01/05/2008

Quinto Capítulo



O mar tem um defeito: nunca seca. Quase prefiro o pequenito lago da minha aldeia que é muito secável e a gente sente por ele o mesmo que por criatura vivente, sempre em risco de terminar.

(Dito do avô Celestiano)

Meu velho, depois do incidente, ficou com juízo de mamba[1]. Ideia que se anichasse em sua cabeça crescia logo com dente. Alvoradamente se sucedia sem ruído, vivendo em lugar onde nem púnhamos vistas, para além dos pântanos onde o chão já não consente nem ca­minho nem construção.

Eu o avistava só de quando em enquanto. Nesses encontros meu coração sempre minguava. Miúdo que era lhe prestava receios, todo eu salamoleques. Porque o velho sarabandeava tudo e todos: suca[2], famba[3], vai-te-daqui. Agualberto passava com andamento vagaroso. No início, nos perguntávamos: estaria ele cego? Impossível, o ho­mem andava que tresandava. Aqueles olhos vazos dele nos fitavam não o rosto, mas a alma. O bairro se unanimava:

Esse gajo tem mais enxofre que o diabo.

Por maior medo que dele todos tivéssemos, não lhe podíamos prescindir. Porquê? Porque meu velhote abençoava os anzóis. Os pescadores faziam fila e ele atendia cada um à sua vez. Fazia-se silêncio, enquanto ele fechava os olhos. Agualberto Salvo-Erro aguardava vozes que lhe haveriam de desembocar. Em algum lugar, lá no longe, a maré está-se a virar, o oceano se cambalhota na mu­dança das marés. Enquanto não recebia sinal desse reviramento ele se mantinha sem nenhuns modos nem pestanejo. Quem sabe não fala, quem é sábio cala. Como dizia meu avô:

Diferença entre o sábio branco e o preto sabe qual é? O branco responde logo-logo às perguntas. Para nós, pretos, o homem mais sábio é aquele que demora mais a dar resposta.

E assim, nessa imobilidade, esperava meu pai e esperavam os pescadores que queriam ser abençoados. Até que Agualberto fazia subir a mão e agitava os dedos como se chamasse invisibilidades. Desembrulhava um velho pacote de cigarro e dele retirava uns pós com parentesco de tabaco. Semelhavam cigarros mastigados pelo tempo e cuspidos pelo esquecimento. Os pós eram lançados sobre o anzol e a sorte se enroscava no anzol. Outras vezes ele anexava ao isco as variadíssimas coisas: pedaços de espelho, cartas, búzios. Tudo aquilo seguia, mar abaixo, a convocar as mais boas sortes.

Mas este homem, meu pai, como sobrevivia? De longe, eu me curiositava. O velho saía de casa todas as manhãs, raspava os olhos pêlos muros das vizinhanças como se estudasse modos de os deso-Ihar. Seguia em direcção ao cais. Ali se sentava na amurada, receben­do as infalíveis mensagens. Certeiramente, eu me destinava em seus arredores, quando me dirigia para minhas pescadorias. Às vezes, ele me parecia tristonho, peito sobrando das costelas. Chorava no ombro da paisagem? Estaria sendo pisado pelo passado? Ou seriam sauda­des da tal extinta moça?

Sentava-se na berma do cais, recebia as aragens do Índico. O ho­mem nem causava palavra: apenas sons avulseados, cascas de fala. Quando falava parecia era lamber a própria língua. Balanceava o tronco como árvore ante a ventania. O corpo ponderava o contrário da cabeça? Para mim, ele rezava, acendia pavio de palavra, num eterno não-esquece-nem-lembra, com saudade de outras vidas.

Mas onde ele fazia seus dinheiros era na bênção dos anzóis, garantido êxito das pescarias. E todas as manhãs, os pescadores es­peravam na muralha enquanto ele desembrulhava o mesmo velhís­simo pacote de cigarro e abria um saco cheio de oferendas. Eu me incluía nos caçadores de peixe. Aguardava na longa fila enquanto, lá por cima, estridentavam as gaivotas. Chegada a minha vez eu ficava tomado pelo medo e, num deslize, me afastava da fila. Vezes sem conta eu voltava a alinhar naquela demora. Mas sempre, chegado defronte ao velho, tropeçava em mim e abandonava o lugar.

Uma certa manha, minha velha faleceu. Acabou-se assim mes­mo como viveu, sem história, sem sobressalto. Só se queixou:

O sol está puxar-me de mais, parece estou quente.

Aproximou-se do tanque e meteu os pulsos na a'gua como se ganhasse fresco. Encostou-se no tronco da grande árvore e deixou os braços tombados no interior do tanque. Sem o sabermos ela estava já morrendo, aguando suas veias na eternidade da água. Tirámo-la como se apenas a fôssemos deitar. Em silêncio, como se aquele apa-gamento já tivesse ocorrido há muito tempo. Como se simplesmente levássemos a mãe a passear, numa tarde como as demais. Minha velha teve morte instantânea? Ou não será que toda a morte é ins­tantânea?

No dia do funeral, o tempo mudou. Sem explicação, o céu se invernou. Manhã cedo, o frio escorria pelas frestas: ninguém iria pes­car com tal tempo. Mas fui, mesmo assim. Minha alma condizia com O mundo, ventos e nuvens. Quem sabe o cais me desanublasse? Es­tava eu naquele abandono, segurando a linha como se minha alma estivesse espetada no anzol submerso.

Foi quando escutei passos. Virei-me, receoso. Entre as neblinas, me sustou o vulto de Agualberto Salvo-Erro. Fiquei, linha desabençoada pingando triste nas águas cinzentas. Será que ele me reconhe­cera, assim pelas costas?

Impossível, o velho estava completamente cego. Então, ele fez ouvir sua voz rouca:

Maneira como assim? O peixe não vai picar...

Nem me virei. Segui, encolhido, governado só pelo medo. E que, naquele preciso momento, um esticão na linha me indicava a pre­sença de um peixe namordiscando o anzol. Mas eu não queria contrariação com o adivinho, fingi nada acontecer. As sacudidelas na li­nha confirmavam-me que eu amarrara um peixão bem enfeitado de peso e tamanho. Mas eu, desatrevido, nem mexia nem bulia. Meu pai, não sei como, notou os estremeções na linha.

Não vai puxar o peixe?

Eu sem saber nem acto nem palavra. Continuei olhando o nada, a fingir-me de falecido. O medo nasceu connosco, é o medo que nos aperta o nascimento a pontos de nos estrearmos com lágrimas.

Vá, puxa a linha!

Se ele era cego como se apercebia dos puxões na linha? Pareceu adivinhar minha dúvida:

Depois destes anos tantos nem preciso ter olhos para saber que está picar.

Sentou-se, a meu lado. Mesmo junto à berma do cais ele fez balancear as pernas. Eu tremia com medo da carantonheação dele. Sua voz desapropriava a minha:

— Onde está teu isco?

Sem dom de resposta, apontei as minhocas na lata. O homem enfiou dois dedos grossos na boca da lata e retirou o verme estre-mexente, reviravirando-se no vazio.

Falou na sua língua caseira sobre peixe e pescaria. Na língua do nosso lugar não há palavra exacta para dizer pescar. Diz-se «matar o peixe». Não há palavra própria para dizer barco. E oceano se diz assim: «o lugar grande». Somos gente de terra, o mar é recente.

Estou abençoando, mas não é a isca.

— Então?

Estou abençoando-lhe a si.

Meu pai: será que ele me reconhecia? Depois, me olhou com aquele fundo vazio que me impossibilitava de o encarar. E disse assim:

Você, miúdo, vou lhe dizer uma seguinte coisa: sou cego para coisa vivente. Mas vejo bem do lado da morte. E estou ver sua morte...

— Minha morte?

— Você há-de morrer afogado em lençol faz couta os panos virassem ondas de agua.

— O senhor sabe quem eu sou?

Ele acenou afirmativamente com a cabeça. Era por saber isso que ele estava ali, sentado a meu lado. Então, ele me perguntou:

Vim aqui lhe pedir uma coisa: você sabe onde fica o Fundo do China ?

— Esse fundão, lá no meio do mar?

— Eu quero que você vá lá, cada semana vá lá. E leve comida e água de beber. Deixe isso no fundo. Faça isso da minha parte. Promete?

— Prometo.

E explicou-me: única razão que lhe dava força para viver era es­sa lembrança. Nas funduras do Fundo do China se extinguira aquela que ele amara, aquela para que tivera olhos.

Sabe? Esse anzol todo que abençoo. Tudo é mentira. Só finjo dar as boas sortes para que essa isca, essas coisas que ajunto nos anzóis, desçam lá nos fundos e não voltem.

— E as coisas que o senhor prende no anzol?

— São prendas que destino na falecida. É para ela. Tudo aquilo é para ela. São minhas prendas.



[1] Cobra venenosa.

[2] Sai!

[3] Vai-te embora!