25/11/2007

A rapariga de pedra

Chamo-me Aldemiro. Os nomes sempre interessam. De mais a mais o meu não é muito vulgar. Mas o que eu aqui vou pôr escrito ainda é menos vulgar. Aconteceu-me...

Vejamos. Começarei a escrever isto de outra maneira mais simples.

Eram férias e nós íamos para fora, como nos outros anos, mas desta vez para a serra! Para a serra, que eu não conhecia. E assim, ajudado por umas vistas de moinhos e de árvores do meu conhecimento passei uns dias com­pondo uma serra cá a meu jeito. Porém, quando verda­deiramente cheguei à serra, pela tardinha, já todas essas fantasias me tinham esquecido. E as pedras, os penhascos que me iam surdindo de um lado e de outro, faziam-me uma grande estranheza. Tão grandes, e de pé, como se se fossem despenhar pelas ribanceiras abaixo! E uns riozinhos estreitos, quase secos, nuns vales muito fundos e sombrios... Fugindo-me tudo da vista, mas repetindo--se... E pedras, por toda a parte aqueles enormes pedre­gulhos!

Isto foi de entrada e durante a viagem, porque depois foi-me passando a admiração e logo me habituei a tudo e a todos. E verdade que nos primeiros dias ainda estra­nhava ver correr a água de dia e de noite pelas quelhas da aldeia. Os seixos do caminho também me incomodavam os pés, naturalmente por eu andar calçado... lá, tudo andava descalço. As mulheres ralhavam muito, e ora avan­çavam umas para as outras, ora recuavam, como se dan­çassem... tinham graça! E diziam uns nomes: chucharas! farrombonas! que eu nunca entendi, nem precisava de entender.

Pelas quelhas também andavam à vontade os pitos e os bácoros.

Mas a minha tentação, a minha grande tentação era a serra, o campo, a liberdade.

Habituei-me a sair muito cedo, sozinho, quando o céu ainda parece branco.

Que lindos castanheiros e que paz, que grande paz sempre! Os muros dos soutos faziam a vista de uma renda. De pedra rala, já se sabe. Às vezes lá se ouvia a cantilena de um pastoreco... mas onde estaria ele? As cabritas sal­tavam às castinceiras e roíam-nas. Deixá-las roer!

Aos carrapitos da serra é que eu tinha a ambição de chegar, embora me avisassem de que por lá havia lobos.

Os dias entretanto iam passando, sempre a meu gosto. As noites empregava-as a ouvir histórias pelas portas de uns e de outros. Aquela gente era amiga de fazer serões. E contavam-me tudo: os milagres, as más sortes, os bru­xedos, os desastres, as desgraças dos invernos e até as ideias. A história da rapariga de pedra entrava no número dessas ideias. Era uma coisa que tinha acontecido, diziam os antigos, e de que ninguém se devia rir.

O que hoje ainda não sei é se eles acreditavam na his­tória! Ou que sim, ou que não, a mim só me maravilhava. Aquela extraordinária rapariga que tornava cegos ou gagos os que uma vez a surpreendiam! Era de uma beleza sem igual e andava fugida aos pais a cumprir o seu fadário. Viam-na sempre metida nas fontes ou sentada nas pedras, com a cabeça caída para a frente e a água a pingar-lhe nos cabelos... Por onde ela passava não havia campos secos. Por isso o povo lhe queria bem, embora a temesse.

Parece que quando ela tinha fugido aos pais (coitadinha, era a sua sina) estavam os soutos com o candeão, com a flor. Mas ninguém já sabia por que razão fugira ela. Andava em carrapato (quer dizer, nuazinha) como na hora em que abalou. Foram atrás dela os pais e os irmãos, para nada; jamais a alcançaram. Até que um dia, fartos e cansados de correr ali pararam, e ficaram. Era o que se dizia. Parece que o povo nascera deles e que toda aquela gente ainda era aparentada com a rapariga de pedra. Ninguém se envergonhava disso, pelo contrário, Ela, também, nunca se afastava muito daqueles sítios. Vê-la, havia quem a visse, de longe. Defrontá-la é que ninguém ousava. Era de pedra, mas de pedra viva (tinha aquela sina de viver sempre!) com uns cabelos de água que escorriam, escorriam... Tanto assim que por onde ela passasse não se conhecia a seca, mesmo no pino do Verão.

Que história! Juro que me encantava. Levei noites e dias a pensar e a sonhar com a rapariga de pedra. Gostava de acreditar nela e também gostaria de a surpreender. Ai, não tinha medo, não, de ficar cego ou gago.

Disfarçadamente fui começando a pedir informações: onde é que a tinham já visto? E de manhã ou de noite?

Eu perguntava, perguntava... mas nunca obtinha res­postas certas. Até havia quem me dissesse: para que é que o menino quer saber tanto? O melhor é não desafiar a sorte!

Eu ria e mudava então de conversa. Até que me fui quase esquecendo da história.

Num dia, ou por outra, em certa manhãzinha, saio de casa sem destino, como era o meu costume. Iria para onde as pernas me levassem.

No chafariz ainda não estava ninguém, nem um cân­taro sequer nos poiais. Até uns passaritos saltitavam nas pedras do chão sem nenhum receio. Todas as portas fe­chadas: com certeza que nenhuma caçoila ainda ao lume. Aquela gente, que tinha o ofício de fazer cestas, não era madrugadora.

E eu meti-me ao caminho, todo lépido.

Que alegria a de andar sozinho, de não ver ninguém e de nem saber para onde ir! As casas da aldeia, muito ruças e baixas, iam-me ficando cada vez mais para trás, cada vez mais para baixo. Os telhados, sem chaminés, não avultavam nada. Só campo e céu, só campo e céu. Os cabeços ainda pouco claros, envolvidos de uma nevoazinha incolor, pareciam-me monstros. Mas um ar e uma frescura! Do sol, nem sinal. De seres vivos lá descortinei um homem atrás de um burro. Eh lá — gritei-lhe eu, de longe. Mas ele nem me ouviu! E eu sempre a andar. Os carreiros chamados de pé posto, ora me parecia que subiam, ora que desciam. Cheguei por fim às bordas de uma ribeira e larguei os caminhitos. Parei um instante. É que eu gostei sempre muito da água, de me entreter com ela.

Os borbulhões daquela ribeira, que logo me saltaram à vista, afloravam, rompiam mesmo como flores brancas, debaixo das pedras, e depois corriam. Daqui vinha um fio e dali outro, mas logo empoçavam. Do fundo daque­las poças todas nasciam ramos verdes, que mal buliam.

Continuei a andar, mas já sem pressa. Gostava de ir vendo o que via... os seixinhos cobertos de água, uma coisa que brilhava, uma erva delicada... repentinamente a restolhada de um pássaro, que largava a voar...

A luz foi crescendo, entretanto, e as bulhas também. A própria água acordava, parecia-me a mim. O leito da ribeira empinava-se, enchia-se de pedregulhos. E ouvia--se uma arrulhada! Devia ser da água que caía de alto. Era como um vagido de criança ou de cabritinho a cha­mar pela mãe. O coração começou-me então a palpitar, mas eu nem pensei em voltar para trás. Pus-me aos sal­tos de pedra em pedra. Tinha vontade de descobrir fosse o que fosse, de ver e de ouvir mais, de avançar sempre. Bichos ofegantes passavam pelo meio das silvas, invisíveis, parecia-me a mim, e de todo o lado caía uma espécie de chuva de pedra miúda ou de terra. Até comecei a ouvir passos: pisavam os panascos secos das margens... Qual! Seria algum coelhito assustado.

A ribeira tornara-se funda. Que medonho sítio! Começava-me a parecer fora do mundo. Mas a água ia continuando a formar trancelins, que ora se divi­diam, ora se juntavam. E eu a avançar... Pela ribeira acima, os enormes pedregulhos que a obstruíam tinham de ser rodeados a custo. Porém, a seguir era sempre novo, uma coisa que eu não esperava... Parava um pouco. As lagartixas também me sobressal­tavam. Ouvia-se primeiro uma restolhada. Que seria? E só depois é que se viam correr. Largartixas grandes, quase como lagartos. Às vezes também me passavam borboletas à frente.

A certa altura dei com um pego maior e deixei-me ficar a olhá-lo. A água tem o poder de me fascinar, creio que já disse. Centos de bichinhos pretos, pernaltas, cor­riam nela vertiginosamente. Era um pego tranquilo e sombrio. Aqueles bichinhos pareciam doidos: paravam de repente, depois tornavam ao seu desatino; paravam de novo... Chamam-se alfaiates. Excitei-os com um pauzi­nho. Veio o sol dar-me nas mãos, só um leve raio de sol. Que bonito que tudo aquilo era! A chalrada da água, uma espécie de choro ou queixa que não tinha descanso, tornou-me a atrair.

A água chora! — pus-me eu a dizer de mim para mim. E é que chora!

Duas rolas gordinhas vieram beber à ribeira. Ia um bando delas lá por cima, lá tão em cima!

A água chora, continuava eu pensando, sentado com o tal pauzinho na mão, a excitar os alfaiates, que fugiam. Por fim desviei os olhos do pego e comecei a ver rodelas de luz. Pensei em continuar a subir, mas achei que não podia mais. Onde estaria eu? Onde teria já chegado?

Pus-me a escutar melhor: não era só o choro da água que eu ouvia, eram também gemidos. Ai! E levei a mão ao sítio do coração. Ai, que não é senão a rapariga de pedra! E eu ali sozinho... Tremeu-me a boca e senti as forças perdidas.

Era ela! Lá estava em cima de uma penha tão alta, tão alta... A cabeça para a frente e os cabelos caídos a correr água, a correr água... Mas de pedra ordinária não me pare­cia ela, parecia-me de cristal. E chorava, coitadinha. Cho­rava tanto! Nuazinha, com, os pés pendurados... A ribeira devia nascer ali mesmo.

Não chores mais! — queria-lhe eu dizer. E se o disse não sei. Escorreguei, estou perfeitamente lembrado, e deitei as mãos aos juncos. Quando tornei a olhar para cima já não vi mais nada. Mas eu não estava gago nem cego, felizmente. Esfreguei muito os olhos e disse uma porção de palavras sol­tas. Deu-me tanta vontade de chorar!

Tinha-a visto. Nunca ninguém disso me desimaginasse: tinha-a visto!


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma