13/01/2008

A Contaminação


«Acho que sim, é o que está afixado!»

Como de costume, à cautela, eu arribara à Estação de Campanhã meia hora antes da partida. Por essa altura, já perdera e reencontrara várias vezes o bilhete, que tinha mudado de bolso para bolso, até ir parar ao superior ex­terno do casaco, lugar de recato, recurso dos recursos, em suspeitando dos outros. Ainda assim, eu não estava bem seguro, e apertei o fino cartão entre o polegar e o indicador, logo que o homem me pôs a dúvida. Se eu achava que o comboio partia mesmo àquela hora.

Um dos muitos inconvenientes de viajarmos é depararmo-nos com as mais inesperadas companhias. «Vá de viagem, veja o mundo, conheça gente» é uma consigna que só convence até aos vinte anos. Depois sornos capazes de considerar que o tipo que desadorarnos no café da esquina não passa a ser interessante por nos aparecer em Helsínquia, em Trebizonda, ou na linha da Régua. Agora este. «Julga mesmo que o comboio vai à tabela?»

Vinha mal vestidão. com um sobretudo de fioco escuro, calças de bombazina verde e um gorro cinzento, de invernia, na cabeça. Andaria pêlos trinta e tal anos e falava de lado, sem me olhar para a cara. Eu tinha-o visto chegar, momentos antes, dar uns passos distraídos pela gare, atravessar, desatento, o lugar em que uma família conso­lava uma pequerrucha que explodia em lágrimas por causas muito dela, e perfilar-se, enfim, a meu lado. Examinou-me e vi que lhe tinha sido uma espécie de epifania. Um burguês sozinho e relaxado no banco, ao dispor; ataque!

Sentou-se, eu fiz o gesto mental de me afastar uns milímetros, fixei-me numas fardas azuis que arrastavam um aparelhómetro semelhante a uma bateria, sobre duas rodas puxadas por um tubo de alumínio, e fiquei à espera. Caluda. O ho­mem dava-lhe para a contemplação. Da boca saía-lhe uma espessura de vapores brancos que se expandiam e esfiapavam no ar. Nada de especial. Estava frio. O mesmo devia acontecer comigo. Só depois da terceira ou quarta leda exalação de vapor é que vera a tal pergunta, flutuando entre névoas, com indiferença,

Dinguedongue, uma voz de povo impregnou os ares, a prevenir os circunstantes: vinha aí o comboio de S. Bento com destino a Chaves, A gare animou-se, apareceu gente inesperada, passaram formas e cores, um taquetaque pesadão, um rechinar de freios, a menina rabujenta foi içada ao alto de urna porta e a vista ficou-me vedada por aquela massa de fer­ros e alumínios. Houve resfôlegos. sopros desinibidos de motor. Depois, a voz do altifalante proclamou qualquer coisa, aquilo começou a mover-se, e a pequena de há instantes, sorria para o fosco mundo, com as mãos ambas apoiadas no vi­dro. O meu olhar acompanhou o deslizar do comboio, relanceou a última carruagem, a afastar-se, desvendou as plata­formas em frente agora vazias de material que não de gente, que ia surgindo de passagens subterrâneas, com malas, e fi­tou-se no claro relógio de grandes ponteiros supostamente certos. Faltavam vinte e cinco minutos para que o Alfa, Intercidades, ou lá o que era, se instalasse lá além. Eu estava em tempo, possuía o meu bilhete, uma segurança. Cá es­tava, onde? Onde? Ah, sim, no bolso de cima do casaco. Dentro de dez minutos, desceria a um escuro corredor de azu­lejos cor-de-burro-quando-foge, subiria umas escadas com o rnalão de rodas a dar e dar, procuraria a carruagem, ao cor­rer da gare. enganar-me-ia como de habitual, faria perguntas a alguém que estivesse fardado, instalar-me-ia no meu lugar, depois de pousar o casaco no cabide, e entraria, com um suspiro de satisfação na leitura do jornal do dia, ansioso por aquele doce rolar que se seguiria ao apito.

