18/02/2007

João Ar-Puro no país do fumo


João Ar-Puro era o melhor amigo das águas, dos pássaros, dos peixes e das árvores de fruto. Era amigo dos camponeses e dos animais domésticos. Todos gostavam dele por ser alegre, trabalhador e saudável.
Tinha ombros largos, bochechas rosadas e mãos grandes, generosas, sempre prontas a ajudar quem estivesse triste, desamparado ou aflito.
João Ar-Puro era filho da Brisa do Mar e do Vento do Norte. Com eles aprendera a respirar fundo o ar fresco que vem dos campos, cheirando a hortelã e a rosmaninho, a encher o peito com a aragem fria do mar, que sabe a sal, a maresia e a sonhos de viagens.
Havia rapazes e raparigas da sua idade que, escondidos atrás das cortinas baças das janelas, se riam dele por andar sempre a correr e a saltar, por colher fruta nos pomares, por acompanhar com os olhos o voo livre dos pássaros, a rota das estrelas e dos cometas. Chamavam-lhe sonhador, como se isso fosse um defeito ou uma doença incurável. Mas ele não se importava. E, quanto mais eles se riam, mais ele se sentia bem com a vida que levava, entre a água e o vento, entre o sol e a terra semeada.
João Ar-Puro nascera no País da Primavera, na Aldeia das Águas Azuis. Às cavalitas do pai ou ao colo da mãe conheceu terras distantes, outros povos e continentes, aprendeu os nomes das flores, das montanhas, dos rios e das cidades. Em todos os lugares por onde passou deixou amigos, como se semeasse plantas que duram a vida inteira.
Foi à escola para aprender coisas úteis como, por exemplo, as letras que compõem o alfabeto, os algarismos com que as contas são feitas, os pontos, as vírgulas, as operações de multiplicar e dividir, os nomes dos países e dos mares. Mas pouco lhe disseram sobre a vida das plan­tas e dos frutos, sobre os poderes imensos da água, do fogo e do vento. E era isso precisamente o que João Ar-Puro queria aprender. Porque esse era o seu mundo, o mundo livre e secreto onde nascera, onde começara a andar, a respirar e a falar.
Foi assim que decidiu começar a estudar noutra escola: a da Natureza. A brincar e a trabalhar nos campos, aprendeu, dia após dia, a linguagem das pedras, dos pássaros e das florestas. Às vezes, os seus companheiros de brincadeira riam-se dele por pensarem que falava so­zinho. Mas enganavam-se, porque cada palavra, cada frase que dizia, tinha sempre uma resposta da parte da Natureza, uma resposta que normalmente era difícil de explicar, de traduzir, mas que ele entendia com facilidade, porque era dada na linguagem ao mesmo tempo estra­nha e bela da vida e do sonho.
João Ar-Puro sabia que a Natureza andava preocupada, inquieta, que acordava por vezes sobressaltada a meio da noite.
— Não gosto de te ver assim. Gostava de saber o que te preocupa — disse ele à Natureza, que era uma mulher sem idade, com grandes olhos verdes da cor do mar de Setembro e longos cabelos de prata fina.
— Ando preocupada porque todos os dias me chegam notícias de que os meus filhos sofrem.
— Os teus filhos? — apressou-se João a perguntar.
— Sim, os meus filhos — insistiu ela — os peixes, as águas, as árvores, os pássaros. Sei que sofrem com os fumos das fábricas nas grandes cidades, com o óleo que deitam nas águas azuis do mar, com os ruídos das buzinas e das sirenes, com o lixo que lançam nas praias e na relva fresca dos jardins públicos, com as coisas estragadas que lhes dão a comer, a beber e a cheirar.
Parou um instante para suspirar e continuou:
— Com todo o mal que lhes fazem, eles adoecem e às vezes morrem. Mesmo que nada disso lhes aconteça, andam tristes por verem os seus irmãos a sofrer e eu, claro, sofro com eles, sinto o que eles sentem e gostava de os ajudar, mas acho que nada posso fazer.
João Ar-Puro reparou que duas grandes lágrimas de água limpa deslizavam pelas faces da Natureza e apeteceu-lhe chorar com ela. Mas pensou: “Chorar nada resolve. O que é preciso é fazer alguma coisa.” Agarrou as mãos da Natureza e pediu-lhe para não chorar, porque tudo se havia de resolver. “Mas o quê?” — perguntou a si próprio em silêncio e não foi capaz de descobrir a resposta.
