01/05/2008

Sétimo Capítulo



O coração é uma praia.

(provérbio macua, citado pelo velho Celestiano)


Da primeira vez, eu senti o braço molhado. Estava deitado, em meu leito, esperando o sono. De repente, um frio na pele me aler­tou: por ali se derramava um líquido, escapado de alguma fresta. Foi então que a visão me horrorizou: a água, afinal, vinha de todos lados, do chão, do tecto, a água acorria a me buscar, sua língua azul me vinha arrancar deste mundo. Não tardaria que perdesse respi­ração, cercado por dentro e por fora. Levantei-me e, conforme esca­pava pelo quarto, o chão se molhava. Alucinação, com certeza. Mas ficava, no alaguado do tapete, a prova de veracidade.

Foi apenas a primeira vez. Essa visão de afogamento passou a suceder sempre que adormecia. Às vezes me envolvia o mar, outras parecia me afogar no meu próprio sangue. Mar e sangue, sangue e mar. De onde vinham esses sinais? Passei em revista meus antiga-mentes, recordei meu velho me dizer, no dia em que, no barco, aci­dentei meu dedo:

Chupa um pouco desse sangue.

Obedeci, como sempre fazia. Meu pai seguia meus gestos com atenção que ele nunca punha em mim.

Diz lá agora: o sangue tem sabor de quê?

Eu olhei o mar, sem dar outra resposta. Meu pai, afinal, me es­tava dizer o quê? Que trazemos oceanos circulando dentro de nós? Que há viagens que temos que fazer só no íntimo de nós? Ficarei sempre sem saber. Lições que o velho Agualberto me deu sempre foram assim: esquivas e mal desenhadas. O sangue e o mar, suas parecenças me ressurgiam agora em punição de alguma desobediência. Só compreendi, então, a completa razão daqueles pesa­delos. Quando se sentiu morrer, meu pai se dirigiu a mim e pediu:

Venha comigo me mostrar uns certos lugares. Seus olhos já estavam todos brancos, como as conchas lambi­das por muito sol.

Quais sítios o senhor quer ir, pai?

— Senta, Zeca. Quero falar.

Agualberto Salvo-Erro nunca me chamou de filho. Aquela vez ainda pareceu hesitar. Mas adiantou-se, rápido, em assunto grave:

Eu estou mais-quase-menos-quase para morrer.

— Não diga isso.

— Eu sei que me chegou a hora. Mas não quero morrer num só lugar. Não posso acabar todo inteiro num único lugar. Já tenho os sítios onde irei morrer, um bocadinho em cada um.

Seu pedido era esse: que o guiasse para esses lugares onde ele queria espalhar suas mortes. E partimos, primeiro rumo ao embon­deiro de Ritsene. Ele se encostou no tronco, cansado. Ficou, deixa­do a respirar, até falar:

Seu avô Celestiano tinha razão, filho.

— Dizia era o quê?

O avô condenava Agualberto por ele se entregar aos costumes dos brancos. O motivo de sua desgraceira residia em suas costas vi­radas contra o mundo mais antigo.

Esta é a nossa igreja, disse meu pai, apontando a árvore. Ouviu, Zeca?

— Ouvi, pai.

— Diga ao padre Nunes que eu vim aqui, na árvore dos antepassa­dos. Diga que eu vim aqui, não fui lá, ajoelhar na igreja dele...

Tirou da saca um coral preto. Anichou o konkuene[1] num oco da árvore, era sua dádiva aos antepassados.

Só eu que tenho esse coral, sou único quem tenho um assim.

E nos afastámos, calcorrendo a margem do rio. Meu pai seguia direito a meu lado, parecia dispensar meus olhos. Será que, sem redondura nos olhos, ele ainda via?

Ouço a luz da água, para onde ela vai...

—E vamos nós para onde?

— Agora vamos nessa florestinha onde esse barco nasceu.

Levei-o para o interior de um bosque onde ele carpinteirara as madeiras do seu primeiro e único barco. O velho rodou pela clarei­ra, apalpou cada um dos troncos como se fosse corpo de mulher. E chamou cada uma das árvores por um nome.

Essa se chama Esperança, essa outra torta se chama Subidora do Sol. Tropeçou em arbustos, se enredou pelo chão. Ajudei a levantar--se. Mas ele preferiu restar sentado.

Me deixe morrer um pouco aqui. Me arraste só um nada para esse ado. Sim, aqui está bom, aqui corre um raiozito de sol.

Ficou um tempo de olhos fechados. Voltou a tirar um pedaço ie coral e pousou-o no chão. Era outra oferta aos deuses.

E agora, pai?

—Agora vou para o outro lado do mar...

— Eu vou aprontar o barco e sigo com o senhor.

— Não. Você fica, eu vou sozinho.

Meti-o no barco mais seu velho saco. Fui empurrando até onde havia pé. Apontei a direcção certa e disse-lhe:

Siga sempre a direito, não desvie...

— Estou no mar, meu filho, já não preciso condução.

E se afastou. Foi a única vez que me chamou de filho. Era, eu sabia, a despedida. Ouvir da boca dele essa palavra poderia ser uma infância nascendo. Mas era o adeus dela.



[1] Coral.