01/07/2008

Que todos ficassem bem...

Nos meus últimos dias de férias no arquipélago de Shandenoor vieram procurar-me dois sujeitos escuros, muito magros, bisonhos, que se diziam enviados do rei de Carvangel. Acontecia que ao príncipe lhe tinha dado para a melancolia e passava o tempo a fabricar papagaios de papel colorido, sem nenhum interesse pelas coisas da governação, o que deixava o velho e gotoso monarca preocupado quanto ao futuro do reino. Assim me foram descobrir naquelas ilhas e reclamar os meus cuidados, sem olhar a despesas.
Comecei por recusar polidamente e indicar-lhes um médico meu conhecido de Bombaim, o dr. Shantana Lagador, muito reputado em psiquiatria. Mas os homenzinhos não se convenceram. Queriam-me a mim. E durante todo esse dia seguiram-me os passos, como dois cães cabisbaixos.
Um deles, soube-o mais tarde, era o próprio primeiro ministro e o outro um dignitário importante, «portador da espada do rei», ou coisa que o valha. Não creio que no caso de inêxito lhes estivesse preparada uma recepção particularmente festiva, porque ambos ficavam muito sérios quando encaravam a hipótese - decerto remota, diziam - de regressarem ao país sem a minha companhia.
Fosse por que fosse - e a verdade é que nem sempre somos senhores das nossas decisões - acabei por tranquilizar os cavalheiros e garantir-lhes que estaria em Carvangel na próxima quinzena, podendo eles, desde já, seguir adiante e levar a nova ao reino.
Os homens ficaram jubilosos, agradeceram-me com grande alarde de reverência oriental e lá os levei à porta meio contrariado e confundido, quer pela resolução que acabava de tomar e de que já me tinha arrependido, quer pelas manifestações de reconhecimento subserviente que me incomodavam, com tanta vénia e beijares de mão.
Resolvi, pois, ficar mais uns dias em Shandenoor e aproveitar para bisbilhotar algumas ilhas que ainda não conhecia. E durante uma semana, a escalar cumeadas montanhosas cobertas de arvoredo, ou aos baldões, em paraus de aluguer por entre as cavas do mar, nem me lembrei do principezinho neurótico nem da estranha embaixada que me enviaram.
Ao cabo deste tempo, soube que tinha perdido a oportunidade de voar para Carvangel ainda nesse mês. As carreiras eram mensais e o último táxi aéreo havia descolado na véspera, aliás em condições de navegação precárias.
Indicaram-me o ferry-boat em que se transportavam, nesta época, os trabalhadores sazonais que iam a Carvangel trabalhar nas plantações de sisal, a largar por um desses dias, e recomendaram -me, no hotel, que falasse pessoalmente ao capitão se queria um tratamento mais cuidado.
Soube que ele era português, como eu, que se chamava Andrade e que poderia encontrá-lo à noite razoavelmente sóbrio, se comparecesse cedo, num bar do porto chamado O Néctar do Sétimo Pingo Luminoso da Lua Cheia.
Tratava-se de um botequim meio escondido, numa rua miserável, mal assinalado por uma lanterna de papel, imunda, que estremecia ao vento. 0 capitão Andrade sentava-se a uma mesa em que orientais apinhados, luzidos de transpiração, apostavam desvairadamente ao Fan-Tan.
O capitão não pareceu muito entusiasmado em levar-me, e foi de má catadura que me deu alguma atenção, por entre as exclamações ruidosas dos jogadores. Num falar lento, arrastado, mortiço, procurou dissuadir-me e remeter-me para o voo de avião do próximo mês.
Era um cinquentão pesado, meio calvo, de boca torcida por um eterno cigarro, que vestia um dólman, outrora branco, muito apertado, e se exprimia com uma forte pronúncia alentejana, num falar expressivo, em que, de quando em quando, se insinuavam palavras malaias ou chinesas.
O facto de sermos patrícios [ele tinha nascido em Sines, eu em Santiago] e de eu viajar por conta do reizete de Carvangel, mais este que o primeiro, por certo, lá o convenceram a alojar-me na sua cabina.
Despediu-me com um aceno mole e voltou ao seu jogo, de olhos a brilhar.
Antes, a rematar o ajuste comigo sobre transporte e alojamento, dissera-me mecanicamente, a propósito de nada, uma frase que eu ainda lhe havia de ouvir muitas vezes durante a viagem:
- Ora pois então. É preciso é que todos fiquem bem...
