01/06/2008

Mestre Poupa




Mestre Poupa bombeiro, André Juliano e eu formávamos uma trin­dade falhada. Positivamente, três velhos falhados e tontos.

Há momentos em que vejo isto com uma grande clareza. Mas de nada me vale. Os factos miúdos que me estragaram a vida pegam de novo em mim e arrastam-me. Desviam-me cada vez mais de toda a gente e isolam-me numa apatia da qual não tenho forças para escapar-me. Serei acaso um cobarde? Talvez. Ao certo apenas sei que, volta não volta, Antoninha das Dores me vem à memória com uma nitidez atroz. Aparece-me, não recatada e séria como ela sempre foi, mas em fralda de camisa. Sim, senhor; no meio da rua, em fralda de camisa. E deitada nos braços do grandalhão do Chico Biló!

Foi isto que me estragou trinta anos de vida.

Já a mágoa que consumia mestre Poupa não era de ordem amorosa. Lamentava a toda a hora que tivessem acabado os incêndios grandes e devas­tadores, como havia antigamente. Vamos lá a perceber tal coisa! Poderá acaso ser este o drama de um chefe de bombeiros? Pois era.

Quanto a André Juliano, as razões do seu desgosto toda a vila as sabe. Com cinquenta anos, e o pai, homem rico, ainda lhe não consentia mandasse no que viria a ser seu, e apenas lhe dava vinte e cinco tostões por dia.

Vinte e cinco tostões!

Enfim, éramos os três inseparáveis, cada um roendo o seu osso.

Hoje, praticamente, só resto eu. Mestre Poupa morreu num incêndio; um fogo dos bons, como ele gostava. E André Juliano jaz, à espera da morte, no fundo de uma cadeia.

No entanto, estão tão presentes na minha memória que a todo o momento me parece natural ir encontrá-los, ao voltar duma esquina. E posso, sem o mínimo esforço, engendrar uma conversa. Sei e oiço as suas respostas às minhas palavras, vejo as maneiras peculiares de mexerem os lábios, de sorri­rem com tristeza, ou de ficarem taciturnos por largos espaços. De tal modo ainda fazem parte da minha vida que, todos os dias, mal acabo de almoçar, saio de casa direitinho ao café onde costumávamos encontrar-nos. Hoje acon­teceu atardar-me, interessado na leitura do jornal. Quando dei por mim e olhei para o relógio ergui-me num salto, e lá vim eu cheio de pressa pelas ruas fora. Cheio de pressa, como se eles estivessem à minha espera...

Mas, como sempre sucede, ao entrar o entusiasmo arrefeceu e fui sentar-me, desconfiado, na mesa do canto. Como sempre, pus-me a pensar por que seriam aquelas pressas. Para que faço eu isto todos os dias?

- Vai o cafezinho do costume, senhor Portela?

Surpreendido, encaro o criado. E grito-lhe sem querer, com a voz transtor­nada:

- Ha?!... - mas, logo, as palavras me ocorrem, submissas. - Pois... o cafe­zinho do costume...

Passava aqui todas as tardes com André Juliano e mestre Poupa bombeiro. Agora, sozinho, mal o Maneta põe sobre o mármore sujo a chávena fumegante e se afasta, eu começo com as manigâncias habituais para matar o tempo. Demoro o café, adoçando-o com pitadas, colher a colher; bebo-o a pequenos goles. Isto dá-me à volta de quinze minutos. De soslaio, lanço uma mirada pelos grupos que falam de mesa para mesa. Passeio o olhar pelo grande espelho suspenso da parede, pelas moscas que volteiam em redor dos nojentos «cemitérios» caídos do tecto, em espiral. «Belo», digo de mim para mim, «já lá se foi um quarto de hora...»

Segue-se o cigarro, muito embora o médico me aconselhe a não fumar. Quero lá saber! Aí uns dois minutos lucro eu enquanto meto as mãos pelos bolsos à procura das mortalhas, da onça e do isqueiro.

Coloco tudo isto em cima da mesa segundo uma ordem: o livro das mortalhas, à esquerda; ao meio, a onça; e o isqueiro, à direita. Despego a mortalha, dobro-lhe uma estreita tira no sentido longitudinal e rasgo-a, pois gosto do cigarro delgado. Abro a onça com uns vagares ronceiros e calculo sobre a palma da mão a quantidade de tabaco precisa; cato entre os fios as impure­zas, e só então o começo a enrolar. Guardo as mortalhas e a onça, pego no isqueiro e raspo lume. Outros quinze minutos!

Estas e outras coisas acarretam-me a fama de ter o miolo avariado. Eu sei. Até há quem se ponha a seguir as minhas manobras e sorria.

Que querem? Estou aqui, paguei o meu café, faço o que me apetece!

E, de tronco direito, sopro para longe as primeiras fumaças. Mas ninguém se importa com estes ares de desafio. Aos poucos, a cabeça vai-me tombando entre os ombros vergados pela vida. Os meus olhos, nevoentos, voltam-se para o passado.

O passado. Do fundo do tempo, aparecem pedaços de recordações. Demoram-se um instante, doem-me suavemente, e somem-se, num tropel, da memória cansada. Caio numa complicada malha de coisas vagas e sem nexo. Para ali fico, dobrado num sonolento quebranto. De súbito, estremeço: lá vem a Antoninha das Dores seminua! Lá vem ela nos braços do Chico Biló far­dado de bombeiro!

Apavorado, ergo a cabeça e olho em roda. Não, ninguém pode descobrir o que estou pensando. E, impune, revejo gulosamente a imagem da minha noiva em fralda de camisa. As fontes vão-se-me perlando de um suor gelado; amar­fanha-me a raiva de não poder voltar atrás, mudar o tempo, e recomeçar a vida. Se fosse possível! Que me importava a mim o que aconteceu!... Poltrão! Porque não casei eu com a Antoninha das Dores?

só Enrolo novo cigarro. Mas, agora, com a pressa, caem-me pedaços de tabaco dos dedos trémulos. Firo lume e sorvo uma ansiada fumaça. O espelho, em frente, mostra-me o meu carão esverdinhado de velho. Vejo-me, de queixo caído, a apertar as mãos uma na outra até os ossos dos dedos estalarem. Poltrão. É isso: um cobarde. Sempre o fui, e só a presença dos meus amigos me ajudava a suportar melhor a imagem tão odiada e tão querida de Antoninha das Dores.

Eu chegava sempre primeiro ao café. Depois, mestre Poupa. Mal encetáva­mos a conversa, víamos, através do vidro da montra, o corpo enorme de André Juliano sair de casa e iniciar lentamente a custosa subida. Com alvoroço, eu dizia:

- Lá vem o André!

Nunca passou uma tarde sem que o dissesse. Às vezes, pensava: «Amanhã, não digo aquilo. Pois se mestre Poupa o vê ao mesmo tempo que eu...» Ora bem; ao outro dia, a porta abria-se, o corpo pachorrento saía para a rua, e era fatal a minha inquieta alegria:

- Lá vem o André!...

Agora mesmo ia jurar que o estou a ver despegar-se com moleza dos umbrais. Mas, em realidade, apenas vejo para lá do vidro, ao fundo da rua, a casa destruída pelo fogo. Tudo tal qual como no fim do incêndio: a parede negra, sem portas nem janelas.

Foi aí que mestre Poupa bombeiro morreu, lutando contra as chamas. André Juliano, esse ainda está vivo; mas em Lisboa, atrás das grades da Penitenciária.

Dou voltas na cadeira, torço-me, enterro o chapéu pela cabeça abaixo. Tudo em vão. Antoninha das Dores continua na minha frente, deitada nos braços do Chico Biló. Saem-lhe da camisa as pernas, o ventre e um pedaço do seio; de volta, o povo arregala os olhos. Vejo-os a todos, rosto a rosto, com a facilidade de quem está olhando vagarosamente uma fotografia. Como os odeio!

- Depressa, Maneta, outro café!

Espero, esfregando as mãos. E, ao esvaziá-lo, de queixo erguido, vejo no espelho o meu carão de tal forma espantado que me parece ter acabado de beber veneno. Coberto de suor, lá vou aos poucos serenando.

André Juliano, meu amigo de infância, como nós mudámos... Sim, senhor, como mudámos. Na escola éramos temidos. Passávamos as tardes de castigo e, um dia, armámos uma desordem medonha. Partimos carteiras, o quadro grande, e saímos cheios de troféus: pedaços de bibes rasgados, os peitos das camisolas salpicados de medalhas de tinta. Fomos expulsos. Acabámos por aprender as letras, os números e uma fantástica História de Portugal com o bebedola do Jaime Ursulino, que nos ia matando à varada e a quem, por fim, esmurrámos de sociedade. Nossos pais consideraram maduramente no caso, e concluíram que estávamos quites com a cultura. Foi um alívio.

O largo, e mais tarde os bailes desordeiros do campo e a noite sem lei das ruas da vila passaram a ser o nosso mundo. Um mundo cheio de sustos, mas mais leal que as aritméticas do Ursulino e as falinhas choronas dos moços da escola.

Veio um dia, e vimo-nos obrigados a mudar de rumo. Quisemos acertar o passo, segundo as regras, e começaram as topadas, escorregadelas, desvios. No dia-a-dia enviesado e traiçoeiro da vila, onde muitos dos choramingas da escola ganhavam dinheiro grosso e honestas reputações, nós caímos de desilu­são em desilusão.

Não sei como isto foi. Mas, anos depois, vencido, eu emagrecera; secara, nodoso e cheio de rugas, corno o tronco carcomido de um sobreiro. Pelo contrário, derrotado na luta inglória com o forreta do pai, André Juliano engordou, engordou muito. Apesar disso, quando às vezes o olhava, com aquele olhar distraído mas que, de súbito, parece atingir a verdade que há nos homens e nas coisas, eu julgava estar a ver-me diante de um espelho côncavo. Sim, senhor, tal qual como eu: todas as raivas, todos os ciúmes, as invejas, os fracassos - mas inchado e balofo.

Nestes momentos, o ódio contraía-me as feições, e largava um palavrão. Fitava-o com o olhar endurecido:

- Estamos tramados, André, estamos tramados!

Não consegui nunca saber se ele adivinhava os meus pensamentos; o certo é que me respondia de beiço caído, como num eco:

- Tramados, amigo, tramados...

Olho o relógio. Quatro horas. Doidas, as moscas tecem um emaranhado de círculos em volta dos «cemitérios». Ponho-me a observá-las, e faço cálculos sobre qual dos papéis cobertos de melaço peganhento atrairá a primeira. Por fim, cansado, caio numa modorra. Um murmúrio distante vem devagar, engrossa, até soar nitidamente dentro de mim. É a voz autoritária de mestre Poupa bombeiro. Vejo-o e oiço-o como se realmente ele estivesse à minha mesa.

- Fogo?! - exclama a voz. E, logo, desiludida: -Já não há incêndios...

Era o seu assunto preferido. Mestre Poupa tinha artes de ir desviando qualquer conversa até aparecer com naturalidade o caso de um fogo.

- Hoje em dia, já não há incêndios - comentava ele. - Vejam vocês: toca o sino da igreja; a autobomba desce do quartel, puxa-se a mangueira e, pronto!, está o fogo apagado. Fogo?... Qual fogo, se nem deixamos atear nada!

- Lá isso é verdade - concordava eu, inquieto. Vinha-me à ideia Anto-ninha das Dores e, muito embora preferisse calar-me, era certo acrescentar:

- É isso mesmo... Já não há incêndios...

Como que saindo da névoa do fumo do tabaco que enche o café, André Juliano surge do outro lado da mesa. Enrola um cigarro entre os dedos enor­mes. Os olhos, caídos, desaparecem-lhe sob a gordura das pálpebras. Abana a cabeça, suspirando:

- Já não há nada... Até dá doença uma vida destas!...

- Ora lá disse você uma verdade. Isto, hoje, até dá doença. Porque seria que eu me fiz amigo de mestre Poupa? Sempre que me inter­rogo a este respeito, ocorrem-me várias razões capazes de justificar o facto. Mas a todas abandono e acabo por concluir que foi obra do acaso.

Por esse tempo, a vila andava acesa em discussões originadas pela acção dos bombeiros voluntários. «As coisas não podem continuar assim!», dizia-se alto e em bom som. As «coisas» era isto: fogo que houvesse, os prejuízos maiores não os faziam as chamas mas os bombeiros improvisados, na ânsia de tudo molharem e de tudo salvarem. Abriam caminho à machadada, arrombavam tabiques, partiam mobílias e loiças, sem dó nem piedade. Estragos do lume apenas uma que outra chaminé, ou um carunchoso soalho.

Enfim, chegaram a tais termos que um dia, ao declarar-se incêndio na cha­miné do Elias Tarro, como alguém corresse a puxar o badalo da igreja velha, o homem postou-se entre os umbrais da porta de espingarda em riste:

- Quem entrar, morre!

E impediu que os bombeiros lhe assaltassem a casa, enquanto, com baldes de água, pelo quintal, a família apagava as labaredas.

Choveram ameaças e insultos de parte a parte. À má-cara, os bombeiros abandonaram a presa. E, não era passada uma semana, quando o Elias Tarro apareceu com a cabeça cheia de pensos e ataduras. Fora o Chico Biló que o esmurrara, após breve discussão.

Ao pagar a conta na farmácia do Durães onde andara a tratar-se, Elias Tarro deu graças pelo preço em que lhe ficara o incêndio.

- Vá lá... Antes isto que os malandros me terem invadido a casa. Mas a vila, aterrada, mudou a direcção dos bombeiros voluntários. E, por cartas, ajustou com um técnico de Lisboa a chefia da mal afamada corpora­ção. Foi mestre Poupa quem apareceu.

Dias depois, já eu passava horas a ouvi-lo. Havia sido um incêndio que me arruinara a vida e, para ele, os incêndios, que o tinham enchido de glória, eram agora a causa da sua amargura. O material moderno, as muitas bocas de água espalhadas pelas ruas e a técnica moderna tornavam, conforme nos dizia, a extinção fácil e rápida, o que era impossível antigamente.

- Só queria que vocês assistissem ao incêndio da Rua da Madalena, lá em Lisboa. Isso é que foi um fogo bom! - recordava ele, animado e feliz. - Morreram dezenas de pessoas. As mulheres atiravam-se lá de cima com as crianças ao colo e esborrachavam-se contra a calçada. E a gente, entre as cha­mas, todos chamuscados! As escadas partiam-se, não havia água: vá de machadadas, vá de baldes de areia. Vi colegas com a farda a arder; salvei crianças, mulheres, e caí ferido e sem forças. Fui parar ao hospital com uma clavícula fracturada e um braço queimado. Mas apagámos aquilo, caramba! E eu ganhei uma medalha.

Aqui, mestre Poupa começava a entristecer. Contava ainda outros casos: morria gente, ele salvava, apagava e era, de novo, condecorado - tinha o peito cheio de medalhas. Abria um desgostoso silêncio, um largo intervalo de anos.

- E agora? Agora já não sirvo para nada; acabaram-se os bons fogos!...

O cigarro de André Juliano apagava-se sem que ele desse por isso. Estou certo de que nem ouvira uma única palavra de mestre Poupa bombeiro, muito embora se lhe escapasse a costumada frase agoniada e lenta:

- Estamos tramados...

Enrugava a venta solitária no meio da face enorme; o beiço decaía-lhe para a papada e, sem esperar que o assunto mudasse, começava:

- Lá andei... lá andei toda a manhã às voltas com ele. Já nem sei que faça à minha vida.

Com a respiração difícil que lhe engorgitava as carnes e punha nos olhos o lucilar do terror, a voz escorria-lhe, pastosa:

- Está cada vez pior, o meu pai...

O pai. Um miserável dum avarento que, ultimamente, nem todos os dias dava ao filho os tristes vinte e cinco tostões do costume! André Juliano nem se podia mexer para lado nenhum. De casa para o café, do café para casa, e mais nada. Aquela penúria tolhia-o. Muitas modas haviam passado depois que o Jerónimo Alfaiate lhe talhara, em má fazenda, o único fato que tinha. Estava a cair aos pedaços, e ele supunha tapar aquela miséria trazendo sobre os ombros, mesmo no Verão, a velha samarra. A princípio, admirei-me. Um sol de rachar, e André Juliano atravessando a rua num lago de suor, sob a samarra.

- Sei lá - desculpou-se ele, de olhos baixos. - Isto, às vezes, até pode cho­ver...

Claro que era eu quem lhe pagava os cafés e, ainda por cima, emprestava dinheiro. Eu, este reles amanuense reformado, a fazer empréstimos ao filho de um homem rico! Pensava muito nisto. Parecendo que não, dez tostões hoje, cinco mil réis amanhã, ao fim de anos perfazem uma soma medonha. Segundo as minhas contas, ia já muito além de quatro mil escudos. Quase cinco contos! Chegava a enfurecer-me:

- A culpa é tua! - gritava-lhe eu. - Se soubesses impor-te, se soubesses encaminhar as coisas, já tinhas convencido o teu pai de que isso não pode continuar assim. É uma vergonha para nós todos. Principalmente para mim, que sou teu amigo, bolas!

André Juliano avermelhava de pânico:

- Oh, homem, pois se não se passa um dia sem que eu batalhe com ele!... Esta manhã, até nos íamos pegando. Pôs-se a berrar, como de costume: «Tem tempo de gastar tudo quando eu morrer! Agora, enquanto eu for vivo, nem mais um tostão!»

Desolado, baixava os olhos para o mármore da mesa:

- Quando morrer... Mas quando é que o raio do velho morre, não me dirão!

Calávamo-nos. E, por momentos, eu e mestre Poupa desejávamos que André Juliano, quando voltasse a casa, fosse encontrar o pai na agonia. Mas, logo, para desviar este infeliz pensamento, ao mudar a conversa, eu caía nou­tro ainda mais penoso:

- Pois é - murmurava, olhando para mestre Poupa. - Os incêndios, agora, são um nada comparados com os de outrora.

E sentia-me descorar.

Vai fazer trinta anos que a coisa aconteceu. Uma tarde, a arrecadação da lenha, na casa de meu padrinho, começa a arder. No primeiro andar, apenas em camisa, sobre a cama, Antoninha das Dores dormia a sesta. A família esquece-a, e sai para a rua enquanto o sino da igreja toca a rebate. Os volun­tários largam o trabalho, vão a casa, vestem a farda e põem, com grandes vagares, o capacete amarelo. Junta-se gente. A bomba, puxada a quatro homens, desce do alto da vila e começa a batalha.

Sob o olhar apavorado de meu padrinho, os bombeiros partem as janelas à machadada e atiram com os móveis para a rua.

Eu chego a correr no momento preciso em que o Chico Biló aparece à

porta, transportando nos braços a minha noiva, que desmaiara ao súbito

fragor dos vidros e dos caixilhos, estilhaçados. A camisa subira-lhe para a

270 barriga e estava nua sob o reluzente capacete, - no meio dos destroços da

mobília.

Todos se aproximaram para ver de perto.

Eu fiquei hirto, vazio, e de braços abertos, como um espantalho. E, ainda hoje, ainda agora, neste momento, me parece que lá estou a olhar os homens, 275 as mulheres, os rapazes extasiados em volta das coxas, do ventre e do seio de Antoninha das Dores, minha noiva desgraçada. A vila conheceu tudo isso de vista. Tudo.

Do fogo já ninguém fala, pois não resistiu a seis baldes de água. Mas do resto ainda se recordam e contam, mesmo que não venha a propósito. Eu sei. 280 E poderia eu ter casado com Antoninha depois de todos a observarem de barriga ao léu? Ainda agora coro ao pensar que estive quase, quase a fazê-lo.

Também é certo que noutras ocasiões me amargura não ter casado. Mudo de instante a instante. Velho casmurro. Eu odiava e adorava o fogo, tal com o mestre Poupa. Só André Juliano se aborrecia. 285 - Vocês não falam de outra coisa - repontava. - Estão sempre no mesmo.

Mas chegou um dia em que, à força de tanto ouvir, ganhou interesse. Como eu, ele fazia perguntas, perguntas inquietas, seguidas de longos silên­cios. E, entre nós dois, mestre Poupa bombeiro pontificava:

- Um fogo começa sempre sem que ninguém repare. É esta a primeira questão a atender. Portanto, quando notam, já a coisa está séria...

E vinham exemplos: casas reduzidas a cinzas, gente morta, medalhas. E eu, amarelo, com a imagem de minha noiva diante dos olhos. Certa tarde, André Juliano levantou inesperadamente a mão quadrada e pediu, por tudo, que mudássemos de assunto. Foi uma admiração.

- Oh, homem - ofendeu-se mestre Poupa - pois você já estava a gostar disto e, agora, sai-me com essa!

De olhos aflitos, André Juliano levantou o corpanzil redondo:

- A gostar, eu?

E, como que desamparado, deixou-se cair sobre a cadeira.

Surpreso, entrei a interrogá-lo. André Juliano, de cabeça caída sobre a papada, apenas respondia:

- Nada. Isto não foi nada.

Esteve dois dias sem aparecer; julgámo-lo doente. Só quando voltou sou­bemos que não. «Tive aí umas voltas a dar...», informou. E passámos ao nosso assunto de todas as horas.

Noites depois, acordei ao rebate do sino da igreja velha. Vesti-me rapida­mente. «É fogo!», dizia eu. E, ansiado de amargo prazer, corri para a rua, como sempre faço quando há um incêndio. «Onde será, onde será?», inda­gava a todos que apareciam. E lá fomos correndo; eu na frente de todos, pois nessas ocasiões não sei que forças me renovam que me sinto jovem e ágil. Cortei pela Rua Direita, passei a praça, e desci para o lado do clarão.

