11/03/2008

O Sésamo


- Abre-te, Sésamo! - gritava, o Raul, no meio do silêncio pasmado da assistência.

A fiada estava apinhada naquela noite. Mulheres, homens e crianças. As mulheres a fiar, a dobar ou a fazer meia, os homens a fumar e a conversar, e a canalhada a dormitar ou nas diabruras do costume. Mas chegou a hora do Raul e, como sempre, todos arrebitaram a orelha às histórias do seu grande livro. Em Urros, ao lado da instrução da escola e da igreja, a primeira dada a palmatoadas pelo mestre e a segunda a bofetões pelo prior, havia a do Raul, gratuita e pacifica, ministrada numa voz quente e húmida, que ao sair da boca lhe deixava cantarinhas no bigode.

“- Abre-te, Sésamo! - E o antro, com seu deslumbrante recheio, escancarou-se em sedutor convite... “

As crianças arregalavam os olhos de espanto. Os homens estavam indecisos entre acreditar e sorrir. As mulheres sentiam todas o que a Lamega exprimiu num comentário:

- O mundo tem cousas!... Urros, em plena montanha, é uma terra de ovelhas. Ao romper de alva, ainda o dia vem longe, cada corte parece um saco sem fundo donde vão saindo movediços novelos de lã. Quem olha as suas ruelas a essa hora, vê apenas um tapete fofo, ondulante, pardo do lusco-fusco, a cobrir os lajedos. Depois o sol levanta-se e ilumina os montes. E todos eles mostram amorosamente nas encostas os brancos e mansos rebanhos que tosam o panasco macio. A riqueza da aldeia são as crias, o leite e aquelas nuvens merinas que se lavam, enxugam e cardam pelo dia fora, e nas fiadas se acabam de ordenar. Numa loja de gado, ao quente bafo animal, junta-se o povo. Todos os moradores se cotizam para a luz de carboneto ou de petróleo, e o serão começa. É no inverno, nas grandes noites sem-fim, que se goza na aldeia essa fraternidade. Há sempre novidades a discutir, namoriscos a tentar, apagadas fogueiras que é preciso reacender, e, sobretudo, há o Raul a descobrir cartapácios ninguém sabe como e a lê-los com tal sentimento ou com tanta graça que ou faz chorar as pedras ou rebentar um morto de riso.

Daquela feita tratava-se de uma história bonita, que metia uma grande fortuna escondida na barriga de um monte. E o rapazio, principalmente, abria a boca de deslumbramento. Todos guardavam gado na serra. E a todos ocorrera já que bem podia qualquer penedo dos que pisavam estar prenhe de tesouros imensos. Mas que uma simples palavra os pudesse abrir - isso é que não lembrara a nenhum.

Da gente miúda que escutava, o mais pequeno era o Rodrigo., guicho, imaginativo, e por isso com fama de amalucado. No meio de uma conversa séria, tinha saídas inesperadas e desconcertantes. Via estrelas de dia, que ninguém,, por mais que fizesse, conseguia enxergar, assobiava modas inteiramente desconhecidas, e desenhava no chão a cara de quem quer que fosse., o que era o cúmulo dos assombros. Enfezado., sempre a pegar com os outros e a berrar como um infeliz quando depois lhe batiam, ouvia do seu canto a leitura do Raul., maravilhado e a fazer projectos.

A fiada acabou tarde., com a assistência a cair de sono e a lutar para prender na imaginação aquela riqueza oriental enfragada. E de manhãzinha., o Rodrigo, contra o costume,, esgueirou-se sozinho para a serra da Forca atrás do rebanho. A história do Raul tinha-lhe encandescido os miolos. Necessitava por isso de solidão e de apagar o incêndio sem testemunhas.

A serra da Forca é longe e é feia. Tem pasto, mas de que vale ?! O passado deixou ali tanto grito perdido, tanto cadáver insepulto, tanta alma penada, que até mesmo as ladainhas da primavera se desviam e passam de largo. Mas é nos sítios assim amaldiçoados que o povo, talvez para as preservar da coscuvilhice da razão, gosta de plantar lendas bonitas e aliciantes. E vá de inventar que havia um tesoiro escondido naquele ermo de maldição. Encontrá-lo é que era difícil. Enterrado entre penedias, guardado por mil fantasmas, quem teria coragem de tentar a empresa? Ninguém. E o monte excomungado lá continuava azulado na distância, agreste e assombrado.

O Rodrigo, porém, resolvera quebrar o encanto.

E, às pedradas ao gado, ao nascer do sol tinha-o na frente.

Ia simplesmente rasgar o véu do mistério. Ia imitar o ladrão da história, com a diferença apenas de que uma vez dentro da caverna não se esqueceria, como o outro, das palavras mágicas que lhe assegurariam a retirada.

Das riquezas que encontrasse não sabia ainda o que fazer. Nem sequer pensara nisso, porque os tesouros não eram o seu fim verdadeiro. A sedução de tudo estava no prodígio em si, na fascinação do próprio acto assombroso que iria realizar.

E o pequeno, ágil e confiado, chegou ao alto, trepou à fraga maior e olhou em redor. A seus pés jaziam, caídos, os dois grossos pilares da forca, onde segundo a tradição tinham exalado o último suspiro todos os justiçados da montanha. Sentar-se neles, tocar-lhes, era ainda, dizia o povo, uma pessoa condenar-se a morrer de morte infeliz. Mas o Rodrigo trazia na vontade uma força que o preservava dessas contingências. A fórmula encantatória brincava-lhe nos lábios finos e frescos de criança. E uma alegria imensa, pura, calma, arredou para longe os espectros patibulares que tentavam perturbar a grandeza daquela hora. Abrir um monte! Dizer com ânimo, e certeza duas palavras, e uma riqueza sem par oferecer-se passiva aos olhos da gente!

Para dilatar o gosto do poder que possuía (e talvez por um sentido íntimo de falência de que não tinha consciência inteira), prolongava o tempo. Murmurava mentalmente a ordem de comando que aprendera no conto, e cerrava os dentes para que a boca o não pudesse trair antes do momento escolhido.

O rebanho, esquecido do dono, pastava, alheio aos segredos da serra e do pastor. De quando em quando erguia-se do meio dele um balido solitário, mas era um apelo sem resposta.

- Vai ser agora! - disse o Rodrigo, alto, a resolver-se.

E com medo de a montanha fender precisamente pelo sítio onde estava, que era no pino e no meio da fraga mais alta, desviou-se um pouco para a esquerda.

- É por ali, com certeza... Media os penedos, calculava o tamanho do buraco, via de antemão as entranhas da terra expostas à luz do sol.

- E o gado? - lembrou-se então.

O gado pastava em baixo, num valeiro, em lugar por onde a imaginação mais ardente não podia fazer passar o prodígio. Mesmo que rolassem pedras, ou caísse a carvalha agarrada a um barranco, não havia perigo.

- Só se houver muito azar - rematou., a serenar os cuidados.

E de alma tranquila, mas a tremer de emoção, solenemente, o pequeno feiticeiro ergueu a mão e gritou:

- Abre-te, Monte da Forca!

A sua imaginação ardente acreditava em todos os impossíveis. Tinha a certeza de que o Sésamo da história do Raul existira realmente. Por isso ouviu com serenidade e confiança o eco da própria voz a regressar ferido das encostas. Tudo requeria o seu tempo.

Irreais, os horizontes perdiam-se ao longe, esfumados e frios. Vago, o rebanho, à volta, tosava a erva mansamente. Impreciso, o gemido da ovelha queixosa não conseguia transpor o limiar da consciência do pastor.

Transfigurado, o Rodrigo estava entregue ao milagre. Ordenara-o e esperava por ele.

- Abre-te, Monte da Forca! - gritou de novo, já enfadado de uma espera que não cabia na ilusão.

Qualquer coisa à volta pareceu tremer, e o coração do pequeno saltou.

- Abre-te! - reforçou, angustiado. Mas os horizontes começaram a tomar crueza e sentido, o rebanho avolumou-se, e o balido da ovelha aflita subiu mais.

- Era mentira! - e pelo seu rosto infantil e desiludido uma lágrima desceu desesperada.

- Era mentira... - repetiu, debruçado sobre a alta fraga, a soluçar.

Tudo nele tinha a verdade da inocência. Lograra e fora logrado já, mas no jogo dos botões e a esconder da mãe um novelo de linhas para a baraça do pião. Quando, porém, se tratava de cousas grandes como fábulas e mitos, a sua alma cândida não concebia que pudesse haver mistificação. E a primeira vez que tirava a prova àquela confiança, que tentara ver de perto a miragem, acordava cruamente traído!

Valeu-lhe a feliz condição de criança. Ele ainda a chorar e já a mão do esquecimento a enxugar-lhe os olhos. Breve como vem, breve se vai o pranto dos dez anos. A ovelha chamava sempre. E o balido insistente acabou por acordá-lo para a realidade simples da sua vida de pastor.

Ergueu-se, desceu da alta fraga enganadora, e, de ouvido atento, foi direito ao queixume.

- Olha, era a Rola... Um cordeiro acabara de nascer e a mãe lambia-o. O outro estava ainda lá dentro, no mistério do ventre fechado.

Miguel Torga, Novos Contos da Montanha