27/07/2008

O Modelo Milionário

De que vale ser um jovem encantador se não tiver bastante dinheiro? O romance é privilégio dos ricos e não profissão de desempregados. O pobre deve ser prático e prosaico. Vale mais uma renda permanente do que o dom de fascinar. Eram essas as verdades da vida moderna que o jovem Hughie Erskine não conseguia compreender. Pobre Hughie! Apesar de não ser de grande valor intelectual, nunca, em toda sua vida, havia feito ou dito alguma coisa de realmente relevante ou verdadeiramente reprovável. Era, contudo, extremamente simpático com seus cabelos castanhos ondulados, seu perfil de nítidos contornos e seus olhos acinzentados. Era tão bem sucedido com os homens como o era com as mulheres, e possuía todas as habilidades, menos a de ganhar dinheiro. Seu pai deixara-lhe por herança, seu sabre de cavalaria e quinze volumes sobre a História da Guerra Peninsular. Hughie pendurou o sabre acima do seu espelho de quarto; encaixotou os livros numa estande entre o Ruff’s Guide e o Bailey Magazine e passou a viver com a renda de 200 libras, abonadas por uma velha tia. Tentou todos os meios de ganhar a vida. Durante 6 meses arriscou a sorte na bolsa; mas que podia fazer um louva-a-deus entre ursos e touros? Passou algum tempo vendendo chá aos atacadistas mas cansou-se logo do “pekoe” e do “souchong”. Em seguida tentou negociar “dry sherry”, mas desistiu logo pois o “sherry” era seco demais. Finalmente entregou-se à deliciosa arte de não fazer absolutamente nada e tornou-se um jovem encantador e inútil, com um perfil impecável e sem profissão alguma.
Para complicar as coisas, Hughie amava. Sua eleita era Laura Merton, filha de um coronel reformado que deixara na Índia seu bom-humor e seu bom estômago e nunca mais encontrara nem um nem outro. Laura amava loucamente o jovem Hughie e ele, por sua vez, teria sido capaz de beijar com paixão até os cordões dos seus sapatinhos. Laura e Hughie formavam um dos pares mais combinados de Londres e entre ambos não havia sequer um real. O coronel estimava muito o jovem Hughie mas opunha-se a qualquer compromisso de casamento.
- Meu caro jovem – dizia o velho – Volte quando tiver acumulado com seus próprios esforços umas dez mil libras. Então, poderemos conversar. – Quando ouvia essas palavras, o jovem Hughie, acabrunhado, buscava conforto nos braços da sua amada.
Certa manhã, quando se dirigia para Holland Park onde moravam os Mertons, Hughie resolveu visitar um grande amigo seu, chamado Alan Trevor, que era pintor. A arte de pintar tornou-se epidêmica em nossos dias. Mas além de pintor, Trevor era também um grande artista, e os grandes artistas são muito raros. Trevor era uma estranha criatura um tanto rude; tinha o rosto salpicado de sardas e usava uma barbicha ruiva, sempre emaranhada. Contudo, quando empunhava o pincel, tornava-se um autêntico mestre e todos os seus trabalhos eram muito requestados. Desde o princípio fora fortemente atraído pela sedutora personalidade de Hughie. “Os pintores só deviam conhecer criaturas obtusas e encantadoras. Criaturas que ao contemplar, nos proporcionem um real prazer artístico e ao conversar, um verdadeiro repouso intelectual. Os janotas e as coquetes governam o mundo, ou pelo menos deviam “governar”, dizia Trevor freqüentemente. Entretanto, depois de conhecer melhor Hughie, apreciou-o tanto pela sua jovialidade e bom caráter quanto pela sua natureza generosa e espontânea, permitindo-lhe livre acesso ao seu estúdio.
Hughie, ao entrar, encontrou Trevor dando os retoques finais num magnífico quadro que representava um mendigo em seu tamanho natural. O mendigo em pessoa posava sobre um estrado num dos ângulos do estúdio. Era um ancião encarquilhado com o rosto enrugado como um pergaminho e cuja fisionomia expressava infinita tristeza. Um velho manto rústico, rasgado e esfarrapado, recobria seus ombros e seus sapatos remendados estavam rotos em diversos lugares. Tinha uma das mãos apoiada num grosseiro bastão e a outra segurava um chapéu velho, estendido à caridade pública.
- Que extraordinário modelo! – exclamou Hughie, apertando a mão do amigo.
- Extraordinário – bradou Trevor – que dúvida! Um modelo como este não é encontrado todos os dias. Um achado, meu amigo, um verdadeiro achado. Um Velasquez em pessoa! Céus! Que água-forte teria Rembrant com um modelo como esse!
- Pobre velho – disse Hughie – parece tão miserável. Suponho que para vocês, pintores, uma fisionomia dessas vale uma fortuna.
- Meu caro Hughie, respondeu o pintor, como quer que um mendigo irradie felicidade?
Acomodando-se no sofá, Hughie perguntou:
- Quanto ganha um modelo para posar, Trevor?
- Um shilling por hora.
- E quanto ganha você com o quadro?
- Esse ai me dará uns dois mil.
- Libras?
- Não, guinéus. Pintores, poetas e doutores só recebem guinéus.
- Pois olhe, Alan, na minha opinião os modelos deveriam receber uma porcentagem. O trabalho deles é quase tão árduo quanto do artista.
- Tolices, Hughie! Veja só o trabalho que dá aplicar a tinta na tela e ficar o dia todo em pé, na frente do cavalete. Falar é fácil, mas pode estar certo que há momentos em que a arte atinge a dignidade de um trabalho braçal. Mas deixe de tagarelar. Estou trabalhando e preciso de sossego. Sente e fume.
Depois de algum tempo o criado entrou para avisar o pintor que o fabricante de molduras queria falar-lhe.
- Fique aí, Hughie. Voltarei em minutos – disse Trevor.
O velho mendigo aproveitou a ausência do pintor para descansar numa banqueta ao lado do estrado. Sua fisionomia era uma imagem de dor e tristeza e Hughie, comovido, procurou nos bolsos para ver se encontrava alguma moeda. Encontrou apenas uma libra e alguns pences. “Pobre velho”, pensou ele, “precisa mais desse dinheiro do que eu e não me custa nada ficar sem condução quinze dias”, e atravessando o estúdio depositou timidamente as moedas na mão do velhinho.
O velhinho assustou-se e, depois, um leve sorriso esboçou-se nos seus lábios murchos.
- Muito obrigado, senhor. Muito obrigado.
Trevor chegou e Hughie, enrubescendo um pouco pelo seu gesto, despediu-se e saiu. Passou o resto do dia em companhia de Laura, foi gentilmente censurado pela sua prodigalidade e voltou a pé para casa.
Naquela noite, eram mais ou menos onze horas, Hughie foi para o Pallete Clube e encontrou Trevor sozinho no salão, bebendo vinho branco com água de seltzer.
- Então, Alan, conseguiu terminar o quadro?
- Terminar e emoldurar, meu caro! – respondeu Trevor. – E a propósito sabe que você fez mais uma conquista? O velhinho que serviu de modelo falou muito de você. Fui obrigado a descrevê-lo na íntegra. Ele quis saber quem é você, onde mora, de que vive, quais são seus planos para o futuro...
- Meu caro Alan – exclamou Hughie – Com certeza quando chegou em casa vou encontrá-lo me esperando. Mas, escute, Trevor. Você parece que está brincando. Saiba que tive muita pena do pobre infeliz. queria poder fazer alguma coisa por ele. Deve ser horrível ser tão desgraçado. Tenho muitas roupas velhas lá em casa. Acha que ele as aceitaria? Estava tão esfarrapado!
- Seus farrapos são a sua magnificência – disse Trevor. – Por dinheiro algum pintá-lo-ia envergando um fraque. O que você chama de farrapos eu chamo de romance. O que para você representa miséria, para mim representa pitoresco. Todavia, falar-lhe-ei de sua oferta.
- Vocês pintores não têm coração – disse Hughie num tom de censura.
- O coração do artista é a sua cabeça – respondeu Trevor – Aliás, o objetivo do artista é compreender o mundo como ele o vê e não reformá-lo como o compreendemos. A chacun son métier. Bem, e agora, diga-me como está Laura. O velho modelo está vivamente interessado nela.
- Quer dizer que ela também foi assunto de conversa entre vocês? – exclamou Hughie.
