01/05/2008

Quarto capítulo



Chaminé que construísse em minha casa não seria para sair o fumo, mas para entrar o céu.

(Dito do avô Celestiano)


O dia começa sempre de mentira. Porque o sol só finge nascer. Aque­la manhã acordou com vontade de esquentar e eu me decidi passear pela praia. Foi quando encontrei Luarmina mergulhada numa po­ça de água. Estava vestida e as roupas colavam-se no corpo. Apro­ximei e lhe perguntei a razão daqueles banhos. Ela respondeu que queria aquecer as pernas.

A água está quentinha?

Não recebo quentura da água. Quem me aquece são caracóis.

E explicou: havia uns certos caracóis que lhe lambiam as per­nas, pastando nessas gorduras dela. Os bichos desqualificavam viscosas salivas sobre a vizinha e eu só pensava: mal empregadas as minhas próprias babas, com o devido respeito. E salvo seja.

Dá licença eu entrar?

Entrar onde?

— Nessa água onde a senhora está ser banhada.

Entrei, fui-me achegando perto da vizinha. Me entornei na água e fechei os olhos igual como ela. Minhas mãos fingiram ser caracóis, lesmas babadoiras lavrando nas coxas de Luarmina. Para meu es­panto, a mulata não me repeliu. Meus dedos prosseguiram, cumprin­do seu dever, pescando entre roupa e corpo. Espreitei pela esquina dos olhos: a gorda Luarmina estava flutuando, embevencida, pare­cia um navio repousando em desenho de criança.

De repente, porém, ela soltou um grito. Emendei minha ma-landrice, mãos atrás das costas,

Susto, Dona! O que foi?

Luarmina apontou qualquer coisa sobre as águas. Eram peixes mortos boiando.

Veja, Zeca, são peixes sem olhos!

Um arrepio me atravessou. Aquilo era um sinal. Alguém, da ou­tra margem do mundo, me estava vigiando. Mania dos mortos é tei­marem em ser humanos. E ali, entre mim e Luarmina, se vertia a mensagem dos divinos. A mulata estava mais aterrorizada que eu.

— O que é isso, Zeca?

— É melhor sairmos da água. Venha, eu lhe ajudo.

Luarmina tremia. Para espantar seu medo falei sern parar. Os peixes sabe o que são? Como apareceram? Então, sente e sossegue. Isso, assim. Lhe vou contar a versão de rneu avô Celestiano. No anti­gamente não havia bicho dentro do mar. Só na terra e no ar. Muitos pássaros havia, vogando apenas sobre os continentes. Os deuses se contentavam de ver-lhes voar sobre as florestas, subir acima das montanhosas alturas. Uma vez, um pássaro se atreveu a pairar so­bre as águas. E ele surpreendeu, no reflexo, a beleza do seu próprio voo. Regressou e contou aos outros:

Já sei por que nos proíbem voar sobre o oceano.

E foram, aos milhares, bandos ansiosos por verem a sua imagem. Nunca, sobre o mar, se haviam formado tais nuvens: feitas de plu­mas, ágeis de suster peso. Foi então que estalou a tempestade, cas­tigo dos divinos deuses. Os relâmpagos rasgavam as aves, como facas luminosas. Milhares de asas tombaram nas ondas e foram ga­nhando embalo das correntes, como se continuassem voagens em líquidas vagas. Assim, da asa nasceu a onda, da pluma nasceu a es­puma.

Da maneira como estou, Zeca, nem me apetece ouvir nenhumas histórias.

Luarmina não queria distracção. O braço da angústia puxava--a para o fundo. Melhor seria se fosse ela a falar:

— E você, Luarmina, lembra da sua família?

Mas ela não respondeu. Seu passado era como o futuro em nossas línguas: começava apenas quando acabava, como lagarto que fosse comido pela própria cauda. O resto se dissolvia em cacimbos de tristeza.

Enquanto tive dedo dedilhei panos, vesti gente,

Mas esse serviço de confeitar vestes não lhe enchia a vida. Ela queria ser outra coisa, queria crescer de si mais gente, ter filhos, nascer-se em outras vidas. Mas sem essa dádiva, entrar em sua ca­sa, tão sem outros, não lhe dava vontade. Essa a razão por que vivia mais em varanda que dentro das paredes.

É por causa disso que gosto de ouvir histórias de família. Vá, me conte mais sobre sua casa, sua família.

— Não peça isso, Luarmina.

— Sabe uma coisa, Zeca: esta noite, toda luarada, acho que vou tomar banho fora, no quinta!..

— Nua? Quer dizer, despida?

— Quem sabe, Zeca?

— E a senhora me deixa espreitar?

— Se contar, eu deixo.