17/08/2008

O primeiro camarada que ficou no caminho

Já não acreditava no que dizia a minha avó.
Descia a rua e entrava na loja do Estróina sempre a olhar para a casa.
Os moços, se estavam a discutir, calavam-se quando eu passava. Muitos, ajoelhados a jogar o berlinde, esqueciam o jogo e levantavam a cabeça para mim. Depois falavam baixo. Nenhum me convidava. Só às vezes o Tóino dizia:
— Anda daí, Rui.
Eu não ia. Ele mesmo tinha um ar contrafeito e desandava logo.
Sempre a olhar para a casa, caminhava e ia voltando a cabeça.
O Estróina, assim que me via, deixava de cantarolar. Tomava um ar sério, dando mais atenção ao trabalho. A minha pergunta já ele a sabia: era a mesma todos os dias. Por fim, respondia sem me olhar sequer. Tirava os pregos da boca e, sempre batendo na sola, arranjava um tom de voz natural:
— Hoje está melhor.
Era o que dizia a avó. Eu não acreditava. Se o meu irmão estava melhor, porque me não deixavam vê-lo?
— Estróina, quem te disse que ele está melhor?...
Antes de me responder dava ordens ou ralhava aos aprendizes, tudo por motivos sem importância. Eu bem via que a minha pergunta o embaraçava. Acendia a ponta do cigarro que tirava detrás da orelha, soprava o fumo. Custava-lhe responder-me.
— Estróina, quem te disse? Tossia.
— Foi a criada.
Aquilo era mentira.
Dava-me uma grande vontade de chorar e pedir-lhe que me dissesse a verdade. Mas o Estróina, alheio aos meus olhos presos nele, voltava a encher a boca de pregos e com a sovela traçava em volta da sola o risco onde os havia de pregar.
Enchiam-se-me os olhos de água.
Sentava-me num mocho e fazia por não chorar, mordendo os lábios e puxando a presilha das botas até ficar só com os bicos das botas assentes no chão, todo curvado, de queixo estendido em direcção da rua.
Punha os olhos na casa e não os tirava de lá até que minha mãe aparecesse à janela.
Assim estava horas esquecidas.
As pancadas secas dos martelos sobre as solas iam-se tornando monótonas. Por fim, parecia-me ouvi¬das como muito ao longe.
Turvava-se-me a vista de olhar fixo para a janela do quarto de meu irmão. Assoava-me e limpava os olhos. O Estróina ia olhando para mim de soslaio. E quando eu queria interrogá-lo com o olhar, de frente, disfarçava, cuspindo ou passeando a vista pela rua. Fingia-se longe de tudo.
Assim que do outro lado se abria a porta e a criada saía a algum recado, talvez à farmácia, crescia-me uma ansiedade no peito. Descia num repelão os degraus da loja, ficava com um pé na rua, outro no último degrau. Queria gritar, mas a voz saía-me estrangulada:
— Maria, Maria, diz a minha mãe que chegue à janela.
Ela olhava-me com uma grande tristeza, eu bem via que era com uma grande tristeza.
— Eu digo quando voltar.
E subia a rua.
Tornava a sentar-me. Mordia as unhas, sentia os lábios tremerem. Abria muito os olhos: assim não chorava. Mas o olhar ficava cheio de névoa.
Então o Estróina atirava a obra para o chão, cuspia os pregos, dava pontapés nas formas que lhe ficassem no caminho e ia para a taberna.
Eu queria ir atrás dele, pedir-lhe que não bebesse, porque ele, quando bebia, batia na mulher e só o meu irmão o sossegava e o meu irmão estava doente!, mas não podia tirar os olhos da casa, não podia sair dali.
Agora o Estróina já não voltaria. Em começando a beber, só deixava a taberna quando não podia mais.
Só meu irmão tinha mão nele:
— Estróina, tu não tens vergonha? E o Estróina deixava o vinho e não batia na mulher.
Eram grandes amigos.
O meu irmão saía de casa e entrava na loja.
— Estróina, hoje vou fazer umas botas de montar.
— Não, faz antes uns sapatos que umas botas levam muita fazenda.
Dava-lhe um martelo e uma sola. Meu irmão punha uma das pedras, achatadas e luzidias, nos joelhos. Batia a sola e depois enchia-a de pregos. Quase sempre uma martelada em falso fazia-lhe uma nódoa negra num dedo. Largava o martelo e apertava o dedo com a outra mão.
O Estróina ria:
— Olha que belo oficial que eu arranjei!...
Meu irmão respondia-lhe com firmeza:
— Deixa lá que quando eu for homem ainda hás-de aprender muita coisa comigo. Dá-me outra sola, Estróina.
E o Estróina dava.
Muita vez minha mãe chegava à janela e dizia:
— Não o deixe estragar.
Mas o Estróina levantava-se, com as cerdas a tremerem-lhe aos cantos da boca:
— Ele não estraga nada.
Havia quase um ano, no dia em que meu irmão fez anos, o Estróina bateu à porta logo de manhã. A criada veio abrir, mas ele olhou para minha mãe, que chegara ao patamar da escada, e disse a gaguejar, muito envergonhado:
— Queria falar ao menino...
Minha mãe já sabia qual de nós dois devia chamar, mas eu vim também.
Então o Estróina tirou debaixo do avental de coiro umas botas pequeninas — umas botas de montar! — e estendeu-as na nossa direcção. Meu irmão correu pela escada abaixo e nem segurou as botas: saltou-lhe ao pescoço.
O Estróina chorou.
Foram os dois para a loja e meu irmão esteve lá até à hora do almoço, a calçar as botas e a dizer que logo que o avô chegasse havia de montar na égua.
— Eh, Estróina, tu vais ver-me passar aqui na Ruçai Há-de ser a todo o galope!
E vinha-lhe à ideia a velha rivalidade com o Tóino.
— Só queria apanhar hoje o Tóino na estrada! Coitadinho dele e do Malhado'.... Eu com as minhas botas em cima da Ruça, nem ele me vê! Logo te hão-de contar, Estróina.
Eram, assim, grandes amigos.
Agora o Estróina ia para a taberna e o meu irmão estava doente. Tóino andava no jogo da bola e eu ficava sozinho. Nem minha mãe aparecia à janela; a rua deserta, a casa fechada. Sozinho,
O Estróina quando voltasse seria à hora do sol-posto, rodeado de moços pelas ruas estreitas para os seus passos desequilibrados. Os homens haviam de vê-lo passar sem sorrirem nem falarem, porque, se tal acontecesse, o Estróina tiraria do bolso a navalha do oficio. Só os moços, em volta, a rir.
De uma vez, meu irmão copreu-os à pedrada e levou o Estróina para casa. Só eu e o Tóino os seguimos. Eu ia assustado e chamava meu irmão. O Estróina, de navalha no ar, cambaleava aos berros:
— Estraçalho um à navalhada! E o meu irmão, de bibe aberto pelo vento e no bico dos pés, a tirar-lhe a navalha das mãos.
— Anda para casa, Estróina.
Já com o Boche era o mesmo. Quem se aproximava do Boche! Era o cão mais temido da vila. Não conhecia ninguém, nem os donos. Um dia, um homem açulou o cão, com um cacete, entre as grades do portão do quintal. Veio o meu irmão e ameaçou o homem de abrir o portão. O homem, bêbedo, riu-se para os outros que vinham com ele, riu-se com uma grande confiança no cacete:
— Abre que eu arrebento-lhe a cascaria!
Depois foi o que se soube: levaram o homem para o hospital com as mãos e um ombro tão esfarrapa-dos como o fato.
Nenhum dos que vinham com ele se chegou para afastar o cão. Em toda a vila só uma pessoa era capaz de fazer isso: meu irmão. E foi ele que o puxou, à mão, pela coleira e o levou à chibatada com um junco. O Boche deixou-se levar, rosnando. Prendeu-o na corrente e foi, a fugir, ao hospital saber o estado do homem.
Eu arrepiava-me todo com estas coisas. Era um medo que não podia vencer, muito embora me chegas¬se sempre como se fosse para acudir-lhe. Não sei se era mais pela amizade se pela confiança, que eu me punha a seu lado naquelas ocasiões.
O Estróina dizia muita vez aos homens do largo:
— Aquele menino, quando for homem, dá porrada em vocês todos juntos!
Agora o meu irmão estava doente. O Estróina bebia na taberna e eu ficava para ali, sozinho, de olhos postos na casa, muito longe dos aprendizes que batiam as solas.
O Tóino andava jogando a bola na Courela da Feira, esquecido de mim. E nem minha mãe aparecia à janela.
Sozinho. Um mês, já passado, sem ver meu irmão. Um mês sem ver minha mãe senão umas três vezes, à janela. E isso porque pedi à Maria. Porque disse à Maria que não saía dali, não ia jantar sem que minha mãe viesse à janela.
Um mês. Há um mês que a minha casa se fechou para mim. Parece-me que nunca mais lá poderei entrar. Ainda se o Estróina aqui estivesse, talvez falasse de meu irmão como nos primeiros dias em que ele ficou de cama e me mandaram para casa do avô. Talvez dissesse:
— Aquilo não é nada.
Mas o Estróina não estava e se dissesse que aquilo não era nada eu não acreditava. Quando estive doente, o meu irmão vinha falar-me à porta do quarto todos os dias, mais que uma vez. E não-saiu de casa. Ao fim de uma semana já eu andava na rua sem febre nem tosse. Agora, o meu irmão já passava de um mês que adoecera e nunca mais me deixaram vê-lo. Nem sequer entrar em casa!
Como podia eu acreditar que não era nada?
Meu pai diz o mesmo que a avó e o mesmo que o avô:
— Ele está melhor.
Só a minha mãe não sai de casa para me dizer a verdade. Há um mês que minha mãe me não dá um beijo, há um mês que não vejo meu irmão.
Sentia-me só no mundo.
Em frente, a casa silenciosa e fechada para os meus olhos.
O avô partia de manhã para o campo e só voltava à noite. Minha avó andava atarefada na lida da casa, ralhando com as moças. O Tóino andava no jogo da bola. E nem minha mãe, nem minha mãe sequer aparecia à janela.
O Estróina já estaria bêbedo?
Esperava a volta de Maria cheio de tristeza. E mal lhe adivinhei os passos, na rua deserta, corri ao seu encontro.
— Maria, não te esqueças. Pede a minha mãe... É só vir à janela...
Maria entrou em casa. A porta fechou-se.
Fiquei ao meio da rua, parado, sem vida. A cabeça ergueu-se para a janela do quarto de meu irmão. As mãos estenderam-se para a frente... Eu estava na janela do quarto de meu irmão, eu estava no quarto de meu irmão. Mas não via nem ouvia nada. Como se fosse noite, noite numa casa deserta. A cabeça erguida, à escuta, nada ouvia, as mãos para a frente, para a frente: cego. Só minha mãe me podia dar vida!
Eu estava na rua, imóvel, quando a cortina se afas¬tou e o rosto de minha mãe apareceu atrás do vidro. Seus olhos ficaram presos nos meus. Tanto, tanto que chorou. As lágrimas desciam pelo rosto de minha mãe. Não tirava os olhos dos meus e chorava.
Foi como se mil fantasmas de sonho, dos meus sonhos de pesadelo, corressem atrás de mim. E eu quieto, ao meio da rua, sem poder fugir. Sem forças para jogar-me ao colo de minha mãe e fechar os olhos, abraçá-la.
Minha mãe chorando por detrás do vidro, sem um gesto, sem uma palavra, sem abrir-me os braços!
Ergui as mãos na direcção da janela como se os fantasmas me fossem levar para sempre.
— Mãe!
Gritei novamente como acordado:
— Mãe! Mãe!
Um braço estendeu-se sobre a minha cabeça. Olhei com os olhos muito abertos. O Dr. André estava a meu lado. Falava:
— Vai brincar... Teu irmão...
Olhei a janela. Minha mãe desaparecera.
