E interrompendo: – Sabes quem fez este bilro?
– Foste tu, aposto!
Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho orgulhoso – «que visse os torneados». Depois continuou:
– Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os santos! – Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e bem promessas fez, mas ela foi-se.
E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.
– Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar... Pois era para Nossa Senhora, repara que é a melhor. – E deitando-se para trás: – Lá anda ela a pastar! – concluiu desalentado. – Mas tinha de ser – volveu-lhe triste a Rosaria, – que as promessas sempre fazem, lá isso...
E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia, firme na sua objecção:
– Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!

*

À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois conduzindo as ovelhas para os sítios mais ensombrados, para se livrarem da estiagem, que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais, depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que nada: os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.
– Olha lá não caiam! – tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo. – Se eles fossem tolos...
E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela então propôs que jogassem a pocinha.
– E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos domingos à tarde, bato-me com qualquer, sabias?
E generoso:
– Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta...
Como o tempo rendia, jogaram tudo – a pocinha, o fito, as necas, a bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia buscar o pauzinho, quando zenia para longe.
– Turco, traze cá.
No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim tão viva a areia branca das margens.
Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:
– Mas olha o que prometeste... Inda vais feita no que disseste?
«Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas
tinham andado juntas todo o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?» – E o mais, ó Rosária? – perguntou de novo com interesse.
A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar, respondeu:
– Também. – E sorriu-se. – Pois eu...
Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal de partida, assobiando aos cães.
Daí a pouco, estavam de marcha para o curral. Quando passavam a velha ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.
– É bonito! – fez notar o pastor.
A Rosária explicou logo:
– São as mouras a caçar com redes de oiro, sabias?
Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da chata que vogava serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista, enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia ensinando as manobras. Ao fundo, três vitelos passavam o rio a vau, muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro – «Boas-tardes! Boas- -tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos carregados, tilintando campainhas.
– Adeus, pequenos! – cumprimentou.
– Venha com Deus! – tornaram-lhe ambos.
E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas; confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música, fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada...
Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar:
– Vês além?... Neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?
A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:
– Então é ali?
– Ali mesmo – volveu-lhe já de marcha.
E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga, repetiu-lhe muito contente:
– É mesmo além.
Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.
– Falta pouco. A gente vai pelo atalho, que é só mau para quem passa a cavalo.
E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então saber:
– Estás triste, ó Rosária?
– Triste… não… Já agora... tem de ser – volveu-lhe cabisbaixa.
– Huum! Arrependeu-se... – volveu consigo o pastor.

*

Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para dentro e toca a merendar; o que era de um era de outro: ele ainda trazia azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem: estavam moídos da soalheira de todo o dia, e da caminhada agora.
Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de toda a noite, e formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul indefinido do céu.
– E os lobos? – perguntou a Rosária com medo.
– Não há perigo – tranquilizou-a o Gonçalo. – Isso é lá com os cães.

*

Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo, num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se deixaram adormecer – quando a história das mouras encantadas ia no seu melhor episódio...
E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas crianças...
Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu...
– Bonito dia, Gonçalo!
– Bonito dia, Rosária! Olha...
…na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando... voando...


Trindade Coelho, in Os meus amores