27/08/2008

Meio pão com recordações


O descampado corria de todos os lados e cercava o casebre solitário. Distantes, solevando-se como uma brusca aparição, cabeços e montados recortavam-se a negro contra o fundo cor de cinza. Áspera, a ventania desabava sobre os plainos, agitava matos e sobreirais, vinha e gemia contra as telhas, contra a empena desmantelada.
Sentados sobre os mochos, no fundo do casebre, Júlia e a velha Amanda Carrusca fitavam o chão. Sombras espessas faziam das paredes e dos recantos uma só mancha circular; apenas as cantarias da lareira se salientavam, aprumadas.
Lentamente, Júlia volveu a cabeça. Na sua voz fraca, rouca, havia um profundo tom de desalento:
- Faz-se umas sopas do resto do pão, não acha?
- Sim - respondeu a velha. - Ainda aí temos uns alhos.
Júlia ergueu-se. Abriu a gaveta da mesa de pinho, tirou metade de um pão escuro e chato e começou a cortá-lo para dentro da tigela. A velha foi ao armário e veio colocar sobre a mesa os restos duma cabeça de alhos. Levemente curvada, de olhos pequenos e vivos, seguia com avidez as fatias que tombavam do gume da faca.
Mal acabou de migar a metade do pão, Júlia desviou a tigela, e servindo-se da lâmina como de uma espátula, começou a esmagar os alhos. O rosto comprido e trigueiro adoçou-se-lhe, numa esperança:
- Se o Inácio matasse um coelho!... -mas, repentinamente, levantou a cabeça. - Foi o Bento que tossiu?
- Ná. É essa ventania a raspar contra as telhas.
- Ainda bem... -ciciou Júlia. -Era mesmo bom, o coelho... cozia-se. Ao menos, hoje, enchíamos a barriga.
Fora, uma lufada violenta desferiu um gemido assobiado da empena do monte, um gemido longo que envolveu o casebre. Contrafeitas, as mulheres alongaram o olhar através da porta. O vento desgarrava-se da espessura do sobreiral e o cerro sacudia-se todo numa confusão de estevas.
Júlia sentou-se, poisou a faca sobre as fatias que enchiam a tigela, e apoiou o queixo na palma da mão. Os olhos, salientes e ensombrados, desviavam-se num estrabismo que a tolhia numa atitude de alheamento para tudo que a cercava. Parecia apenas atenta ao que era distante e invisível.
-Será que vai haver trovoada, mãe?
-Não me parece. Isto são nuvens de água.
Agachada na lareira, Amanda acamava um feixinho de estevas sobre as achas; riscou o fósforo e pegou-lhe lume. Por mais que desviasse a cabeça, o fumo resinoso envolvia-a. Com os olhos marejados de lágrimas, pegou no abano e sacudiu numa toada rápida.
-Que sítio... -suspirou Júlia. - Até parece que me dá quebranto. Nem sei... mas, nestes dias, sinto-me aparvalhada, como se de repente fosse acontecer uma desgraça.
- Ora!... Mariquices tuas.
A velha sentara-se no mocho. Sem deixar de abanar, limpava os olhos a uma das pontas do lenço. A pele, repuxada sobre os malares descarnados e sobre o nariz agudo, avermelhou:
- Tu nunca mais te esqueces do Zambujal, mulher.
-Como quer a mãe que me esqueça?
Fora, o choro do vento esvaía-se, numa agonia.
Amanda Carrusca olhou para o lume tomada de súbita tristeza:
-O meu mal é que já não tem sítio onde mude... Estou que nem me posso mexer, com dores.
Rápida, Júlia voltou-se:
-Você só pensa em si! Se lhe digo que me sinto mal, a senhora está sempre pior! - nervosa, pegou na cafeteira, foi ao poial das bilhas, encheu-a de água, e veio pô-la sobre a trempe. -Sempre gostava de saber o que lhe dói!...
Amanda Carrusca ensimesmou-se. Depois de reconsiderar longamente, encolheu a cabeça entre os ombros aguçados:
-Eu sei lá... É assim uma dor -e as mãos descarnadas tactearam sobre o peito, sobre as ilhargas. -Nem eu sei ao certo...
