03/08/2008

Passeio

Tudo ia a correr, a correr... No penúltimo dia de Janeiro.

Já seria Primavera?

Já, não havia dúvida nenhuma.

As crianças iam em correria, como os pássaros; para onde virava uma, viravam as outras. A professora, que era muito nova, julgava que lhe ficava mal correr também e a passo mal as podia acompanhar.

A garotada rebolava-se na erva, amachucava as flores. As flores de Janeiro, amarelas e muito poucas ainda, abriam ao acaso. Mal chegaram a uma fonte tudo molhou o bico. Depois foi uma algazarra... Era a subir, corriam menos e gritavam mais.

E tudo aquilo para a professora, que era, nova, tinha um ar de mágica, de coisa feérica: uma Primavera muito antecipada, as crianças endiabradas, um sol entusiás­tico...

Já não havia mais que subir e pararam. E umas vieram para o pé dela, outras se tresmalharam como os borregos, que em curto espaço correm dissipados para um lado e outro.

A professora sentou-se num pedregulho.

Conte uma história! — pediu-lhe uma pequena.

Uma história! — pediram as outras todas, agarradas a ela, a confiarem-lhe o cabelo, as mãos, o fato.

A da gata amarela...

Não, a do macaco...

Não, essa não, outra.

Conte uma nova!

Uma nova? A das flores?

A das flores, a das flores, a das flores!

Havia uma terra onde se acabaram as flores...

Porquê?

Porque as plantas não queriam florir, não queriam dar mais flores.

Ah!

Naquela terra os rapazes e as raparigas apanhavam-nas todas mal abriam e atiravam-nas fora. Por isso os craveiros disseram assim: não daremos mais cravos. E as roseiras: não daremos mais rosas. E...

Nem havia azedas nem candeias?

Pois não, não havia nada, era uma tristeza. Até os pás­saros deixaram de cantar.

E depois?

As crianças daquela terra também se tornaram tristes. E as mães, que andavam cheias de pena, lembraram-se então de uma coisa.

??

De pôr aos filhos e às filhas nomes de flores: Perpétua, Jasmim, Rosa, Violeta, Hortênsia...

Como a mim, como a mim!

Até que um dia, já passado muito tempo, três meninas foram tomar ar ao campo e viram uma planta a crescer do chão com uma flor em cima. E não lhe sabiam o nome, já se tinham esquecido. O que era mais engraçado é que a flor se abanava para as cumprimentar. E minha! E minha! É minha! Todas três a queriam. Começaram aos encontrões umas às outras. Uma delas tropeçou e caiu, as outras gritavam. Mas uma ainda levantou o braço... E ficou com ele levantado, de boca aberta. A flor tinha crescido de repente, tanto que já ninguém lhe podia chegar...

Chegava-lhe eu!

Cala-te. Minha senhora, esta não me deixa ouvir.

Eu sou a rainha das flores e voltei à terra porque tive pena...

Mas as meninas não morreram, pois não?

E depois, e depois? Cala-te!

Se vocês me pouparem... continuou a flor.

Ó minha senhora, aqui está uma flor como essa... Tão bonitinha! Mas eu apanhei-a. Quere-a?

Antónia, escuta, deita fora a flor, anda, escuta. E depois?

A rainha das flores calou-se.

Isso não é uma história!

Pois não, vão brincar, rematou a professora a rir.

Conte lá a do macaco!

A do macaco...

Não, vão brincar.

E vamos apanhar flores?

Se as encontrarem...


Irene Lisboa, in Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma