02/06/2008

Vae Victis!


Não estava ninguém na fonte, quando a Luísa, de cântaro deitado sobre a cabeça, ali chegou. Ninguém. Debaixo do sol risonho, ao murmúrio da água da bica, derivando, viva e clara, de um pedaço de telha partida, naquele socalco de pequeno cabeço em cujo topo, à roda da igreja branca, a aldeia negrejava, parecia tudo adormecido. Verdegavam perto os lameiros; iam viçosos, nos quintais e hortejos, os renques dos legumes, e já nos ramos das árvores, inteiramente vestidos de folha, picavam as primeiras flores.
Quase sem horizonte, porque outros cabeços o fechavam perto, esse recanto onde borbulhava a fonte parecia ali como escondido. Próximo, um ribeiro passava, além de umas paredes baixas, onde as mulheres costumavam lavar.
Mas não vinha dessa banda, àquela hora, o mínimo rumor de vozes, nem se ouvia, como noutros dias, bater a roupa nos lavadouros. Como nas doces aguarelas, uma atitude de êxtase imobilizava ali todas as coisas, tocando-as de uma pontinha de sono – e as coisas, como as crianças, pareciam, sorrindo, deixar-se adormecer...
Tomada do mesmo espasmo, a Luísa quedara-se abstracta junto da bica, esperando que se enchesse o cântaro; – mas agora, ao ruído monótono do fio de água, escoando-se, lentamente, no bojo do barro insaciável, como que lhe acordara nos ouvidos, onde lhe tinha ficado encantada, e com todo o relevo da voz do Tónio, essa pergunta que ele lhe fizera:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Estava mesmo a ver o rapaz quando lhe dirigira a inesperada pergunta. Fora no adro, um domingo de tarde. Os homens, em descanso, conversavam de lavouras, sentados por cima do muro; as mulheres tagarelavam em grupos, de cocarinhas no terreiro sagrado; e ela, com outras da sua igualha, chasqueava, à porta da igreja, dos moços que jogavam a barra.
Fingindo uma coisa séria, o Tónio, que entrava no jogo, viera para ela em mangas de camisa, o chapéu deitado para trás, num instante em que lhe não pertencia atirar o ferro. Da violência do exercício, trazia o sangue a espirrar-lhe da pele e muito vivos os olhos azuis.
– Ó Luísa! – dissera-lhe ele chamando-a de parte. – Fazes favor de uma palavra?
Ela fora, na boa fé, e quase sem o pensar. Senão quando, chegando-se como para um segredo, perguntara-lhe com a voz muito quente:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Não tivera tempo de lhe responder, nem saberia tampouco; e ele mesmo, chamado para o «tiro» que lhe competia, desandara lesto e sem se voltar, deixando-a, incoerente, a pensar na atrevida pergunta:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Já o cântaro ia quase cheio, mas ela nem dava fé. Sempre que podia fechar-se num pensamento, nas suas horas de suave remanso, era naquele pensamento que ela se fechava; e muitas vezes, ao adormecer, a esperança de o prolongar em sonhos fazia-a pegar no sono quase a sorrir. Viera-lhe daí o que parecia às outras melancolia, mas que era para ela um gozo suave – o prazer de estar sozinha, de não ver nem ouvir ninguém, de devanear, ela só, naquele tema sempre constante...
E de tanto que repetia a pergunta em pensamentos, chegara a recear repeti-la alto; e aos seus olhos era assim como um lindo quadro, cheio de luz e realidade, esse querido domingo de tarde, no adro, em que ele, o Tónio, lhe fizera ao ouvido aquela pergunta:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Parecia-lhe haver acordado então de um grande sono que durara toda a sua vida passada, de que mal se lembrava agora; e essa tarde no adro, que podia ter sido, para ela, tão indiferente como foram tantas, era agora como a sua primeira hora de existência, – essa tarde em que o Tónio, chegando-lhe os lábios quase ao ouvido, lhe perguntara numa voz muito quente:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Parecia-lhe mesmo estar a ouvi-lo: a sua voz como que ficara viva dentro dela, – e esse doce, misterioso ritmo em que se fundira, causava-lhe, de cada vez que o escutava, um encanto novo...
Recolhida, suspensa como num voo, num êxtase de toda a sua vida, outras vezes era ela mesma que a invocava... E de ouvido muito fito, os olhos semicerrados, um arroubo todo espiritual elevando-lhe os seios da alma, aquela voz descia do céu:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Voavam-lhe as horas neste enlevo, entre as paredes do seu tear; e o mundo, a felicidade, a alegria, o próprio Deus, residia tudo dentro dela, – na doce, enternecida recordação daquela tarde, no adro, quando o Tónio, sem ela o esperar, lhe fizera ao ouvido essa pergunta:
– Dás-me um beijo, Luísa?
E no entanto, não lho dera então, nem lho daria ainda hoje, esse beijo que lhe pedira o Tónio. Porquê? Nem ela o sabia: mas só de o pensar, as faces purpurejavam-lhe, e a luz que desde essa tarde a envolvia toda, parece que tinha, de repente, um espasmo de intermitência...
Isso, porém, acontecia muito raras vezes, e quando sucedia era passageiro; pois que, sondada bem no íntimo, dela se pode dizer que vivia apenas, extasiada, de um êxtase da sua memória, e que a sua memória, semelhante a um estado imóvel, nada mais podia reflectir do que a cena desse domingo de tarde, no adro, quando o Tónio, sem ela o esperar, viera segredar-lhe mesmo ao ouvido:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Tudo o mais era-lhe indiferente na vida, e como que o tinha esquecido; e para as coisas e factos de ocasião, em que não havia remédio senão reparar, tinha agora uma benevolência quase risonha que repartia também com os outros, e que se convertera, para com os pobres, numa caridade cheia de ternura. Como o tear ficava na casa térrea de entrada, os pedintes era a ela que se dirigiam, uns da porta, outros da janelinha, e alguns havia já a horas certas. Parava de tecer a Luísa, e elevando a voz chamava pela mãe:
– Ó minha mãe! Faça favor de trazer um bocadinho de pão, que está aqui um pobrezinho.
E se a mãe replicava com o perdão – «Dá-lhe o perdão, que não pode ser» – ela mesmo, dali a pouco, ia-se ao pão e cortava-lhe um pedaço, dizendo às vezes que era para ela.
A mãe, que percebera, dissera-lhe a rir de uma dessas vezes:
– Tanto pão! tanto pão, rapariga! Ora aí está porque tens essa cor, que é mesmo da cor do centeio!
Mas era uma esmolinha que dava, e um desejo que satisfazia; – e só ela, afinal, não tinha que pedir nem que desejar! Graças a Deus, o trabalho sobrava-lhe, e não tinha mãos a medir; e quanto a ambições, isso que ela ouvia que todos tinham, não as sentia de casta nenhuma. No entanto, essa mesma felicidade era para ela um facto inconsciente e derivava, sem dar fé, da obsessão deliciosa daquele domingo de tarde, no adro, em que o Tónio lhe dissera ao ouvido:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Depois dessa tarde, sem contar as vezes que se salvaram, apenas uma ocasião tinham falado. Quase sem intenção, o Tónio chegara-se à janelinha do tear, e, assomando a cabeça loira entre os dois cacos de manjericos, pusera-se a falar com ela. Tinham conversado um pouco de tudo; primeiro de coisas simples da vida, e por fim, sem bem saberem como, de casamentos: uns que tinham gorado, outros que prometiam fazer-se, a sorte doutros que se tinham feito...
Nesta parte da conversa ainda a viúva interviera, e os três tinham rido o seu bocado. O Tónio andava em dia com os amores de toda a aldeia, e tinha um modo de dizer as coisas, e principalmente de se referir a pessoas, que fazia rir a mãe e a filha.
– E tu, ó Tónio, – dissera a viúva em certo ponto, – diz’ lá tu quem é que derriças?
Como dois floretes muito subtis, que se cruzam sem se tocar, os olhares dos dois, da Luísa mais do Tónio, haviam-se cruzado repentinamente. Ambos notaram isso, e ambos, no íntimo, ficaram como surpreendidos…
– Ora, ti Ana! eu penso lá nessas coisas! – acudiu o rapaz.
E como a Luísa se pusesse a tecer, e o ruído do tear abafasse as palavras, levantou a voz para que o ouvissem:
– Nem quero!
Mas a viúva objectou:
– Olha quem! Não queres! Põe lá que se te saíres a teu pai... – E com intentos de lhe puxar pela língua, perguntou: – Seguro que não botaste no S. João os teus papelinhos, ó Tónio?...
– Ora! – fez logo o rapaz sem ligar importância. – Mas isso toda a gente! – E para arredar alguma pergunta indiscreta, acrescentou: – Aposto que até vossemecê?!
Riu-se a viúva com muita vontade:
– Ai, filho, não! Olha eu! Algum tempo, algum tempo! Mas onde isso vai se bem correr!
E como uns laregos entrassem pela casa dentro, de focinho a rabuscarem o chão, correu a viúva a enxotá-los – «Coch'qui, inimigos! Coch’qui!» – enquanto os olhares do Tónio e da Luísa, rápidos como dois relâmpagos, segunda vez se cruzavam no ar...
– Vou-me que são horas, ti Ana! – disse logo o Tónio. – Até logo. – E não olhando já para a tecedeira, despediu-se também:
– Adeus, Luísa.
…Depois, mais nada. E aquilo mesmo, que podia ter sido, afinal, sem intenção, quase se lhe diluíra a ela da lembrança, – e aí persistira só, num fundo claro de madrepérola e num relevo cada vez mais vivo, aquela cena de domingo de tarde, no adro, quando o Tónio, sem ela o esperar, quebrara, nessa pergunta, o virginal encanto da sua adolescência, – fazendo-a acordar na puberdade:
– Dás-me um beijo, Luísa?
Na fonte, enquanto o cântaro levou a encher-se, não surgira sombra de gente. A mesma sonolência morna adormentava à roda todas as coisas, e só no azul do ar, muito fino, que o brando sol da manhã diluía numa luz suave, passavam, tocados de opala, os pássaros chilreadores. Na superfície do pequeno tanque adjacente, forrado de musgo, onde os animais costumavam beber, o céu espelhava-se límpido, muito fundo, com o ligeiro algodão de uma nuvem quebrando-lhe a um canto a monotonia; e já a água borbulhava do cântaro como em fervura, e a Luísa parecia esquecida, – quando um casal de borboletas brancas, interceptando, num voo sereno, a linha perdida do seu olhar, veio, imperceptivelmente, evocá-la de novo à realidade...
Reparou então que estava cheio o cântaro, e já a transbordar; mas indo a pegar-lhe para se ir embora, viu, de repente, assomar o Tónio num deslado, – como se o pensamento dela o evocara...
Tiveram ambos, naquele momento, o mesmo abalo de viva surpresa, durante o qual se fixaram muito um ao outro, a averiguar se lhes mentiam os olhos; – e com a certeza de que lhes não mentiam, adveio aos dois, no mesmo instante, a sensação entre perturbadora e deliciosa do isolamento em que se encontravam...
Sem reflectir, parece que cedendo a um impulso estranho, dirigiu-se o Tónio para a banda da fonte; mas adivinhando nos modos da Luísa a turbação que a enervava, sem também saber a razão os passos hesitaram-lhe...
De repente, como se a cumplicidade do lugar e do silêncio o estimulasse, – e ela, abandonada, parecesse agora provocá-lo – apertou-a nos braços o rapaz; – e colando-lhe na boca os lábios frementes, como se lhe fora a sorver a vida, beijou-a num frenesi.
Ao mesmo tempo, numa vibração de rumor que vai a apagar-se, aquela voz deliciosa do Tónio, tão viva, desde esse domingo, como um canto de rouxinol, parecia agora, quase extinta, fugir e despedir-se da sua memória:
– ...«Dás-me um beijo, Luísa?...»


Trindade Coelho, Os meus amores