11/08/2008

Kium Tseu, o poeta pintor


Como se fosse o centro do mundo, a mancha imóvel do lago Song. A envolver o lago, os ombros possantes das montanhas, de um verde que escurece à luz do entardecer. Tudo igual a um quadro.
Sentado num cais de junco que range, Kium Tseu, o poeta pintor, fecha os olhos e guarda na memória a paisagem. Amanhã ou depois há-de reproduzi-la por palavras e cores, sem esquecer o mínimo pormenor...
Ele próprio se fará representar na pintura, mas tão despercebido na minúscula enseada do cais, que mais ninguém adivinhará que aquela linha rosa, contornando um corpo debruçado sobre o azul do lago, é Kium Tseu, o poeta pintor. Tal como a sombra de um insecto na pétala de uma rosa, dirá, de si para si sorrindo, Kium Tseu.
Humilde e discreto já sabemos que ele é. Mas triste também, podemos acrescentar. E porquê?
Não nos adiantemos aos seus passos. Sigamo-lo, agora que ele se levanta e se encaminha pela senda da montanha, costeira à falésia, que leva até à aldeia onde mora Kium Tseu. Um último olhar, abrangendo o lago, a afundar-se no crepúsculo, e ala que a ladeira grimpa e a noite não tarda.
À medida que sobe, Kium Tseu vai pensando. Quem diria que a paisagem generosa, que ele traz nos olhos, afinal não lhe pertence? Nem a ele nem aos seus parentes nem a todos os da sua raça, que nasceram naquela terra de árvores emplumadas, onde a fonte da vida oferece abundância e felicidade a quem dela se acerque...
Quem diria que outros, vindos da secura dos desertos, se apoderaram das fontes e dos rios e dos lagos e usurparam as terras e ditaram vontades em língua estranha e aprisionaram e torturaram e aniquilaram os que, contra os seus desmandos de conquistadores, se insurgi-ram? Quem diria que por detrás da placidez das montanhas uma cidade ouriçada de ferro impõe a sua lei às cidades e aldeias em redor? Quem diria que tudo, absolutamente tudo, até a pedra que a sandália de Kium Tseu desloca do caminho tem um dono estrangeiro?
A meio da encosta eis que acode ao ouvido do pintor a cadência de um poema.

Muito se tem chorado nesta terra.
A corda da lamúria renova-se sempre.
São os olhos dos homens que choram.
As lágrimas sobem-lhes do coração
que bate assustado como asas de pássaro prisioneiro.
Não peçam ao vento que lhes seque o pranto.

Kium Tseu chega à choupana, quando a Lua Cheia assoma aos ramos dos abetos. O pintor traz uma preocupação urgente. Espevita a lamparina de barro, constantemente acesa junto ao canto da oficina, onde guarda os apetrechos de pintura e certifica-se do que temia. Precisa de açafrão e fécula de arroz, para dar consistência às tintas. Amanhã cedo terá de ir à cidade, para se abastecer na tenda de Ho-pei, ao lado da loja do pasteleiro Hang-Tché.
Suspira de desânimo o poeta pintor. Por sua vontade viveria sempre rodeado dos perfumes do campo. Custa-lhe ter de enfrentar os pavilhões e as torres cor de ouro, onde mora o rei dos tiranos. Novo suspiro, mas de resignação...

Acocorado à porta da loja, debaixo de um guarda-sol azul, Ho-pei cata o bicho do grão, espalhado à sua frente, num avental de cânhamo.
Kium Tseu saúda o mercador com a vénia de cortesia reservada aos mais velhos e aguarda. Nunca se deve interpelar um ancião, sem que ele primeiro nos pergunte ao que vimos. O preceito aprendido na infância é, neste caso, particularmente incómodo, porque Ho-pei não se dispõe a atendê-lo, entretido que está na caça ao percevejo do grão.
- Há que dar cabo do inimigo - proclama Ho-pei, como se estivesse a falar para uma grande assembleia de grãos. - Não pode escapar nenhum.
Bicho que apanhe, trinca e cospe, e a cara enruga-se-lhe num esgar de nojo.
Kium Tseu agacha-se ao lado do velho, disposto a ajudá-lo.
- Já foste buscar ao pasteleiro o teu bolo lunar? - pergunta desprevenidamente Ho-pei.
- Bolo lunar? Não sei de que bolo fala, venerável Ho-pei - intriga-se o poeta pintor.
- Por não saberes é que vais comprá-lo. Apressa-te -diz-lhe Ho-pei com um risinho perverso. - Eu já comprei o meu. Mas segue o meu conselho, rapaz: não comas o bolo antes da meia-noite. Se não seguires esta praxe, terás um amargo de boca...
- Assim farei, respeitável Ho-pei.
O velho despacha-o com um gesto. Está demasiadamente ocupado a batalhar com o bicho do grão para atender clientes.
Quando Kium Tseu afasta a cortina de junco que protege a entrada da loja do pasteleiro, ainda ouve a voz fanhosa de Ho-pei:
- Nem um só há-de escapar!

De regresso à sua cabana, Kium Tseu medita sobre a inutilidade da ida à cidade. Preparara-se para adquirir materiais para as pinturas e traz, em vez disso, um bolo em feitio de Lua Cheia, que o pasteleiro lhe entregou com ares misteriosos. Tudo muito estranho. Mas resigna--se, recordando a frase de um sábio antigo: «Só daqui a muitos anos saberás se o teu dia de hoje foi em vão...»

O pintor poeta não teve de esperar tanto tempo. Nessa mesma noite, ao abrir o bolo, seguindo o conselho de Ho-pei, lá encontrou, muito bem dobrada, uma mensagem que era uma proclamação patriótica e uma convocatória para o levantamento de todos os cidadãos contra o dominador estrangeiro.

Os campos sussurram no escuro. Uma constelação de milhares de lamparinas encaminha-se para a cidade armoriada. De outros pontos do país, à mesma hora, muitos mais milhares convergem para a vingança. Receberam todos o mesmo recado no bolo em forma de Lua, que centenas de pasteleiros de uma seita secreta fabricaram para dar o aviso e instigar à vitória. Kium Tseu vai no meio da multidão, mas não traz armas. O entusiasmo que lhe impulsiona os passos dita-lhe um poema:

Sentado sobre doze peles de tigre
o Grande Usurpador bocejava de fastio.
Esfarelou com os dedos cobertos de anéis,
torrão a torrão, uma terra que prometia abundância
e espreguiça-se, agora, prestes a adormecer.
Um enorme trovão rompe o ar e desperta-o.
As peles de tigre, uma a uma, começam a mirrar.
Desequilibra-se o Usurpador do seu fofo pedestal.
Eram de tigre as peles e são agora de lagarto
e o Usurpador trémulo transforma-se em sapo
que um chuço impiedoso trespassa de vez.
Não foi tal e qual assim que tudo se passou, mas quase.

O levantamento do povo chinês contra a ocupação mongol, no século XVI, expulsou o opressor, depois de prolongadas lutas. Não custa a acreditar na lenda que atribui o êxito da conspiração ao bolo lunar, mensageiro secreto dos insurrectos. Fundamentada a história ou não, nas festividades do meio do Outono, mais precisamente no décimo quinto dia da oitava lua, o bolo lunar, feito de massa de amêndoa, semente de lótus e outros preparos, é consumido sacramental mente em Macau e por toda a China.
A festa tradicional do equinócio do Outono ou Pat Ut Sap Ng está profundamente ligada à vida do campo. Depois das colheitas, o lavrador vende o produto do seu trabalho agrícola e respira fundo. A festa é sempre a descompressão e o ganhar de forças para novas tarefas.
Recuando no tempo, podemos imaginar Kium Tseu, o poeta pintor, de novo no cais de junco debruçado sobre o lago Song. Tudo intacto como da outra vez que o contemplou, mas tão diferente agora.
Kium Tseu solta um longo suspiro de alívio, que não assusta o voar de uma borboleta divagante nem se comunica à paisagem, sempre imperturbável. Dispostos os apetrechos de pintura, estendido e bem aplicado sobre a prancha lisa de cerejo o rolo de papel de arroz, Kium Tseu cerra as pálpebras por momentos. Pensa: «Para chamarmos às paisagens nossas, temos de combater por elas».
Com esta sensação de dever bem cumprido, Kium Tseu, o poeta pintor, reabre os olhos e, em gestos meticulosos, começa a cativar para a pintura o lago, as montanhas, o cais de junco, que já nenhum poder estrangeiro detém.


António Torrado