15/06/2008

Sonhos

O da Gata Borralheira

Sonhei uma noite com a gata borralheira, como as crianças.

Tinha-me encontrado com ela numa cozinha muito escura e muito cheia de rodilhas e tachos. Como lá tinha ido ter é que eu ainda não sei.

A gata borralheira estava sentadinha no chão, muito triste, e fazia-me acenos. Sentei-me ao lado dela também. Começámos a conversar e ela contou-me a sua vida. Era de meter dó.

Quando falava saíam-lhe da boca uma espécie de péro­las miudinhas. Aquilo que toda a gente já sabe. Mas ela limpava-as logo com o lenço porque era muito acanhada.

Assim estávamos as duas, muito bem entretidas, quan­do soam perto umas patalonadas medonhas. A casa até parecia vir abaixo com elas.

Isto que é? digo eu para a rapariga.

A minha madrasta! respondeu-me ela aflita, e fica sem pinta de sangue.

A madrasta aparece-nos logo entreportas.

Que é que tens estado a fazer, minha jóia? Mas o seu modo era de troça.

Eu, nada... responde-lhe a gata borralheira. Lavei a loiça.

E a roca, que é da roca? brada-lhe a madrasta.

Está ali.

Está então ali, minha jóia, a fazer o quê? Parada, pois.

Era eu que a tinha na mão.

Queria ver se também sabia fiar, disse, cá do meu lado.

Ai, queria, minha lindeza?

Quem é esta? grita a criatura de repente para a entea­da, com uma voz de arrepiar.

A rapariga, coitadinha, nem piava; fui eu que lhe res­pondi: sou a amiga dela, e então?

A amiga? Ainda agora mais essa! Que veio você cá fazer?

Ajudá-la.

Ah! ah! ah! Já meu moço quer seu moço. Roda já daqui para fora!

Mas eu não fiz caso.

Vai ela e põe-se à procura de uma acha para me atirar com ela. Nisto eu lobrigo a cara mais feia deste mundo a espreitar por uma greta da porta. Era a irmã da gata borralheira, como toda a gente sabe. Com um sinal peludo na testa, muito vesga, os dentes saídos...

A mãe andava de cócoras à procura de tal acha, mas nunca parava de ralhar. Dizia cada palavrão!

E a gata borralheira com o susto metia outra vez na água os pratos já lavados e limpos. Eu só me vingava em rir.

Ó minha mãe, olhe que ela está-se a rir! — diz a feiazona lá da porta, com a sua voz fanhosa.

Ela a dizer isto e um grande carvão a saltar-lhe da boca. Sem me poder conter fiz um gesto para o ir apa­nhar mas senti logo um pontapé. A mãe dela com a acha alçada ameaçava-me:

Já daqui para fora, sua grande atrevida! E chegou-me a dar com ela na cabeça, mas não me fez doer.

Puxei então pela gata borralheira com toda a força que tinha e dei um encontrão à porta. Aquilo é que era fugir! E a mulher má sempre aos gritos, a ralhar, a ralhar... em toda a parte se ouvia.

A pobre gata borralheira só me dizia que não fizesse caso. Corríamos tanto! Com certeza ainda mais que o vento.

Onde fomos parar é que não sei, nem mesmo o que aconteceu depois à rapariga.



O das Flores de Abóbora

De outra vez também tive outro sonho, mas esse engra­çado. Eu lia uma carta. Nos sonhos é a gente sempre que faz qualquer coisa, que vê, que mexe, que vai e vem...

A carta era enorme. Já me sentia fartinha de passar folhas, todas elas cheias. Nem mesmo já as entendia. E a carta tornou-se um leque.

Abram essas janelas! Que calor!

Eu abanava-me com o leque e ao mesmo tempo lia o que estava escrito nas varetas. Uma tinha só uma palavra: sim, e a outra, outra: não.

Sim ou não?

Sim, diz-me logo a Adélia.

Olha, és tu!

Pois sou.

Mas de onde é que tu vens?

Do jardim.

E via-se, trazia um molho de flores.

Que lindas flores!

Não são? E começou logo a espalhá-las ali à minha vista.

Aqui é o meu aboboral, toma bem conta dele. A tia disse-me que não demorasse, adeus.

Que ideia! A Adélia devia estar doida.

O chão tinha ficado cheio de flores de abóbora. Muitíssi­mo grandes, como uns trapos de cinco bicos, cor de laranja...

Coisas da Adélia! E sempre assim.

Mas as flores tinham-se pegado ao chão. Levantei-me de onde estava para as ver melhor e deixei cair o leque. As flores assustaram-se, estremeceram todas. E depois começaram às gargalhadas.

Já se vira uma coisa assim? Parecia-me impossível. A Adélia ter-me pregado uma partida daquelas! E zan­guei-me porque nada daquilo fazia sentido e eu também não gostava de abóbora.



O do Senhor da Casaquinha Verde

E o senhor da casaquinha verde?

Que terrível sonho eu tive com ele!

Entrava num conto que me lembro de ter ouvido. Era um farsante! Saía do seu buraquinho, falava, corria as sete partidas do mundo a intrigar uns e outros, e não passava de um lagarto.

Que noite tão assustada eu passei por causa do senhor da casaquinha verde! Sonhei que estava a dormir com ele. Via-o mesmo ao pé da minha cara e sentia-me cheia de arranhões e babujada.

Mas que havia de eu fazer? Horripilante companhia! Levanto-me repentinamente da cama e atiro-me da janela abaixo. Até parece que voo. Fujo, fujo, fujo... e o senhor da casaquinha verde perseguindo-me.

Começa a chover. Não é água que cai, infelizmente, apesar de eu ter medo da chuva. São bolotas, são pedras, são bugalhos, que me magoam tanto! É castigo, penso eu, estou a ser castigada, mas de quê?

Atrás de mim o lagarto faz uma restolhada medonha, mas eu nunca me volto, nem quero ver nada.

Não quero ver... e sem querer olho... mas como é que não morro logo de susto? Perseguem-me centenas de lagartos, enormes, e todos com os olhos a fuzilar. Que bocarras, que bocarras! Caio de joelhos no chão, falece-me a coragem. Estou num círculo de lagartos ferozes, estou no meio de navalhas afiadas...

Oiço então a voz do senhor da casaquinha verde: que­res voltar comigo para a cama?

Ele a falar-me!

Choro, cheia de medo, e o círculo das navalhas aperta-se, aperta-se cada vez mais. Vou morrer. Já morri. Sei que estou morta, o que me não dá alegria nem tristeza. Deixo de pensar nos lagartos, vou descendo não sei para onde. E terrível e delicioso, escorrego sempre, sempre, sem jamais parar.

Acordei cansada. E jurei a mim mesma nunca mais ouvir nem ler histórias de lagartos.



O da Primavera

E quando eu sonhei com a Primavera? Quem era, afinal, a Primavera? Não sei. Soube-o depois.

Estava encostada ao peitoril do meu quarto, não sei onde, quando dei com ela. Tão bem vestida! Linda, linda... E com um andar... O seu vestido era tão branco, tão branco! Parecia só de luz. As mãos dela, o colo, a pele do rosto também não tinham comparação. E o cabelo? Cheio de cores. Tenho uma ideia de que a minha Pri­mavera não tinha rival.

Levava atrás de si um cortejo de borregos, isto é, de cordeirinhos brancos muito guedelhudos.

E eu ouvi de qualquer lado: venham ver a Primavera que anda a passear.

Foi quando fiquei sabendo quem ela era. Fascinava. As suas mãos andavam como umas borboletas, a sua boca... Não sei! Os tais borregos, que me pareciam de algodão em rama, desataram aos pinotes. Sem razão nenhuma: fugiam, saltavam... E a Primavera dá, deu um grito, um grande grito. Senti um eco no meu coração. Vai ela bai­xa-se de repente e apanha uma verdasca. Bate, bate, bate com ela nos borregos... Depois sacode-os a um por um. Puxa-lhes as peles dos lombos.

Então não querem lá ver? Tudo aquilo eram só peles.

A Primavera faz um grande monte delas e põe-se-lhes em cima. Está em bicos de pés, com as mãos viradas para o ar, como quem apara qualquer coisa. Linda, linda, linda... É uma estátua.

O Primavera, ó Primavera! grito eu cá de baixo, a ver se ela tornava à vida. Mas por mais que gritasse e que me matasse ela não se reanimava. Que linda que tu és, ó Pri­mavera, comecei eu depois a rezar, a balbuciar. Não tens rival. Hei-de fazer-te uns versos...

E ficou nisto o meu sonho daquela noite, de tão feliz excitação.



A Gravura

E o sonho com uma gravura que havia, muito do meu gosto?

Sonhei que aquilo tudo era real: via-a animar-se, me­xerem-se as figuras...

Nisto abria-se o portão. Por uma alameda abaixo vi­nham dois cavaleiros e uma amazona. Ela falava e ria-se e até voltava a cara para trás. Procurava com os olhos um belo cavaleiro, desirmanado do grupo, que montava um cavalo bravio. Também havia mais cavaleiros e amazonas, que se não distinguiam lá muito bem.

Mas tudo aquilo era bonito, era elegante.

Saíram todos do portão, finalmente, e até uma das damas, com a ideia que teve de arrancar um tronquinho de hera, ia caindo do cavalo abaixo.

Deixei de ouvir o trupe dos cavalos e as vozes e vi-me sozinha. Só, só de todo! No meio do campo. Fazia um luar divino. E todo o meu desgosto era de não ser fidalga, de não pertencer também à cavalgada.

Pus-me a andar de um lado para o outro e a falar só. Porque não tinha eu ido com eles? Com eles é que eu devia ter ido! À noite vestiria um fato de baile...

Olhei para o chão, que me pareceu todo malhado. Eu não devia pisar nenhuma daquelas malhas. Eram de luar líquido. Devia saltar por cima delas, e era o que fazia Dava cada salto! Cheguei a saltar de árvore para árvore. De cima de uma delas até descobri um salão onde as fi­dalgas andavam a dançar.

Lá lá lá... lá lá lá... lá lá lá... Que valsa tão doce e tão agradável! Conhecia-a tão bem!

Eles, de calção de seda e de meia alta, elas, de cauda...

Deixem-me dançar também, dizia eu, sem que nin­guém me pudesse ouvir. Por fim agarrei-me a uma árvore e pus-me a andar à roda.

Mas que vergonha, que vergonha! descobriram-me!

Nisto acordei.



O do Sol

Foi no ano passado, sim, salvo erro.

Estava um dia tão bonito! Pus-me à janela. Vê-se um bocadinho de rio da minha janela... Que vontade que eu tinha, como tantas vezes, de andar de barco para cima e para baixo naquela nesga de água! Dava-lhe o sol, pare­cia mesmo um espelho.

Mas não saí de casa em todo o dia. Não foi no ano pas­sado, foi há menos tempo, agora é que me estou a lembrar. Naquele dia aborreci-me muito, sentia-me presa, feita frei­ra. Estive que tempos à janela, ao sol. E de noite sonhei...

Sonhei que ainda estava ao sol, mas na soleira de uma porta de aldeia, e que uma mulherzinha me catava. As unhas dela arranhavam-me e eu queria livrar-me daquele castigo, mas não podia. A menina apanhou muito sol, nasceram-lhe muitos piolhos! — dizia-me ela. Deixei--me ficar. Por fim achei-me no campo. E a minha cabeça era a de um pinheiro redondinho. Redondinho, redondinho, redondinho. Mas senti-me presa ao chão e fui crescendo. Tornei-me tão alta como todos os outros pi­nheiros. Não podia andar, já se sabe... e por isso o meu divertimento era bater com a cabeça na dos pinheiros que me rodeavam.

Não sei como vejo-me a caminhar de novo e venho ter a casa, ao meu próprio quarto. Peço à Joana a escova para me escovar das carumas; estava cheiinha delas; mas qual Joana nem qual escova? Começo a brincar aos cinco cantinhos, e com quem? Com uns soizinhos muito en­graçados, muito corados e alegres — cada um do seu canto. Eram rapazes, mas por fim desapareceram também.

E eu, ainda tonta de sono, tenho uma grande vontade de ir buscar o sol, de o puxar para cima da minha cama e de lhe perguntar porque é que me tinha feito piolhosa e me tinha depois transformado em pinheiro e me man­dara aqueles garotos com cara de sol, que se tinham ido embora tão depressa!



Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma