19/07/2008

Vae Victoribus!


A Maria Lucília


Em Dezembro, às seis é noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a essa hora recolhia do monte o José Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima dele, o céu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa de tempestade que infunde pavor à gente, e da qual os próprios pássaros têm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora, agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar não sei que estranha elegia... A um relâmpago mais vivo, o José Gaio apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a Magnificat. O trovão chegou depois, lúgubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude do céu. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento, encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não ficava longe. Depois, a ladeira, – e no meio da ladeira a casa.
– Vamo’ lá com Deus! – fazia ele animando-se.
Um clarão súbito de relâmpago deslumbrou-o.
Diante dele surgiu de repente a paisagem, e de repente desapareceu, magicamente iluminada. Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão, que ele instintivamente parou e levou ao céu as mãos aflitas, num gesto de quem implora misericórdia. Naquela iminência de perigos as próprias árvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror, à beira do caminho. E através dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz implorativa da natureza, unindo-se à voz dele num longo coro de súplicas...

O José Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber de onde, alguém chamou por ele, lugubremente:
– Ó José Gaio!
O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braços da cruz negra, que era o sinal de ali terem matado o José Tendeiro, há anos, apertou o passo e tomou por um atalho, direito à ponte. Mas então a mesma voz tornou-lhe mais de perto:
– Ó José Gaio!
Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um relâmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com força, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma imobilidade de estátua prendia o camponês à terra. Foi então que veio de novo aquela voz, como um prolongamento do trovão:
– Ó José Gaio!
Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta, galgaria a ladeira num instante. Mas, involuntariamente, cedendo a uma força violentíssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da água que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monótono, infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão quando, estacou ouvindo a mesma voz:
– Ó José Gaio!
E logo atrás da voz, com um rastro, um intensíssimo relâmpago cor de sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a tempestade...
Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os olhos e cerrou violentamente as pálpebras. Mas em vão! que fora tão vivo o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cérebro, que num fundo cor de sangue, como num transparente de mágica, ele via nitidamente desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então deram-lhe ímpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o peito, impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar:
– Ó José Gaio!
Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais íntimo do seu ser. Um longo desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a última fibra de energia, como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe também o cérebro: não formava um só raciocínio nem elaborava sequer uma ideia, a mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo ele tremer, abalado como a própria terra. Depois, outro relâmpago fez reviver nele a vida do espírito; sentiu um grande pavor àquele aspecto súbito do campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda casais, surgiam de repente, nítidos nos seus contornos, definidos maravilhosamente nas suas atitudes. As grandes árvores despidas, sobretudo, tinham um ar fantástico, nessa pureza nítida de recorte que traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No meio deste cenário de mágica, a um tempo majestoso e tétrico, o triste camponês sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado à terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um só gesto implorativo, e nem uma só palavra de súplica lhe saía dos lábios crispados. Porque uma vez que tentara uma palavra, o mais formidável trovão cortara-lha na primeira sílaba. Depois, aquela voz não o largava, imperturbável e monótona:
– Ó José Gaio!
E ele, não respondendo nem falando, pensava esconjurá-la, exorcismá-la como se fosse a voz de um duende. E para esta evocação do sobrenatural muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da cruz negra, inabalável sob a asa agitada da procela.
Nisto veio a chuva, em grossas gotas a princípio, em cordas de água depois. Ela varejava-o inclemente, impelida agora por um vento sul furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer. Como todo ele ardia em febre, aquele dilúvio era quase um celeste beneficio para a sua cabeça num vulcão. Mas quando os relâmpagos vieram, aquela reverberação da luz nas cordas de água fez-lhe um deslumbramento mais forte. E caiu inerte sobre o caminho lamacento por onde a água escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume, sobrelevando o trovão, repetia ao lado da cruz:
– Ó José Gaio!
Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como caiu assim ficou: – de borco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quase tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relâmpago. Ela lá estava no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E pois que parara o dilúvio, dos seus braços abertos as gotas da chuva caíam, vermelhas à luz como grossas lágrimas de sangue...
Cobarde! Nenhuma comparação pode dar ideia do estado de prostração desse miserável, reduzido pelo terror a uma quase inacção de besta morta. Dir-se-ia um imundo trapo ali caído, abandonado ali na lama ignóbil de um caminho, à espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E enquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastelamento fantástico das grandes nuvens plúmbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com fúria o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso espírito pode conceber de mais grandioso e de mais sublime, épico e trágico a um tempo, – soberbo, majestoso, imponente.
Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões, aquela voz:
– Ó José Gaio!
Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio agravava-lhe o outro, o do medo. Parecia colado à lama, preso ao caminho como se fosse uma rocha. No entanto, a espaços, tinha a compreensão clara da sua posição e do seu estado. E então uma raiva súbita galvanizava-o: queria erguer-se, fugir, desaparecer – erguer-se como aquela cruz, fugir como aquele vento, desaparecer como esses relâmpagos, que nem deixam rastro na treva...
Tais rebates de coragem eram, porém, efémeros, impotentes para lhe provocarem um movimento. Aquele diabo tinha de morrer ali, miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as quatro pernas. E esta ideia, que o instinto de viver lhe sugeriu, apavorou-o ainda mais que a própria tempestade. Morrer ali! Mas que dúvida, se ninguém lhe vinha acudir, se não passava por ali vivalma, a tais desoras! Era horrível! No meio de um caminho, numa noite medonha de tempestade, ao pé daquela cruz negra de longos braços hirtos – morrer ali!... Eram então já por ele as lágrimas que essa cruz parecia chorar?!...
Estava nisto, quando num silêncio de acaso ouviu passos a distância. Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por ali, de tropeçar nele, talvez. Subitamente, sentiu--se reviver. Estava salvo. Em breve estaria de pé, – de pé como essa cruz que um relâmpago muito vivo acabava de lhe mostrar... No entanto, a voz é que se não importava:
– Ó José Gaio!

Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o calcassem, reuniu num supremo esforço as máximas energias, e rebolou-se para um lado, até ficar detrás de umas urzes. Coisa notável foi, senhores, que esse miserável em vez de gritar calou-se, e todo se recolheu numa absoluta quietação, com medo que o surpreendessem... E quem quer que era passou, cabeça nua, diante da cruz gotejante... Aos ouvidos do miserável chegou um como murmúrio de prece... Não ia só a rezar; ia também chorando, aquele homem...
... Quem seria?
Um clarão branco de relâmpago fez irromper da treva, lívido como um espectro, o filho do José Tendeiro...

O desgraçado ia a chorar pelo pai, ali assassinado havia anos, por uma noite como aquela...
Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquele cobarde não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quase arrumado à cruz.
E assim esteve horas e horas até que, noite velha, cessou a tempestade, perdida num murmúrio longínquo, lá na extrema fímbria do horizonte... Quando a lua rompeu, lívida num céu de anil, nem a grande sombra da cruz, incidindo sobre aquele corpo, como um beijo ou uma bênção, logrou reanimá-lo. Tinha morrido, o estafermo!
Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abade foi depois buscar o corpo. Os médicos nem lhe tinham mexido.
– Sangue pelos olhos, sangue pela boca, sangue pelo nariz, uma congestão muito linda – dissera um a rir.
– E muito mal empregada! – fizera o outro do lado, indiferente.
Mas quando os da maca disseram a um tempo – Upa! – esse bom velho do abade caiu de joelhos diante da cruz, numa convulsão agudíssima de choro. E elevando ao céu as mãos mirradas – ao céu que um divino azul fazia diáfano – ele exclamou, soluçando:
- Senhor! Senhor! A vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa misericórdia!
…Segredo de confissão... – mas o abade bem sabia quem tinha ali matado o José Tendeiro...


Trindade Coelho, Os meus amores