13/07/2008

História

No tempo dos príncipes havia um, e dos mais belos, rico e moço que, andando um dia a passear no campo, por distracção pôs o pé na borda de um poço raso e caiu no fundo dele.

O sítio era ermo. Daquele poço já ninguém se servia porque estava seco e atafulhado de silvas.

O triste moço, todo arranhado, quando deu consigo no buraco negro onde caíra barafustou, gritou e gastou as unhas nas pedras, mas tudo em vão. Rouco, quem o ouvisse já não suporia ser a sua uma voz humana.

Entretanto desceu a noite e a bicharada começou a sair das tocas. Os morcegos adejavam, os mochos piavam, os ralos faziam aquela doce e longa chiada que dá tanta ani­mação às horas serenas da noite... e o príncipe pensava na sua vida. Perdido! Nunca mais dali sairia. Os seus pa­rentes e cortesãos haviam de imaginar que ele se tinha ausentado para outra corte, que estaria talvez presidindo a algum rico festim...

Por cima do poço entrou ao de leve a clarear e o príncipe, através do silvedo rasgado com o peso do seu corpo, julgou que aquele vago luzeiro anunciava já o dia. Sorriu-lhe uma pequena esperança. Quem sabe se o andariam a procurar? Sentia-se ferido, e tão que­brado, tão cansado! Ele bem queria ter fé, mas o cora­ção desfalecia-lhe.

Aquele luzeiro, que era afinal do luar, foi crescendo. A terra enchia-se de uma luz tão suave que os namorados vieram para o campo conversar das suas vidas e beijar-se. E ao rés do poço esquecido passaram dois ou três pares deles. Os seus murmúrios e risos e até o passo demorado dariam a entender aos próprios mortos de que é que se ocupavam.

O príncipe chegou a apanhar dois seixos do fundo do poço e pôs-se a bater com um no outro, por já não ter voz. Mas os namorados sobressaltados em vez de parar estugaram o passo.

Nunca mais sairia dali, nunca mais veria a cara de uma mulher! E tantas que ele amara...

Assim o julgava, mas realmente nunca as tinha amado, deixara-se amar por elas.

Sair dali, nem que fosse para morrer, mas à superfície da terra!

Entretanto, outros passos se foram aproximando, dife­rentes do dos namorados, pesados, incertos.

A jornada de hoje não foi das piores, dizia uma voz.

A outra respondia-lhe: os ricos estavam de coração mole. Mas olha que os pobres também...

Esses, coitadecos!

Não têm cão, queres tu dizer, para nos lançarem às canelas... Escuta!

Escuta o quê?

Morrer por morrer, morra o meu pai que é mais velho. Aqui é o poço maldito, não vamos nós parar ao fundo dele...

E os dois mendigos apertaram um pouco o passo e continuaram na sua tagarelice.

O luar ia tão alto que o príncipe chegou a descorti­nar o ar ou o céu por entre o silvado, e suspirou. Que noite tão grande! E tão triste. Nos seus dias felizes nunca tinha dado pelo tamanho das noites nem pela sua grande solidão. E nunca tinha reparado em mendigos nem em namorados. Tinha uma vida tão cheia: festejos e mais fes­tejos... Os seus jardins eram como salas, com dosséis de vidro. Baixou a cabeça e ainda pôde verter duas lágrimas, não de saudade, mas de acabrunhamento.

Ó mãe, aqui é o poço, não é? — dizia uma vozinha em cima.

E, filha, mas não corras.

Posso morrer?

Pois podes e já não tornavas a ver a avozinha, que está doente.

Ainda é muito longe, mãe?

Já não é.

No poço há bichos, que estão a mexer, tenho medo!

Não te chegues para lá, dá cá a mão.

E mãe e filha, acauteladas, foram-se afastando.

O infeliz príncipe, que batera com os seixos um no outro, deitou-os fora e apertou a garganta. Se ao menos, pudesse soltar um grito! Mas já não podia. Nem palmas bater, de tão inchadas que tinha as mãos. Morreria para ali como um animal... E não merecia que ninguém o chorasse. Nunca fora condoído, não conhecia a miséria do mundo, só tivera caprichos.

Sentia uma sede! Ter caído num poço seco... antes morrer afogado, depressa. Num acréscimo de desespero entrou a bater com a cabeça pelas paredes. Tonto, ia-se deixando desfalecer, mas novos passos, de súbito, o des­pertaram.

Quem é? brada ele. Ninguém lhe responde porque ninguém o pode entender.

Socorro! grita ele então com o maior esforço.

Está aí alguém? pergunta uma voz de mulher, para baixo.

O príncipe, emitando sons que mais pareciam gru­nhidos, tenta responder.

