24/08/2008

A Galinha


Minha mãe e minha tia foram à feira. Minha mãe com o meu pai e minha tia com o meu tio. Mas todos juntos. Na camioneta da carreira. Na feira compraram muitas coisas e a certa altura minha mãe viu uma galinha e disse:

- Olha que galinha engraçada.

E comprou-a também. Estava agachada como se a pôr ovos ou a chocá-los. Era castanha nas asas, menos castanha para o pescoço, e a crista e o bico tinham a cor de um bico e de uma crista. Nas costas levara um corte a toda a volta para se formar uma tampa e meterem coisas dentro, porque era uma galinha de barro. Minha tia, que se tinha afastado, veio ver, estava a minha mãe a pagar depois de discutir. E perguntou quanto custava. A mulher disse que vinte mil réis, minha tia começou aos berros, que aquilo só se o fosse roubar, e a mulher vendeu-lhe uma outra igual por sete mil e quinhentos. Minha mãe aí não se conformou, porque tinha regateado mas só conseguira baixar para doze e duzentos. A mulher disse:

- Foi por ser a última, minha senhora.

Minha tia confrontou as duas galinhas, que eram iguais, achando que a de minha mãe era diferente.
- Só se foi por ser mais cara – disse minha mãe com a ironia que pôde.

Minha tia aqui voltou a erguer a voz. Não se via que era diferente? Não se via que tinha o bico mais perfeito? E o rabo?

- Isto é lá rabo que se compare?

E tais coisas disse e tantas, com gente já a chegar-se, que minha mãe pôs fim ao sermão, por não gostar de trovoadas :

- Mas se gostas mais desta, leva-a, mulher.

Foi o que ela quis ouvir. Trocou logo as galinhas, mas ainda disse:

- Mas sempre te digo que a minha é de mais dura, basta bater-lhe assim (bateu) para se ver que é mais forte.

- Então fica com ela outra vez – disse minha mãe.

- Não, não. Trafulhices, não. Está trocada, está trocada.

Meu tio estava a assistir mas não dizia nada, porque minha tia dizia tudo por ele e, se dissesse alguma coisa de sua invenção, minha tia engolia-o. Meu pai também estava a assistir, mas também não dizia nada, por entender que aquilo era assunto de mulheres. Acabadas as compras, minha mãe voltou logo com o meu pai na carroça do António Capador que tinha ido vender um porco. Mas a minha tia ficava ainda com o meu tio, porque precisavam de ir visitar a D. Aurélia, que era uma pessoa importante e merecia por isso uma visita para se ser também um pouco importante. E como ficavam e só voltavam na camioneta da carreira, a minha tia pediu a minha mãe que lhe trouxesse a galinha, para não andar com ela o dia inteiro num braçado, que até se podia partir. De modo que disse:

- Tu podias levar-me a galinha, para não andar com ela o dia inteiro num braçado, que até se pode partir.
Minha mãe trouxe, pois, as duas galinhas na carroça do António Capador, e a minha tia ficou. E quando à tarde ela voltou da feira, foi logo buscar a sua. Minha mãe já a tinha ali, embrulhada e tudo como minha tia a deixara, e deu-lha. Mas minha tia olhou a galinha de minha mãe, que já estava exposta no aparador, e, ao dar meia volta, quando se ia embora, não resistiu:

- Tu trocaste mas foi as galinhas.

Disse isto de costas, mas com firmeza, como quem se atira de cabeça. E minha mãe pasmou, de mãos erguidas ao céu:

- Louvado e adorado seja o Santíssimo Nome de Jesus! Então eu toquei lá na galinha! Então a galinha não está ainda conforme tu ma entregaste! Então tu não vês ainda o papel dobrado? Então não estarás a ver o nó do fio?

Estavam só as duas e puderam desabafar.

- Trocaste, trocaste. Mas fica lá com a galinha, que não fico mais pobre por isso.

Minha mãe, cheia de compreensão cristã e de horror às trovoadas, ainda pensou em destrocar tudo outra vez. Mas aquilo já ia tão para além do que Cristo previra, que bateu o pé:

- Pois fico com ela, não a quisesses trocar. Só tens gosto naquilo que é dos outros.

