23/03/2008

Por uma vereda na falésia



Pequenino, curvado, bigode grisalho, de pelame confuso, o homem estendia os braços levantados, como se estivesse a oferecer o magro peito que ninguém lhe pedia: "O doutor, isto que eu faço é por si, pá, e por mais ninguém, ouviu?" Dirigia-se a um médico do nosso grupo que se chamava Raul, e o tinha tratado dum enfisema. O homem agora não fumava e, por isso, estava quase sempre de mau humor. Isso não lhe afectava o sentido da gratidão. "Vamos?"

Era numa daquelas escarpas algarvias, muito estaladas, não longe da praia da Rocha. Tínhamos ido parar ali, não sei porquê. Apanhar vento, depois do almoço, acho eu. A Primavera estava fria, o passeio fez-se por se fazer. Mal tínhamos saído do jipe, o homem aparece, de entre as ervas, mãos nos bolsos, com uma grande conversa a louvaminhar o médi­co salvador. Antes nem era capaz de subir para aquela pedra, e apontava para um calhau do tamanho dum punho, agora cabia-lhe todo o ar nos pulmões. E inspirava e tornava convexo o peito côncavo. Um exagerado, aquele algarvio. E palrador.

Apertou a mão a todos, que sendo amigos do doutor seus amigos eram, fez considera­is coes sobre o tempo e o rnar, os tempos e os modos, contou uma anedota e, de repente, atirou a proposta: que fôssemos com ele pela falésia que havia de mostrar ao doutor, e por exten­são aos circunstantes, "uma coisa como a gente nunca tinha visto na vida, ta linda, ta linda". Ninguém estava muito disposto a ver coisas, com aquele frio e aquele vento. Os do gru­po entreolharam-se e rosnaram entre si umas sugestões de desculpa. A professora, Marília, tinha medo da água, o advogado, Gil, queria voltar para o hotel, eu estava por tudo, desde que não me metessem em chatices, e o médico com um sorriso forçado ia fazendo gestos apaziguadores que foram substituídos por um olhar gelado quando o advogado sugeriu: "Dá-se-lhe duzentos paus e ele põe-se na alheta." Sempre era um dos seus doentes, prova viva da eficácia da Medicina. "Vamos com ele, não é, Rui?" Encolhi os ombros e lá marchei.

Os outros, resmungando, seguiram-nos.

O carreiro, fino e torcido, riscava a falésia por socalcos, às vezes desmoronados, numa extensão que me pareceu maior que a desejável. Debaixo dos nossos pés, a areia seca esfare­lava-se e ia juntar-se lá em baixo, à da praia, formando um pontilhado de flocos escurecidos. "Falta muito?", perguntou o médico. "Não, é já além", respondeu o homem.

A experiência de vida ensinara-nos que este "já além", dito pelos homens do Sul, é ade­quado a qualquer distância astronómica, mesmo das mais curtas. No entender de um algar­vio, a lua "é já além" e a América "é só um saltinho". Mas lá seguíamos resignados. Hesita­ções houve quando a falésia, de súbito, recurvou para terra, e a praia, lá em baixo, deu lugar a uma maré grossa, belicosa e bulhenta. "Não me quero molhar", disse Marília, "não me quero molhar" e agarrou-se a um tufo de ervas que nasciam das ribas. "Olhe que a erva não tem segurança", avisou o homem, voltando-se para trás. "Mas se a senhora quiser voltar, faz favor."

Nem Marília nem o advogado estavam dispostos a regresso sem guia. Ela deu um ostensi­vo suspiro, agarrou-me pelo cinto e lá veio aos saltinhos, a fazer-me peso. Atrás, o advogado, ao com um braço estendido para o infinito, parecia proteger-nos dos pássaros.

Mas o carreiro entrava em declive, cada vez mais estreito e solto, com o mar mais perto. As ondas esgadanhavam o fundo da falésia e expeliam uma poeirada de gotículas frias que nos faziam mal aos humores. Toda a gente praguejava. A mão de Marília que me puxava o cinto fez-se mais enclavinhada, e eu mais estreitado, e a outra mão filou-me o blusão, por alturas do pescoço.

O homem ia prosseguindo, a passo seguro, bom conhecedor do atalho. Pressentindo as hesitações e as indignações, voltou-se para trás, enconchou as mãos em volta da boca e avi­sou: "Vão contando as ondas. A sétima é sempre a mais rija." Mesmo o doutor, nesta altura, já estava quase a mandá-lo para o diabo.

Enfim, chegámos quase de gatas e muito tremidos de ventos e salpicos de mar a um pon­to em que o homem parou e apontou. Belo momento aquele, de pose rígida, solene dedo estendido ao alto. Lá em cima havia uma abertura, um rasgão na areia, de fundo negro e convulso. "É além", disse o homem. "Ai ali eu não entro, não entro não senhora." Era Marí­lia. "Não há azar, trouxe a pilha", informou o homem. E daí a instantes, depois de uma escalada confusa por areias movediças e impacientes, lá estávamos todos dentro da gruta, com os olhos a habituarem-se ao focozinho da lanterna de bolso, tremeluzindo, incerto.

O espaço era grande, tortuoso, metia muito para dentro. Tropecei no que me pareceu ser um amontoado de tijolo burro, muito esfarelado. Marília perguntava se havia morcegos. "Só se forem morcegos com penas", disse o algarvio. Por uma abertura, passámos a uma sala ampla, com ecos a rebentar por todos os lados. Era frio e húmido. A luz pôs-se a saltitar sobre o que parecia ser um baú de pedra que nunca mais terminava, ao correr da parede rochosa. "Vejam-lhe o boneco", ordenou o homem e apontou a luz para uma das extremidades. Debruçámo-nos. Em baixo-relevo, muito nítido, ainda com restos de cores fortes, uma carantonha emplumada, de aspecto pouco recomendável, olhava para o tecto de onde pendiam estalactites. "É um índio", precipitou-se Raul. O foco foi deslizando, metro a metro, dois, três, quatro, e mostrou uma armadura, um escudo, uma maça de armas, uns joelhos cober­tos pelo rebordo superior dumas grevas. "Um índio, uma ova, não havia índios de armadu­ra." As minhas mãos foram tacteando o rebordo abaulado. Sentiram uma fissura. Havia uma tampa. Um sarcófago. Mas Raul dava agora um grito: "Eh, pá, caraças." Aproximei-me do foco de luz, que, por uma abertura, provocada pela deslocação da tampa de pedra, mos­trava ossadas, ainda branquejando no escuro. Tarso, metatarso e falanges, quase intactos, e do tamanho do meu braço e antebraço estendidos. Todos recuámos. Com o encontrão, a luz dispersou-se e errou pelo recinto, revelando montes de lixos antigos, uma esteia, uma rode­la decorada de incisões que fazia lembrar uma mó de pedra. Era o túmulo dum gigante.

Mas Marília advertia: "Isto não é possível, pura e simplesmente, não é possível." No entan­to, foi ela quem, com dedo trémulo, decifrou os primeiros caracteres da esteia, espiralados em linear B: "Goliath"! E, mais à frente, "Phylistin". Estávamos no túmulo do gigante Golias, morto à pedrada por David. Os filisteus tinham-no sepultado aqui. É sempre a Por­tugal que tudo vem dar. E eu, recolhido, pedi: "Haja respeito."

Já se passou algum tempo, todos nós voltámos aos nossos afazeres, como cumpria. É de norma, depois destas extraordinárias descobertas, haver desaparecimentos. As ilhas miste­riosas explodem, os continentes perdem-se, os terramotos apagam os vestígios, a normali­dade é reposta. Neste caso, não.

O túmulo de Golias ainda lá está, para quem quiser averiguar. E o guia, que voltou a fumar, tosse muito, mas ainda é vivo. Chama-se Adriano Carrapacheiro e vive em Loulé, perto das casas da tia Anica. Basta perguntar nas Finanças, ali mesmo ao lado.


Mário de Carvalho, in Contos Vagabundos