— ... teu irmão está melhorzinho.
Maria abria a porta. Corri, empurrei-a. Subi os primeiros degraus da escada. Maria agarrou-me num braço, puxou-me. O Dr. André ajudou. Atiraram-me para a rua. Fecharam a porta. Gritei:
— Mãe! Mãe!
Todos me abandonavam.
Caiu-me a pedra da mão. Pobre Maria. Eu era «o seu menino». Ela dizia a toda a gente quando falava de mim: «O meu menino»... Novamente as lágrimas me saltaram dos olhos. Ia ficar sozinho. Chamei:
— Maria!... Maria!...
Esperei. Mas não voltei a ver-lhe a cabeça entre as piteiras. Iria longe ou não queria ver-me mais?
— Maria!... Maria!...
Uma voz veio do outro lado do vale. Uma voz clara, sacudida:
— ...iiia!... iiia!...
Assustei-me. Olhei em volta. Tudo se turvava na frente dos meus olhos. Estava só. Só no mundo. Estendi-me no chão, a chorar, com a cabeça entre os braços. Pobre Maria. O quarto"escuro. Meu irmão doente. Mãezinha chorando longe de mim. Pobre Maria. Uma pedrada num ombro. Fechado no quarto. Mãezinha chorando. O Estróina bêbedo a bater na mulher.
Surpreendi-me a falar, a repisar as palavras, a repeti-las cortadas de soluços:
— Hei-de contar ao meu avô!... Hei-de contar ao meu avô!...
Ergui a cabeça do chão e fiquei sentado a limpar a cara na aba do bibe.
A custo recompunha todos os factos desde a chegada de minha mãe à janela. O Dr. André a empurrar-me para a rua, Maria a arrastar-me, o Estróina de navalha no ar, tudo, tudo me parecia ter acontecido havia muito tempo. Depois a pedrada no ombro da Maria. Teria tudo aquilo acontecido? Não podia ser. Mas porque estava eu sozinho no pinhal, a chorar? Ah, de certo que fora tudo realidade. Havia de contar ao meu avô logo que ele chegasse. Havia de dizer-lhe que me queriam fechar no quarto porque eu desejava ver o meu irmão. Dali via a estrada por onde ele chegava todas as tardes. Era esperar e falar-lhe primeiro que alguém lhe falasse. Ninguém lhe poderia dizer a verdade senão eu. Também minha mãe sabia a minha verdade. Mas minha mãe não saía de casa e seria a última a falar-lhe.
Encolhi uma perna e comecei a dar um laço no atacador da bota que se desatara. Lentamente, uma ideia começou a prender-me a atenção: saltar o muro que separava o quintal de minha casa do quintal da casa de minha avó. Era uma ideia nítidas cheia de pormenores como se há muito andasse na minha cabeça. Saltar o muro e entrar no quarto de meu irmão sem que ninguém me visse... Ia pela Rua do Forno Velho e entrava no quintal. Era fácil: minha avó deixava a porta no trinco e só à noite a mandava fechar. Saltava o muro, escondia-me atrás do canteiro e espreitava uma ocasião propícia para atravessar o patamar que ia da porta da cozinha à porta que dava para o corredor, e depois... Só aqui havia um ponto escuro. Como entraria no quarto se minha mãe não saía de lá? Mas se minha mãe me visse entrar pelo quarto dentro não me empurrava como fez o Dr. André. Não, não faria isso!
Fosse como fosse, havia de ver naquela tarde meu irmão.
Levantei-me e desci o caminho do pinhal. Chegado ao largo não subi a rua: rodeei a vila pela estrada. Andando, veio-me à lembrança meu avô. Pensara esperar por ele, mas aquela ideia fora mais forte que tudo. Meu avô só chegava depois do sol-posto, talvez já noite fechada e eu tinha que ver o meu irmão naquela tarde. Um soluço fundo encheu-me o peito. Havia de ver meu irmão. Ninguém teria forças para segurar-me, ninguém!
Alguém disse o meu nome de uma porta. Voltei a cabeça. A velha Maria Mãezinha falava-me:
— O seu irmão está melhorzinho? Pus os olhos no chão.
— Não sei, não me deixam vê-lo.
Arrependi-me. Com aquelas palavras podia denunciar-me e Maria Mãezinha iria, a correr, avisar minha avó. Olhei o rosto da velha sumido no lenço, entre os umbrais da porta, e menti o mesmo que todos me mentiam:
— Está melhor. A avó diz que está melhor.
Voltei ao meu caminho. A velha ainda disse palavras que não compreendi. Tinha pressa, não queria que mais ninguém me falasse. Corri. Ao voltar a esquina da Rua do Forno Velho, espreitei para todos os lados, sem deixar de correr. Fiquei um momento à porta, escutando para dentro do quintal. Virei a aldraba e empurrei. Os gonzos, ferrugentos, gemeram. Entrei de lado pelo pequeno espaço livre. Nem fechei a porta. Corri a esconder-me, encolhido atrás da sardinheira, rente ao muro. Assim estive até me convencer de que nada tinham ouvido. Encostado à parte baixa do muro, estava um caixote, onde eu subia to¬das as manhãs a perguntar à Maria notícias de meu irmão. Subi o caixote, encavalitei-me no muro e deixei-me escorregar até ficar suspenso pelas mãos. Só então me lembrei de que daquele lado o muro era muito alto. Hesitei. Por fim, decidi-me: larguei as mãos. Caí na terra mole do canteiro com um gemido de dor. Arrastara um joelho pelo muro escalavrado de pedras salientes, e a ferida sangrava. Aproximei-me do canteiro e olhei o patamar. Ninguém. Ouvi a voz de minha mãe, depois a voz da Maria. Estavam na cozinha. Do outro lado, a porta do corredor aberta. Aberta! Atravessei o patamar com a respiração para¬da. No corredor, a passadeira abafava-me os passos. Empurrei a porta do quarto. Tremia todo. Ia abraçar meu irmão. Ia tornar a vê-lo! Tremia, tremia empurrando a porta. Depois dei comigo ajoelhado no chão, com os braços sobre o leito, abraçando meu irmão, dizendo-lhe o nome baixinho!...
— Carlos... Carlos...
Uma voz débil sussurrou-me aos ouvidos:
— Rui...
Levantei um pouco a cabeça e olhei-lhe o rosto através do nevoeiro das lágrimas. E fiquei a olhar sem compreender. Seria que os meus olhos baços de água deformavam aquele rosto? Seria que sonhava e via uma figura de pesadelo? Aquele rosto sem cabelos, inchado, cheio de borbulhas negras poderia ter sido o rosto risonho e sereno de meu irmão? E tinha os olhos fechados, e tinha os olhos fechados! E os caracóis que voavam ao vento quando corria? E o brilho dos olhos quando parava cansado? Eram os meus olhos cheios de água que deformavam tudo! Era eu que sonhava um pesadelo!
A cabeça tombou-me para o peito. Deixei de pensar. Voltei a mim ouvindo novamente o meu nome.
Parecia trazido por uma aragem que viesse de muito longe. Mal se percebia.
— Rui...
Não podia, não podia pensar. E mal tive forças para levantar a cabeça quando senti minha mãe ajoelhar a meu lado, chorando. Mal tive forças para significar com os olhos um .gesto de perdão por ter vindo. Minha mãe abraçou-nos. E novamente meu irmão murmurou a custo. Era um sopro ciciado, lento como as falas de sonho:
— Obrigado por teres deixado o Rui vir brincar comigo, mãezinha... Rui... Rui...
Olhei minha mãe de olhos escancarados. Via-a erguer a cabeça. Tinha a cara branca, branca. As feições vincaram-se, duras. E ouvi urna voz que nunca tinha ouvido a minha mãe, uma voz que não julgava existir na boca de ninguém, uma voz de prece e de raiva:
— Deus, tem dó de meu filho!
Estive dois dias sem ir à escola. Quando voltei, ia mais desatento que nunca. Acontecia com frequência ser apanhado alheio à lição. Era o pior que se podia fazer a Napoleão da Costa.