- Sim. Contei-lhe toda a história do implacável coronel, da formosa Laura e das 10 mil libras.
- Você contou todas essas particularidades ao velho mendigo? – bradou Hughie, enrubescendo vivamente e bastante exaltado.
- Meu caro Hughie – disse Trevor sorrindo – Esse pobre homem que você classifica de mendigo é um dos mais ricos da Europa. Se quiser, pode comprar amanhã toda a Inglaterra sem desfalcar seu crédito bancário. Possui propriedades em todas as capitais, faz suas refeições em baixelas de ouro e pode, quando lhe aprouver, impedir a Rússia de entrar em guerra.
- Que baboseiras está contando, Alan?
- Baboseiras? O ancião que você encontrou hoje no meu estúdio é o barão Hausberg. Um dos meus grandes amigos e admiradores e um dos meus melhores clientes. Compra quase todos os meus quadros e outras coisas mais. Há mais ou menos um mês pediu-me para retratá-lo na caracterização de um mendigo. Que voulez-vous? La fantasie millionnaire! Não posso negar que fez bela figura nos seus farrapos – ou melhor, nos meus farrapos. Comprei-os na Espanha.
- O barão de Hausberg! – murmurou Hughie, perplexo. – Santo Deus! E eu lhe dei uma libra – tartamudeou ele, afundando numa cadeira com ar profundamente consternado!
- Você lhe deu uma libra? – perguntou Trevor rindo. – Nunca mais a verá, meu caro amigo. Son affaire c’est l’argent des autres.
- Devia ter-me avisado, Alan – disse Hughie visivelmente aborrecido. – Teria evitado o ridículo papel que fiz.
- Bem, para começar, Hughie – disse Trevor – nunca me passou pela cabeça que você pudesse distribuir esmolas de maneira tão insensata e tola. Compreendo que se beije um modelo bonito, mas quanto a dar uma libra a um modelo feio – poxa, isso não. Além disso, hoje tinha intenção de não receber ninguém e quando você entrou no estúdio não sabia se o barão Hausberg queria que mencionasse o seu nome. Você compreende, com aqueles trajes...
- Deve julgar-me um idiota.
- Ao contrário. Quando você saiu ficou muito jovial e murmurava baixinho esfregando as mãos enrugadas. Fiquei um pouco atônito quando o vi tão interessado em você. Agora compreendo. Com certeza vai aplicar a libra que você lhe deu, Hughie, pagando-lhe os juros de seis em seis meses e terá uma história interessante para contar depois do jantar.
- Sou mesmo um desastrado – murmurou Hughie. – Acho que a melhor coisa a fazer é ir para a cama e, por favor, Alan, não conte o que aconteceu a ninguém.
- Tolices Hughie. Esse seu gesto prova o seu elevado espírito filantrópico. Fique aí, não vá, fume um cigarrinho e vamos conversar um pouco sobre Laura.
Hughie, aborrecido, não quis ficar e foi para casa. Sentia-se acabrunhado e deixou Alan rindo a mais não poder.
Na manhã seguinte, quando estava se preparando para o primeiro almoço, o criado fez-lhe entrega de um cartão com os seguintes dizeres: “Mousieur Gustave Naudim, de la part de M. le Baron Hausberg”. Com certeza vai pedir uma satisfação, pensou Hughie, mandando o criado introduzir o visitante.
O homem já idoso, de cabelos grisalhos e óculos de armação dourada, entrou na sala e disse com ligeiro sotaque francês: “Tenho prazer de falar com Mr. Erskine?”
Hughie fez um sinal afirmativo com a cabeça.
- Venho da parte do barão Hausberg – disse ele.
- Peço apresentar minhas sinceras desculpas ao senhor barão – disse Hughie.
Sorrindo, o visitante prosseguiu:
- O senhor barão incumbiu-me de lhe entregar esta carta.
Hughie pegou o envelope e leu:
- A Hughie Erskine e Laura Merton, como presente de casamento de um velho mendigo”. Dentro do envelope havia um cheque de 10 mil libras.
Na ocasião do casamento o barão Hausberg pronunciou um bonito discurso em homenagem aos nubentes e Alan Trevor foi um dos padrinhos.
- Modelos milionários são muito raros – observou Alan – mas milionários modelos são mais raros ainda.

Oscar Wilde