01/05/2008

Sexto capítulo


O caracol se parece com o poeta: lava a língua no caminho da sua viagem.

(Dito – mas não acredito – do meu avô)


Nessa tarde, eu me varandeava, olhando o oceano. Não é que eu olhasse aquele todo azul. O mar levava era os meus sonhos a pas­sear. E eu ficava cego para lembranças, sempre recém-nascente. As­sim, no velho degrau de minha varanda, não estava calado — eu era o próprio silêncio, embalado a Índico.

De repente, um piar de gaivota me alertou. Meus nervos ficaram em arco, disparei que nem flecha. A pedra saiu-me da mão com raiva.

— Ei, Perpétuo! Quase me acertava.

Era a vizinha. Dona Luarmina sempre quisera saber o motivo de eu me dedicar na matança das gaivotas. Coitados, dizia ela, são pás­saros cheios de brancura, enfeitando o céu de sonhos marinhos. Mas porquê, Zeca, por que essa raiva? Sendo um homem de abarrotar coração, como podia empreender tamanha maldade nos inocentes bichos?

— Não posso explicar.

— E porquê?

— Porque é um segredo, Dona Luarmina.

— Pensei que só mulher escondia segredo.

Sorri. Aquilo era rasteira para fazer tropeçar machices. Um se­gredo o que é? Um segredo é uma laranja de um só gomo. A gente come aquele gomo e fica a casca forrando o vazio. Eu já havia expe­rimentado aquele amargo de segurar um fruto sem dentro, cascas areiando entre os dedos.

Eu sabia quanto ela sofria com minha perseguição à passarada.

Com pena do gaivotame sabem o que ela fez? Fabricou uma gaiola onde meteu dezenas delas. Aquilo era uma azafameira, dia e noite. Não para Luarmina, que era mulher de pouco meximento. Mas para as miudagens que capturavam as aves e lhes traziam quilogramas de peixe para alimentar aquela biqueira toda.

Às noites, meu sono nem tocava o fundo. Dormiam só partes de mim, não eu todo, completo. Por causa a barulheira que vinha da gaiola da vizinha. Até que, numa dessas insónias, penetrei pelo es­curo de gasolina, raiva e fósforo. O fogo é uma paixão: num segundo tudo se consome. As gaivotas, prisioneiras, pareciam lenços brancos acenando num poente. Se extinguiam, embrulhadas em chama e luz, demasiada luz para se manterem voando. Até que, não mais restan­do senão cinzas, me retirei, antes que fosse visto.

No dia seguinte, fui visitar a minha vizinha. Como previa, ela estava na varanda. Minha mão pousou como uma condolência na curva do seu ombro. Ela nem mexeu. Já tinha chorado tudo, estava exausta. Apenas uma lágrima teimava na redondura da face. Ainda fiz gesto para lhe oferecer um lenço. Mas lembrei certas palavras dela, em vez que ela chorara. Luarmina, nunca me esquecerei, disse assim:

— O senhor pode ter sido acarinhado por mão, por lábio, por corpo, mas nenhuma carícia lhe devolve tanto a alma como a lágrima deslizando.

— Como sabe isso, Luarmina?

— A lágrima é o mar acariciando a sua alma. Essa aguinha somos nós regressando ao primeiro ventre.

Lembrando as palavras dela emendei o lenço. Deixei a lágrima escorrer-lhe. Ficámos ali, calados. O silêncio dela estava completamente quieto, magoando mais que mil prantos.

Súbito, me deu vontade de limpar o que havia feito, devolver vida e voo à capoeira. Mas eu nem encontrava solução: se havia vas­soura faltava o chão. Decidi confessar tudo. E lhe contei sobre Henriquinha.

Lhe conto, Dona — já fui casado, mais que casado. Era uma moça muito cheia de corpo, mas bem chanfrada da cabeça, diria mesmo transtorneada. No início nem dei conta de sua desviação. Henriquinha parecia toda compostinha, sem desfeição seja em corpo seja em espírito.

Aos domingos, em fecho de tarde, ela saía pêlos atalhos rumo à Igreja de Nossa Senhora das Almas. Levava seu vestido preto, se afastava com passo de viúva. Olhando aquela mulher, da varanda, me atravessava um arrepio como se aquela marcha desenroscasse os fechos de minha alma. Depois, contemplando seu traseiro ceramicando a saia eu me conciliava comigo mesmo. Uma esposa assim be­líssima e devotada a Deus era uma agradádiva.

Até que um dia me disseram que, afinais, ela não se dirigia a ne­nhuma missa. Ia, sim, ao cimo da Duna Vermelha e se despia aos olhos públicos, posta toda fora das roupas. O povo se juntava para tirar proveito daquela visão. Ainda hoje me custa lembrar quanto eu me insujeitava a tais vexames. A mulher andava a brincar ao gato sem rato? Que deveria eu fazer? Me deixei ficar quieto, sentado em sombra, sempre fingindo certificar-me do estado do mar, a ver se a cabeça carregava uma ideia.

Um feio dia me chegou a decisão. Eu lhe devia seguir, sem que ninguém notasse. Organizei assim: aldrabei o calendário. Arranjei um de um ano muito transacto, afixei ali nas vistas da parede da cozinha. Henriquinha, nessa manhã, me inquiriu o dia que era.

Não sei, mulher. Veja no calendário.

Ela espreitou. A voz, admirada, chegou-me ao quarto:

Afinal? Hoje é domingo!?

No princípio, ela insistiu que havia engano. Não podia ser do­mingo. É, respondi eu, os domingos são assim, são iguais aos dias de semana mas só que de gravata. É verdade, Henriquinha, a gente nem dá pela semana e já estamos numa outra. Que vida esta, de pescador, que não tem dias mas marés! E mais isto, menos aquilo. Falei muito para a distrair.

Ainda você tem sorte, Henriquinha. Seu tempo começa sempre a horas certas, levanta e põe, deita e acorda. Agora, para mim, o meu sol é o mar. Sabe-se lá o quando dele?

Henriquinha parecia nem ouvir. Foi ao aguarda-fatos e retirou o cerimonioso vestido negro.

Vai sair?

— Esqueceu que nos domingos sempre cumpro obrigação de Deus?

Cá dentro, sorri. Ela tinha caído. Ainda me ocorreu, por instan­te, um peso de culpa. Ainda pensei em desarmadilhar o momento. Mas a alma foi-me mais forte que o sentimento. E lá fui atrás da mu­lher, em cuidadosa perseguição, atrás de muro, moita, arbusto. Até que chegámos ao barranco de terra vermelha. Henriquinha parou-se no limiar onde o abismo se despenha até à praia, bem junto à reben­tação. Fiquei espreitando.

Aquela hora não havia ninguém. Talvez porque não era domin­go, ninguém esperava o espectáculo dela àquele dia. Henriquinha então começou-se a ondear parecia uma dança, em baixo de uma música que só ela escutava. De costas para mim, ela rebolinhava-se de prazer, como se uma invisível chuvinha tombasse sobre ela. Começou de puxar o vestido até meio do corpo, a cintura dela es­preitava entre a luz e as mãos. Depois, foi afastando os panos que lhe cobriam. Cada veste caía no chão parecia folha morta tombando na minha surpresa.

Me veio, então, junto com a raiva, um baboso desejo daquela mulher. Como se nunca lhe tivesse visto nem tocado, como se ela fosse mulher inatingível. Ainda pensei: vou lá, me despenteio com ela, desato um namoro de afiar carne. E fui, pé e ante-pé, até ficar por detrás de Henriquinha, até sentir o ofegar dela. Aquele respirar me criava ilusão que ela se havia cansado comigo, seu corpo aquecido em fogo de meu sangue. Precisava afastar, num súbito, aquela verti­gem.

Empurrei-a. Não escutei nem grito nem baque do tombo, vin­dos das rochas em baixo. Apenas a estridência de gaivota roçando o barranco. Henriquinha tombou? Morreu? Foi engolida pelo mar?

Nos seguintes dias, regressei à Duna Vermelha, milimetrei grutas e areias à procura de um sinal do corpo de Henriquinha. Nada. Só ausência. Para mim aquilo doía mais que uma morte, dessas tra­tadas com enterro e cerimónia. Se eu fosse homem de inteiro juízo estaria ainda hoje retorturado, despedindo-me infinitamente de Hen­riquinha. Mas não. Para mim aquilo não se aconteceu. É como o fu­turo: existe, mas não há. Se sucedeu foi para, no mesmo instante, transitar para outra vida, outra memória que não me pertence.

Única coisa, Dona Luarmina: é esse grito de gaivota, no exacto despenho de Henriquinha. Me persegue essa aguda piação, me ras­ga as cicatrizes de uma ferida que nunca senti. A senhora me per­gunta por que motivo eu ando perseguindo essas aves? Me entende, Dona Luarmina?

Todo aquele tempo, a vizinha escutara sem se mover, rosto tom­bado em sombra. Quando terminei ficou um silêncio até que Luar­mina me perguntou:

Era esse o seu segredo?

— Era.

Então, ela levantou o rosto e me enfrentou. Os olhos dela nem eram de raiva. Pareciam vazios, vagos. Como se minhas palavras lhe tivessem trazido incurável cegueira.

Vá lá atrás, no quintal, ver o que você fez.

— Desculpe, Dona Luarmina, não posso ir.

Ela, então, se debateu com o próprio corpo, em esforço de se le­vantar. As madeiras do assento reclamaram. Com Dona Luarmina, todas cadeiras eram de balanço. Sem ajuda, ela lá se ergueu e, de­pois, me estendeu a mão:

Venha comigo.

Contrariado, segui-a. Sem alma, fui atrás do andar custoso dela até à gaiola. À minha frente, escudando-me da culpa, estavam as costas de Luarmina. Seu volume encobria a visão do mundo.

Veja.

Me mantinha por trás dela, feito um miúdo perante a chegada da sova. Ela insistia, mas eu, cabisbaixo, capinava o chão com a mi­nha vergonha. Até que, súbito, escutei um rumorejar de asa. Aquele som chapinhou a minha alma de lembrança, como se fosse uma desabação de mundos. Fui erguendo os olhos, avistando primeiro as madeiras mastigadas, restos carcomidos de pássaros, penas de cin­za, tudo jazendo em paz de deserto. A rede metálica mantinha-se intacta. Mas, à mistura daquela cinzentação, surgiu-me a aparição de uma ave vivente, toda branca, rendilhando repentinos voos. Come sobrara aquela gaivota de tão total fogareiro?

Dona Luarmina, lentamente, se retirou. Fiquei só com os restos da capoeira e uma lembrança de vazio, esvaziada de mim e de tudo Minhas mãos tremiam quando abri a porta da gaiola.