10/02/2008

O Trombone



Uma ocasião, no Beco das Sardinheiras, regressou o To Valente que tinha ido à terra por uns dias. Com a família vinha o tio Bento que enviuvara por essa altura e definhava de só e desacompanhado lá em cima. Que passasse ali com eles, no Beco, o resto dos seus dias. O tio Bento suspirou, acedeu, e lá veio.
E todos no Beco se habituaram a ver o tio Bento, à porta sentado, numa cadeira de palhinha, por horas esquecidas. A noite, recolhia a cadeira, tomava lugar entre os seus, e depois da refeição, ala para a cama de onde saía para, ao nascer do Sol, se prantar outra vez à porta.
O To Valente desconsolava-se com aquela tristeza do tio. Sabia que ao velho faltavam as terras, os animais, o ciclo das estações, os horizontes desim­pedidos e temia-se de o ver finar-se, mais cedo que o marcado, se continuasse naquele pasmo.
Levaram-no um dia ao Jardim Zoológico, outro dia ao Castelo, para que se distraísse e espairecesse. Mas o velho dizia:
- Pois, bichos; pois, pedras velhas - e recaía no seu desconsolo.
Uma noite o Tó teve uma ideia. Lembrou-se de que o velho tocava na banda de música da aldeia e que vendera o saxofone, para pagar o funeral da tia. Pen­sou em comprar-lhe um saxofone e partiu a procurar o Virgolino Alpoim que na altura estanciava na taberna da Marta, a despender aqueles dinheiros que lhe vinham de vez em quando milagrosamente.
Era ao Virgolino que o pessoal do Beco recorria quando queria coisas. O Virgolino anotava num caderno de capa preta umas garatujas esquisitas e dias mais tarde apresentava, por módico preço, o objecto pretendido, quase sempre em bom estado. Todos preferiam desconhecer a proveniência dos bens requisitados e preferiam acreditar que Virgolino tinha contactos "com certos meios especiais", lá para a Baixa, o que até era verdade. Assim o To requereu ao Virgolino que lhe arranjasse um saxofone em bom estado, por um preço em conta, já se vê. O Virgolino fez um ar condescendente, anotou laboriosamente só o pedido no seu canhenho preto e disse paternalmente ao To:
- Conta cá c'o rapaz...
No domingo próximo estava o Virgolino à porta de casa do To com uma gran­de caixa preta debaixo do braço. Cumprimentou o tio Bento e gritou para dentro:
-Ó To!
Veio o To, veio a família e todos convidaram o Virgolino para casa, onde ele abriu o estojo em cima da mesa de jantar. Revelou-se um objecto enorme, tor­cido e rebrilhante, a sobressair de entre veludilho azul às florinhas. O To apro­ximou-se, coçando o queixo, sem se deixar impressionar com o triunfante -Que tal, hã? - do Virgolino.
- E que isto não é um saxofone, caraças, isto é um trombone, ou lá o que for - comentou o Tó com cara de poucos amigos.
- Ah, lá isso tem paciência... - respondeu o Virgolino. - Foi o que se pôde arranjar que isto aqui não é forja de ferreiro. E nem calculas o trabalhão que me deu. Foi meter empenhes e mais empenhos... E pelo preço, caramba, olha que ainda fico a perder dinheiro.
- Mas se era um saxofone... - retorquiu o To, disposto a não se deixar levar.
- Ó homem - veio a mulher do To -, que diferença faz? Quem toca uma coisa toca a outra. Isto é preciso é que o velhote se entretenha.
- Deixe ficar, pai, vai ver que o tio gosta - diziam as crianças. E o Tó, meio contrariado, lá foi passando para a mão do Virgolino, uma a uma, as notas do preço. Mas resmungava:
- Fornecido com isto de trocares um saxofone por um trombone só aquela de confundir género humano com Manuel Germano...
O tio Bento não mostrou um excessivo entusiasmo pela oferta, mas aceitou-a com delicadeza. Durante alguns dias, porém, não tocou. Sentava-se com o objecto entre os joelhos, acariciava-o com as mãos, aflorava-lhe o bocal com os lábios, mas nada.
-Toque, senhor, toque, alegre lá o Beco - diziam as vizinhas.
- Há tempo - respondia o velho. - Atrás de tempo tempo virá... Até que um belo dia, em sons graves, compactos, pausados, desdobrou-se uma bela valsa pelo Beco. O pessoal veio às janelas, às portas, e sorriu:
- Aí está. O tio Bento começou a tocar.
E em muitas casas trauteava-se e dava-se até um pezinho de dança ao som do trombone de Mestre Bento.
Mas a Micas costureira que tinha a máquina mesmo plantada em frente da janela que dava para a casa do To e ia vendo e ouvindo o velho com enlevo, entre duas pedaladas, fez-se de repente muito séria, parou o movimento, e ficou-se a olhar basto compenetrada.
E que um vaso com sardinheiras que estava mesmo à beira do tio Bento havia começado a alongar-se, a alongar-se em direcção ao trombone e tinha desaparecido, de súbito, no ar.
Ainda não se recompusera da surpresa a Micas quando um fogareiro que ali estava na rua começou também a ficar comprido, comprido, cresceu em direc­ção ao trombone e sumiu-se, num credo.
A Micas levantou-se e foi fazer alarido em grande corrida. Que viessem ver aquilo, que viessem daí.
Mas o tio Bento não parecia aperceber-se de nada. E vá de atacar um pot-pourri com energia e convicção, o olho reluzente e o pé a dar no empedrado.
Logo um caixote do lixo daqueles enormes, altos, da Câmara, começou a tremer, a fazer-se elástico, a subir, a derreter-se, e - pft! - desfez-se no ar.
Quando o Zeca da Carris interveio e tirou com vigor, embora com delicade­za, o trombone das mãos do tio Bento, já a parede da casa do To mostrava uma enorme bolha, do tamanho dum pneu de camião, que se prolongava numa espécie de mamilo a procurar o trombone. Mais uns segundos e toda aquela parede teria sido engolida pelo instrumento...
O tio Bento, muito contrariado, indiferente aos estragos, reclamava o trom­bone, com a birra própria dos velhos. Choramingava, gesticulava, e as mulhe­res tentavam acalmá-lo.
- Não há dúvida! - dizia o To chamado à pressa. - Dar-lhe isto para as mãos... Nem pensar em tal semelhante. Prà próxima dou-lhe uma gaita-de-beiços e é um pau!
A bolha ficou no sítio, mas já firme, consolidada. O trombone foi remetido para um canto da casa no seu estojo, bem fechado. O Bento continuou a sen­tar-se melancolicamente à porta. E o Virgolino esteve largos dias sem dar parte, de si, que quando o To se zangava era um bocado escanifobético. Um caso sério.



Mário de Carvalho, Casos do Beco das Sardinheiras