A mulher afasta-se e o triste, que se considera perdido sem remédio, deixa pender a cabeça para o peito. Passa entretanto um rebanho que ia para o pasto às primeiras luzes da manhã. No fundo do poço, o príncipe pela pri­meira vez na sua vida invejou os pastores: andar de cabeça ao ar, pisar o chão, seguir umas ovelhas...

Some-se, enfim, a tropeada do rebanho e começam-se a ouvir os passos. Lá em cima, tudo dava sinais de vida tudo era alegre.

Após um século — um século, horas ou minutos? sen­tem-se novos passos.

Quem está aí? brada uma voz de homem, sem que receba resposta.

Vá lá um, a ver, diz uma voz de mulher; pode ter per­dido os sentidos.

Aqui há mas é silvas para arrancarem a pele a um ho­mem! E se tu te tivesses enganado?

Não me enganei, não, ouvi uns queixumes... e para as silvas trago aqui um ancinho.

Vamos a isso! brada então outra voz de homem. E já temos um quartel ganho.

Dito isto, de chacota, começaram a limpar a boca do poço. E um, depois, desce por uma corda abaixo. Lá do fundo grita: estiquem, que aí vai um rico presente.

E deste modo foi salvo o mísero e incógnito príncipe.

A mulher julga-o morto, mas um dos homens põe-lhe o ouvido sobre o coração e acha que ainda vive.

Para onde o levamos?

Para minha casa, que não fica muito longe, responde a mulher.

Ó rapariga, tu tens essa coragem?

Não havia de ter, porquê? Assim se deixava um triste, p'r'aqui...

Mas sendo tu tão pobre, e sozinha...

Tragam-no, tragam-no que eu cuidarei dele.

E se te morre?

Paciência!

E após estas palavras, foi levado de charola um prín­cipe, que ninguém sabia que o era, para a casa da mais pobre das mulheres. Ficava esta num descampado, com umas rosinhas à frente e uma horta nas traseiras, pouco maior que um lenço de assoar. Da porta não se avistava nenhum povoado, mas dava-lhe o sol por todos os lados.

O príncipe foi voltando à vida. Passava o seu tempo a cismar e os pássaros lhe iam dando conta das horas. Sentia uma paz tão grande naquela solidão que se julgava feliz. Esqueceu-se da própria família e dos seus palácios. Mas o pesadelo do poço nunca o abandonou. Que extraor­dinárias coisas naquela noite lhe tinham ocorrido! Que aflições e que pensamentos... Sentia-se, porém, renascer. Renascer para uma outra vida.

A sua enfermeira era uma rapariga do campo. De manhã, quando saía, deixava-o tratado. À noite, quando voltava, trazia-lhe todo o ar de fora. E quando tinha tempo sentava-se ao lado dele a costurar.

Quando eu estiver bom, disse-lhe ele um dia, hei-de--Ihe dar uma prenda.

Prendas, para quê? respondeu-lhe ela prontamente, se a mim não me falta nada! Só rne falta...

Diga, diga.

Vê-lo são. E foi continuando: aqui nasci e aqui me criei. Estas roseiras da porta ainda foi minha mãe quem as dispôs; depois encontrei-me só... Trabalho como as outras, vou para onde me rogam, nunca me dá cuidado o que os outros têm. Nunca vesti melhor, nunca tive invejas nem vi outras terras. Chamam-me pobre? Quem me chama é que se engana, pode-me acreditar. Tanto vale o pouco como o muito, a maior parte das vezes, a questão é...

Mas tem agora às suas costas este empecilho, inter­rompeu-a ele.

Foi assim que me entendeu? Ora, ora, ora.

Devo-lhe a vida, uma nova vida...

Cale-se aí, e ponha-se rijo. Sabe qual é a mais rica prenda que me pode dar?

Não posso saber.

Vê-lo sadio.

Com as suas belas cores?

Ela riu-se.

E com a sua animação?

Se acha que tem valor...

Foi a vez de ele lhe sorrir também e de lhe replicar: nunca encontrei uma pessoa assim!

A conversa neste dia ficou por aqui, mas repetiu-se com pequenas variantes.

O campo ia-se enchendo de flores amarelas, roxas, ver­melhas e brancas, porque era o tempo delas, e a rapariga lembrava-se de levar bonitos raminhos para o quarto do doente. Este ia recobrando a alegria e a saúde. E uma am­bição tomava conta dele: entrar na vida daquele perfeito ser. Quando viu jeito fez-lho constar.

A rapariga respondeu-lhe então, sem pejo: era tam­bém isso que eu estimava. E acrescentou: a enxada do meu pai só precisa de um cabo novo.

E deste modo, o príncipe perdido, que nunca nin­guém mais procurou (há sempre tantos em disponibi­lidade!) se tornou um simples cavador. Mais não reza a história.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma