01/05/2008

Segundo capítulo



Lan
çamos o barro, sonhamos a viagem:
quem viaja é sempre o mar.


(Dito do meu avô Celestiano)


Pois, lhe digo, minha Dona. É uma pena a senhora andar por aí fa­tigando seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga. Sabe o que faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra. A se­nhora num certo momento, há-de ouvir um chão marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. Aproveita esse embalo, Dona Luarmina. Eu tiro boas vantagens desses silêncios submarinhos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. Sou criança dele, do mar.

Lá criança, sim. Você há muito que esqueceu a idade.

Sabe o que dava jeito? Era a gente os dois nos combinarmos, está a perceber, Dona Luarmina?

Ajuíze-se, Zeca.

Faz conta somos verbo e sujeito.

— Já conheço essa sua gramática...

— A senhora, minha boa Dona, nem sabe quanto enriquece minha retina.

Luarmina nem destroca resposta. E com razão. Sou um quem, eu? Um caçador de peixe que nem tem a quem contar suas aventu­ras. É verdade, Dona, não posso nem dar lustro nas minhas menti­ras. Será que são mentiras? Se eu, que não testemunhei o que eu pró­prio relato, acabo me acreditando? O mar é que tem culpas — pois lá se esbatem os limites —, tudo ali pode ser. No mar não há palavra, nem ninguém pede contas à verdade. Como dizia o velho Celestiano: onde sempre é meio-dia, tudo é nocturno.

Volto à mulher, Dona Luarmina. Nunca ninguém foi tão vizi­nho. Porque ela quando não me está nas vistas está-me nos sonhos. Sempre e sempre essa polposa e carnudona mulher, O rabo foi quem mais lhe cresceu, cresceu mais que as nádegas. Em tempos, ela acen­deu prontidões masculinas. Mas agora, está apagada. Não para mim que me acendo em sua presença e ardo em sua ausência.

Ao fim de cada tarde, me encaminho para sua casa. Engraçado o seu lugarzinho: só tem traseiras. Quase como a Dona. Porque a gente para o contornar nem tem que dar a volta. Chega-se lã e esta­mos logo atrás. Sento-me num velho tronco e fico olhando a mulher desfolhando-se:

Mar me quer...

Depois, digo de mim para mim: quem dera eu meter a mão nos remetentes dela! Uma dessas noites, estendido na esteira, até sonhei que me aproximava do assento dela e lhe desenrolava falas, as seguintes:

Me deixe apalpar nas suas nádegas, é um instantinho tão brevezito que a senhora nem precisa esquecer meu atrevimento.

— Qual?

— Como qual. Dona Luarmina?

— Qual das nádegas?

— A arbitrária, Dona. Então a senhora não recorda as contas da geo­metria, a soma dos factores é arbitrária?

Enquanto falava já minha mão viajava naquelas gorduras vivas dela, comboiozinho doido ondulando pelas topografias do seu assento. Eu andava de bicos de mãos pelas reentrâncias dela.

— Que é isto? O senhor ainda não foi autorizado.

— Essa minha mão, Dona Luarmina, pertence ao sector informal.

— Você, Zeca Perpétuo, é que é todo do sector informal.

— A senhora conhece o ditado, não conhece? Mais vale uma mão no pássaro...

— Você é um abusador...

— Isto são sonhos, só sonhos. Sabe o que sonhei ontem, Dona Luarmina? Pois lhe conto, não me corte as falas.

A senhora ia comigo ali ao Baixo da Nuvem e dançava comigo. Dança­va de branco, toda respeitosa. Eu fechava os olhos e, de repente, você me di­zia, baixinho, ao ouvido:

— Veja: estou nua como o peixe.

Eu me arrepiava. Nem tinha coragem de abrir os olhos. Sua voz zunzunava junto à minha orelha:

— Mas, veja bem: tenho tatuagem, aqui na barriga. Veja com sua mão. Sim, aí. Mais em baixo, também, na roda da anca, passe o dedo lá, sim. Isso mesmo, aí. São tatuagens para você não escorregar.

Tudo aquilo era bonito e fresco de inventar. Mas não pude conti­nuar a lembrança do sonho. Dona Luarmina me interrompeu e me sacudiu com sua mão papuda.

Cala-se, Zeca. Você já é velhotezito. Por que sonha ainda essas coisas ?

Sou velho, o caraças. A senhora que gosta tanto de aves me respon­da: penas de pássaro se gastam?

— Mas o senhor, agora, só voa rente ao chão.

— Aí é que está, Dona Luarmina: nos embaixos é que está a graça.

Luarmina não estava para as graças. De vez em quando, ela dis­pensava um sorriso. No resto, ela fechava uma tristeza de não ter tido filho. Quando eu lhe apelidava de flor ela, azeda, voltava à descarga:

— Não me chame de flor que me dói. A semente é a única pegada da flor. E eu não deixei filho neste mundo.

— Culpa não foi sua. Nenhum insecto certo lhe soube pousar. Fosse era eu.

— Caludas, Zeca.

— Escute o que eu falo: você, sim, é flor.

Está, sou flor. Mas uma dessas que nunca serviu.

— Você serviu belezas, Luarmina.

— E para que servem as belezas? Para nada.

— Veja, exemplo, só: quem lustra mais o céu? Não é o arco-íris? E, pois, me diga: qual o serviço que tem o arco-íris?

Nem sei lá.

— Tem o serviço só de fantasiar, de ensinar o céu a sonhar. Mas ela voltava ao semimesmo. Eu que a desculpasse. Porque ela se tinha definitiva como a ruína. E falava:

Perdi o tempo, mas o tempo, esse é que não se esquece de mim.

Assim dizia, apontando as peles envelhecidas do pescoço. E eu, no conforto: pois o tempo não lhe larga o pé, graças e desgraças a Deus. Porque sou eu e é o tempo, os dois lhe competindo, Dona Luarmina. Deixe que seja eu a ganhar. Por amor de Deus, Dona...

Quer mesmo me apaladar?

— Se quero, Dona!

— Então me desfie uma memória sua, uma verdadeira...