08/06/2008

O Senhor



O dia tinha acabado, comprido e duro, com os arados desde pela manhã a rasgar Valongueiras de termo a termo, fundos, cortantes, inexoráveis.

- As juntas de bois, a escorrer monco das narinas, de canelos besuntados de estrume, firmavam o cachaço na canga e continuavam aquele penoso caminho de vaivém.

- Volta, Torrado! Volta.

O engate da aiveca saltava no pé da vara, a relha mudava de direcção, e a terra abria-se noutro golpe fresco, odoroso e largo.

- Que tal está ela? - perguntava o Raboto, o último da povoação a semear.

- Boa! E as narinas do da rabiça alargavam-se numa luxúria casta, de bicho a cheirar o ninho.

- Vamos! Vamos, que isto tem de se findar hoje! - gritava o Bernardino.

- Não haverá tempo... - ponderava-lhe o filho.

- Qual não há! Bota, bota para diante! As horas, como a ferrã, cortadas pela roçadoira, caíam submissas na frescura do rego. E adormeciam.

- Vira! E não alargues tanto.

- Cabano! Ah, ladrão! - Vais ver que fica tudo pronto. Olha o bardo!...

- O pior é o gado... A puxar desta maneira...

- Pica! Que tenham paciência. Apenas o suor que escorria pela ilharga dos paivotos os afligia. Ao zelo interesseiro de donos, juntava-se um íntimo sentimento de justiça, que distinguia o trabalho voluntário do esforço imposto aos animais.

Até que o dia chegou ao fim, cansado também. - Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!

- Para sempre seja louvado e bendito! Era a palavra de despegar esperada desde o amanhecer e da qual ninguém se lembrava já. De tanto se dobrar sobre as leivas e de se enterrar nelas, o corpo esquecera o momento da libertação e da ceia. E quando depois, em casa ou às mesas alheias., refaziam as forças afligia-os ainda o pesadelo dos cadabulhos por acabar.

- Casquem-lhe! Casquem-lhe à vontade! Por toda a aldeia pairava um perfume forte e quente de fim de vessada. Ao crepúsculo que descera e obrigara a largar o trabalho, sucedera um luar indeciso, tépido, de noite de Maio. E nessa viragem de luz, agora conscientes da energia gasta, exaustos e ressequidos, comiam e bebiam como lobos.

- Outra rodada! Andem lá! A cabaça passava de boca em boca a chocalhar, babada de saliva pegajosa e de mosto. E os lábios, espessos e gretados, sorviam com avidez daquele manancial o renovo da vitalidade que ficara enterrada na fundura dos lameiros.

- Mais uma pinga! À excitação inicial ia-se sucedendo um torpor pesado que, embora os libertasse da fadiga do dia inteiro, lhes tirava também a consciência de que continuavam a ser criaturas humanas. Era o cair sonolento num abismo de nada, sem arado e sem esperança, de que só os poderia arrancar o toque imperativo do sino grande da torre a dar sinais de Senhor-fora.

- Só cá faltava esta!

- Ninguém te manda!... Pois não. Mas sentiam-se obrigados a obedecer à ordem que descia do campanário.

Tinham acabado de semear a vida e, talvez por isso, a morte estava agora mais vigilante dentro deles. Hoje vós, amanhã nós - dizia-lhes o instinto. E, calados, à uma, começaram a engolir o pão e o aprezigo numa pressa sem gosto.

- Outra golada! Sem volúpia, só para acabar o vinho, a cabaça passou de mão em mão, rapidamente. Da igreja, no cimo do povo, saía já o padre Gusmão debaixo do pálio, com um rebanho de gente à volta, que devia ser engrossado pela rua abaixo.

- Sacramento... da eucaristia...

O luar, agora mais claro, reluzia na capa do prior, e cobria a multidão de uma beleza fantástica e desumana.

-...fruto do ventre sagrado Os homens, com a garganta escaldada da poeira das leiras, entoavam numa voz grossa, pastosa, cobrindo de húmus o cristalino canto das mulheres, leve e flutuante como um fogo-fátuo. E eram eles que seguravam à realidade do mundo aquela procissão irreal, que a própria lua parecia acompanhar, a mover-se no descampado do céu.

- Onde é? - Ao moinho do Fojo.

- Livra! -Pela fresca, é um passeio...

- Não que eu andei a esterroar o dia todo! Os mais cansados sumiam-se sorrateiramente nos ortelhos, nas quelhas ou nos quinteiros, temerosos da longa caminhada. E ficavam-se escondidos e culpados a seguir nas raloeiras dos pinheirais as quatro lanternas acesas que iam de sentinela à sagrada partícula que o padre Gusmão levava na píxide, encostada ao peito.

Zeloso daquela hora dramática e solene, o sino continuava a bater, soturno e autoritário. E na povoação as casas que tinham luz pareciam marcadas por uma estrela de traição.

-...virgem puríssima, Santa Maria...

- Canta, mulher! - já me dói a garganta. A voz apagada fazia falta no coro. Mas a cotovelada da vizinha ergueu-a, e novamente o Senhor e as mais adormecidas tiveram a acariciá-los as agudas e aveludadas notas da rapariga.

Perdido nos ermos de Midões, o moinho do Fojo demorava a vir ao encontro da leva de melodia e de fé que o procurava. O tropel é que não renunciava a tê-lo, a purificá-lo no seu calor, e seguia sempre, maciço, clamoroso, descendo encostas, galgando montes, saltando ribeiros, na fervorosa crença de que era a própria verdade a caminhar.

-...louvado seja... Cada qual se sentia uma parcela do Deus que ia à frente a guiá-los e a partilhar com eles o seu poder de salvação. Arrastavam-se sem consciência do corpo, numa leveza de eleitos, movidos apenas pela força da missão transcendente de que se julgavam investidos. E nessa exaltação apagava-se aos olhos de todos o relevo das coisas, a distância do caminho, a grandeza da paisagem. Quando o Malaquias surgiu finalmente, ajoelhado na estrumeira do quinteiro, de mãos erguidas, por um triz que não foi pisado pela avalanche piedosa e cega. A integração numa outra vida cilindrava a realidade desta.

- É a tua mulher? - perguntou o prior, à frente do acompanhamento subitamente acordado.

- É, sim senhor. Fez-se um silêncio penoso, que repôs o céu na sua altura e roubou a cada um o íntimo sentimento de comparticipação divina. Todos sabiam que chegaria esse momento triste. E temiam-no secretamente. Agora o Senhor já lhes não pertencia. Ia morrer na boca da agonizante, e deixá-los sozinhos, terrosos, derreados de cansaço, com a légua e meia do regresso a palmilhar. No dia seguinte lá estaria outra vez na igreja matriz, severo, a exigir o chapéu na mão e uma quebra imperceptível do joelho a quem passasse na rua. Mas não seria deles inteiramente senão quando outro da freguesia recebesse o aviso de partida, e o reclamasse do leito. Então, novamente o sino grande daria sinal, e novamente voltariam a tê-lo, a participar do poder que emanava, a fundir agruras e desesperos na imaterialidade ázima da sua omnipotência.

- Há quanto tempo adoeceu ela?

- Foi só agora, do parto...

- Mas já teve a criança? - Pois não. E é por isso que está tão malzinha...

Um arrepio de comoção terrena percorreu a multidão desencantada.

- Anda lá à frente...

O moleiro guiou o prior até junto da mulher, e cá fora o mundo tornou-se definitivamente concreto e palpável. Fechado no tabernáculo, do quarto, o halo de irradiação sobrenatural não tinha forças para atravessar as paredes.

- É o Senhor que me trazem? - gemeu a Filomena, acordada para a inefabilidade a que a chamava a capa doirada do sacerdote.

É... Pois sim... Pois sim... Mas o meu menino... Há três dias que estou aqui neste calvário...

O padre relanceou os olhos apreensivos pela cara boçal do sacristão, postado junto de si como uma ordenança impassível.

- Vai lá para fora, João!

O acólito, colou à tampa da caixa encostada à cama a vela que segurava e saiu. Um cheiro adocicado e enjoativo de cera a arder e de transpiração toldava o cubículo.

- Ora diz lá outra vez! Branda, débil, a Filomena renovou o queixume. Dos seus lábios secos e descorados o mesmo lamento de há pouco tornou a levantar-se severo contra os homens e contra Deus.

- O menino... Quer sair e não pode... Há bocado pôs a mãozinha de fora...

Da caminhada, do calor do quarto e das palavras que ouvia, o prior ofegava no forro dos paramentos. Grossas bagadas de suor corriam-lhe das têmporas congestionadas. Ao esforço dispendido e ao peso do ambiente, juntava-se a inesperada urgência daquele apelo terreno, a opor-se à intemporalidade consubstanciada que sustinha nas mãos indignas e mortais. Inopinadamente, os valores mudavam de sinal, o transitório sobrepunha-se ao eterno, e só uma coisa se mantinha firme diante dos seus olhos de homem: a moleira estendida no leito, com um filho dentro dela a pedir mundo.

Ó Malaquias! - gritou fora de si. Senhor padre Gusmão... Em vez de me chamar a mim, porque não foste ter com o médico de Lordelo ?

- Fui, mas está doente.- Mandou-me à Vila e lá pediram-me um conto de réis...

Os pés do sacerdote estavam agora bem assentes no soalho do quarto. O borborinho que vinha da rua trazia-lhe aos ouvidos um estímulo de naturalidade e de terra. A angústia de Filomena pedia e comandava.

- Bem, ouve: espera aí fora um migalho... A cara branca e pálida de Filomena parecia polvilhada da farinha que cobria tudo. Enternecido, o prior olhou-a com uma simpatia humana que só em menino tivera. E, naquela comunhão, depôs o sagrado viático sobre a tampa da caixa, ao lado da vela, tirou a estola do braço, despiu a capa, e disse, ao mesmo tempo que levantava a roupa da cama:

- Mostra lá! Era a primeira vez que via uma mulher naquele abandono, e uma vergastada do instinto alterou-lhe o ritmo do coração. Filomena., do seu lado, embora já quase despedida deste mundo, também sentiu no corpo a brisa de um pudor violado. Mas a força da realidade quase logo os serenou a ambos.

- Há três dias... - gemeu a infeliz, a queixar-se e a justificar-se.

Roxa, a mãozita jazia pendurada entre as duas coxas cabeludas, redondas, sulcadas de veias negras entumecidas.

- E a Matilde, a parteira, já cá veio?

- Não fez nada, que só o doutor... Os sacramentos, inúteis, lá estavam sobre a caixa da roupa. A vela ia-se consumindo lentamente. No quinteiro continuava a inquietação ruidosa do povo.

- Malaquias!

- Senhor padre Gusmão...

- Traz água! Com o alguidar de barro a transbordar, parvo, o moleiro olhou o corpo escancarado da mulher e o padre de mangas arregaçadas.

- Põe aí. E agora vai aquecer uma pouca...

O desgraçado correu à cozinha, e o prior, mal acabou de se lavar, num arrepio de pecado, pegou na pequenina mão. Os dedos ásperos e ossudos estremeceram-lhe de nojo e de medo ao contacto daquela carne tenra. Mas um momento depois tacteavam já sem relutância e confiantes, dentro de Filomena, o resto do corpo escorregadio.

A mulher gemia brandamente. Na rua o sacristão acalmava como podia a impaciência do povo. As pedras do moinho iam rilhando o milhão.

Depois de um grande esforço de Filomena e do padre, um pequenino pé encarquilhado saiu preso à garra possante que o fora procurar. Um grito agudo chegou ao meio da turba alarmada.

- O que foi?

- Calai-vos! Era meio caminho andado, e o prior estava decidido a chegar ao fim. Guiados por uma intuição de raiz e por uma ciência brumosa de manual, os seus dedos pareciam adivinhar no seio da escuridão.

- Tem paciência, minha filha... Duas lágrimas de dor e de gratidão desceram pelo rosto de Filomena.

- Malaquias!

- Senhor padre Gusmão... - Traz água quente.

O moleiro entrou no quarto, e quando viu o filho quase de fora ia deixando cair a vasilha. Além de carregar a moega e o macho, o Malaquias não sabia mais nada. Por isso atravessara aqueles três dias de pesadelo, atarantado, a correr o caminho de Lordelo e de Feitais, atrás da parteira e do doutor. Mas, como ninguém lhe valera, resignou-se à morte irremediável da mulher. Coberta da farinha do moinho, que naquela casa embranquecia tudo - as teias de aranha, o gato e a roupa de casamento -, via-a subir ao céu embalada no coro que a gente de Valongueiras levantara da igreja até ali. A sua viuvez era já uma solidão consentida, mesmo com o corpo da companheira ainda quente na cama. Do prior, esperava, pois, que consumasse o que faltava dessa transfiguração, e lhe apagasse apenas do entendimento a sombra da presença que o não deixava ter uma paz inteira.

- Não fiques a olhar como um palerma! Pousa isso, e arranja uma tesoura e linha. Mexe-te!

Faltava só a cabeça, que saiu depois de Filomena gastar as últimas forças a gritar.

- Pronto, já cá está! Na exclamação de triunfo do padre Gusmão, havia qualquer coisa de herético que feria os sentimentos do moleiro. Mas., por outro lado, nada o poderia comover mais do que ver o filho a espernear naquelas mãos poderosas, humanas, que acabavam de o roubar à escuridão do nada.


Miguel Torga,
Novos Contos da Montanha