A Natureza, ao vê-lo preocupado e comovido, sentiu que podia contar com ele.
— Sempre que puderes — pediu ela — ajuda os meus filhos que estiverem em dificuldades. É como se me ajudasses a mim própria.
Dizendo isto, depositou-lhe nas mãos um pequeno tufo de musgo húmido sobre o qual brilhava uma minúscula estrela, igual às que moram no veludo imenso e negro do céu. João Ar-Puro guardou com muito cuidado o presente que acabara de receber e voltou para casa, sem conseguir tirar da cabeça as palavras que a Natureza lhe dissera. Palavras de que nunca mais iria esquecer-se, ele que era filho da Brisa do Mar e do Vento do Norte e que, por isso mesmo, se sentia também filho da Natureza.
Guardou o tufo de musgo e a estrela numa pequena caixa de vidro, mas depois achou que era melhor colocá-los no parapeito da janela do seu quarto para poderem respirar à vontade, para verem o Sol e a Lua, para sentirem o cheiro da terra, da chuva e das rosas bravas. Sim, porque as estrelas também respiram e cheiram e sentem. Senão, como haviam de dar tanta luz?
João Ar-Puro sabia de cor os nomes dos meses, das estações do ano, das fases da Lua, dos ciclos das chuvas e das marés. Sabia muito mais coisas que não guardava só para si, que partilhava com todos os seus amigos, por achar que a sabedoria, tal como a alegria, não devem pertencer a uma só pessoa ou a um pequeno grupo de pessoas. Devem, isso sim, ser um bem de todos e para todos.
Desde que ouvira as palavras inquietas da Natureza, nunca mais tinha ficado em sossego consigo próprio. Entendia, e com razão, que era preciso não ficar de braços cruzados.
Todos os dias, os pássaros, as borboletas e os raios de sol e de luar lhe traziam notícias tristes sobre o mal que os homens andavam a fazer às águas, à terra e ao vento.
Numa noite de Verão, enquanto dormia no ramo de um grande carvalho, teve um sonho estranho. Imaginou que o tinham vindo chamar para ajudar a defender a Natureza de todos os males que andavam a fazer-lhe. Sonhou-se a galopar na crista branca das ondas do mar, com uma espada de algas e um capacete de coral.
— Faz o que for preciso fazer — dizia-lhe a Natureza, durante o sonho — para que não esmoreça o verde das plantas, o azul das águas, o oiro do trigo maduro.
Sentiu-se feliz por estar a ter aquele sonho, por se sentir uma espécie de herói no meio de fumos, de montes de lixo, de bocas cansadas de tossir.
Acordou de repente com um calor esquisito na cara. Abriu os olhos devagar e foi como se o sonho não tivesse ainda terminado, porque na sua frente estava um dragão, um dragão verdadeiro com escamas prateadas, grandes olhos negros e brilhantes e uma língua de fogo.
— Não te assustes — murmurou o dragão — que não te quero fazer mal.
— Mas quem és tu e o que fazes aqui? — perguntou João Ar-Puro, assustado.
— Eu sou o Dragão do Lago dos Sonhos e sou, como tu, amigo dos pássaros, das plantas, das estrelas, dos peixes e dos camponeses. Tenho outros amigos que não conheces, mas que gostaria de te apresentar: os unicórnios, os duendes e as sereias que moram comigo no Lago dos Sonhos...
— Mas ainda não me disseste o que te traz por cá — insistiu João, receoso.
— Foi a Natureza que me pediu para te procurar. Sou também amigo dela, e às vezes visito-a no seu palácio de folhas verdes. Na última visita que lhe fiz, encontrei-a mais triste e preocupada do que é costume. Então, ela contou-me que tinha recebido notícias do País do Fumo, onde os seus filhos estavam ameaçados de grandes males e sofrimentos. Perguntei-‑lhe o que havia de fazer para a ajudar e ela disse-me para te procurar porque só tu podias auxiliá-la neste momento difícil.
— Mas como posso eu ajudá-la? — inquiriu João Ar-Puro.
— Não te esqueças que te chamas Ar-Puro e que só alguém como tu pode vencer os inimigos que temos no País do Fumo.
— Mas eu nem sequer sei onde fica esse país.
