04/07/2008

As Moiras



Este caso contava-se na minha terra, terra de mar. Havia quem nele acreditasse. A minha terra é banhada por um rio, a que ninguém dá nome, e pelo mar. Creio que já se lhe não conhece a origem: é muito antiga. Tanto que as ruas velhas, quase todas elas o são, cobertas de areia, aos altos e aos baixos, quando sofrem conserto mostram buracas que antes abriam para subterrâneos, caminhos escondidos, do tempo dos moiros, a que chamam fojos...

Mas não é dos moiros que ainda hoje lá se fala. É das moiras. Há tanta memória delas! Ditos e receios... Até os pescadores quando traziam do mar os covos vazios se queixavam delas: não fossem as moiras! Marfadas! Condenadas!

Quem vinha a desoras para o povo também espalhava medos:

À meia-noite é que elas aparecem. Põem-se a pentear e a cantar, têm uns cabelos muito compridos! sentadas nas rochas... Vê-las é a nossa perdição.

Mas vossemecê viu? - perguntavam.

Ninguém tinha visto, porém todos sabiam que era verdade. E que em certas ocasiões as badaladas da meia-noite soavam por toda a banda, por cima das alfarrobeiras e das amendoeiras, no chão e no ar. Alguma estava para acontecer! E por culpa das moiras. À meia-noite era certo...ah! lá isso era! virem elas de corrida pelo rio abaixo até o mar. E até havia quem dissesse que ao dar do meio-dia era o mesmo. E acre­ditavam, mas ninguém vira. Sabia-se apenas que elas eram muito belas e que cantavam. Quem lhes quebrasse o encanto ficava a poder mais que um rei. Que elas ainda possuíam riquezas fabulosas! Ou então... ficaria um seu escravo.

Isto era o que se dizia. Até que de uma vez aparece um rapaz desconhecido a correr pela praia fora, com os cabelos muito bastos e soltos, o olhar vago e a sorrir. Quem seria quem não seria... Foi-se juntando povo à roda dele e as perguntas a chover. Mas ele só dava às mãos, abanava a cabeça e sorria. Por fim deixaram-no fugir e ficaram murmurando: é um desgraçado.

No outro dia e nos mais que se seguiram aconteceu o mesmo. O rapaz aparecia do lado do rio, a correr, com aqueles cabelos tão compridos e lisos como uma seda, de mãos no ar, com um ar de riso... Nada pedia, nada aceitava...

É um aventureiro! É mas é um infeliz! As opiniões dividiam-se. O povo andava alvoroçado.

É um louco, é um zorro, é um perdido!

As mãos tremem-lhe, aventavam algumas mulheres, vê-se que quer falar e não pode. E foi, afinal, um carvoeiro da serra que veio a deslindar o caso. Aquele rapaz era rico. Tinha noiva, uma grande casa, cavalos e prédios como poucos. Mas tudo abandonara por causa delas. Numa certa noite, fazia uma lua como um sol, ao darem as doze badaladas... ele viu-as e foi atrás delas... Perdeu-se. Mas não lhes pôde quebrar o encanto. Elas é que lhe tiraram a fala. Deixou tudo e agora era certo, na verga do dia e ao dar a meia-noite, passar a correr do rio para o mar. Podia o sol tornar a areia em brasa, podia a lua gelar, podia a maré varrer tudo, que ele nunca parava, e sempre com aquele ar de riso.

Alguns homens lembraram-se de levar ao encontro dele as moças mais bonitas da terra, mas ele dava às mãos, sem as ver sequer, e continuava na sua carreira. Houve quem lhe oferecesse figos secos e papas, que era o comer da terra. Mas ele tudo recusava...

Pudera, se as moiras o sustentavam...

Até que um dia, já toda a gente se habituara a ele, um dia muito triste, muito escuro, com os pássaros do mar em terra e um levante de fazer arrepiar os mortos, se viu o mais triste espectáculo... quem terá forças para o contar?

Começaram a estalar as faíscas, que até pareciam um fogo de vistas, e os trovões a ribombar. O mar subia. As mulheres vinham às portas clamar que era o fim do mundo. Um frio, como nunca se sentira assim, picava-as na boca, mas elas não se calavam. As crianças choravam.

Nisto passa o louco, de estoiro.

Ele aí vai! Ele aí vai! - gritavam elas. É um perdido! Vai ter com as moiras.

O triste, mais pálido que uma rosa branca, com os cabelos a voar, corria como o vento ou como os raios trémulos. Chega à orla do mar e estaca. Abre os braços. Abre-os tanto que parece abranger a massa toda da água, e mete-se nela, desaparece.

O povo, que o estava vendo de longe, dá um grande soluço. E não faltou depois quem afirmasse que do mar outros soluços lhe responderam. O pobre perdera a sua alma! E tudo por causa das moiras.

Sabido é que o temporal abrandou.

Era um infeliz. Cumpria o seu fadário. Marfadas, condenadas...

Estas vozes e outras corriam depois acerca do louco e das moiras. E aos serões, enquanto os rolos da empreita tremiam e reviravam suspensos dos dedos activos das mulheres, sentadas nas capachinhas, repassavam-se as graças do suicida: era tão delgado como um junco, como um junco novo... e o olhar dele? mas nunca via ninguém! pudera, se ele as tinha visto a elas... formosura igual? nunca houve! e os cabelos, e as mãos dele, tão finas? sempre a virar, sempre a virar... tinha o rosto moreno... pois tinha, mas já fora mais claro que a água, o sol e o vento é que o haviam crestado, e o que ele corria, léguas, sempre no mesmo passo? aquilo nem era correr, era voar, como os pássaros, nunca se soube de onde vinha, que era louco, que era louco? andava mas era a cumprir um fado! agora acabaram-se os perigos do mar, agora está ele enterrado com elas, lá bem no fundo...

Mas quando os homens tornavam a vir da pesca, de ombros derreados e a praguejar, nunca deixavam de intercalar nas suas queixas: marfadas, condenadas, não fossem elas!


Irene Lisboa, Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma