01/05/2008

Primeiro capítulo



Deus é assunto delicado de pensar, faz
conta um ovo: se apertarmos com força
parte-se, se não seguramos bem cai.


(Dito do avô Celestiano, reinventando um velho provérbio macua)


Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem conso­lar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a fale­cer.

Levanta, ó dono das preguiças.

Ë o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu res­pondo:

Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos.

— Conversa de malandro...

Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver...

Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.

Você, Zeca Perpetuo, até parece mulher...

— Mulher, eu?

Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.

— Que quer, vizinha? Cadeira não áá jeito para dormir.

Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:

Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.

— A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a en­tende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não--Deus...

Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pes­car, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.

— Não é verdade, Dona Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro?

Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu me suficiente do actual presente. E basta.

Só eu quero é ser um homem bom, Dona.

— Você é mas é um aldrabom.

A gorda mulata não quer amolecer conversa. E tem razão, sen­do minha vizinha desde há tanto. Ela chegou ao bairro depois da morte de meus pais, quando herdei a velha casa da família.

Nessa altura, eu ainda pescava em longas viagens, semanas de ausência nos bancos de Sofala. Nem notava a existência de Luarmi­na. Também ela, logo que desembarcou, se internou na Missão, em estágio para freira. Ficou enclausurada nessas penumbras onde se murmura conversa com Deus.

Só uns anos mais tarde ela saiu dessa reclusão. E se instalou na casa que os padres lhe destinaram, bem junto à minha morada. Luarmina costureirava — era seu sustento. Nos primeiros tempos, ela continuava sem se dar às vistas. Só as mulheres que entravam em seus domínios é que lhe davam conta. No resto, me chegavam ape­nas os perfumes de sua sombra.

Um dia o padre Nunes me falou de Luarmina, seus brumosos passados. O pai era um grego, um desses pescadores que arrumou rede em costas de Moçambique, do lado de lá da baía de S. Vicente. Já se antigamentara há muito. A mãe morreu pouco tempo depois. Dizem que de desgosto. Não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha. Ao que parece, Luarmina endoidava os homens, graúdos que abutreavam em redor da casa. A senhora maldizia a perfeição de sua filha. Diz-se que, enlouquecida, certa noite intentou de golpear o rosto de Luarmina. Só para a esfeiar e, assim, afastar os candidatos.

Depois da morte da mãe, enviaram Luarmina para o lado de cá, para ela se amoldar na Missão, entregue a reza e crucifixo. Havia que arrumar a moça por fora, engomá-la por dentro. E foi assim que ela se dedicou a linhas, agulhas e dedais. Até se transferir para sua actual moradia, nos arredores de minha existência.

Só bem depois de me retirar das pescarias é que dei por mim a encostar desejos na vizinha. Comecei por cartas, mensagens à distân­cia. À custa de minhas insistências namoradeiras, Luarmina já apren­dera as mil defesas. Ela sempre me desfazia os favores, negando-se.

Me deixa sossegada, Zeca. Não vê que eu já não áesengomo lençol?

— Que ideia, Dona vizinha?! Quem lhe disse que eu tinha essa inten­ção?

Todavia, ela tem razão. Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência, beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela.

Dona Luarmina, o que é isso? Parece ficou mesmo freira. Um dia, quando o amor lhe chegar, você nem o vai reconhecer...

— Deixe-me, Zeca. Eu sou velha, só preciso é um ombro.

Confirmando esse atestado de inutensflio, ela esfrega os joelhos como se fossem eles os culpados do seu cansaço. As pernas dela, da maneira como incham, dificultam as vias do sangue. Lhe icebergam os pés, a gente toca e são blocos de gelo. E ela sempre se queixa. Um dia, aproveitei para me oferecer:

Quer que lhe aqueça os pés?

Arrepiando expectativa, ela até aceitou. Até eu fiquei assim, meio desfisgado, o coração atropelando o peito.

Me aquece, Zeca?

— Sim, aqueço mas... pela parte de dentro.

Tentava um deslize na defesa dela. Mas levei tampa. Eu estava como essoutro que foi lavar a mão e sujou o sabão. Ou aquele que queria acertar a unha e cortou o dedo. Com esta minha idade eu já devia conhecer os devidos procedimentos, as delicadas tácticas de abordagem. Mas não. Meu falecido avô sempre dizia:

Em novos só nos ensinam o que não serve. Em velhos só apren­demos o que não presta.

Mas é pena eu e a vizinha não nos simetricarmos. Porque ambos somos semiviúvos: nunca tivemos companheiro, mas esse parceiro, mesmo assim, desapareceu. Sou mais novo que ela, mas já estamos ambos na encosta de lá em que a vida só mexe quando é a descer.

Hoje sei como se mede a verdadeira idade: vamos ficando ve­lhos quando não fazemos novos amigos. Estamos morrendo a partir do momento em que não mais nos apaixonamos.

E até que Dona Luarmina, aliás Albertina da Conceição Melisto-polous, já foi bela de espantar a homenzarrada. Sei isso porque tes­temunhei um flagrante dessa formosura dela. Foi uma certa vez que não fiquei só na varanda. Entrei em sua casa, sentei na sala grande com janela para o mar. Foi então que eu vi a fotografia. Era de uma moça de espantável beleza, corpo de aguar as mais mornas bocas.

Quem é essa?

— Sou eu, quando era nova. Antes de chegar aqui...

Me levantei, já em vias de tocar a foto. Mas ela, secamente, emendou a visão minha, vertendo a moldura sobre a mesa. E ali fi­cou, para os restantes dias, aquele retrato deitado de costas para a luz. Eu bem tentava espreitar, da janela, a imagem da sua antiga be­leza. Em vão.

Restava-me a presente figura de Luarmina, gorda e engordura­da. A mulher, por razões de angústia, se deixara acumular, quilos so­bre o peso. Eu entendo: uma boa maneira de esconder a tristeza é cobrirmo-nos de carne. O sofrimento é fatal quando atinge os ossos. Chegada aí, a tristeza se apressa em virar esqueleto. Sábio é dar cobertura ao corpo, intermediar gordurosas fronteiras.

Às vezes, ainda relampeja nela alguma infância. Então, ela tenta brincar-me, espicaçar-me uma ciumeira.

Uma vez, um homem me chamou de dólingui.

— Dólingui?

Dólingui ou darilingue. Era um estrangeiro de fora.

— O que é isso, darilingue? Tenho muitos nomes bastante melhores que esses, não quer ouvir Dona vizinha?

— Não quero. Desculpa, Zeca, mas agora já não quero. Me custa já ter um nome quanto mais muitos...

Já faz anos que rondopio à volta da viúva. Arrisco mesmo perder plumagens nessa insistência. Contudo estou arrastando asa em ne­nhum chão: minhas penas só roçam aragens. A estratégia é lhe con­tar minhas aventuras: invento feitos passados em minhas atribula­ções marinhas. Mas não são aventuras que a fazem sonhiscar. O que Dona Luarmina me solicita são exactas memórias. E isso é o que eu menos quero. Não é que me faltem lembranças. Estão é espalhadas em toda a minha substância, até nesse dedo que perdi nas fainas. Meu corpo foi-se tornando um cemitério de tempo, parece um desses bosques sagrados onde enterramos nossos mortos.

Conte como foi, quero as coisas que foram e como foram. Essas que nos põem saudade...

Saudades, em mim, nunca têm pressa. Demoram tanto que nun­ca chegam. Só quando eu danço me liberto do tempo — esvoam as memórias, levantam voo de mim. Eu devia era dançar todo o tempo, dançar para ela, dançar com ela.

Me fale sobre o seu passado.

Meu passado me pesa: minha infância morreu cedo, eu tive que carregar esse peso morto em minha vida. Aos seis anos tomei lugar de meu avô no barco, dois anos depois meu pai perdia o juízo e saía de casa, cego e louco. Minha mãe, antes de morrer, me entregou na igreja. O padre português Jacinto Nunes me educou em preceito de Deus e livro. Mas eu queria era regressar ao mar e cedo troquei livro por rede. Sempre entregando muito, recebendo pouco. Meu avô Celestiano culpava meu pai dessa má sorte.

Esse meu filho Agualberto, cabisburro como é, meteu-se no mundo dos brancos, nem abençoou o barco dele. Abandonou os antepassados? Cas­tigo é esse.

Insisto com Dona Luarmina: ela não me peça lembranças. Eu quero matar o passado, essa mulher tem que me deixar cometer esse crime. Caso senão é o passado que me mata a mim.

Você, Zeca, tem raiva do passado, tem ciúme do futuro: vai viver só nos agoras?

Reformado das pescas, nem no presente tenho cabimento. Enquanto andava no mar, embalado em meu barco, eu não sofria o tempo. Porque essa ondeação era, afinal, uma dança. E a dança, já disse, é melhor maneira de fugir do tempo.

Venha dançar, Doninha...

— Dançar, eu? Com este corpo?

Ela ri, envergonhada. Mas Luarmina não sabe: os que dançam ficam sem corpo. Esperta é a árvore que não mexe e dança a sombra dela no planeta inteiro.

Dona Luarmina não se lembra a Maria Bailarinha?

E recordei essa moça do bairro, uma ajunta-brasas. Dançava que dava tontura no mundo, a homenzoada ficava zarolha do miolo. Os pés dela, todos descalços, machucavam o chão, eram pés de pilão mas nem poeira levantavam: a terra comovida parecia aprazida desse batimento. Maria Bailarinha dançava a pedido e a moeda. Lhe atiravam os dinheiros e ela, de imediato, deflagrava seu corpo. Mesmo o padre Jacinto Nunes comentava baixinho para a sua batina:

Até Arquimedes haveria de flutuar, Santo Deus me valha!

Aconteceu que, uma noite, ao roçar junto da fogueira, a capula-na da dançarina se fez em chama. Maria Bailarinha não parou de dançar. O povo começou a gritar, em aviso. O fogo em redor das ves­tes se adensou e ela não se detinha nem deixava que ninguém se achegasse. Estava possuída pela vertigem, dançava já com a própria morte. Até que estancou, semelhando estar intacta e inteira. Quando a primeira mão lhe tocou ela se desfez em cinza, poeirinha esvoando na brisa.

Lembra a Maria Bailarinha?

Nada. Luarmina não responde. Terá sequer me escutado? Não há modo nem maneira: Dona vizinha desconfia de desventuras dos outros. Só lhe interessa as antiguidades de que fiz parte. E eu, para subterfugir, aldrabo umas lembranças, desenrasco uns pensamentos. Até, um dia, lhe perguntei:

Por que só minhas lembranças, as pessoais?

A vizinha não respondeu. Antes, retrucou assim:

Bom, se lhe custa, então, me conte uns sonhos...

Mas eu que nem lembro nunca dos sonhos que me visitam en­quanto durmo! É que temos horários diferentes: eu e o sonho. E avi­so:

Hão-de ser sonhos falsificados...

Não importa.

E teimei. Até porque traz má sorte recordar quem nos visitou du­rante o sono. Assim, eu iria dar umas demãos de invenção nos meus relatos. Quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos in­venta a nós.

Não faz mal, Zeca Perpétuo. Hoje, eu ate'podia pagar para alguém me contar os sonhos.

Riu-se, em esboço. Mas era uma só tristeza molhada. Depois, deixei minha vizinha em seu assento e fui regressando, em passo lento, a minha casa. Luarmina se entranhou na sua pequena mania, como se descosturasse um pano nenhum:

Mar me quer, bem me quer...

Este era o cantochão de Luarmina, o infindo rameramejar dela. Todos fins de tarde a mulata fica sentada, num degrau da varanda, e vai desfolhando infinitas flores. Ao fim de um tempo, todo o pátio está forrado a pétalas, o chão espantado a mil cores.