— Não te preocupes, que eu levo-te lá.
O Dragão do Lago dos Sonhos ajudou-o a subir para o seu dorso de escamas prateadas. Depois deitou umas labaredas violetas pelas narinas, tomou balanço e elevou-se no ar com a leveza de uma folha embalada pelo vento da manhã.
Atravessaram a noite escura com a velocidade de um cometa, deixando, como ele, à passagem, um rasto de luz, uma espécie de pó de estrelas igual ao que as fadas lançam com a ponta das varinhas mágicas.
Viram as cidades adormecidas, os operários a caminho das fábricas, os varredores e as vendedeiras de peixe e de flores a caminharem com passo rápido em direcção aos mercados e às feiras. Viram nuvens de fumo espesso a saírem das altas chaminés e gaivotas esvoaçando sobre os cais, a despedirem-se dos pescadores que partiam para o alto mar.
João Ar-Puro não sentia sono nem cansaço. Estava desperto como nunca e pensava: “É belo o mundo visto daqui de cima. Parece uma grande bola de cristal cheia de gente viva!”
— Agarra-te bem que vamos começar a descer para o País do Fumo. Vais sentir os olhos a arder e a garganta a doer. Quando aterrarmos, ficarás entregue a ti próprio, à tua força, à tua imaginação. Não esqueças que todos os teus amigos contam contigo.
O Dragão do Lago dos Sonhos teve dificuldade em aterrar no País do Fumo, como se fosse um avião a jacto num dia de nevoeiro. Também ele, embora estivesse habituado às labaredas e aos tormentos do fogo, tinha os olhos a arder e a garganta áspera. Ouvia João Ar-Puro a tossir, ajeitando-se, incomodado, sobre o seu dorso de escamas lisas.
Aterraram, por fim, numa grande praça, no meio do País do Fumo, quando a manhã já ia alta. Mas o fumo era tanto que não se percebia muito bem se era noite ou se era dia.
— Tenho de te deixar aqui. Espero que tenhas coragem para fazeres o que há a fazer. Eu e a Natureza estamos contigo. Daqui a uma semana aterrarei de novo neste local para te levar de volta, são e salvo, à tua terra.
João Ar-Puro apeou-se do dragão, trémulo de medo, vendo todo aquele fumo à sua volta, um fumo espesso que não o deixava parar de tossir.
Olhou em redor e viu alguns vultos a recortarem-se no meio do fumo. Quis aproximar-‑se deles mas, quando chegou perto, já tinham desaparecido.
— O que hei-de fazer agora? — perguntou a si mesmo em voz baixa, tentando vencer o medo que lhe prendia as pernas. Ao fim de uns instantes, decidiu-se e partiu à procura dos pássaros, das plantas e dos peixes. Mas onde havia de encontrá-los, se o fumo era tanto que mal via o chão que pisava?
Procurou árvores e lagos, jardins ou praias. Mas nas primeiras horas de busca nada conseguiu encontrar.
Quase lhe apeteceu desistir, cruzar os braços e correr atrás do dra­gão, mas achou que não devia fazê-lo, que era já demasiado tarde. Foi então que lhe poisou no ombro um rouxinol de olhar triste.
— Estávamos à tua espera — disse o rouxinol em voz baixa, para ninguém ouvir.
— Mas como sabiam que eu vinha?
— Foi um cometa nosso amigo que nos trouxe a notícia.
— Conta-me então o que se passa neste país — pediu João Ar-Puro.
— Levaria horas a contar-te — respondeu o rouxinol de olhar triste.
— O tempo de que dispomos é curto, mas podes começar a contar.
O rouxinol, respirando com dificuldade no meio do fumo, iniciou o relato:
— O fumo das fábricas, dos escapes dos automóveis, dos cigarros e dos charutos tomou conta deste país. Por isso ele se chama País do Fumo.
Parou um instante para respirar e continuou:
— Quem manda aqui é um homem carrancudo e mau, chamado Fumador-Mor. Fuma cigarros atrás de cigarros e, quando os cigarros acabam, fuma charutos e cachimbos. Desloca-se de um lado para o outro sobre uma grande nuvem de fumo negro e dá ordens para que sejam construídas novas fábricas com enormes chaminés que, recortadas no cinzento dos dias, parecem monstros de muitas cabeças. A mulher do Fumador-Mor é a Tossidora-Mor, que também passa os dias a fumar. Tem criados para tudo e manda castigar quem não lhe obedece.
— E vocês o que fazem? — perguntou o João Ar-Puro.
— O que havemos nós de fazer? Andamos fracos e doentes por causa de todo este fumo. Bem, mas o melhor é vires comigo, para te mostrar o que se está a passar.
E lá foram os dois, caminhando com dificuldade pelo meio de nuvens de fumo denso. Primeiro, foram visitar os peixes do mar. Já quase não vinham à superfície com medo do fumo, mas, mesmo lá no fundo, adoeciam por causa do óleo lançado nas águas pelos petroleiros e pelos cargueiros que partiam para grandes viagens. Muitos cardumes tinham fugido em busca de águas limpas, outros tinham morrido e os que estavam vivos andavam tristes e doentes.
Em seguida, atravessaram um grande pomar e ouviram as queixas das árvores de fruto, vergadas pela falta de ar. Olharam para as suas folhas amarelas e para os seus ramos e para os seus frutos mirrados. Tiveram pena delas e, por isso, acharam que era ainda mais urgente fazer alguma coisa, encontrar uma rápida solução.
— Com este fumo — disse-lhes uma abelha — já nem conseguimos fazer mel. Para o fazermos, precisamos de ar puro, de flores saudáveis e cheias de pólen. Mas elas deixaram de existir no País do Fumo. Por isso, estamos a pensar voar para outro lado. Mas nem para isso temos forças.
Os pássaros, amigos do rouxinol de olhar triste, contaram também a João Ar-Puro o mal que o fumo lhes fazia. E um deles chegou mesmo a dizer:
— Para nós, além do fumo, o pior ainda é não conseguirmos ver o Sol, porque as nuvens cobrem completamente o azul do céu. E um pássaro que não pode ver o Sol e o azul do céu sente-se doente e sem liberdade. É assim que nós nos sentimos!
João e o rouxinol foram refugiar-se numa gruta perto do mar, para não serem descobertos pelos Cigarros-sem-Filtro que eram a polícia do Fumador-Mor.
Conversaram até de madrugada à procura de uma solução. Mas não havia meio de a encontrarem.
— Se calhar — disse o rouxinol, com o olhar ainda mais triste do que era costume — o melhor é desistirmos e deixarmos que as coisas continuem assim. Tu Voltas para a tua terra e nós ficamos-te agradecidos na mesma pela boa vontade que demonstraste.
— Não penses nisso — respondeu João Ar-Puro com firmeza. — Agora é que estou mesmo decidido a ajudar-vos a resolver este grave problema.
— Mas como havemos de resolvê-lo?
— Tenho a impressão de que encontrei a resposta para a tua pergunta.
— Conta-me depressa qual é — disse o rouxinol com os olhos pequeninos a brilhar.
— Vamos reunir num sítio seguro todos os nossos amigos: os pássaros, as plantas, os peixes... todos aqueles que sofrem com o fumo. Por isso, chamaremos também as pessoas que encontrarmos nas ruas, cheias de tosse e com os olhos vermelhos por causa de tanta fumarada. É bom que partas depressa e as chames todas para um lugar onde não haja o perigo de sermos descobertos.
O lugar escolhido foi uma clareira muito abrigada no meio da floresta. Abrigada dos ventos e dos olhares indiscretos. O sítio ideal.
Ao fim de uma hora, começou a juntar-se a multidão dos filhos da Natureza.
Tinham um ar doente e preocupado, mas, ao mesmo tempo, havia nos seus olhos cansados uma réstia de esperança.
João Ar-Puro empoleirou-se num tronco de pinheiro e dirigiu-lhes a palavra:
— Pedi-lhes que viessem para, juntos, podermos encontrar uma solução para o problema que vos aflige.
— Mas o que havemos de fazer? — perguntou, em coro, a multidão, no meio da qual se viam também muitas pessoas fartas de tanto fumo.
— Vamos juntar-nos todos na maior praça que houver neste país, vamos aproveitar o ar que ainda temos dentro dos pulmões e vamos soprar, com quanta força tivermos, até conseguirmos expulsar de vez o fumo desta terra.
João ouviu um “ah” de espanto a elevar-se no ar e logo a seguir uma voz que perguntava:
— E onde temos nós fôlego que chegue para isso?
— Dentro do peito, nos pulmões, nas guelras, eu sei lá, na nossa força de vontade — respondeu João Ar-Puro, determinado.
Da clareira na floresta, partiram em pequenos grupos para a maior praça que conheciam. Quanto se juntaram todos, perceberam que se apertava já à sua volta um cerco feito por um verdadeiro exército de Cigarros-sem-Filtro.
Entre a multidão estavam as baleias, os linces, os golfinhos, todas as aves e plantas raras que existiam no País do Fumo e todos eles exclamavam, olhando uns para os outros e aguardando uma ordem de João Ar-Puro: “É agora ou nunca!” Mas, ao mesmo tempo, havia quem perguntasse: “será que conseguimos?”.
João pediu que se juntassem todos, muito juntinhos, como se fossem as pedras de uma muralha, e que se virassem para o sítio onde havia mais fumo. Depois disse-lhes:
— Quando eu gritar “agora!” soprem todos com força para furarmos o cerco dos Cigarros-sem-Filtro e fazermos desaparecer de vez o fumo desta terra.
— E aqueles que não têm boca nem bico para soprar? — perguntou o rouxinol de olhar triste.
— Bem — respondeu João — esses sacodem as asas, as folhas, mexem como puderem para fazer vento, para agitar o ar.
E, dizendo isto, respirou fundo e gritou como estava combinado, a palavra “agora”.
Nesse instante, levantou-se uma forte ventania que empurrou para muito longe o exército dos Cigarros-sem-Filtro e com eles o fumo espesso que há muitos anos incomodava os habitantes do país.
— Não parem de soprar! Não parem de soprar! — gritava João Ar-Puro sem esconder o entusiasmo e a alegria que estava a sentir nesse momento.
Pássaros, peixes, plantas, homens, mulheres e crianças faziam todo o vento que podiam e, se por um instante se cansavam e perdiam o fôlego, logo ganhavam novas forças e voltavam à carga.
Foi assim, graças ao esforço e à coragem de todos, que o fumo desapareceu quase por completo, deixando apenas, suspensas no ar, pequenas nuvens avermelhadas.
Lá em cima, muito azul, via-se agora o céu e, no meio dele, um gigantesco Sol sorridente que os saudava a todos com os seus belos raios muito brilhantes.
À saudação do Sol todos corresponderam com gritos de alegria, com saltos e acenos. Nem queriam, afinal, acreditar na grande vitória que tinham alcançado. Tratava-se agora de voltarem às suas vidas, já libertos de preocupações, com ar puro e fresco para respirarem.
E assim, os peixes voltaram a nadar felizes, as árvores a dar lindos frutos sumarentos, os pássaros a voar alegres, as plantas a dançar ao sabor da brisa da manhã, as pessoas a rir e a cantar no meio das praças e dos jardins.
Ao ter notícia da vitória dos filhos da Natureza, o Fumador-Mor e a Tossidora-Mor escaparam, pela calada da noite, com o que restava da sua guarda, montados numa nuvem negra e feia. Soube-se depois que acabaram os seus dias, tristes e zangados, no País da Falta de Ar, entre montes de carvão e grandes caixotes de lixo.
Os filhos da Natureza, para celebrarem a vitória e o regresso do Sol e do céu azul, fizeram, na grande clareira da floresta, uma festa que durou vários dias. Vieram palhaços, trapezistas, acrobatas, bailarinas, músicos e actores. Cantou-se e dançou-se, bebeu-se água fresca das fontes e todos trocaram entre si flores com as cores do arco-íris.
Quando o dragão do Lago dos Sonhos chegou, no dia marcado, para levar de volta João Ar-Puro, também entrou na festa, usando o fogo das suas narinas para acender as velas que iluminavam a noite.
João subiu, cansado e feliz, para o dorso de escamas prateadas e voou através do céu limpo e azul a caminho da sua terra distante.
À sua espera, no regresso, tinha a Natureza com os filhos à volta. Queriam agradecer-‑lhe tudo o que tinha feito. Deram-lhe uma linda estrela doirada e uma cabana de folhas verdes no meio do Bosque dos Unicórnios.
O País do Fumo, hoje, já só existe no coração dos sonhos e dentro das histórias que se contam às crianças.


José Jorge Letria, João Ar-Puro no país do fumo