Quando no dia seguinte, muito cedo, cheguei ao porto, já o ferry-boat, alardeando a sua brancura por entre a massa pardo castanha dos milhares de sampanas e juncos que coalhavam as águas, pastosas, do rio, roncava o seu terceiro aviso.
Dentro, retirada logo a prancha do passadiço com os protestos de uma multidão de cúlies lazarentos que se apinhavam no embarcadouro, tive de me movimentar por entre um molho apertado de gente seminua, de turbante garrido, aglomerada em todo o espaço disponível.
Ao cimo das escadas que davam para a ponte, cobertas de pessoal alegre e palrador e suas trouxas, que mal deixavam espaço para subir pé ante pé, um sipaio de má catadura, de trabuco pesadíssimo a tiracolo, abriu-me uma cancela de ferro, com gestos lentos, cheios de autoridade.
Depois veio-me indicar, solene, o camarote do capitão, onde arrumei as minhas malas debaixo de um divã improvisado, junto a uma janela rectangular que se reflectia onduladamente no tecto de madeira.
Entre a minha precária cama e o beliche do capitão mediariam uns vinte centímetros e, para além de uma escrivaninha de cânfora, atafulhada de papéis de bordo, uma prateleira com escassos livros de mareação e um lavatório de louça colorida, pouco mais cabia na cabina. Por cima do beliche do capitão, uma gravura emoldurada em vidro fosco, muito trabalhado e colorido, continha N.ª S.ª dos Navegantes a observar serenamente tudo.
Ele, entretanto, encontrava-se na cabina do comando, dirigindo a manobra, decerto complicada pela densidade do tráfego indígena que obrigava a muito golpe de roda o piloto grego, e a um silvar quase constante do apito.
Ao fim de algumas horas passávamos, enfim, o farol do velho forte português de Shandenoor, que nos salvou com um tiro de peça, a que respondeu de bordo uma tremenda algazarra, em meio de grande agitar de panos coloridos.
O navio ia pouco boieiro, atochado de gente e de fardos. Os embornais quase rasavam a água, de ondas mansas e espessas do muito aluvião que arrastavam para o mar. 0 nosso reduto na ponte era relativamente tranquilo, isolado da turbamulta que se comprimia no convés e nos porões, de que nos chegavam o alarido e o rumorejar constantes.
O percurso demorava uma semana, sem escala, pelo mar nu. Durante esse tempo, pelos primeiros três dias, o navio não fornecia alimentação e todos os emigrantes teriam de se haver como pudessem. Ao quarto dia, distribuía-se àquela gente uma sopa de ervas e arroz, em grandes latas. A água estava racionada a duas canadas por pessoa em toda a viagem.
Eu era tratado como membro graduado da tripulação.
O capitão e eu tomávamos as refeições na ponte superior, com o piloto grego, muito moreno, que só falava chinês, e o maquinista irlandês que sabia tocar canções melancólicas numa gaita-de-beiços.
O resto da tripulação, uns oito homens, ou eram sipaios indianos encarregados de manter a ordem, ou moços de convés, cúlies ágeis, diligentes e prestáveis.
Durante os primeiros tempos a viagem correu bonançosa, sem história. De dia, o capitão dava ordens na ponte, de barretina atirada para a nuca, um braço descaído sobre o pavês, molemente. Depois do jantar, os três oficiais jogavam um jogo chinês, o Mah Jong, de que logo me escusei, preferindo ler umas notas debaixo de um fanal, enquanto eles praguejavam na ponte em idiomas vários, entre os estalidos das peças de marrim na mesa desmontável.
No final de cada jogo eu ouvia a voz do comandante, por sobre o estralejar das peças recolhidas:
- Ora pois então. É preciso é que todos fiquem bem!
0 capitão, de vez em quando, vinha falar comigo. Lamentava-se de que a viagem fosse monótona e desejava-me melhor sorte que este enfado. Sabia muito sobre aquelas paragens, costumes, gentes, tipos. Industriou-me com pormenor sobre os hábitos e protocolos da corte de Carvangel, não deixando nunca de insinuar, disfarçadamente, a sua estranheza por me ter prestado a visitar um reizete tão obscuro.
Uma vez por outra, eu decidia dar uma volta pelo navio. Aproveitava a altura em que o irlandês, já tocado de genebra, descia até às profundas da casa das máquinas e o sipaio lhe abria a porta muito respeitador e orgulhoso do bacamarte com que assegurava a ordem a bordo.
O capitão não aprovava estas minhas surtidas. No primeiro dia de viagem chegou a opor-se com energia a que eu descesse. Que era para não ver o que eles comiam - dizia-me -, para não ficar agoniado.
Depois houve um parto complicado, e o próprio capitão me veio chamar para dar assistência. Enquanto eu trabalha vã, com a ajuda de mulheres escuras e tristes, o capitão fumava, olhando os longes do mar.
- Em todas as viagens nasce pessoal a bordo. Às vezes sou eu próprio a assistir, imagine o doutor. Os indígenas têm confiança. Mas este era um caso arrevesado, e ainda bem que o doutor estava. Não sei aonde é que esta gente quer ir parar, com tanta ninhada. Olhe, é preciso é que todos fiquem bem.
E o capitão ajudava-me a subir à ponte, carregava-me a maleta, segurava a cancela para eu passar, e já depois, no camarote, expendia largas observações sobre aqueles modos de vida e ouvia deleitado as notícias que eu lhe ia dando do nosso país natal. Adorrnecia de repente, depois de um «ora pois então» suspirado.
Um dia vi-o muito tenso, de mãos crispadas na bitácula, a olhar o horizonte, sobrolho carregado. 0 grego piloto mascava melancolicamente o que quer que fosse e, de quando em quando, alteava um dos ombros, num tique que lhe não era habitual, tocando as malaguetas com impulsos bruscos.
Ao almoço, os três oficiais mantinham-se silenciosos, tratavam-se cerimoniosamente, interpunham grandes pausas entre as raras palavras.
Perguntei ao capitão o que ia no ar. Ele respondeu com um discorrer vago, queixando-se-me do irlandês que, a seu ver, tinha mau feitio quando bebia, não se fazia respeitar pelos dois cúlies que trabalhavam com ele, e deixava sempre a casa das máquinas coberta de uma camada pegajosa de óleo e poeira. Além disso, tinha mau perder ao jogo confidenciava-me, entre baforadas vivas de genebra.
Os outros, entretanto, esbugalhavam os olhos, tentando adivinhar uma ou outra palavra da nossa palestra, e quedavamse muito graves, o grego aplainando vagamente com a faca as rugas da toalha, o irlandês assobiando para o lado, enquanto fazia rodar distraidamente um abacate mirrado na mão.
Percebi que o capitão, na sua perlenga, enquanto descascava a fruta com método, escolhia as expressões, ia buscar regionalismos, termos arrevesados, para evitar que os outros compreendessem alguma coisa do que dizíamos. E rematou o ararizel, quando o criado índio, respeitoso, trazia o chá, com um profundo:
- Olhe, doutor, sabe? Isto é preciso é que todos fiquem bem...
Mas algum tempo depois surpreendi-o sozinho, debruçado na amurada, a contemplar as águas. De novo insisti. 0 que é que realmente se passava?
O comandante riu-se das minhas apreensões. Disse-me que não havia tempestades [samatradas, como ele lhes chamava] nesta altura do ano. Quanto a investidas de piratas, que me foram sugeridas pelos enormes juncos, de tombadilho alteado, que nos cruzavam, eriçados de canhões de bronze, o capitão garantiu-me que depois do reforço da frota de Lah-Shong os piratas tinham desaparecido daquelas águas. De resto, observava, quem poderia estar interessado em abordar um ferry boat decrépito cheio de emigrantes mais pobres que Job? Ora os piratas queriam-se era para os ricos viajantes entre HongKong e Macau, para os visitantes milionários de Bali, capazes de proporcionarem carteiras recheadas e resgates pródigos. Agora ali, naquele ponto, ná! E cuspinhava desprezivamente para as ondas.
Assim me deixou, sem mais explicações, e foi reunir-se ao grego, na cabina do comando. Mas o nervosismo continuou durante o resto do dia. 0 maquinista gesticulou durante todo o jantar, entretendo uma complicada discussão em chinês com o grego, que alisava soturnamente o guardanapo, entre os remoques. 0 capitão fazia tamborilar os dedos por sobre a mesa, sonhador, o dólman suado entreaberto sobre o peito, até que deu por finda a discussão com um rugido de impaciência e um murro na mesa.
Nessa noite, porém, enquanto deitado na minha desconfortável cama de campanha tentava decifrar o sânscrito tosco de um manuscrito que me havia fornecido o Professor Telles Paula, residente em Lali-Shong, com a ajuda de uma multidão de dicionários e livros de notas alinhados sobre o lençol, ainda ouvi até tarde o palavreado áspero dos três homens.
Estranhamente, a bordo ia o silêncio. Durante todo o serão não se ouviu o fervilhar habitual da multidão, nem os gritos, nem os choros das crianças, nem as conversações dos velhos, nem as casquinadas das mulheres, nem a algazarra dos homens. Nada. 0 sipaio de turno passeava tranquilamente na ponte. Ouvia-lhe as botas compassadas no tabuado, por sobre um convés dorinente, tranquilo.
De manhã, acordei num repelão, sobressaltado. Sentado na cama, de coração aos saltos, olhei para cima, para a vigia. Um olho enonne, de íris dourada e raiada de finos veios de sangue, espreitava-me pelo vidro. Precipitei-me para fora do mosquiteiro que rasguei com a brusquidão.
O navio balouçava fortemente e lá fora soava um grande clamor uivado como se toda a gente gritasse, à uma. Vesti-me atabalhoadamente com os movimentos dificultados pelos baldões do barco e pela inquietação de ver que o tal olho descomunal não me desfitava, colado à vigia. 0 olho deslizou e vi escorrerem pelo vidro grossos fios de cabelo louro, solto, e, depois, fugaz, o lóbulo de uma orelha gigantesca.
Na ponte concentrava-se toda a tripulação, com excepção dos homens das máquinas. Tinham as mãos fixas no pavesame e o olhar fito ao longe. 0 capitão tomou-me pelo braço e, com uma sacudidela seca, intimou-me a que não me mexesse.
Por toda a extensão do mar, à vante do navio parado, espadanando nas águas quietas e escuras, passeava-se um deus, no seu carro.
Nesse momento deslocava-se, lento, descrevendo um grande arco na nossa frente, obra de cem braças afastado do navio. Estava em pé, conduzindo um carro dourado, de que as rodas, raiadas, levantavam cachões de água dum e doutro lado, e que era tirado por dois cavalos marinhos que faziam ondear graciosamente as suas retorcidas caudas de peixe. 0 corpo do deus, nu, resplandecia e os olhos brilhavam-lhe de um fulgor branco que por vezes se fazia vermelho e frio. Na mão livre alçava um tridente, com majestade. Os longos cabelos e barbas louras flutuavam à brisa.
Quando o carro do deus estacou na nossa frente e ali, parado, se manteve durante alguns instantes, caiu um grande silêncio, expectante, por sobre o navio. Mas logo o carro cresceu, num chispar de chamas rubras, e veio contra o barco. O deus, de tridente bem levantado, avantajou-se pela proa. O corpo agigantado excedia agora a altura da chaminé e, no meio de um vento zunidor e dos gritos aterrados da multidão, atravessou o navio e foi parar do lado da ré, já num tamanho de homem.
Instintivamente, todos na ponte nos baixámos, à passagem daquele vendaval luminoso. 0 capitão, de quépi tombado sobre a nuca, praguejava baixinho, despejando o repertório desbocado de todos os portos do mundo. No meio das intermináveis imprecações só consegui distinguir:
- Eu bem adivinhava, co'a breca, bem calculava que isto ia acontecer...
0 irlandês tinha-se ficado de joelhos e rezava. 0 grego tossia baixinho, mão perto da boca, olhos de susto. Os marinheiros e sipaios indígenas espreitavam acocorados a monte, num pasmo.
0 deus, entretanto, guiava o seu carro, ultrapassando-nos pela alheta de bombordo. Deu várias voltas em redor do navio, levantando espuma, sempre a fitar em nós os olhos resplandecentes de fria luz. Sensivelmente, este movimento foi-se fazendo cada vez mais rápido, até que se tomou num corropio lumincscente, mal discemível entre borbotões de espuma. Lentamente, o navio entrou a rodopiar, primeiro de mansinho, depois num giro crescente que nos fez agarrar às amuras e levantou um grande alarido de pavor lá para baixo.
De novo o deus se ficou, parado, no meio do mar, os seus cavalos em movimentos vagarosos de sustentação à tona das águas. 0 grego e o irlandês, de volta da roda do leme, conseguiram com muito esforço dominar o navio, endireitando-o ao rumo que vinha seguindo. Por um instante, as máquinas reboaram a ajudar a manobra e o navio, a custo, voltou a imobilizar-se.