E daqui para a frente, disseram tudo. Minha tia saiu num vendaval, desceu as escadas ainda aos berros, de modo que minha mãe teve ainda de vir à janela dizer mais coisas. Minha tia foi indo pela rua adiante, sempre aos gritos, e de vez em quando parava, voltando-se para trás para dizer uma ou outra coisa em especial a minha mãe, que estava à janela e lhe ia também respondendo como podia. Até que a rua acabou e minha mãe fechou a janela. E aí começou o meu pai, quando lá longe minha tia lhe passou ao pé e meu pai lhe perguntou o que havia e ela lhe disse o que havia, chamando mentirosa a minha mãe. Meu pai então disse:

- Mentirosa é você.

E começou a apresentar-lhe os factos comprovativos do que afirmara e que já tinha decerto enaipados de outras ocasiões, porque não se engasgava:

- Mentirosa é você e sempre o foi. Já quando você contou a história do Corneta, andou a dizer que...

- Mentiroso é você, como sua mulher. Uma vez na padaria a sua mulher disse que:

E daí foram recuando no tempo à procura das mentiras um do outro. Estavam já chegando à infância, quando apareceu o meu tio. Minha tia passou-lhe a palavra e começou ele. Mas como a coisa agora era entre homens, meu tio cerrou os punhos e disse:

- Eu mato-o, eu mato-o.

Meu pai, que já devia estar cansado, ficou quieto, à espera que ele o matasse, e como ficou quieto, meu tio recuou uns passos, tapou os olhos com um braço e disse outra vez:

- Foge da minha vista que eu mato-te.

Entretanto olhou em volta à espera que o segurassem. E quando calculou que tudo estava a postos para o segurarem, ergueu outra vez os punhos e avançou para o meu pai. Finalmente seguraram-no, e meu tio estrebuchou a querer libertar-se para matar o meu pai. Mas lá o foram arrastando, enquanto o meu tio se voltava ainda para trás, escabujando de raiva e de ameaça.

E chegada a coisa a este ponto, era a altura de se formarem partidos, como sempre que há uma razão para se formarem partidos. Velhos ódios, invejas, ciúmes vieram ao de cima para um ajuste de contas. No domingo seguinte, já com o vinho a empurrar, houve mesmo facadas. O Corneta tinha com o Catrelha uma questão de águas de há séculos e aproveitou. Os partidos subdividiram-se assim em grupos pelo Catrelha e pelo Corneta. Foi quando o Bóia, que não gramava o Capador desde a história de um porco mal capado, adiantou na taberna que as galinhas possivelmente tinham sido trocadas por ele, que não gramava o meu tio desde uma histó- ria de mordomia do Mártir S. Sebastião. O Carapanta ouviu e foi dizer. Num outro domingo, e já entusiasmado de briol, o Capador pediu satisfações. Armou-se então um arraial cujo balanço deu três feridos com facadas, dois à paulada e um morto com um tiro de caçadeira. E desde então toda a aldeia ficou em pé de guerra. Metade da população foi metida na cadeia, mas depois de muitos interrogatórios não se passou daquilo que já se sabia e era quem tinha ficado ferido e quem tinha ficado morto. De modo que se reconstituiu a população com a libertação dos presos. E dado isso, recomeçou-se outra vez. No domingo seguinte, melhorou-se o saldo com dois mortos e vinte feridos. Veio a guarda e levou a outra metade da população com um ou outro ele- mento da primeira metade. Mas não se melhorando o resultado das investigações, uns dois ou três meses depois voltou tudo para casa, até porque a metade que ficara livre ia continuando o trabalho, com um saldo, aliás pouco brilhante, de cinco feridos e um moribundo. Trocadas as metades e recomeça- das as investigações sem resultado, houve quem propusesse meter tudo na cadeia. Mas havia o problema dos velhos e das crianças que precisavam dos outros e talvez estivessem inocentes, e veio tudo outra vez para a rua. Mas agora, aos domingos, a aldeia ficava coalhada de guardas. A princípio deu resultado, porque nas discussões não se passou de palavras. Até que certa vez uma pedrada anónima acertou em cheio na cabeça de um agente e logo se armou uma sarrabulhada enorme, com gritos, gente a fugir e tiroteio para o ar. E como a dada altura as pedradas recomeçaram, o tiroteio recomeçou também, mas mais baixo. O saldo dessa vez foi francamente positivo, com cinco mortos e vinte feridos. E como a luta continuou, alguns habitantes, que não podiam estar à espera de que acabasse, foram morrendo de morte natural. E como havia intervalos na luta com a autoridade, alguns habitantes aproveitavam para irem entre si acertando contas em atraso.