«Não vai à tabela, não. acho que vai atrasar»... Aí estava ele, curvado para diante, a exalar tristeza e desconforto. Não ti­nha sotaque da zona. Ao contrário, na pronúncia daquele «atrasar» pareceu-me haver uns restos de paragoge, em «e», ou. talvez em «i». Não quis induzi-lo a repetir. O meu não-esta r-pá rã-conversas era mais forte do que a vaga curiosidade sobre a elocução do homem. Só que o querer é uma coisa, o fazer é outra. E eu próprio fiquei surpreendido ao ouvir a minha voz adiantar uma pergunta. O que é que me deu?, inquietei-me. Mas a pergunta já estava lançada. Se ele era do Porto, ou não.

«Não, não sou. Aqui onde me vê, estou no Porto à força». O altifalante rebimbou e o locutor do costume tossiu e elu­cidou que o comboio para Lisboa, Santa Apolónia estava atrasado por razões de «natureza técnica». O homem olhou para mim, encolheu os ombros e meneou a cabeça, com a tristeza dos sábios que se condoem da humanidade. Eu fiz menção de agarrar a mala, soerguia-a um pouco e larguei-a, num desconsolo. «Eu não lhe dizia?», sussurrou o homem, às vezes dá-me para adivinhar».

Fiz-me curioso: Como é que era isso de estar no Porto à força? Já não existem penas de desterro, o país é livre. Algum casamento, não? Havia que aguardar, naqueles resguardos sombrios da estação. Afinal era-me mais penoso ter o homem ali ao lado, a olhar para nada, do que a ouvir-lhe a voz. Se não me interessasse, desligava, distraía-me, fazia contas de ca­beça, deambulava por Xandri-Lá.

«O amigo não vai acreditar». Não tinha qualquer importância que eu acreditasse ou não. «Homem, vá dizendo». E es­tendi-lhe um cigarro para o animar. Era fumador, aceitou. E começou o relato com gestos arredondados de mão.

Dois anos antes, trabalhava em Lisboa, como empregado forense, num escritório de advogados ao Bairro Azul. Bom dactilógrafo, fazia também trabalhos de fora e de tribunal. Um dia encarregaram-no de vir ao Porto, a uma empresa de pneus, com uns papéis para assinar. A coisa devia ser muito confidencial porque veio munido de recomendações para en­tregar os papéis a um Dr. Fulano, e a mais ninguém, recolhê-los, depois de assinados, e ala para Lisboa, no comboio da tarde. E lá partiu, munido do bilhete de ida e volta, satisfeito com uma longa viagem sentada, propícia à reparação do sono e à meditação.

«A culpa de tudo isto», continuou, «deve ser da Marquesa de Valdonor», e calou-se. Dois comboios locais matra­quearam, num espalhafato estrondeado, um tanto exibicionista, sobre os carris. Um guincho agudo de freios e a tal voz anunciante ao microfone. O homem encarava-me, agora, vago, o cigarro apertado nos dedos, com uma torcida encur­vada de cinza a querer cair e a cair mesmo.

«A marquesa de Valdonor, hem?» - perguntei eu por delicadeza. Quando chegaria o meu comboio? O olhar alongava--se-me até ao fundo da estação e o Alfa ainda não estava estacionado. Vamos a isto, desata lá a tua história, ó assombra-dor de estações!

Pois naquele dia remoto, ele chegara ao Porto cedo e resolvera ir de Campanhã até aos Aliados a pé, para poupar o dinheiro do táxi que depois faria cobrar. Dispunha de mais que tempo. Afinal, era só uma assinatura, uma rabiscadela. Tomou um café, e foi andando, por aquele Porto afora. Estranhava e admirava o feitio das janelas, os azulejos dos prédios, a cor dos autocarros, a pronunciação marcada dos transeuntes. E se aquilo não foram momentos de deambulação feliz, estiveram lá perto.

Vai que não vai, caía no meio de um ajuntamento. Altercava-se. Era desastre. Tomava-se partido pelo do carro azul ou pelo da camioneta. O meu interlocutor, que nada havia visto, deu por si a comentar o caso com um fiscal da Câmara, de grandes bigodes, e teve opiniões sábias, a ponto de deixar o outro derrotado. Fazia sol, e não se estava mal na multidão.

Já o fiscal da Câmara se afastava, para ir observar os pormenores do reboque que içava às costas o automóvel azul, quando o meu lisboeta sentiu que o travavam pelo braço, com doçura, familiarmente. «Venha», ciciava um tipo adunco, muito magro e curvado, vestido de gabardina escura, embora não estivesse de chuva. «Estávamos à sua espera». Ao es­panto dele, o outro sorriu «a marquesa hoje tem coscorões. Frescos». O que lhe passou pela cabeça, nem ele próprio sa­bia. Estava sol, sentia-se bem disposto por ter ganho a discussão com o outro, gostava de coscorões e a figura ao seu lado sorria-lhe tão simpaticamente que foi andando com ela. Falaram sobre o tempo atmosférico, pelo caminho. E o sujeito que o conduzia mostrava-se muito agradavelmente experimentado em conversas sobre coisas do clima.

Sem mais aquelas, entraram por uma porta, passaram um saguão, subiram umas escadas em caracol, atravessaram uma sala completamente vazia, desceram por um elevador, forrado de veludo, com bancos, e estavam numa quadra imensa, com lustres, gobelins, tremós e candelabros. Havia umas presenças sentadas, avelhentadas e bem vestidas, que saudaram, levantando a chávena de chá. Ele preferiu não se dar por achado e quando o outro lhe sugeriu: «e se deixasse aqui a pastinha? A marquesa pode não gostar...», pousou a pasta num tampo de mármore, debaixo do retrato, a óleo muito esfu­mado, de um sujeito de bigodes alevantados.

Uma voz, na sala ao lado declamava frases cadenciadas. Foi desconfiado que o homem entrou, conduzido pelo seu guia que não o largava do braço. Um sujeito magro acabara de ler um papel, agradecia umas palmas soturnas, fazia uma pequena vénia e ia sentar-se na quadratura de cadeiras ocupadas por idosos, debaixo de espelhos de moldura dourada. «Além a senhora Marquesa. Vá cumprimentar a senhora Marquesa». O homem da gabardina, que a trazia agora enrolada no braço, endireitou-o pelo meio da sala até uma mesita junto de que se sentavam três velhas, vestidas de tule branco. A Marquesa era a do meio. O meu interlocutor gaguejou «minha senhora, está boa?» e estendeu uma mãozada para a ve­lha do meio que lhe fez um sorriso e revirou os olhos. Como uma alavanca solta, alçou-se um braço magríssimo e no­doso, e uma mão esguia, dura e gelada colou-se-lhe ao queixo. A marquesa, sem deixar de sorrir para o lado impunha um beija-mão. Ele fez um ploc com os lábios, aterrado, e a mão recolheu-se a um regaço farfalhudo.

Mas já estava sentado ao lado de um velho imponente, de farta cabeleira branca, que se concentrava num sujeito que, à meio da sala, proclamava que ia ler um poema despretensioso: «Vilancete sobre Lídia em Recato». Tratava-se de poe­sia. O homem, vestido de fato cinzento às riscas, recitava as excelências de Lídia, sacudindo na mão esquerda um papel em que muito provavelmente estava escrita a poesia. Dava sono, mas não muito desconforto. Coscorões, nada. Um la­caio servia copinhos de licor. O meu interlocutor tentou-se. Adormeceu.

«E assim fui acordado por detrás da praça dos Aliados, por dois militares que passavam para o quartel. Viram-me en­tre caixotes de lixo, rodeado por gatos vorazes e quiseram certificar-se de que estava vivo. Foram-se embora a rir, com o meu espanto. E fiquei para ali, pasmado para o amanhecer do Porto». À estranheza, que já não era bom sinal, somou-se o sobressalto. Meu Deus, os papéis, onde tinha ele deixado a pasta com os tais papéis?

Bem podia procurá-los, bem podia calcorrear todos os arredores de Campanhã, bem podia entrar por todas as por­tas, espreitar todos os pátios e saguões. «Riram-se de mim quando perguntei pela marquesa de Valdonor».

E os papéis? Perguntei eu. Passavam mais comboios. A voz do altifalante fez saber que o Alfa continuava em atraso. A meu lado, o homem abanava a cabeça, desconsolado com os desconcertos do mundo. «Fui à firma dos pneus. Cheguei cheio de desculpas, aterrorizado. O Dr. Fulano recebeu-me jovialmente e disse-me que não tinha importância nenhuma, que o assunto se havia resolvido sem necessidade daqueles documentos. Deixaram-me fazer um telefonema para Lisboa. Do escritório confirmaram a conclusão do negócio e estranharam que eu só desse sinal de mim a meio da manhã do dia seguinte ao combinado. A atrevida da empregada, minha colega, chegou a perguntar: «foi às gatas, senhor Lopes?».

