20/07/2008

As Aventuras de Rosalina



Rosalina ia fazer um recadinho à mãe, pela praia fora. E a praia era muito comprida, nunca se lhe via o fim.

O mar estava cheiinho de gaivotas. A borda do mar de pés descalços, é que era gozar. Tudo luzia tanto!

Rosalina olhou para o sol, para o mar e para a areia. A areia estava coberta de malhas; ela estranhou aquilo e desatou a correr. As gaivotas pareciam-lhe umas tontas, para cá e para lá, de cabeça pendurada... Nunca sossegavam. Dormiriam debaixo de água? Rosalina suspeitava-o.

Fartinha de correr, cheia de vento e de sol, deixou-se cair sentada. Pôs-se a cantarolar e enterrou os braços na areia. Estava tão quente! até escaldava.

- Ai, que não tenho braços... coitadinha de mim... lamuriava Rosalina para se entreter. Mas de perto lhe res­ponde uma voz:

- Anda cá menina.

A pequena desenterrou os braços de repente. Tinha ouvido ou não tinha ouvido? e olhou para todos os lados.

- Anda cá, menina.

Tinha ouvido.

Olhou e tornou a olhar mas não viu ninguém.

A voz devia ter vindo das ervas, do lado da terra.

Rosalina encheu-se de ânimo e foi catar todas as moi­tas. Nada! Olhou para longe. Ninguém! Sempre a olhar para trás voltou para a borda do mar, desconfiada, e desa­tou a correr de novo. Correu tanto na areia molhada que até perdeu a respiração. Caiu outra vez sentada. Suspirou de alívio e tornou a cavar na areia com as duas mãos. Tirava pitadinhas dela, alisava-a, enterrava os dedos, os braços... até que achou duro e arrancou uma coisa para fora. Imagine-se! Um coraçãozinho de oiro. Rosalina ficou doida. Riu e pôs-se outra vez a cantar. Mas pare­ceu-lhe ouvir de novo a tal voz:

- Anda cá menina.

Virou-se instantaneamente. Estava em frente de uma moitinha de erva prata. Uma erva esbranquiçada e gorda, como há muita ao pé do mar. Dali é que vinha o som. Rosalina perdeu a coragem, levantou-se de um salto e deitou a fugir.

- Anda cá, menina; anda cá, menina.

Rosalina voava. - Não e não! — gritava ela sem nunca parar. Até que caiu sentada, já não podia mais. Pôs as duas mãos no peito, via tudo às rodelas e às cores. Olhou para a água e lá foi serenando. Até lhe parecia impossível ser aquilo o mar. Levantou-se por fim e foi caminhando, muito devagarinho, a olhar sempre para os pés. Enterrava conchas, rebentava bolhas de espuma... Descobriu uma argolinha brilhante, apanhou-a e enfiou-a num dedo. Mas voltou a ouvir:

- Anda cá, menina.

A voz agora vinha do mar, ela não estava enganada.

- Anda cá, menina; anda cá, menina.

E puxavam-na. Rosalina queria arrancar a argolinha do dedo e deitá-la fora, mas já não podia. Tapou urna das mãos com a outra, era sempre o mesmo.

- Anda cá, menina.

Rosalina toda desesperada, com o corpo muito teso, a recuar, só gritava que não e que não.

- Anda cá, menina.

E assim foi entrando pelo mar dentro, sentada numa concha. O mar só parecia de leite, sem uma onda. Não havia de que ter medo. Eram gaivotas que a puxavam. Rosalina entusiasmou-se e começou aos gritos. Que cor­rida! Os cabelos voavam-lhe com a aragem e com exci­tação.

- O sol que pare! — bradava a pequena. - Que espere! Espera aí por mim!

E o Sol que já se ia a pôr esperou por ela. Rosalina ia--se aproximando, já estava perto dele. A concha corria no mar como uma flecha.

- Sol! - Isto diz ela com os braços no ar. E arrebata-o. Mas como o sol ainda estava quente atira-o de repelão à água. Tudo se abrasa de súbito e depois escurece.

Rosalina atrapalhada voltou para trás e por aquela praia fora correu tanto, tanto que ia morrendo. Chegou a casa de noite fechada. Já a mãe andava à procura dela pelas vizinhas, muito aflita: tinha mandado a sua pequena a um recado ali tão perto...


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma