12/08/2008

O grande sino



Há muitos contos de encantar chineses que fakm do fabrico de grandes sinos, e este é um deles. Relaciona-se com Yong-Lo, o mais famoso imperador da famosa dinastia Ming, que um dia sentiu o desejo de possuir um sino perfeito, o sino mais maravilhoso que jamais se houvesse fabricado, um sino de som tão excelente e ao mesmo tempo tão forte que, quando tocasse, todos quantos viviam na sua capital, a cidade de Pequim, ouvissem a sua voz. Após muitos malogros, o sino fez-se, finalmente, e era de facto como o imperador sonhara. Mas uma rapariga dera a vida para que se atingisse tal perfeição. Como foi isso possível? A história responde à pergunta.


Há quase seiscentos anos, Yong-Lo, o Celestialmente Augusto, o Filho do Céu, da dinastia «Ilustre», ou Ming, ordenou ao digno oficial Kouan-Yu que mandasse fazer um sino de tal tamanho que o som do mesmo se ouvisse a uma distância de cem lis1. Ordenou ainda que a voz do sino fosse fortalecida com bronze, intensificada com ouro e suavizada com prata, que na face e nos grandes rebordos se gravassem dizeres dos livros sagrados e que fosse pendurado no centro da capital do Império, para que a sua voz se ouvisse em toda a cidade de Pequim.

O digno mandarim Kouan-Yu reuniu os mestres moldadores, os sineiros de renome do Império e todos os homens de grande reputação e perícia no trabalho de fundição.
Calcularam as quantidades dos materiais necessários para a liga e anipularam-nos com arte, prepararam os moldes, o fogo, os instrumentos e o gigantesco depósito para o metal fundido. Trabalharam como gigantes, esquecidos do repouso, do sono e dos confortos da vida, sem parar de noite nem de dia, em obediência a Kouan-Yu, e esforçaram-se de todas as maneiras possíveis para satisfazer os desejos do Filho do Céu.
Mas, lançado o metal fundido no molde de barro e separado, depois, deste, verificou-se que, apesar do trabalho extenuante e dos incessantes cuidados, o resultado era lamentável. Os metais haviam-se, por assim dizer, rebelado uns contra os outros, desdenhando o ouro fundir-se com o bronze e não querendo a prata misturar-se com o ferro fundido. Foi preciso preparar novos moldes, reacender o fogo, voltar a fundir os metais e repetir, enfadonha e laboriosamente, todo o trabalho.
O Filho do Céu teve conhecimento do sucedido, ficou furioso, mas não disse nada.
Segunda vez se lançou o metal em brasa no molde, mas o resultado foi ainda pior. Os metais continuavam a recusar, obstinadamente, misturarem-se uns com os outros, o sino não tinha uniformidade, os lados estavam estalados e fendidos e os rebordos escoriados e sem graça. Em resumo, mais uma vez foi preciso recomeçar, com grande desespero de Kouan-Yu.
Quando o Filho do Céu teve conhecimento do sucedido, ficou mais irritado ainda e mandou um mensageiro levar a Kouan-Yu uma carta escrita em seda cor de limão e selada com o sinete do Dragão, na qual dizia:
«Do Poderoso Yong-Lo, o Sublime Tait-Sung, o Celestial e Augusto, cujo reino se chama Ming, a Kouan-Yu, o Fuh-yin: duas vezes traíste a confiança que graciosamente nos dignáramos depositar em ti. Se ainda uma terceira vez não cumprires a nossa ordem, a tua cabeça será separada do pescoço. Treme e obedece!»

Kouan-Yu tinha uma filha de estonteante beleza, cujo nome, KoNgai, andava sempre na boca dos poetas e cujo coração era ainda mais belo que o seu rosto. Ko-Ngai amava tanto o pai que recusara cem óptimos pretendentes só para não desolar com a sua ausência a morada do progenitor. Ao ver a terrível missiva amarela selada com o sinete do Dragão, desfaleceu de medo, só de pensar no que podia acontecer ao pai. Quando recuperou os sentidos e as forças, não conseguiu dormir nem ter descanso, tanto a atormentava o perigo que o pai corria. Vendeu em segredo algumas jóias e, com o dinheiro obtido, apressouse a consultar um astrólogo, ao qual pediu, a troco de grande soma, nue a aconselhasse acerca da maneira de salvar o pai da desgraça iminente.
O astrólogo observou o céu e o aspecto do Rio de Prata, a que nós chamamos Via Láctea, examinou os signos do zodíaco, o Hwang-tao ou Estrada Amarela, e consultou as tabelas dos Cinco Hin, ou Princípios do Universo, e os livros místicos dos alquimistas.
Após um longo silêncio, respondeu:
- O ouro e o bronze jamais se unirão em matrimónio e a prata e o ferro jamais se abraçarão enquanto a carne de uma donzela não se derreter no crisol e o sangue de uma virgem não se misturar com os metais em fusão.
Ko-Ngai regressou a casa de coração triste, mas guardou segredo do que ouvira e não disse a ninguém o que fizera.
Por fim chegou o dia terrível em que se efectuaria o terceiro e derradeiro esforço para moldar o grande sino. Ko-Ngai acompanhou o pai à fundição, juntamente com a sua aia, e instalaram-se num estrado, de onde avistavam o trabalho dos fundidores e o lago de metal liquefeito. Os operários trabalhavam em silêncio e o único som que se ouvia era o crepitar do fogo. O crepitar aumentou, transformando-se num rugido semelhante ao berro do tufão, e o lago de metal cor de sangue iluminou-se lentamente, assemelhou-se ao vermelho do Sol a nascer, o vermelho adquiriu o clarão radioso do ouro e o ouro embranqueceu, tornou-se ofuscante, como a face prateada da Lua. Os trabalhadores deixaram então de alimentar as chamas vorazes, pousaram os olhos nos olhos de Kouan-Yu e este preparou-se para dar o sinal de moldar.

Antes que levantasse a mão, porém, um grito fê-lo voltar a cabeça e ouviu a voz de Ko-Ngai, pungentemente doce como o canto de uma ave, erguer-se acima da grande trovoada do fogo:
- Por amor de ti, ó meu pai!
Enquanto gritava, lançou-se no rio branco do metal fundido, a lava do forno rugiu ao recebê-la, atirou monstruosas línguas de chamas até ao telhado, transbordou da cratera de barro, moldou uma turbilhonante fonte de fogos multicores e acalmou-se, trémula, com relâmpagos e trovões e murmúrios.
O pai de Ko-Ngai, louco de dor, quis lançar-se também no lago ardente, mas braços fortes seguraram-no e prenderam-no até desmaiar e poder ser transportado para casa como morto. Quanto à aia de Ko-Ngai estonteada e muda de dor, olhava para o forno e segurava um sapato, um sapatinho pequeno e elegante, com bordados de pérolas e flores o sapato da sua linda menina. Tentara agarrar Ko-Ngai por um pé quando ela saltara, mas agarrara-lhe apenas no sapato e ficara com ele na mão. Continuou a fitá-lo, como se tivesse enlouquecido.
Mas, apesar da tragédia, a ordem do Celestial e Augusto, do Filho do Céu, tinha de ser cumprida e o trabalho dos moldadores efectuado, por desastroso que o resultado pudesse ser. No entanto, o brilho do metal parecia mais puro e mais branco que antes e não mostrava vestígios do belo corpo que nele se sepultara. Procedeu-se à moldagem e, quando o metal arrefeceu, o sino surgiu, belo, perfeito e de uma cor maravilhosa, superior em tudo a todos os outros sinos; mas continuaram a não aparecer vestígios do corpo de Ko-Ngai, o qual fora totalmente absorvido pela preciosa liga e misturado ao bronze e ao ouro e à prata e ao ferro.
Quando tocou, a voz do sino soou mais profunda, mais suave e mais potente que a de qualquer outro sino, ouviu-se, até, mais longe que os cem lis pretendidos. Era como um ribombo de trovoada estival, como uma voz colossal a proferir um nome - um nome de mulher vezes sem conta: Ko-Ngai!... Ko-Ngai!... Ko-Ngai!...


Pearl Buck, Histórias Maravilhosas do Oriente