19/08/2008

A menina Vitória


Olhava para os colegas de soslaio, inseguro. Eles iriam troçar também dele, da sua bata modesta de brim, dos seus sapatos puídos, quase rotos? E não respondia quando a menina Vitória o chamava à lição, receando um despropósito que o identificasse com o Matoso. "Vêm para aqui neste estado e depois querem milagres!" — suspirava a professora. Era com certeza do método de ensino da Escola 8, ou da sua influência perniciosa. Mas tolerava-o lá no fundo da aula. E o Gigi diminuía-se ainda mais para não se tornar notado, esforçando-se num mimetismo impotente por imitar os gestos dos meninos da baixa. Tenho que ser como eles, reflectia no recreio, afastando-se dos alunos da 4.ª classe, que eram, na maioria, os seus companheiros de vadiação do Quinaxixe. Ficava então a jogar com os estames longos e curvos, que caíam das acácias, e reprimia a vontade de trepar ao cimo delas, para colher os botões compridos de estames longos e curvos, que venciam todos os outros. Bocejava enquanto brincava com o balanceio das anteras e via-as cair sem entusiasmo. Depois submergia de novo na turma e só um ou outro desatino o fazia surgir à tona.
"Muxixeiro(2) na redacção... que coisa é esta...!?" — alarmava--se a menina Vitória, con-siderando o neologismo inferior. E a meninada da baixa ria e surriava, porque na baixa não tinha muxixeiro. Gigi torcia a cara, engonhava com medo de explicar. Calava-se. Mas fixava prudentemente o reparo.
Nas suas redacções vagueava então tímido sobre as coisas, com medo de poisar nelas, decorava os nomes das árvores, das aves, dos jogos descritos no seu livro de leitura. Procurava esquecer o colorido vivo das penas dos pássaros, que ele perseguia na floresta e cujo canto escutava trémulo, o sabor ácido dos tamarindos(3) que colhia sedento, o suor e o cansaço das longas caminhadas pelas barrocas, a emoção dos seus jogos. Imitava passivamente a prosa certinha do gosto da menina Vitória. Esvaziava-a das pequeninas realidades insignificantes que ele vivia, das suas emocionantes experiências de menino livre, agora proibidas e imprestáveis.
Quando o Matoso lia submisso a sua redacção, onde pintassilgos gorjeavam e debicavam cerejas amarelas (o Matoso explicara-lhe num recreio que as cerejas eram as gajajas(4) do puto, intimamente o Gigi perguntava-se onde é que ele tinha descoberto tudo aquilo.
— Higino, a tua redacção?
O Gigi naquele dia estava contente com o seu trabalho. O tema era sobre uma figura importante de Governo e ele não esquecera os adjectivos mais expressivos que na véspera a professora tinha proferido. Isso dar-lhe-ia com certeza satisfação. Os meninos da baixa, mais libertos da coacção da professora, não tinham sido convincentes, limitando-se a referências distraídas, o que a tinha irritado.
Embora confiante, o Gigi estremeceu ao ouvir o seu nome. Que diria ela. pensava agitado, depois de lhe ter estendido timidamente o caderno. Enquanto a via ler, atreveu-se a tentar decifrar-lhe no rosto algum indício revelador, mas a menina Vitória parecia de pedra. Reparou-lhe então nos lábios pintados e nas linhas muito definidas dos seus contornos que pareciam emoldurar o baton. As sobrancelhas aparadas e finas afastavam-se das órbitas por um traço de carvão e isolavam uns olhos castanhos-barrentos como a água da lagoa do Quinaxixe. Mas subitamente eles abandonaram o caderno e voltaram-se para si, perplexos. Apanhado em flagrante, o Gigi baixou a cabeça. A menina Vitória olhava-o silenciosamente e os alunos da classe, pressentindo algo de estranho, apagaram as conversas. Esperavam. Gigi esperou também e as comissuras dos lábios entreabriram-se num sorriso de confiança.
— Com que então pretendes brincar comigo...? — ela falava-lhe friamente...
Gigi empalideceu. Alguma coisa tinha falhado. Mas o que é que poderia ter sido? Estavam lá todos os louvores pelas pontes e estradas que ele construíra. Ter-se-ia esquecido de algum facto importante? Olhou o caderno que ela lhe devolvera, aberto nas mãos, mas não distinguiu as letras subitamente misturadas. A acusação, porém, veio sem tardar, inexorável, imprevisível. Como é que ele se atrevera a tratá-lo por tu! Como é que ele tivera o arrojo de o nomear com um simples artigo definido?
— Ouve lá ... tu julgas que ele anda sujo e roto como tu, e conie funje(5) na sanzala (16)...?

Arnaldo Santos, Prosas




Notas:
l) brim — tecido grosseiro;
2) muxixeiro— arbusto com troncos robustos;
3) tamarindo_ fruto africano, cm forma de vagem;
4) gajaja — cereja (termo angolano);
5) funje — papas tio milho, de mandioca ou de arroz (alimento usado em Angola, o qual representa "o pão dos pobres");
6) sanzala — aldeia, quimho, conjunto de casas.