-Ora aí está!...
Acocorada, Júlia separava as cavacas e metia-as no lume. Mas o gemido do vento trespassou de novo a telha-vã; largou as achas e levantou-se:
-Isso é do caruncho dos anos, senhora!
Os olhos miúdos de Amanda rebrilharam, límpidos e intensos:
-Estás enganada que não sou assim tão velha como tudo isso. O caruncho é de outra coisa.
Pegou no abano e esganiçou-se, espevitada:
-Olha! Dês que me conheço, que a minha vida foi sempre a lidar. Caruncho dos anos... Por último, já tinha netos, até ceifei!
Júlia estava agora mais calma. As palavras exaltadas de ambas haviam quebrado um pouco a fria solidão do casebre. O vento soava, mais brando, com um ruído estrangulado pelo cano da chaminé.
-Ceifar!... No meu tempo, era trabalho só para homens. Mas a vida deu uma grande volta...
Ajeitou os cabelos de um branco sujo sob o lenço puído. «Que a vida nunca foi boa, isso não», prosseguiu a velha, lentamente, como se falasse para ela própria:
-Mas vinha o Natal e os lavradores davam pedaços de toucinho. No Ano Novo, a gente ia por essas herdades cantar as Janeiras, e vinham chouriços, paios, bocados de lombo. E, em toda a roda do ano, sempre lhes sobravam umas pingas de azeite e uns saquitos de farinha. Agora, é tudo compra-do... Quem há aí, na classe dos lavradores, que dê sequer dois dedos de toucinho?
De rosto lasso, Amanda repetiu, olhando para o lume com suavidade:
-Toucinho...
O gato atravessara a porta, num salto, e viera silenciosamente até à lareira. Expôs ambos os lados do corpo ao calor, arqueou a espinha num movimento gracioso, patas esticadas, e abriu a boca num bocejo que fez tremer a grande sombra desenhada na parede.
-O raio do gato anda farto!... -exclamou a velha mudando bruscamente.
-Pudera -disse Júlia. -Tem andado aos ratos, lá pelo barranco.
Mas Amanda voltara a cabeça para o lume:
-Se eu gostava de toucinho...Quando era daquele alto, cozido com feijão, comia-o às garfadas. A minha pena foi nunca comer quanto a barriga me pedia.
-Eu também gostava muito de toucinho -murmurou Júlia, sentando-se a olhar para o chão. -Mas frito, em fatias delgadas. Lembra-me sempre lá no Zambujal... Pela manhã, no Inverno, punha-me a comê-las com pão, até a lavradora olhar para mim e dizer: «Oh, moça, olha que arrebentas!» Se ela era minha amiga...
Os olhos da velha reluziam por entre as sombras das chamas que lhe bailavam no rosto:
-Ó Júlia! E pedaços de lombo fritos na banha vermelha?
-Lá no Zambujal -continuava Júlia -havia sempre comida à farta, e eu servia-me de tudo que ia para a mesa dos patrões. Era a única criada a quem consentiam isso.
A voz das mulheres havia-se tornado lenta e cheia de uma ternura tensa.
-Nunca me enjoava de carne, fosse qual fosse -lembrava Amanda Carrusca. - De porco, então, isso nem se fala. Como eu gostava de sentir a gordura a escorrer-me pelo queixo a abaixo!...
Com a cabeça levemente inclinada, Júlia olhava para a faca. No rosto e nos olhos desviados, imobilizara-se a suave expressão de quem recorda. A pouco e pouco, os lábios enrugaram-se-lhe, num trejeito de desânimo. Ergueu a cabeça:
-A pena que me deu quando saí lá do Zambujal...
E ia dizer ainda qualquer coisa quando reparou nas magras e escuras fatias dentro da tigela. Meio pão. Apenas meio pão, nada mais que isso. Mexeu os lábios mas não conseguiu falar; ficou muda, de olhos pregados na tigela.
No silêncio do casebre, a ventania ressoou solta; introduziu-se entre as telhas que se tocaram num ruído tilintado; no cano da lareira, rumorejou, soturno, abafando a chiada rabugenta da água a ferver sobre a trempe.
Os dedos de Amanda Carrusca haviam penetrado pela abertura da blusa e procuravam entre a camisa e a pele. Tirou-os, esfregou sisudamente o polegar contra o indicador; abriu-os, e a pulga estalou dentro do lume.
Saciado, o gato abriu de novo a boca, bocejando. Ligeira, a velha levantou a tenaz; mas o gato furtou-se à pancada com um meneio delicado de corpo. Rodeou o lume, e foi deitar-se no outro canto.
-Oh, senhora? -gritou Júlia, subitamente irritada.- Que mal lhe fez o bicho?!
-Nenhum. Mas então que queres? Dá-me zanga o raio do gato.
Deixando cair a tenaz sobre a pedra da lareira, quase sem transição, Amanda recomeçou:
-Pois é verdade... Isto deu uma grande volta. Aquela raça dos lavradores antigos acabou-se. Os de hoje já não dão nada. Moram nas vilas, têm casas nas cidades, não dão um passo sem ser de auto-móvel, inventam festas, não há cinemas nem teatros a que faltem. E para um estadão desses é preciso dinheiro e mais dinheiro; nunca se fartam. Por isso é que eles nos açulam os feitores às canelas, que nem deixam o pessoal respirar. Agora é tudo à má-cara e de relógio na mão. Se até inventaram leis para um trabalhador ir abaixar-se atrás duma moita!
Amanda Carrusca desviou os olhos para o lume. Esteve assim por momentos, depois olhou para a filha:
-Uma coisa é certa: o mau passadio e as muitas canseiras é que foram o caruncho. Quem diz a verdade é o teu marido. Que já não valho as sopas que como, diz ele. E é assim mesmo.
-Mas quem lhe disse essa mentira, criatura? -Ninguém.
-Então como sabe?
-Ora! Calculo eu.
As mãos de Júlia espalmaram-se sobre as saias; alterada, movia a cabeça de um lado a outro:
-Você passa o tempo a magicar coisas só para me fazer danar! Acha que é pequeno o inferno em que vivo? Acha?
Amanda Carrusca entesou o busto; as pontas do lenço atadas debaixo do queixo adiantaram-se, tré-mulas:
-Oh, mulher! Se ele o dissesse, não era motivo para tanta espantação! Já dei o que tinha a dar e a culpa não é minha, pronto. Comecei por guardar porcos; agora cuido do teu filho.
-Vejam lá!... O que para aí tem dito só porque lhe chamei velha... Você é mesmo geniosa, senhora!
O estampido de um tiro estalou ao longe, passou pelo casebre, e prolongou-se, despegando ecos de barranco em barranco. As duas mulheres levantaram-se ao mesmo tempo e ficaram a olhar-se, ansiadas, até o som morrer, levado pelo vento.
-Teria ele matado o coelho? ...
-Decerto que matou! -e Amanda Carrusca, de olhos rebrilhantes, esfregava as mãos. -O teu homem nunca erra um tiro!
Júlia pegou na tigela cheia de pão migado:
-Que Deus a oiça!... Bem. Agora a mãe vá buscar o Bento. Veja se consegue trazê-lo que já está muito frio.
As duas mulheres mexeram-se, apressadas e leves, na penumbra da casa. Amanda suspendeu o abano do prego, foi à porta, e gritou com voz esganiçada:
-Anda cá, Bento!
Segurou o bico do lenço, cuja ponta negra lhe voejava sobre as costas como uma asa, e pôs a outra mão ao lado da boca:
-Pois tu não ouves, Bento?
Por cima das estevas, o penacho dos cabelos amarelos ia e vinha num baloiço certo. Amanda saiu ao terreiro. O vento pegou-lhe nas saias e subiu-lhe pelas pernas; um arrepio obrigou-a a aconchegar os antebraços sobre a cintura. Junto do monte de pedras quase tapadas pela terra, avançou cautelosamente.
-Vamos, Bento. Anda para casa.
Ao apelo respondeu um grunhido que se foi modulando ao compasso do incessante movimento de vaivém que Bento imprimia ao tronco.
-Vamos.
O grunhido foi-se calando com o ritmo cada vez mais vagaroso do baloiço. Com a cara de lado, Bento correu o olhar pelo corpo da avó, lentamente, desde os pés à cabeça, até ficar imóvel, de queixo levantado. As pálpebras roxas abriam-se-lhe desmesuradamente como se uma névoa lhe turvasse a vista. A cabeça torcida e o jeito dos braços soerguidos desenhavam-no na atitude de espanto e de alerta do animal que se apercebe da aproximação do inimigo.
A medo, Amanda adiantou a mão até tocar-lhe no ombro:
-Anda, Bento.
Mas retirou-a vivamente. O neto arremetera, e com os dentes apanhara-lhe o braço um pouco acima do pulso. Do choque, Amanda rolou pelo monte de pedras, safando o braço num esticão.
Já fora de perigo, meio acocorada, observou através do rasgão recém-aberto as duas manchas avermelhadas que afloravam sobre a pele. Olhou em redor pelo chão lamacento; apressada, curvou-se e tentou tirar uma pedra. Mas o pedregulho estava encravado na terra e não saiu. Os olhos da velha fixaram-se sobre o neto. Avançou, devagar, e atirou-lhe um pontapé ao joelho. Bento arremeteu outra vez. Arrastava-se, ajudando com as mãos.
As arrecuas, Amanda procurava agora o momento oportuno para novo pontapé. O vento enfunava-lhe as saias e a ponta do lenço, dobrada para o alto da cabeça, semelhava uma enorme crista negra.
De súbito, o temor fê-la correr para casa. Perto, voltou-se. O corpo franzino de Bento permanecia ainda na mesma atitude: os dentes arreganhados, o braço erguido e arqueado como uma pata pres-tes a desferir o golpe.
Esfregando sobre a palma da mão o pulso dorido, Amanda Carrusca cruzou a soleira. Sentou-se no mocho, poisou o olhar nas chamas, e disse com voz amarga:
-Vai tu buscá-lo que ele não quer vir .
-Eu? Deixe lá; espera-se que o pai chegue. De há um tempo para cá, até ando com medo dele.
-Raio de mulher, que tem medo de tudo!
Reanimada pelo calor brando do lume, Amanda aconchegou-se melhor. Abriu as pernas e puxou as saias ao meio das canelas:
-Pois olha, se tu quiseres, eu pego aí num pau e verás se o trago ou não para casa.
A cabeça adiantou-se-lhe quase toda fora do lenço:
-Queres?
-O moço é algum cão, senhora?
Escarninha e azeda, a cara de Amanda Carrusca reentrou no bioco do lenço:
-Pudera! Não há-de ele fazer o que quer!... Olha para isto; atirou-me ao chão, e ainda por cima me mordeu.
O rosto macilento de Júlia inclinou-se para o pulso que a velha lhe estendia:
-Que quer que lhe faça? Quer que mate o moço? Isso, também, nem ferida fez. O pior foi o rasgão.
-Pois, o pior foi o rasgão! -exclamou Amanda, erguendo as mãos e deixando-as cair abertas sobre os joelhos E eu, que me não posso mexer com dores, que seja mordida e derrubada!
Irritada, Júlia explodiu:
-Deixe-me, deixe-me!
Mas a velha levantou-se, afastou-a, e correu para a porta. Modificando a expressão por completo, Júlia seguiu-a.
-Lá vem o teu homem!... -disse Amanda Carrusca, semicerrando os olhos. -Vês alguma coisa? Ainda não alcanço bem daqui!... Tu vês, vês o coelho?...
Longe, na tarde tempestuosa, por momentos o perfil do Palma apareceu, negro, no alto duma colina, com a espingarda segura pela câmara. Logo se sumiu, entre estevas.
Especadas sobre a soleira, as duas mulheres aguardavam numa grande incerteza. O próprio casebre parecia compartilhar da mesma expectativa. Estava meio em ruínas. O sol, chuvadas e ventanias haviam comido a cal e aberto fendas nas paredes. O telhado abatera-se numa breve reentrância, como um quarto crescente com os bicos voltados para o céu. E os buracos mal desenhados das janelas sem vidros fitavam com espanto a agressiva desolação da planície.



Manuel da Fonseca