Era na casa de André Juliano!

As chamas saíam pelas janelas e pelo telhado fazendo dançar gran­des sombras vermelhas sobre os outros prédios. As traves estalavam; ouviu-se um baque surdo e, da esquina da empena, soltou-se um turbilhão de faíscas.

Procurei mestre Poupa entre os bombeiros. Lá estava ele. Parecia mais pequenino e mais escuro debaixo do enorme capacete amarelo.

- Belo fogo! - gritei-lhe eu.

Só então notei como ele tinha o rosto transtornado. Apitava sem energia, dava ordens gaguejadas, vinha-se desviando das chamas. Atravessei a rua para não ver aquele corpo miúdo e avelhentado a tremer de susto.

Mestre Poupa bombeiro tinha, afinal, medo do fogo!

Ao chegar ao passeio do outro lado, descobri, no meio de um grupo, a cara engelhada do Chico Biló. Olhámo-nos com o mesmo pensamento.

É, sim, senhor - disse-me ele. - Mestre Poupa está com medo do fogo... Coitado, já não serve para estas coisas.

Deu uns passos em frente apoiado nas muletas, pois que o reumatismo e a velhice não o deixam caminhar de outro modo. E, a olhar para as chamas, murmurou:

- Ah, que se fosse no meu tempo, já estava tudo apagado!...

No tempo dele! Afastei-me com a imagem de Antoninha das Dores a dan­çar-me nos olhos marejados. De repente, vi a cara desmaiada de André Juliano. Como me acudisse uma certa ideia, pus-lhe a mão no ombro:

- Deixa lá. Há incêndios que desgraçam um homem para sempre, mas há outros que salvam.

Nem me ouviu. Os queixos tremiam-lhe sobre a espessa papada, e cravava os olhos, atónitos, na casa incendiada. Recuei. Nesse momento, mestre Poupa passou-me pela frente. De cabeça erguida, pôs-se a olhar com severidade para aquele rosto apavorado. E, lentamente, exclamou:

- Senhor André Juliano!...

Pela primeira vez me ocorreu que o fogo irrompia por todos os lados da casa. Atemorizado, gritei:

-André!...

André Juliano dobrou-se e escondeu a face nas mãos papudas. Voltei-me:

- Mestre Poupa, vá salvar o velho! Corra! Oiça, eu sei que, se você quiser, pode salvá-lo.

Mestre Poupa fitou-me percebendo que eu me referia a todos os actos heróicos que lhe ouvira narrar durante anos. Meteu-me dó a sua expressão. Vi-o dar meia volta, atravessar a rua, e desaparecer entre o fumo, pela porta da casa.

- Coragem, André!...

Ouvia-se o bater áspero dos jactos de água contra o lume. Sobre as esca­das, os bombeiros lutavam como podiam; outros andavam lá por dentro. A espaços, apareciam silhuetas escuras atrás das janelas. Eu nunca tinha visto um incêndio assim.

Houve um afluir de gente; três bombeiros saíam da porta transportando uma velha e estreita cama de ferro. A roupa ardera quase completa mente e, deitado ao comprido, via-se o corpo calcinado do pai de André Juliano.

A custo, aproximei-me.

O velho tinha os pulsos c as pernas amarrados aos ferros. Estava hediondo. E já eu, todo curvado, me preparava para me afastar dali, quando dois outros bombeiros apareceram. Traziam, agora, o corpo sem vida de mes­tre Poupa. Entre os dedos enclavinhados de uma das mãos viam-se ainda pedaços de corda que faltavam no leito.

Andei o resto da noite de rua em rua, como que embriagado.

Hoje, já me passou mais a impressão que tudo isso me causou. Somente já não consigo ir ver nenhum incêndio, por mais que a vontade me puxe.

Não faz mal. Seja onde for, eu posso rever a minha desgraça.

Sento-me em qualquer parte - em casa ou aqui, no café - bebo a minha xícara, faço um cigarro. Logo começo a apertar as mãos até os ossos estala­rem. E Antoninha das Dores vem. Vem com o corpo moreno e fresco de jovem, mal coberto pela brancura da camisa. E assim fica horas diante dos meus olhos rasos de água.

Ultimamente, já não é Chico Biló quem a traz. nos braço. É mestre Poupa bombeiro. A seu lado, está André Juliano, meu amigo de infância.

E é tudo isto o que eu levo da vida!..


Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas