12/04/2008

A Torre da Má Hora



Debaixo das estrelas, sentado no lancil do largo, Campanelo conta a história da Torre da Má Hora e os meninos estão, de roda, escutando. E, enquanto a sua fala vagarosa arrasta todos para longe, tira do bolso da jaqueta a onça e o livro de mortalhas e enrola um cigarro.

Os olhos das crianças abrem um silêncio tão grande que só se ouve a voz do homem e o dobrar do papel nos dedos grossos.

Voz e cigarro, vai tudo vagaroso, sem pressas, porque a história ainda está no princípio, assim como a noite. E pára, soprando a primeira fumaça. Agora mesmo espalmou as mãos sobre os joelhos dobrados e deixou os meninos mexerem-se, chegarem-se mais para perto, nervosos, adivinhando que a história vai tomar-lhes todo o interesse.

Aos olhos e ouvidos abertos, Campanelo demora as sílabas:

- Ora a fada disse: "Só lá há-de chegar quem para trás não olhar!..." Ia, pois, o menino andando, andando, quando avistou, a uma grande lonjura, a Torre da Má Hora!... muito alta e negra!...

Neste momento, a Lua, rompendo por detrás das muralhas do castelo, ilumina o largo. Os rapazinhos olham a Lua, a sombra das ruas e a cal branca das casas espantadas, na noite quieta.

Só o rapazinho do bibe preto fica imóvel - esguia e negra, nos seus olhos, desenha-se a Torre da Má Hora.

- E se ele olhasse para trás com medo dos gemidos e dos vultos que andavam na floresta?...Campanelo, se ele olhasse para trás?

O homem, tirando o cigarro da boca, alonga a voz:

- Ficava transformado numa estátua de pedra como o Príncipe Sem Coração. Olhar para trás e ter medo!

Como o homem se calasse tão bruscamente, o rapazinho faz estremecer os outros com a sua grande ansiedade:

- Continua lá, continua lá, Campanelo!

E vem-lhe à ideia - só agora, depois de tanta vez ouvir o Campanelo - que a sua vida é tal qual como a do menino que não tinha pai nem mãe e ia sozinho pelo mundo. Parece-lhe que outra voz lhe está soprando ao ouvido um cicio triste e lento...

Como os companheiros do largo, cresceu ao deus-dará. Decorou tudo, léguas em redor da vila, correndo estradas e caminhos velhos, atravessando renques de piteiras que cercam as vinhas, à mercê de um tiro de sal pelas pernas. E nem os muros altos, com os cães de guarda ladrando dentadas, defendiam o que houvesse para lá da sua curiosidade. Só quando subia às árvores na mira de ninhos e descobria algum, tão pequeno, com quatro biquinhos abertos, sequer lhe tocava e logo o esquecia, baloiçando nos ramos, feliz de se ver tão alto. E, nos barrancos, desertos por longe da vila, descobria esconderijos tão disfarçados e fáceis que, quando jogava aos "guardas e ladrões" (ele era sempre "ladrão"), nenhum "guarda" o conseguia prender.

Como o menino que Campanelo conta, ele também se sentia, às vezes, extenuado de andar atalhos e matos. Então, estendido à sombra de uma copa, deitava a nuca sobre as mãos cruzadas. E todo o silêncio dos campos, que ele agitara até àquele momento com o rumor dos passos e dos gestos, se aquietava, caía sobre ele, tão largo que daí a pouco se julgava adormecido. Adormecido e de olhos abertos para as coisas que o cercavam. Principalmente para a planície, ondulando na sua frente. No horizonte ensombrado, parecia-lhe haver qualquer coisa de misterioso como na floresta que Campanelo compõe cheia de gemidos e vultos. E esse mistério prendia-lhe os olhos.

Muita vez os companheiros do largo vinham desinquietá-lo. Ele, como resposta, apontava para longe com o braço estendido:

- Não vêem? Além!...

Mas os meninos não gostavam de olhar aquelas distâncias. Até o Tóino, uma tarde, quando uma trovoada fazia noite muito para cá do horizonte e se abriu em faíscas que iluminaram de branco o rés das terras, até onde nunca tinham alcançado, e ele, puxando-lhe o braço dissera: -Olha!... -o Tóino não pôde conter aquela expressão de pavor:

- Como o mundo é grande!...

Só quando o entardecer levou a trovoada e os longes, viu que estava sozinho. Por cima, o céu era ainda muito claro, mas a terra escurecia e o Tóino fugira. Então, nem podia correr; deixava cair os pés pelo inclinado da encosta abaixo. E, assim, ia entrando na noite que saía da terra.

Somente nesses momentos não aparecia a fada do conto a dizer-lhe: "Vai. Lá longe, numa torre negra, está uma menina encarcerada. E tu, que nada tens no mundo, se conseguires libertá-la, terás tudo o que desejas. Mas é preciso que nunca olhes para trás! Oiças o que ouvires, nunca olhes para trás!"

Noutros dias era diferente. Parecia que alguém lhe tinha ordenado: "Vai e não olhes para trás!" Corria, corria e não se cansava. E descobria coisas tão novas e extraordinárias que nem tinha tempo de pensar, e quase sempre a noite lhe caía em cima, de surpresa, com a vila a grande distância.

Logo, com uma pedra pronta ao que desse e viesse, o rapazinho crescia tanto pelo escuro da estrada fora que, quando entrava no largo, sentia-se homem chegado de aventuras! Só à luz dos candeeiros lhe vinham à ideia as suas descobertas. E, àqueles que o olhavam admirados, dizia:

- Descobri um sítio!

Todos faziam perguntas, rodeavam-no cheios de interesse. Alguns tiravam as mãos dos bolsos num jeito de expectativa. Mas o rapazinho só sabia responder-lhes cheio de certeza:

- É um sítio que nunca vocês serão capazes de descobrir!

E, rua acima, direito a casa, levava com ele os olhos de todos e aquele mistério do sítio que não contara.

A avó, mal o via, achava que era tarde e, mesmo da janela, perguntava-lhe de onde vinha. Sem saber explicar de modo que ela compreendesse o que ele tinha visto e sentido, respondia-lhe sempre:

- Venho do largo, avozinha.

Assim ia crescendo ao deus-dará, como o menino da história, que não tinha pai nem tinha mãe. Que a partida dos pais confundia-se na sua saudade com a morte do irmão. O bibe preto era, para ele, o luto de três mortes. E desta tristeza que se ia desvanecendo, mas às vezes voltava tão sentida que o deixava desorientado como uma pedrada na cabeça, tirava forças para correr mais que todos os rapazes do largo.

Como o menino das falas de Campanelo, ele era o que a sorte e a sua vontade queriam. Mas sempre tão para lá de onde as suas pequenas forças davam que, ansiado de correr, só descansava jogando os olhos de cima das muralhas do castelo, pelo raso das terras, para o lado por onde os pais haviam partido... Mas a fada não chegava com a sua vara de condão a ensinar-lhe o caminho: "Vai e não olhes para trás!" E as velas dos moinhos das Cumeadas giravam na sua frente, giravam pelo céu, lentas como o desânimo triste de cabeças que tombam por detrás das grades de uma cadeia.

O rapazinho sentia um grito doer-lhe na garganta. Saltava da muralha, corria pelo cerro abaixo. O seu desejo era correr para longe, à espera da noite e do sono. Mas, parava no largo, já exausto. E queria brincar aos jogos que os outros jogavam, aturdir-se de saltos e lutas violentas. Logo, à menor contrariedade, fazia discussão. Brigava com o primeiro que se opusesse à sua vontade.

As mulheres chamavam os filhos. "Que fossem para outro lado, que não os queriam com ele." Mal os rapazinhos se iam, uma força impossível de conter agitava-lhe os braços: corria-os à pedrada.

De todos, só o Tóino não fugia. Ficava, de longe, a olhá-lo.

Uma tarde, a Chica Nora veio sobre ele, a repreendê-lo. Como o rapazinho ficasse, quieto, a desafiá-la com os olhos, ela deixou cair a mão, secamente.

O rapazinho sentiu a cara arder e o peito abrir-se violentamente. Atirou o braço com quanta força tinha. Viu a pedra cair para o chão, rolar, a mulher levar a mão à testa, um fio de sangue escorrer-lhe pela cara, e fugir aos gritos, para casa.

Até dessa vez o Tóino desapareceu e ele ficou, sozinho, no meio do largo.

Correu a contar ao avô. Contou cheio de dó pela mulher e pelos moços do largo. Disse tudo tal qual: a saudade dos pais; os moços que não queriam brincar com ele, e a bofetada, e a bofetada!

O avô esteve muito tempo calado. E o rapazinho continuava no meio da casa de cabeça caída para o peito. Estava sem palavras e sentia-se mais triste que nunca quando o avô lhe gritou:

- Levanta a cabeça e não chores!

Ergueu o queixo, arrepiado de súbita alegria.

- Um homem nunca chora! Vem.

Só ouviu a avó perguntar o que era, onde iam. Mas o avô não a viu nem ouviu. Fechou a porta, do modo que sempre costumava fazer, e desceu a rua a seu lado.

No largo e à porta da mulher estava gente. No meio de um grupo viam-se os braços do Jacinto Nora gesticulando. Mal viu o avô e o neto, atirou o chapéu ao chão, afastou os homens que lhe ficavam em frente.

O rapazinho agarrava uma pedra com tanta força que lhe doíam os dedos. Sentia as arestas do calhau entrarem-se-lhe na carne e não podia deixar de apertá-lo cada vez mais. "Ai do Nora se avançasse um passo do sítio onde estava!"

Mas a voz do avô pareceu-lhe que se cortava toda nos dentes cerrados:

- Jacinto Nora, se tocares no meu neto, nem que seja num cabelo do meu neto, mato-te como a um cão danado!

O homem aquietou-se, indeciso. Era alto e forte, a barba cerrada, a camisa aberta no peito abaulado. Mas o avô, apesar de velho, também era alto e tinha aqueles olhos fixos e fundos e o rosto tão marcado de dureza como se fosse de pedra.

O rapazinho sentia que qualquer coisa de terrível se estava passando. Um prazer ansiado ergueu-lhe as sobrancelhas; cresceu ao lado do avô. Ouviu-lhe a voz, demorada e longínqua, ecoando no silêncio do largo:

- Mato-te como a um cão!

O grupo abriu uma larga clareira. Os dois ficaram sozinhos, frente a frente. Uma mulher gritou.

O velho estava branco e quieto, os braços levemente abertos, o rosto devastado. Jacinto Nora desviava os olhos, baixava a cabeça. Perante aquela força poderosa, Jacinto Nora deu um passo, levou as mãos à cara. Assim, curvado, entrou em casa.

Só então o menino respirou. Doía-lhe o corpo todo. Quis abrir a mão e não pôde. E foi pôr-se diante do avô, a olhá-lo como se ele fosse o único ente vivo, no mundo.

E à voz de Campanelo, que o leva à porta da Torre da Má Hora, tudo isto se agitara nele.

- Campanelo, meu avô nunca olhou para trás!

De roda, todos ficaram surpreendidos. O homem fitou-o algum tempo, depois disse:

- Sim, o teu avô nunca olhou para trás. É um homem.

E voltou ao conto sem o desfitar. Parecia que só a ele contava a história da Torre da Má Hora.

- Da Torre da Má Hora quem for cobarde não torna!

- Campanelo, meu avô foi lá e voltou!...

-...Então, o menino forçou a porta chapeada de ferro e entrou pelo corredor. Era um silêncio tão grande que punha os cabelos do menino arrepiados... quando, nisto!...

E Campanelo, sem desfitar o rapazinho do bibe preto, acaba a história de outro modo. Depois de todos os perigos, já o menino traz a rapariga pelo corredor fora, a velha aparece e, com a ajuda de um gigante, prende-o a correntes, numa parede. O menino preso a correntes, numa parede!...

Foi uma aflição pelos rostos das crianças.

Campanelo vê o rapazinho do bibe preto erguer-se com os olhos rasos de água. Segue-lhe a mão estendida e ouve-lhe a voz esgarçada:

- Campanelo, onde é a Torre da Má Hora?!...

Sorrindo, o homem aponta ao acaso o largo, as ruas da vila, os campos.

- Sei lá... Em qualquer parte. Mas, olha, tu és como o teu avô: hás-de ir e voltar da Torre da Má Hora.

E, no círculo dos rapazinhos, o menino do bibe preto, de pé, era mais alto que todos. Mais alto que Campanelo sentado no lancil do largo, debaixo das estrelas, na noite quieta.


Manuel da Fonseca, in Aldeia Nova