Agora de braços cruzados, tridente pousado ao lado, no carro, o deus, de olhos fulgurantes, parecia esperar o que quer que fosse.
- Bom, vamos a isto - resmungou o capitão, e fez um sinal ao irlandês para que o acompanhasse. Seguidos por sipaios, de arma engatilhada, os dois homens abriram a cancela e desceram da ponte, para o meio dos emigrantes. Do convés vieram rumores confusos, alguns gritos.
Interpelei o grego, que, meio dependurado da roda do leme, encolheu os ombros com displicência. E foi um dos cúlies, meio enfarruscado de óleos e enodoado de massas consistentes, que num português torto me deu uma explicação.
Quando naquela rota fazia bom tempo, e sensivelmente sempre nas mesmas coordenadas, aparecia uma divindade, como a que agora nos defrontava, que exigia um sacrifício para que a viagem pudesse prosseguir. Nem sempre, porém, isso acontecia, o que levava certos comandantes a afoitar-se, fiados em que que o mar, dessa vez, estivesse franco. Para azar nosso, ali nos víamos encrencados - e julgei discemir, por entre o grande fluxo de palavreado malaio, uma cerrada crítica ao governo do navio de permeio com maldições.
O comandante e a sua equipa abriam entretanto a cancela e traziam para a ponte um velho famélico, de longa barba branca, imunda, turbante esfarrapado, que, de olhos em alvo e mãos sobre o peito, desfiava uma interminável ladainha pelos lábios semicerrados, ao jeito dos visionários orientais.
Interceptei o capitão, à passagem, mas ele afastou-me para o lado, impaciente, e resmoneou:
- 0 amigo doutor agora não se mete nisto, entendido? E deixa-me conduzir as coisas porque aqui quem manda sou eu. Ora ponha-se manso, sim?
E, com os dois sipaios, escoltou o velho até junto da amurada, onde o empurraram e deixaram só, a engrolar as suas rezas, frente ao deus que, lá longe, aguardava.
o irlandês, nesse meio tempo, explicava-me laconicamente que o próprio velho se tinha oferecido para ser sacrificado com a anuência da família, pelo que o procedimento se fazia com o consenso de todos.
Mas o deus, pelos vistos, não aceitou o oferecimento e rejeitou o sacríficio daquele pobre diabo.
Num ímpeto, tomou e enristou o tridente que, de lá de onde ele estava, se veio alongando, alongando e crescendo, deixando uma sombra negra sobre o mar. Fomos todos sacudidos pelo embate do navio com o tridente e segurámo-nos onde pudemos. Depois ouvimos um ranger medonho, como se o navio estalasse por todas as juntas e sentimo-nos levantados no ar, a grande altura. A algazarra, a bordo, transforrnou-se num urro uníssono, de entremeio com gritos agudos, estalidos das madeiras, e o matraquear da hélice rodando em seco.
Alcandorados às alturas, víamos o deus muito pequeno, lá ao fundo, segurando o barco na ponta do tridente. Os olhos fulguravam-lhe dum vermelho vivo que feria o tom esmeralda verde do mar.
Depois de algum tempo, foi baixando devagar o navio que após um embate pesado na água se ficou a balouçar. Na ponte, estávamos todos encharcados. 0 capitão tinha perdido o quépi. Afortunadamente, ninguém caiu à água.
Quando pudemos levantar-nos já o deus esperava de novo, a umas trinta braças.
0 capitão, irritado, sacudiu o dólman molhado, chamou o irlandês, os sipaios e ordenou:
- Não haja dúvida! É preciso ir lá abaixo outra vez!
Aproveitei a abertura da cancela e passei com o comandante e os outros para a escada, apinhada de indígenas aterrorizados. Movimentávamo-nos com dificuldade ao longo daquele aglomerado, que os sipaios mal conseguiam romper à força de encontrões e coronhadas.
No percurso, ousei perguntar ao capitão:
- Mas o que é isto agora? Não me diga que vai mesmo fazer a vontade daquele bruxo chamuscado, capitão. Há que nos portarmos como gente civilizada, c'os diabos! Por quem é? Sacrifícios humanos é que não...
0 capitão parou um instante e olhou para mim, iracundo. A boca tremia-lhe, no esforço para não romper a praguejar inconsideradam ente. Volveu-me, com um esgar maligno:
- Civilizado, hem, doutor? É facil falar, mas eu é que tenho a responsabilidade por esta passarada toda que aqui vai. Civilizado, se calhar, foi o checo Minnianic que mandou disparar um tiro de peça contra aquilo e teve o navio desfeito, trituradinho, moído em pedacinhos pequenos salpicados pelo mar. Era isto que o doutor queria? Ou civilizado como o chinês Tao Ling que se meteu a fazer um discurso pelo porta-voz, a propor negociações, e o navio se lhe abrasou todo em fogo e foi ao fundo feito em torresmos? Pois, se é preciso sacrificar uma criatura para salvar uma remessa delas sacrifique-se. Isto, sim, é que é justo. Pelo menos é cá a minha ideia de civilização...
E, dizendo isto, olhava para o irlandês, que, muito sério, sacudia a cabeça em aprovação, embora só tivesse podido adivinhar o sentido geral do discurso.
Estávamos agora no sujo convés, cheio de gente. De vez em quando, por uma fugaz brecha entre os corpos escuros, encadeava-me o resplendor do deus, faiscando como uma réstea instantânea de sol.
Passando o olhar em volta, o capitão media o círculo de gente que o olhava suspensa, agora em silêncio. Corpos vestes estavam ainda repassados de água, dos baldões do barco. Restos de espuma borbulhavam com um ruído cavo, pelos embornais, pontuando a expectativa tensa, apavorada.
A custo, o comandante deu uns passos. Aos seus movimentos, todos se comprimiam ainda mais uns contra os outros. De súbito, o capitão levantou o braço e apontou uma adolescente que, aninhada contra a mãe, nos fitava com grandes olhos de medo.
- Tragam-me aquela além - disse ele.
Os dois sipaios adiantaram-se e agarraram brutalmente a jovem por um braço. A mãe debateu-se e alguns nativos esquálidos gesticularam em volta com ar ameaçador. E foi de roldão, no meio de uma grande grita que todos subimos as escadas até à ponte. Os sipaios distribuíam coronhadas quase ao acaso, o capitão de mãos abertas, debatendo-se, forcejava contra a mole de gente. Eu defendia-me dos golpes que vinham de todos os lados e tentava, ao mesmo tempo, libertar a rapariga dos sipaios, o que dava um grande e confuso sarilhar de gestos.
Finalmente chegámos à cancela, onde o resto da tripulação, de armas em riste, nos ajudou a passar à ponte, à custa de alguns lenhos em corpos mais atrevidos. Estávamos todos ofegantes. Mal contida pelas armas aperradas e pelos sabres que os cúlies brandiam, uma turbamulta parda concentrava-se pelas escadas, insultando-nos, alçando gestos ameaçadores. Choveram restos de cordoalha, pedaços de pau, detritos. Entre nós, muito encolhida, a rapariguinha tremia de medo, a cara encardida corrida de lágrimas.
Aproveitei a breve pausa, enquanto todos nos entreolhávamos, para me dirigir ao capitão, que se me antecipou, limpando o suor com um grande lenço vermelho debruado a azul.
- Eu já tinha avisado o doutor para que não se metesse nisto. Ai tinha, tinha... Veja lá. Olhe que isto é preciso é que todos fiquem bem..
Neste momento, a figura do deus, gigantesca, cobria uma grande parte do céu pairando por sobre o navio. De semblante crispado, braços cruzados, parecia continuar à espera. 0 seu carro dourado, entretanto, caracoleava sozinho por entre as águas, conduzido pelos insólitos cavalos de tiro.
- Ouça capitão - insisti eu -, você quer, com um sacrifício humano, aplacar um deus, mas o que vai fazer, no fundo, é sacrificar-nos a todos através dessa rapariga. Compreenda a responsabilidade que tem, homem! Essa moça que você quer entregar àquele monstro iluminado está a representar-nos a nós todos. Com ela somos todos, percebe, todos, você, eu, os passageiros, todos, que pagamos o tributo. Todos ficamos sujeitos à vontade daquele figurão despótico, à mercê do que ele queira. Não o autorizo a entregar-me a mim, a entregar esta gente toda na figura daquela moça!
- Olhe, doutor - e o capitão falava muito depressa, alteando a voz. - Olhe, doutor, agora não tenho tempo para doutrinas. Eu cá sou um homem prático, ou não tinha chegado a esta idade. Isto aqui é como se fosse a raposa a roer a pata presa, entende? 0 que é preciso é que todos fiquem bem, ou pensa que é com gosto que dou a catraia?
