15/04/2008

O Regresso


Casta, orvalhada da mesma frescura que humedecia a fruta nos seus pomares, Leiró acordava de uma grande noite de sono e de sonho. O primeiro fio de fumo subia já da lareira do João Rã, o madrugador da povoação. Erguia-se branco, preguiçoso, tímido da aragem fria da manhã. Mas, logo que chegava a céu aberto, tomava respiração, alargava os braços e diluía-se voluptuoso no éter perfumado do ar. Dos quinteiros nasciam vozes confusas da Babel animal. E da esquadria honesta dos portais, larga e franca, iam surgindo caras humanas e cristãs, levedadas para nova romaria de suor.

À distância de um tiro de espingarda, a medida que agora melhor conhecia, Ivo olhava e analisava aquele despertar. Sentado numa fraga de granito, a trouxa de roupa pousada ao lado, com o olho que lhe restava ia fotografando as fases sucessivas por que passava o casario e a vida da terra onde nascera. Talvez porque a via assim, só de um lado, precisamente o do coração, parecia-lhe que a entendia melhor agora, que a visão binocular de outrora destrinçava e empobrecia o sentido das cousas, incapaz de abraçar no mesmo amor o execrável e o santo.

O burro do latoeiro, então, orneou longa e melancolicamente. E o rapaz, ao lamento arrastado e triste do animal, não conseguiu estancar a emoção que o detinha ali. Uma lágrima irrompeu-lhe da alma e deslizou-lhe pelo rosto magro.

- Não sei o que faça... - murmurou, hesitante.

Sabia que morrera há muito para toda a aldeia. A mãe, a Maria Torres, trajava ainda de preto, mas acostumara-se à tristeza de o ter perdido,

O pai, ensimesmado como sempre, engolira o desespero silenciosamente, envelhecera dez anos em poucos meses e esquecera-o também. As irmãs, depois do choro convulsivo e do ano de luto carregado, vestiam blusas claras e namoravam alegremente. Era a vida. já ninguém o lembrava, o desejava, o chamava ali das veras do corpo e da alma. Partira contra a vontade pacífica e humana de todos para uma guerra que não era deles, matara sem razão nenhuma, atraiçoara milénios de fraternidade, de paz e de entendimento. Que poderia esperar agora? Que o aceitassem de braços abertos, ressuscitado num outro ser, estranho e desfigurado?

- Você quem é? . Sem dar conta, tinha um rebanho calmo e lanzudo à volta e um pequeno pastor, o Zé Chaveco, ao pé, a mirá-lo de cima a baixo.

Sim, quem era ele, na verdade, cosido de cicatrizes, meio cego, maneta, coberto de sangue e de remorsos?

Atento, o miúdo continuava a olhá-lo e a inventariar-lhe o vestuário de salteador - calça de bombazina, blusa americana, gorra vasca e alpercatas galegas.

- Eu?! Fitou a criança enternecido e mortificado. Aquela interrogação da infância à sua identidade verdadeira comovia-o e dilacerava-o. Nada o podia desiludir mais do que verificar que já nem os olhos da inocência o reconheciam.

Lá, no outro mundo onde combatera, ninguém o interpelara, funda e humanamente. Chegado à fronteira, abriram-lhe a boca do abismo sem nenhuma pergunta.

- Voluntário - declarara, sem saber ao certo o que dizia.

- Muito bem. Arrastado por não sabia que fome de aventura, partira. E alistara-se., longe de calcular que entregava no compromisso de uma palavra mais do que a própria vida.

Pouco depois era um número. E no campo de batalha, quando finalmente chegou a sua vez, avançava ou recuava como um autómato que tivesse a corda na voz do comandante.

No fim do pesadelo - desmobilizado, mutilado e outro. Nem o nome que recebera na pia baptismal o designava já, porque no homem passado não cabia O homem presente. Arrependido e miserável, vinha bater à porta nativa. E era justamente uma criança que lha fechava.

- Sabe de quem você dá uns ares? É de um rapaz daqui) que morreu. Chamava-se Ivo. Fugiu de casa, foi Para a guerra e ficou lá.

- Não conheci... A paz orvalhada que há pouco cobria a aldeia enxugava agora ao claro sol que rompia. Todas as chaminés fumegavam, todas as casas estavam abertas., todos os mistérios desabrochavam e Perdiam insensivelmente a graça da virgindade.

- De que terra é, ao menos? - insistia o garoto, com a volubilidade satânica da infância, acostumada a cortar as pernas aos saltaricos.

- Eu?!!!

- Sim!... Mais difícil do que saber quem era, era localizar-se no mundo. No segredo da sua intimidade podia ainda somar as duas metades da alma dividida; mas não havia morada na terra para esse aborto da vida.

- Nem sei. Tal e qual como o rebanho que, aparentemente sem se mexer, se afastava minuto a minuto, deixando atrás de si o terreno pastado, assim a aldeia lhe fugia dos olhos, fixos nela. A medida que o sol lhe desvendava o recolhimento, e a resposta ao pastor se tornava mais impossível, perdia o ar acolhedor de há pouco e embaciava-se de incompreensão.

As imagens de uma bela história com infância e mocidade, ninhos e amores, dias de Natal e noites de S. João, apagavam-se inexoravelmente.

O cenário negava-se à função de servir apenas de fundo passivo à saudade. Ali, ou vivo ou morto. Para todos os fantasmas do mundo, indecisos entre o ser e o não ser, havia apenas um escarolado sorriso de desdém.

- Se não diz quem é, nem onde nasceu, é porque tem medo de alguma cousa... - insinuava, cruel, o instinto do pequeno.

Por aquela boca falava a povoação. Exigia intransigentemente a cada filho um passaporte humano corrido e limpo, de fidelidade ao seu calor e de submissão às suas leis. E o mutilado, diante de um muro tão alto, sentiu que não valia a pena lutar, ter qualquer esperança.

- Sou um pobre... - disse então, humildemente, a evidenciar o coto do braço e a órbita vazia.

A aldeia, desperta, clara e rumorosa, era agora uma fortaleza inacessível. E o filho pródigo voltou-lhe as costas, vencido.


Miguel Torga, Novos Contos da Montanha