29/04/2008

O Milagre

A mãe, com o seu instinto agudo de mulher, a chorar, até ao último momento lhe pediu:

- Não cases, filho. Pelo amor de Deus, não cases com ela... Acredita que não é por ser pobre: é por causa da casta... Adivinha-me o coração que vais ser muito infeliz.

O rapaz, porém, estava cego. Metera-se-lhe a Raquel no pensamento e não havia razão que o vencesse. Sabia que não era bonita, e via bem que nunca seria companheira para lhe jungir os bois e roçar um carro de mato. Mas gostava dela sem saber porquê, doida e teimosamente. Rapariga da sua criação, fora sempre adoentada e sorumbática. Apesar disso ganhara-lhe um tal amor que, não obstante as outras o picarem com ditos e darem a demonstrar que estariam pelos ajustes, acabou por lhe pedir namoro.

A rapariga atendeu-o sem grande entusiasmo e deu-lhe um sim que deixaria outro qualquer desiludido. Ele é que não precisou de mais.

Mal a notícia constou na terra, ninguém se resignou.

- Um rapaz daqueles merecia coisa melhor!

- protestavam todos.

Embora ninguém pudesse apontar à cachopa tanto como uma unha em matéria de honestidade e a pouca saúde não fosse propriamente um defeito, havia vários casos de loucura na família. E como o Pedro era uma espécie de príncipe da aldeia, são, alegre e lindo como um S. Vicente, tal união parecia-lhes um atentado contra a natureza.

- Homem, vê lá... Pensa bem no que vais fazer... - ponderou-lhe o prior. - A Raquel não é má pequena... Agora quanto ao resto... Tens de contar com a carga hereditária... Olha, eu não digo nada. Resolve tu...

Deu-lhe a mesma resposta que dava aos outros:

- Casamento e mortalha no céu se talha. A sorte quis assim, seja o que for.

E contra a vontade de todos - menos dos pais da rapariga, mortos por vê-la com dono -, casaram.

A princípio correu tudo pelo melhor. Embora não fosse a mulher de armas de que o rapaz necessitava no começo da vida, a Raquel lá ia dando conta do recado. Cozinhava, tratava dos vivos, chegava praticamente onde as mais chegavam. Só não engravidava. E a secura daquelas entranhas, que nos primeiros meses não admirou ninguém, ao cabo de três anos começou a causar engulhos ao povo e a inquietar seriamente o marido. Um rebanho de filhos, numa casa de lavoura, é uma riqueza com que o homem conta no bragal da mulher. E o Pedro, cansado de esperar secretamente e em vão o começo dessa colheita, não pôde reprimir a voz do instinto desiludido.

- Comprei hoje o lameiro à Margarida... - anunciou certo dia. - Vendi o vinho cá por uma certa conta... O pior é se nós andamos a trabalhar para o bispo...

A Raquel há muito já que empreendia, até aos limites do desespero, na sua infecundidade e fizera-se até benzer pela Ana Rosa. Por isso, ao ouvir a insinuação, abriu-se num pranto desfeito.

- Bem, não estejas a afligir-te... - consolou-a ele. - Ainda não é tarde... Quantas há que só ao fim de cinco e mais anos...

Desgraçadamente, a Raquel sabia que o seu ventre nunca se abriria para nenhum fruto. Desde nova que o negro pressentimento da esterilidade a atormentava. Só por essa razão não se atrevera a olhar para nenhum rapaz com olhos de terra em pousio, e aceitara o amor do Pedro sem dar mostras de contentamento. Na altura da declaração teve mesmo vontade de lhe confessar tudo. A natureza é que não se resignou a tanto. Talvez estivesse enganada... Infelizmente, o tempo encarregara-se de confirmar as suspeitas. E agora sofria duplamente, por se ver incapaz e traidora.

- Não. Nunca hei-de ter filhos... - respondeu entre dois soluços. - Tenho a certeza...

O homem olhou-a como se a visse pela primeira vez. Uma Raquel maninha não entrava no seu amor.

- Tu nem a brincar me digas isso! Começara reticente, benévolo, a interrogar e a compreender. Mas diante da negativa estreme, irremediável, passou a uma atitude de desilusão ofendida, revoltada e agreste.

Humilhada no que havia de mais profundo na sua condição de mulher, quanto mais o homem se recusava a encarar a verdade, mais ela, numa perversidade macerada, teimava em lhe varrer do espírito todas as esperanças.

- Digo, porque sei. - Como é que sabes?

- Sei. Estavam no quarto ano de casados e começou então o profetizado inferno dos dois.

- A Raquel não pode ter filhos... - confidenciou ele à mãe.

- Eu já calculava... Via-se logo pelo andamento! Futurei sempre que dali nunca te viria nada de bom... E se ainda se for aguentando assim com algum juízo, tens muita sorte...

Era a obsessão da pobre Filomena-a loucura da nora. Se iam ao mato juntas, se escolhiam batatas, se andavam sozinhas na despampa, olhava-a de soslaio de vez em quando, sempre à espera dum gesto, dum esgar, de qualquer manifestação do mal que a habitava. Conhecera-lhe um avô zaranza, ouvira falar de um antepassado também pouco católico da mioleira e à mãe, embora não fosse propriamente maluca, faltava-lhe uma aduela.

- Vossemecê para a consolação...

- Bem sei que te aflijo. Mas que queres? Agoura-me o pensamento que mais dia, menos dia, tens trabalhos... Oxalá que não...

E nem de propósito. Ou porque estava escrito, ou apressado pela conversa da véspera, o certo é que passado pouco tempo, depois de um período de exaltação em que as lágrimas e as gargalhadas se entremeavam numa volubilidade de folha de olmo, o temporal desabou. Vinha o Pedro de ganhar a jorna, por sinal carregado de canhotas para o lume, abriu a porta, e voou-lhe uma faca ao peito. Desviou-se e ficou transido. A desgraça de que todos o tinham prevenido estava à sua frente, absurda e terrível, na figura da mulher, sinistra, de olhos esbugalhados e a espumar.

- Ah, Satanaz, que te hei-de matar! - gritava ela, como se visse o próprio demónio.

E o infeliz, a estalar de angústia, desandou a chave e foi dormir a casa da mãe.

No dia seguinte não se falava na terra doutra coisa. Passavam a dolorosa notícia uns aos outros afanosamente, numa agridoce emoção de prescientes e não ouvidos conselheiros.

A crise durou três dias, repetiu-se pouco tempo depois, tornou a voltar, e alguns anos decorreram naquela triste vida. Em casa do Pedro nem havia paz, nem esperança, nem nenhuma das alegrias a que tem direito o mais humilde lar deste mundo. As horas decorriam à espera de novo acesso, as sementeiras e as colheitas andavam à mercê das luas da Raquel, tão depressa cordata como enfurecida.

Até que num inverno a escuridão veio e ficou. Passou uma semana, passou um mês, passaram dois, e a demente aos gritos, varrida, fechada no quarto como uma reca num cortelho.

- Sou eu, mulher! O Pedro! Não me conheces?

De nada valia. Atirava-se a ele, possessa, e eram precisas forças sobre-humanas para lhe desprender as garras traiçoeiras.

O médico há muito que o desenganara da cura. E o desgraçado, numa derradeira braçada de náufrago, resolveu levar a doente a Mondrões, a S. João Baptista. Tinha de ir só com ela, como expressamente recomendou a Ana Rosa, que bem ou mal fazia de bruxa do lugar. Espalhava sal em todas as encruzilhadas que encontrasse, rezava a seguir uma oração que ela lhe ensinou, e dava dez voltas ao adro da ermida com a endemoninhada.

Relutante a crendices, temente a Deus, o Pedro lutara até onde lhe fora possível dentro das regras do bom-senso e da farmácia. E como nada conseguira, dispôs-se a experimentar aquela mezinha sobrenatural.

Com a ajuda dos vizinhos, amarrou a mulher bem amarrada sobre o macho, e meteu-se a caminho. Saiu de madrugada, num dia de sincelo que embranquecia todas as esperanças. Cuidadosamente, mal chegava a qualquer cruzamento, atirava a mão-cheia de sal e rezava a prece. Depois, alheio aos olhares invisíveis e rancorosos dos espíritos maus, que a feiticeira lhe garantiu que o espreitavam, seguia.

Apanhou-os o alvorecer em plena serra, no

Alto Cabeço, um ermo de causar calafrios. A doida, cansada dos arrancos que dera, ia agora mais calma, a monologar tolices que ele nem queria ouvir.

O macho choutava sobre o codo, resignado. E o Pedro, à frente, de rabeira no braço e mãos nos bolsos, arrastava animosamente a sua cruz. Pelas alturas da Tamargueira, a Raquel teve nova fúria. Esticava as cordas, fazia oscilar o animal, dava gritos desmedidos e pavorosos, que as fragas devolviam num eco de arrepiar. Outro esconjuro e outra salgadela ao terreno lá fizeram amainar a tempestade, e a peregrinação pôde continuar.

Chegaram tarde à capela. E, depois das voltas do preceito e das rezas recomendadas, a doente não parecia a mesma.

- Estou boa, homem! Estou curada! Podes-me desamarrar...

Farto de desilusões, o Pedro fez ouvidos de mercador. Deu grão ao macho, estendeu à mulher um pedaço de frango do farnel, comeu e resolveu aguardar os acontecimentos, a ver se o milagre tinha solidez.

Entretanto, o tempo começara a enfarruscar-se e leves flocos de neve surgiram no espaço, a dançar. Mau! O programa não previa um regresso atormentado, de mais a mais depois dos resultados auspiciosos da romagem. E, para abreviar caminho, resolveram voltar por Justes. Havia o perigo da ponte, mas era mais perto.

Partiram como chegaram, ele à arreata e a mulher empoleirada na azémola. E quando, passada uma hora de serra, dobraram a lomba de Moira Morta e pensavam ter escapado ao temporal que os perseguia, acharam-se com espanto num mar de brancura.

- Éh! com Deus! Como isto se pôs! A besta enterrava-se até à barriga, o arrieiro via-se e desejava-se para dar uma passada, e a

Raquel ia como uma moleira, no seu trono.

- O pior é se nos anoitece aqui!

- Não te aflijas, homem. Lá para baixo há-de estar melhor. Mas desata-me, que não posso mais dos pés...

- Daqui a bocado... Vamos a ver se rompemos...

Guiados pelas mariolas de sinalização - marcas de pedra solta, que o rapazio do gado desfizera, aqui e ali, para confusão e pânico dos viandantes -, ao cabo de algum tempo de luta avistaram a garganta do Cabril. _ Se conseguirmos atravessar, estamos safos! - disse o condutor da caravana.

- Mas desata-me. Desata-me, que estou gelada...

Tudo quanto se avistava era branco e calmo. As penedias, majestosas no seu manto de arminho, pareciam deusas tutelares. O próprio fragor da torrente, que espraiada até ali se despenhava subitamente num desfiladeiro apertado e a pique, morria abafado nas paredes almofadadas da escarpa.

- Tu sentes-te mesmo boa, boa de todo? - perguntou ele, inseguro.

- Sinto, homem. Acredita! - É que passávamos melhor se descesses...

O pontão é estreito e o macho pode escorregar...

Estavam perto do passadiço, duas lajes desguarnecidas atravessadas sobre o precipício.

- Estou curada. Podes crer... Nunca, desde o primeiro dia da doença, a mulher lhe falara com tanta naturalidade e propósito. E, como isso acontecia depois da visita devota, o companheiro acreditou no bafejo divino.

- Então apeia-te.

Parou o animal, desatou a corda, e ofereceu os braços abertos à mulher.

A doida, então, saltou da albarda, sacudiu-se e caminhou calmamente até ao pontão. Mas antes que o homem pudesse sequer fazer um gesto, viu-a voar de saias abertas sobre o despenhadeiro.

- Satanaz! - ouviu ele, como um último adeus maldito.

- Satanaz... - repetiu o eco, escarninhamente.

O corpo perdeu-se no fundo do boqueirão, e o Pedro ficou em cima, especado, atónito, de boca aberta. O macho encolhia as orelhas à neve, que recomeçara a cair.

- Seja feita a vontade de Deus... - disse por fim o infeliz, como que a lavar as mãos da desgraça.

O seu desespero não cabia numa fórmula ritual, a que faltava verdadeira palpitação humana. A dor que sentia não achava lenitivo numa passiva aceitação da vontade do Criador. Mas submetia-se humildemente ao seu arbítrio. Jogara e perdera. Porquê? Não sabia, nem poderia talvez sabê-lo nunca. Era um pobre de Cristo a tropeçar no mundo. O destino servira-se do seu coração como dum castiçal, onde fizera arder até ao fim do pavio a vela da ilusão e da esperança. justa ou injustamente?

Como se quisesse ouvir a resposta da boca da própria morta, debruçou-se sobre o abismo.

- Raquel! - gemeu em carne viva, quando o silêncio se tornou cruciante.

- Raquel! Do fundo do poço, porém, só regressava o eco deformado do seu apelo.

Desvairado, tentou então descer o desfiladeiro, num cego impulso de fidelidade ao amor e ao dever. Mas aos primeiros passos ia-se precipitando também no túmulo maldito. A neve adoçara os acidentes e cada palmo de chão era uma armadilha disfarçada.

- Não lhe posso acudir de maneira nenhuma... - confessou, vencido. - É tudo contra!...

As palavras de desalento soaram como pedradas na muda serenidade que o rodeava. Anoitecera., e a serra, que no crepúsculo de há pouco perdera a brancura de cal e a quietude, à luz do luar nascente tornara-se lívida e petrificada.

- Não sei o que hei-de fazer... Abobalhado, sem poder reencontrar na irrealidade do que se passara a sua própria realidade, acabou por descobrir na presença viva do macho uma espécie de irmandade protectora. E num automatismo de sonâmbulo, cavalgou-o e deixou-se levar passivamente.

Só na Chá de Panóias o rasto de uma nova violência, marcado no fofo pergaminho da neve, o acordou.

- Lobo... - murmurou calmamente.

O muar estremeceu-lhe debaixo dos joelhos e uma massa viva, familiar, apareceu na vezeira ao fundo, abandonado.

- Que é aquilo? - perguntou alto, como se o pobre animal seu companheiro tivesse entendimento e fala.

A resposta entrou-lhe pelos olhos, apenas se aproximou: era uma vitela estendida e esquadrilhada entre duas urgueiras.

- Foi ele, o malvado! Agadanhou-a mesmo agora. Nem teve tempo de a acabar. Largou-a quando sentiu gente...

Sem se poder erguer, a rés jazia moribunda à beira do curral deserto, a que não chegara a tempo de o pastor a levar. Tinha uma grande ferida na cernelha, onde a fera ferrara os dentes quando lhe saltou ao lombo. A articulação das mãos estava desfeita, todo o corpo sangrava dos golpes abertos pelas garras agressoras, e a vida teimava em persistir ali, arquejante e sem esperança.

No pensamento atribulado do Pedro, a imagem repousada da mulher, liberta no fundo do abismo, sobrepôs-se subitamente à imagem crispada que o acompanhava. Humana e compreensivamente, viu a doida serena e feliz pela eternidade fora. Num relance, avivou-se-lhe na memória o íngreme calvário da companheira, subido entre noites negras de demência e dias claros de incerteza. Ao menos agora o corpo e o espírito da desgraçada estavam em paz. Uma paz conquistada a desespero, mas que força nenhuma podia mais perturbar.

Iluminado por esse clarão revelador, que lhe tornava inteligível o que até ali fora apenas no seu entendimento um desígnio oculto do destino, desceu então os olhos calmos e fraternos sobre o corpo mutilado e sofredor da toira, apeou-se do macho, tirou do bolso a navalha de ponta e mola e, piedosamente, sangrou aquela alma dorida.



Miguel Torga, Novos Contos da Montanha