E, empertigando-se, de sobrolho derribado:
- Ora arrede-se para lá, se faz favor, ou têmo-la armada...
Ainda tentei dar mais razões, argumentar, convencer, mas, a um gesto enérgico do comandante, os dois sipaios levaram a mocinha submissa para o ponto em que antes estivera o velho. A sua pequena silhueta escura, enfezada e encolhida, contrastava com o corpo resplandecente do deus, em fundo.
Então atirei-me para diante, aos gritos. Da balbúrdia que se seguiu, apenas recordo o grego, muito fleumático, pirisca ao canto da boca, a alçar uma bigota de ferro sobre mim, que desmaiei com a pancada.
Acordei na cabina com o capitão a meu lado, a humedecerme a testa com um trapo molhado. Demorou algum tempo antes que a cara gorda, mal barbeada, me aparecesse nítida, focada. Ele sorria, prazenteiro:
- Então, já arribou? Olhe que tem os... bem... a pele dura, doutor. 0 gajo chegou-lhe forte, hem? Ele manda-lhe pedir muitas desculpas. E, bem vê, dadas as circunstâncias...
0 navio singrava agora célere, a toda a força das máquinas, num ruído atroador. Soerguido na cama, com a cabeça a latejar, os acontecimentos de há pouco voltavam-me lentamente à memória.
Segurei bruscamente o capitão por um braço:
- Que se passou? Que é da rapariga?
- Calma, doutor - recomendou o capitão com brandura -, não se amofine que ficaram todos bem. A gaiata está rija e sã, lá em baixo, com os pais.
E, oferecendo-me um cigarro, contou-me que, na altura da zaragata, logo depois de o grego me ter batido, deu-se um grande estrondo nos ares e a aparição sumiu-se, de repente, sem deixar rasto. Eles ainda aguardaram um pouco, na ponte, não fosse a avantesma regressar, com as suas exigências. Mas nada mais se passou e tudo voltou à normalidade.
o mar estava desimpedido e a rota prosseguia, sem mais percalços, as máquinas muito lançadas para recuperar o tempo perdido.
- Caprichos lá dos céus, ou do que quer que seja - comentou o capitão encolhendo os ombros. - Vá-se lá saber..
Insisti para que me deixasse ver a moça com os meus
próprios olhos. Ele acedeu, cheio de paciência, e amparou-me até aos primeiros degraus da escada da ponte, de onde pude observar a rapariguita, que dormia tranquilamente enroscada no tabuado, junto a um magote de gente que falava baixo e fumava ervas equívocas.
A viagem durou ainda mais dois dias em que recuperei menos mal do hematoma que a pancada me causou na testa. À mesa dos oficiais pouco se falou nos acontecimentos de antes. Em todo o caso, pude apurar que o deus, que, com a minha formação clássica e jacobina, eu tinha identificado vagamente com Posídon, havia sido visto pelo capitão e pelo irlandês como uma espécie de S. Pedro, de túnica arregaçada, içando o navio na sua rede de pescador, pelos sipaios, como Káli, a deusa sangrenta, com sua multidão de braços, sorrindo hediondamente, pelos cúlies como um imenso dragão ondeante e espanador de águas e, provavelmente, por cada um dos passageiros, em conformidade com as suas reminiscências próprias.
Confesso que não cheguei, enfim, ao cais de Carvangel ostentando o porte digno e impoluto que esperariam de mim os pequenos dignitários maquilhados e vestidos de compridas túnicas coloridas que me esperavam em terra. Em vez do capacete de cortiça, muito decoroso, que decerto queriam ver os surpresos cortesãos, rodeava-me a cabeça uma compressa de linho, sofrivelmente limpa, mal amanhada pelo capitão.
Este veio despedir-se de mim, com um aperto de mão efusivo, dizendo-me:
- E desculpe se tem alguma razão de queixa. Aconselho-o, na volta, a esperar pelo avião de carreira. Já vê, doutor, sempre é mais cómodo, e, nestas coisas, é preciso é que todos fiquem bem... - E, hesitando: - Estive a pensar, sabe, e parece-me que o amigo, no meio disto tudo, se portou a preceito...
Recusei a cadeirinha que os do séquito me ofereciam e dirigi-me a pé para o palácio, acompanhado da minha vistosa escolta.


Mário de Carvalho, In Contos da Sétima Esfera