Verificada a certa altura a insuficiência da guarda, veio a tropa. Primeiro a infantaria, depois a cavalaria, esperando-se depois a artilharia. Reduzida a população a metade, também as habitações, talvez por serem desnecessárias, ficaram reduzidas a metade. E quando finalmente os combatentes rarearam ou sucumbiram a uma imprevista cobardia, a luta cessou. E acabada a luta, recomeçou a paz. No meu balanço pessoal verifiquei a morte de meu tio com três facadas a uma esquina e a morte natural de meu pai, que aliás, cumprida a sua missão no barulho, se reformara logo a seguir. E alguns anos depois de se fazerem as pazes, morreu minha mãe.

Como eu era o único herdeiro, dispus-me a tomar posse do que era meu. Mas por isso mesmo, a primeira coisa que entendi necessária foi arrumar a cacaria com que minha mãe fora adornando a casa. Antes de mais atirei-me aos santos de toda a hierarquia celeste, porque sou ateu. Havia-os em estampas, em louça, em metal. Dependurados em molduras, metidos em redomas, com ou sem lamparina. E em livros de missa, folha sim, folha não. E, escacada a santaria, dispus-me a atacar o resto. Irritavam-me sobretudo os vasinhos que se multiplicavam por todo o lado e umas andorinhas em louça pregadas na parede da sala de visitas. E estava eu nisto quando chegou a minha tia. Ela fora ao enterro de minha mãe, fora lá a casa dar os sentimentos, abraçando-se-me aos gritos antes de eu ter tempo de uma reacção apropriada. Entrada que foi agora, estava eu na tarefa da limpeza, sentou-se compungida e disse:

-Olha, filho, o que lá vai lá vai e só Deus sabe o que tenho chorado e rezado pela tua mãe.

Calou-se. Eu, como não tinha nada a objectar, também não disse nada. E minha tia, aproveitando o silêncio, disse:

- Ai!...

Eu continuei calado, por não haver razão para falar. Mas qualquer coisa em mim se fora preparando para o que viria, porque quando veio não me surpreendi. E o que veio foi:

-Olha, meu filho.

Minto. Antes disso, minha tia disse ainda:

- Ai!...

E só então, sim:

-Olha, meu filho, eu tinha uma coisa a pedir-te. Tu sabes, enfim, como foi o caso da galinha. A tua mãe, que Deus tenha. ..

Interrompi-a:

-Quer a galinha? Leve-a.

Ela teve ainda um clarão de cólera:

-Não a quero! Não quero o que é teu! Quero só, só o que é meu!

E amansou. Baixou o tom:

-Queria só que ma trocasses. Trago aqui esta.

E tirou-a de um cabaz, pondo-a ao pé da outra no aparador. Eu sorri:

-Leve as duas.

-Não quero o que é teu! -disse ela outra vez, alçando o tom.

Sorri outra vez também:

-Deixe então essa e leve a outra.

Ela agradeceu, já sossegada, de olhos baixos e virtuosos. Abri a tampa da galinha - estava cheia de estampas, carros de linha, agulhas, amostras de fazenda. E comecei a tirar. Minha tia, então, de súbito, deitou as mãos ao ventre, ergueu para mim uns olhos necesssitados.

-Ao fundo do corredor - disse eu. - Veja se há papel.

Ela foi, eu continuei o despejo. No fundo da galinha havia uma estampa de Santa Bárbara. Achei piada, deixei-a ficar. Especializada em trovoadas, a santa, tê-Ia-ia posto ali a minha mãe? Deixei-a ficar. Minha tia regressou, mais reconciliada com a vida. Fui dentro procurar papel para o embrulho, mas ela interrompeu-me:

-Não é preciso.

Mal eu virara costas, empalmara logo a galinha, metera-a no cesto. Abraçou-me e chorou. Não percebi porquê - chorou. Acompanhei-a à porta, regressei à sala. Então, com um ódio reforçado, fui-me à galinha de martelo no ar. Os cacos voaram para todo o lado. Já não havia mais galinha, mas eu continuava a martelar. Até que, enfim, parei. E só então é que vi: entre toda a cacaria que se espalhara em volta, mesmo no meio dos destroços, estava a estampa de Santa Bárbara.



Vergílio Ferreira, Contos