Estava a olhar para ele mas andava distante. Se¬guia-lhe as perguntas: só me soavam palavras soltas, sem sentido. Um aluno falhava, Napoleão espetava o dedo na minha direcção:
— Ora diga, senhor Rui.
Tremia na carteira. Interrogava para os lados com os olhos. Nestas ocasiões fazia-se um silêncio enorme na aula. Passava a mão pêlos cabelos.
Napoleão da Costa parou na minha frente. Levantei a cabeça. Vi os olhos do professor piscarem por detrás dos vidros límpidos das lunetas. Ia falar-me. Mas não. Só depois de olhar para a janela conseguiu dizer:
— Vá... limpa os olhos. Arruma as tuas coisas e vai para casa... Ergui-me:
— Senhor professor, eu nunca mais estou desatento...
Napoleão voltou-me as costas. Caminhou para a secretária:
— E que... E que te mandaram chamar...
Não percebi. Era a primeira vez, desde que andava na escola, que tal acontecia. Comecei a meter livros na mala. Que seria? Um pensamento confuso imobilizou-me. Aqui e acolá claro: era a primeira vez que tal acontecia, o outro lugar da minha carteira estava vago, meu irmão doente. Tóino estava de pé, a olhar para mim. Toda a classe a olhar para mim. O silêncio pesava. Devia correr para casa. Que seria? A mala desprendeu-se-me das mãos e escorregou pelo inclinado da carteira. Caiu com estrondo. O silêncio que enchia a escola tornou-se maior. Um silêncio magoado como se uma folha tombasse num dia sem sol.
Corri. Atravessei a aula, passei o corredor, estava fora da escola e corria pela Rua das Almas. Era o ca-minho mais perto. Eu nunca passava sozinho na Rua das Almas. Uma rua sempre deserta de muros brancos e casas de janelas fechadas. Ali não chegava nenhum ruído do mundo. Metia-me medo. E ainda mais depois que soubera que à noite andava por lá um avejão. Tal¬vez vindo do castelo, onde era o cemitério e de onde a rua vinha.
Pensava e corria pela Rua das Almas. Que seria, que seria? Um pensamento confuso. Meu irmão tam-bém passara por ali algumas vezes, a meu lado, incitando-me, de cabelos voando ao vento. Somente com ele eu tinha coragem. Agora ia, sozinho, correndo para ele. Um pensamento confuso. Que seria, que seria?
À esquina da Maria Mestra, parei a corrida e, encostado à parede, dobrei a esquina. À porta de minha casa estava gente. Vizinhas falavam, em grupos. Custava-me andar e queria correr, queria voltar para trás e fugir para o campo. Fugir. Esconder-me. Mal podia andar.
De rosto engelhado na sombra do lenço, a velha Maria Mãezinha pôs-me a mão na cabeça:
— Meu pobre menino, meu pobre menino... Outras mulheres murmuravam:
— Coitadinho...
Desprendi-me a custo dos braços de todas. Afastaram-se para eu entrar. A porta estava aberta. Aberta? Tudo confuso, nada tinha sentido. Subi a escada, atravessei o corredor. Ia cego pelo escuro que fazia na casa, de janelas fechadas.
Quando entrei no quarto pareceu-me ouvir um coro de soluços e um grito dominando tudo. Caminhei devagar para o leito de meu irmão. Tudo me andava à roda, ora mais rápido ora mais lento. Caras cheias de lágrimas, girando. Bocas torcidas, abertas, girando. Soluços, gemidos, vibrando em volta. E eu ia, pelo turbilhão de gestos e sons, muito devagar. No centro de tudo, imóvel na cama parada, imóvel, o rosto de meu irmão voltado para cima, de mãos cruzadas sobre o peito, abandonadas num sono sem fim.
Senti tonturas, a cabeça pesada como um mundo. Tudo girava em volta: gemidos e lágrimas. E eu ia cair, ia cair desamparado, quando os braços de minha mãe se abriram para os meus.


Manuel da Fonseca in Aldeia Nova