01/05/2008

Oitavo capítulo


Quando sentiu que estava morrendo, meu avô Celestiano chamou a mulher e pediu-lhe:

Deixa-me fitar teus olhos!

E ficou, embevecido, como se a sua alma fosse um barco deitado num mar que erarn os olhos de sua amada.

- Tens frio?, perguntou ela vendo-o tre­mer.

Não. És tu que estás a chorar.

— Chorar, eu? Começou foi a chover.

(Lembrança de minha avó sobre o último instante do velho Celestiano)

Minha doença piorou: já não me levanto da cama. Mais grave: não posso dormir sequer. Mal palpebrejo, a dobra do lençol se converte em água e, no instante seguinte, tudo se avermelha e eu desaguo em rios de sangue. Se durmo me afogo, se vigio me foge o juízo. Me faz falta o sonho, tudo quanto queria era sonhar.

Ouço ruído na porta. Devem ser ladrões, mas já isso não me im­porta. Que roubem o nada que eu tenho, me tirem a pouca vida que me resta. Até seria bem. Mas é Luarmina que espreita na porta.

Venho-lhe visitar, Zeca.

Verdade?, sorrio, incrédulo.

Você sempre me visitou. Hoje sou eu a vir ter consigo. Luarmina desembrulha um lençol novo. Ordena que a ajude a mudar as roupas da cama.

Essas estão ensopadas, como é possível transpirar-se tanto? Eu queria dizer-lhe que aquilo não era suor, era o próprio mar me castigando. Mas não entrei em atalho, fui directo no assunto:

Ainda bem que veio, Luarmina. É que estou quase para morrer.

— Não fale disparate, Zeca. Você ainda me há-de atirar umas pazadas.

Pedi à vizinha o mesmo que o velho Celestiano pedira em seu último momento: que ela ficasse junto ao meu leito só para eu me distrair nos olhos dela.

Lhe peço, vizinhinha: quero desfalecer a olhar os seus olhos. Luarmina sorriu, indulgente como se eu me tivesse acriançado de vez.

Se você continua com essa conversa, vou-me embora daqui.

Então me faça um favor, Dona. Me conte uma história.

— Uma história, eu?

— Sim, eu já lhe contei tantas, vizinha.

Mas eu não tenho história, eu tive pouca existência.

— Como é possível?

Minha vida é muito pobre. Eu vivi tão poucochinho que já tenho pouco para morrer.

— Dona Luarmina, faça um esforço. E uma vergonha para um homem, mas eu queria que me embalasse até chegar a um sonho. É que preciso sonhar, preciso tanto sonhar!

Luarmina levantou-se, atrapalhada. Rondou para trás e para diante como se procurasse não uma ideia, mas coisa que estivesse perdida na desarrumação do quarto. De repente, parou junto à ca­ma e deu uma estranha ordem:

Levante-se, Zeca.

Me admirei. E recusei, incapaz de meximento. Mas ela insistiu, me repuxou, alavanqueando-me pelas axilas.

Mas eu não aguento. Me deixe na cama.

— Deixe as conversas e me ajude a levantar-se, Zeca.

— Mas o que me quer fazer, Dona?

— O que eu quero fazer? Eu quero dançar consigo, homem.

Ironia do destino: toda a vida sonhei dançar com aquela mu­lher. Agora, que ela queria, eu não podia. Luarmina ainda me ar­rastou, como se eu fosse um saco cheio de coisa sem peso. Eu me esforçava, mas meus pés não se encontravam com os passos. Até que ela me depositou, fardo falecido sobre a cama.

Desculpe, Dona Luarmina.

— Você está doente. Eu não devia ter forçado.

— Não é doença. Para nós doença é outra coisa, não é isso que vocês, brancos...

— Eu sou mulata, não esqueça.

— A senhora, para os indevidos efeitos, é branca. A verdade de minha doença é esta: estou sendo castigado por meu pai.

— Castigado?

— Porque não cumpri o pedido dele.

— Isso não pode ser motivo...

— Não pode? Se fui infiel com a promessa que deixei. Não se lembra do que lhe contei? Eu prometi que tratava dessa mulher dele, prometi que lhe levava água, alimento...

— Mas você fez tudo isso.

— Não, não fiz nada.

—Fez, sim.

Estranhei aquela insistência dela. O que sabia aquela mulher da minha vida, o que sabia ela da vida dos negros? Já me irritava aquela arrogância de Luarmina. Talvez, por isso, gritei:

Nunca fiz, Dona. Nunca voltei lá.

A mulata se decidiu sentar, baixou a cabeça entre as mãos e disse, em suspiro:

Essa mulher que seu pai levava no barco, essa mulher nunca morreu.

— Como nunca morreu?

— Ela foi arrastada, salvou-se agarrada em madeira...

— Como sabe?

— Porque eu sou essa mulher.

Fiquei, aberto da boca, alma escancarada. Luarmina estava brincando, acreditada que eu já não tinha réstia de razão? Mas ela prosseguiu com serenidade que me assustou:

Sim, eu sou essa mulher. E você tratou de mim, todas essas conversas, todas as vezes que me visitou...

— Não é verdade...

— Você cumpriu a promessa, Zeca. Estou a dizer. Você não tem razão de doença.

Fiquei, imóvel. Podia ser verdade, assim tão fácil, fábula em fecho feliz? Fiquei olhando o rosto de Luarmina, como se ela sem­pre tivesse estado ali, como se fosse apenas mais uma das noites de uma inteira vida. Todas as vezes que a gorda mulata despetalou flores, nesse «mar me quer-bem me quer», afinal, era já o meu amor que desfiava aquele gesto dela?

Mas agora, Luarmina, me restou uma doença.

— Que doença?

— Você. Você, Luarmina, é minha doença.

— Eu prometo, Zeca, eu regresso depois, à noite, para curar de vez essa doença.

— Mas Luarmina, jura que você c mesmo essa mulher do barco! Ela se cala. Cabeça baixa, murmura:

Vou deixar a porta aberta. Assim você escuta o mar...

Escutando o mar adormeci. Mas não era eu todo que adorme­cia. De igual maneira que meu pai morreu em porções, agora eu caía no sono às partes, uma de cada vez. Primeiro, foi a memória que tom­bou em abismo, inexistindo. Como se o mar ensinasse, por fim, minhas lembranças a adormecer. Como se a minha vida aceitasse o supremo convite e fosse saindo de mim em eterna dança com o mar.