01/05/2008

Terceiro capítulo



A canoa se fez ao mar, um cisco entrou nos olhos de Deus.

(Dito do avó Celestiano)



N
ão sei por que Dona Luarmina chorou, quando lhe contei a história de meu velho. Se foi ela que me pediu! Eu lhe tinha avisado da triste­za dessa memória, mas ela insistiu. Foi só por isso que desatei as lem­branças.

Meu pai se chamava Agualberto Salvo-Erro. Em tudo ele seria pessoa. Só um senão atrapalhava sua humanidade: meu velho tinha olhos de tubarão. Não que fossem olhos de nascença. Aconteceu-se quando, certa vez, ele saltou do barco para salvar sua amada. Era uma moça muito nova que ele encontrara em outras terras. Trazia-a sempre no barco, em companhia das pescas. Fim do dia, antes de trazer o peixe à praia, meu pai encaminhava o barco para além do horizonte para ir deixar a moça. Quem seria tal rapariga, de onde era? Mistério que ficou e há-de ficar com Agualberto.

Nessa tarde, meu pai pescava próximo da nossa praia. O tempo estava encabrinhado. Eu apurava as vistas, tentando espreitar a figura dessa que acompanhava meu pai. Minha mãe virava as costas ao oceano.

Já viu o pai, lá?

Minha mãe nada não respondia. Estava ocupada nas lenhas, no fogo, no jantar. Fiquei assim na berma da praia, olhando o concho[1] alternando-se com o mar, visão e desaparência. Até que, de repente, notei um vulto tombando no mar. Era a moça. Meu pai, em aflição, saltou em socorro dela. Mergulhou na fundura das águas e ficou dentro do mar mais tempo que um peito autoriza. Saíram os restan­tes barcos, em salvação. Contaram-se segundos, minutos, lágrimas, suspiros. Só ao fim do dia, meu velho reapareceu na superfície. Já ninguém esperava que ele ressurgisse. Mas, para espantação e reza, meu pai golfinhou-se entre as ondas e gritou como se o céu inteiro lhe entrasse no peito. O povo clamava:

Está vivo! Está vivo!

Os pescadores acorreram a recolher o ressurgido companheiro. Festejaram, dançando e cantando enquanto os barcos se faziam à praia. As mulheres xiculunguelavam[2]. Minha mãe avançou e se per­filou perante o homem. Que se passaria por detrás daquela aparên­cia dela? Afinal, essa mulher que meu pai tentara salvar era uma outra, rival e ilegítima. Mesmo assim ela enfrentou meu velho. Seus olhos subiram do chão até se fixarem no rosto dele. Foi quando ela gritou, tapando o rosto com as mãos. Os restantes se aproximaram de meu pai e um rumor se espalhou como nuvem fria.

— Os olhos dele!

Sim, os olhos de Agualberto não eram os mesmos. Ninguém conseguia olhar meu pai de frente. Porque aqueles olhos dele esta­vam da mesma cor do mar: azuis, de transparência marinha. Sua hu­manidade estava lavada a modos de peixe. Ele ficara muitíssimo de­masiado tempo debaixo do mar. E se espalhou um murmúrio de que Agualberto tinha os olhos de tubarão, tal iguais aos grandes e dentilhados bichos.

A partir desse dia meu pai se adentrou em si mesmo, toda a ho­ra sentado na praia contemplando o horizonte. Passavam gentes vin­das de longe para espreitar de longe o preto com olhos da cor do mar. Minha mãe, certa vez, me afastou por um braço, e sussurrou uma angústia:

Essa mulher, outra, será mesmo que morreu de vez? Todos sabíamos que sim, que ela se irremediara nos fundos, lá onde os corais florescem em peixes. Todos sabíamos menos o velho Agualberto, desguarnecido de noção. Todas as tardes ele levava pa­ra dentro do mar cestos com comida e rações de água doce. Mergu­lhava e se deixava em permanência alongada. Depois, regressava à superfície, satisfeito de tudo, medidas as contas com a saudade. De cada vez que vinha à tona, porém, seus olhos se exibiam mais azuis. Um dia se lavariam de toda a cor, como as conchas que esbranqui­çam. Aquilo parecia aplicação de um presságio, um mapa de seu pensamento: perder as vistas como perdera seu amor. E assim acon­teceu: Agualberto ficou de olhos deslavados e nunca mais visitou as profundezas das águas.

Quando o azul lhe saiu dos olhos também meu pai se emboreou de casa. Foi-se. Eu era menino, acreditava que tudo tinha remédio. A saída de meu velho foi a primeira crença de que certas coisas, nes­sa vida, não têm reparo. No mesmo tempo, tive que atender também o desjuízo de minha mãe. Ela não se conformou com aquele aban­dono. Porque já meu velho se retirara há muito e ainda ela me dizia:

Espera, Zeca. Primeiro vou pedir as licenças a seu pai! Houvesse injúria ou lágrima ela sempre me consolava:

Deixe que eu vou queixar a seu pai!

Como se a partida dele fosse simples atraso de pescaria. Faz parte dos mandos: nunca se diz a um menino que ele é órfão. Assim, minha mãe vestia ausência com panos de mentira.

Esta semana já escreveu cartinha para ele? Eu sorria, triste. Mas ela nem me dava tempo.

Seu pai haveria de ficar contente em ler um papelinho seu. Ele havia ficar contente a pontos de lágrima.

— Mas, mãe...

— Sabe: um dia, uma lágrima dele caiu lá no mar. Ali mesmo, naquela ?nda onde tombou, a lágrima mudou-se num coral e foi ao fundo. Escreva tl seu pai...

— Mas eu mãe... eu nem sei as letras como são.

— Por isso, você vai ter com o padre, frequentar na missão. Seu pai, depois, lhe há-àe mandar uns dinheiros.

— Está bem, mãe.

Depois, ela entrava na casinha, parecia atravessar a fogueira bem pelo meio das chamas. Fazia lembrar Maria Bailarinha, modos como ela se antigamentou dançando com o fogo. Mas minha mãe caminha­va sobre as fogueiras e nada lhe acontecia. Sem vontade do tempo, eu ficava na praia a passear os olhos pela noite. Minha mãe voltava, tempos depois, e me dizia:

— Vê as estrelas, Zeca? Sabe o que elas dizem?

— Não, mãe.

— Sabe, filho, a noite é uma carta que Deus escreve em letrinhas miuditas. Quando voltar da cidade você me há-de ler essa carta?

— Sim, mãe.




[1] Pequeno barco

[2] Ululavam, em manifestação de alegria.