E aí estivera ele, prantado em Campanhã, pronto para o comboio, depois de ter arduamente negociado a troca do bi­lhete. «Comi uma daquelas coisas com queijo e salsichas, sabe como é?». «Francesinhas». «Isso!».

Mas o comboio, mal tinha saído da estação deu um solavanco e descarrilou. Ninguém se feriu. Um carril tinha-se par­tido devido a um derramamento de qualquer ácido, numa viagem anterior. De costas doridas voltou para a estação e es­perou pêlos trabalhos de desobstrução da via. Era já de noite, outro comboio. Nem chegou a Gaia. A máquina incendiou--se. Todos os passageiros tiveram de descer na linha. A terceira tentativa, o comboio nem partiu. O altifalante proclamou uma avaria. Soube que era um eixo partido. E dormiu nessa noite numa pensão manhosa, atravessada de idas e vindas, ruídos, cicios, entre lençóis duros.

«já sabe o resto, não sabe?», perguntou-se, entristado, o homem. «Foi táxi, foi autocarro, foi avião, foi tudo. Onde quer que eu entrasse, choque, incêndio, avaria. Andei nisto semanas, gastei o dinheiro todo. De Lisboa, não acreditaram e comunicaram que me iam despedir com justa causa. Onde isso já vai. Já me devem ter despedido várias vezes. Ainda tentei apanhar a Providência desprevenida. Cheguei a esgueirar-me para um autocarro em andamento. Sem resultado. Umas centenas de metros depois, pneu furado, eixo partido, alternador esgotado. E quando tentei vir a pé, feito romeiro, com um cajado na mão, parti uma perna, hospital comigo. A minha mulher não acreditava no meu desespero, ao tele­fone. Convenceu-se de que me tinha deixado embeiçar por uma lúbrica tripeira. Meteu os papéis do divórcio. O dinheirc acabou-se-me. Passei a fazer biscates, a arrumar automóveis, a entregar pizzas, durmo onde calha. Desisti. Aposto que se me enfiasse naquele comboio - o Alfa estontéreo acabava de encostar à plataforma, vindo sabia eu lá donde - ele arran java maneira de se ir abaixo. Nem duzentos metros fazia». Suspiro.

«O amigo, desculpe lá. Estou para aqui a contar tristezas, a desanimar, mas a intenção não era essa. Isto é a gente , falar sobre as coisas da vida, percebe? Tem mais um cigarrito?» Ele tinha acabado de lançar o maço vazio para a linha, nun gesto altivo, dramático.

Era a hora, eu levantei-me, segurei a minha mala, o homem deu-me uma pancada resignada no ombro e afastou-se encolhido debaixo do sobretudo. Antes, havia repetido, num rosnido resmoneado: «foi a Marquesa de Valdonor».

Pobre diabo. Lá me tinha entretido nos momentos de espera. E eu ansioso por ler o jornal.

O meu lugar era à janela, na primeira classe. Pousei o caso e vi, satisfeito, o ponteiro do grande relógio marcar as cinco e dez. A estação começou a deslizar a meu lado. Um apito. Jornal abandonado nos joelhos, preparei-me para dormir.

De súbito um grande estouro, rechino de ferragens, fui projectado contra o banco da frente e magoei o nariz. Grito: confusão. Alguém corria ao lado do comboio parado com uma bandeira. Grande silêncio, toda a gente apinhada à janela; protestos. Um revisor a cambalear atravessou a nossa carruagem numa pressa. «Foi o sinal de alarme!», comentou alguém

Não era o sinal de alarme. Roufenha, uma voz veio informar, pelo intercomunicador, que uma barreira tinha aluído, frente do comboio. Estávamos imobilizados. Pediam-nos que descêssemos e regressássemos a pé à estação de Campanhã.

Lá fui buscar a minha mala ao compartimento, mas estava fora de mim. Uma suspeita persistia, por mais que eu tentasse arredá-la, em tomar-me os sentidos: «Meu Deus, aquilo pega-se?»


Mário de Carvalho in Porto Ficções