04/03/2008

O Lopo


- Perdeste - anunciou sem rodeios o Dr. Canavarro, quando o Lopo entrou.

- Oh, senhor doutor, nem a brincar!

- Perdeste - reforçou o advogado, a fazer balançar o mata-borrão sobre a banca. E acrescentou: - Recebi ontem à tarde a notícia da sentença. Tive de telefonar para Lisboa, e disseram-me do Tribunal.

O Lopo, que desde as primeiras palavras estacara à entrada do escritório, mordeu o beiço por debaixo do bigode espesso, pôs-se a desandar o chapéu na mão e ficou assim um pedaço. Por fim, lá conseguiu abrir a boca.

- Então perdi?! - É como dizes. - Custas e tudo?

- Tudo.

- Bem, pronto, não se fala mais nisso. E muito obrigado. O outro já saberá?

- Não. A notícia só lhe deve chegar de aqui a dois ou três dias. Eu soube-a particularmente.

- Então dou-lha eu...

O velho dr. Canavarro parou de embalar o bloco e fitou o Lopo. Depois, calmamente, perguntou-lhe:

- Tu não estás de mal com ele?

- Estou, mas que tem lá isso? As pazes fazem-se depressa. Ganhou, que hei-de eu fazer? Digo-lho...

- Bem, arranjai-vos lá. Quarta ou quinta da semana que vem., aparece, para se ver quanto deves. Sabes que a justiça não perdoa...

- Há tempo...

- Olha que eles gostam pouco de esperar

- Esperam...

O Dr. Canavarro, através dos óculos, ia lendo no rosto anguloso do Lopo o significado de cada palavra que dizia.

- Quarta ou quinta- insistiu. - Pode calhar - respondeu o outro, já com metade do corpo fora da porta.

Era Janeiro e a manhã parecia de Maio. Um sol branco, diáfano, fazia brilhar as clarabóias da Vila, cobertas da geada da noite. Pelas ruas a cabo, gente de sobretudo passava apressada.

- Vamos comer alguma coisa? - propôs o Marrau, que o esperava no estanque do Castro.

- Pode ser. Nada na figura e nos modos do Lopo denunciava o desespero que o lavrava.

- Em casa da Areias?

- Está bem.

- Se houvesse tripas, é que era! - lembrou o outro, guloso.

- Talvez haja. Mas não havia. - Tenho raia-informou a estalajadeira, a limpar as mãos gordurosas ao avental.

- Fumega?

- Isso é cá comigo... - respondeu a velha, num sorriso que fazia crescer água na boca.

- Pois venha ela! Sentaram-se os dois a uma mesa coberta de oleado aos quadradinhos e almoçaram como príncipes.

- Vai uma cigarrada ? - ofereceu o Marrau no fim., depois de a conta paga.

- Uma vez por festa - aceitou o Lopo, com bonomia. - E deixo-te - acrescentou.

- Homessa! Cuidei que íamos juntos mais...

- já fiz o que tinha a fazer e vou andando.

- Eu também pouco me demoro. É só ir às Finanças pagar a décima...

- A repartição não abre antes das duas. Fica-me tarde.

Disseram até logo à saída da porta, e enquanto o Marrau, desapontado, cortou a direito em direcção ao centro da Vila, o Lopo meteu pela calçada que levava à ponte e ia acabar na estrada de Carvas.

Pelo caminho, duas léguas bem medidas de serras e de carvalhais, nem o ar lavado das fragas nem a serena calma de tudo conseguiram arredar o Lopo das suas cogitações. Andava ligeiro, aéreo, sem ouvir as tachas das botas de atanado a rilhar o macadame. Mas só por dentro é que ia assim. Por fora, respondeu a todas as pessoas que encontrou e o salvaram, e em Lobrigos, seco dos finos da raia, bebeu um quartilho, sem que o taberneiro desse conta de qualquer nuvem a turvar-lhe o semblante.

- Então adeus, ti João!

- Adeus., Manuel. Vais-te chegando ao borralho?

- Não há remédio... - respondeu, já na rua.

Até Carvas foi o mesmo quebra-cabeças. Os montes iam passando, o rio Verdeiro cachoou-lhe nos ouvidos, levantaram-se perdizes a dois metros., e o Lopo sempre a andar, calado e sério.

No Caleirão deixou a estrada e meteu pelas matas. Depois desandou à esquerda, atravessou o souto do Ró, e chegou à entrada da mina que lhe fora roubada.

Da boca escura que abrira na fraga, a picareta e a dinamite, Deus sabe com quanto suor, saía um bafo quente como o de quem respira.

O cascalho,, o saibro e o lodo que arrancara às entranhas da serra tinham ainda a cor e o cheiro de carne dilacerada. E o rego de água que, cauteloso, saía da escuridão, e a cantar se punha a correr pela encosta abaixo, era como que uma veia aberta do seu próprio corpo.

Religiosamente, debruçou-se sobre o regato, meteu nele a mão calosa, encheu-a, e deixou cair em cascata a liquefeita frescura de três meses de trabalho.

- Cá fica... - murmurou.

E ergueu-se. Se aquela visita íntima e secreta o comovera, estava de novo sereno e senhor de Si. Pelo menos em casa também a mulher, como os outros, não lhe notou qualquer alteração.

- Já vieste?! - admirou-se ela, ao vê-lo chegar tão cedo.

- Vim... - respondeu, naturalmente. - Arranjei o que tinha a arranjar apenas cheguei, que ficava lá a fazer ?

- E então? Que disse o advogado?

- Ainda não sabe nada. A tarde desceu serena, a esfriar de hora a hora e a levedar um segredo profundo, calmo, de toda a natureza.

- Boa noite!

- Boa noite, senhora Dona Rosa. Era a professora de Guiães que passava de cadeirinha, empoleirada na burra do Amarante, e o Lopo, depois de corresponder ao cumprimento, voltou novamente a olhar as favas que despontavam no quintal.

- Manuel, posso lançar o caldo?

- Podes. Entrou, sentou-se, pegou na malga e começou a comer, enquanto lá por dentro continuava na sua labuta. Mas a mulher, que lhe conhecia o feitio ensimesmado, não deu por nada. _ Demoras-te ? - perguntou no fim da ceia, ao vê-la avivar o lume.

- Tenho ainda que lavar a louça. - A modos que me está a dar o sono...

- Mete-te na cama.

A Rita ficou a cirandar pela casa, e quando se foi deitar já o encontrou a dormir, tão imóvel e repousado no seu canto que nem a sentiu.

Ao romper do dia, como habitualmente, ergueu-se ele primeiro. Lavou-se, tirou da arca a costumada côdea de pão, matou o bicho com aguardente, e foi à sala buscar a arma.

- Vou dar uma volta. - Hoje?! Cuidei que escavavas o bardo...

- Vou... Parece que anda uma lebre na Alcaria...

Ao vê-lo atravessar o quinteiro e seguir pela quelha abaixo sem assobiar ao cão, a Rita estranhou. Mas não fez mais caso.

Embora o dia começasse apenas a clarear, mostrava já o que viria a ser: ainda mais escarolado de que o anterior e mais frio. Bom tempo para saibrar e repor. Não havia memória dum inverno tão seco e tão gelado. Nas poças de água o codo era de palmo.

O carreiro da veiga por onde o Lopo meteu parecia de cristal. E cada passo que dava ia libertando as ervas que o sincelo prendera. Caminhava ligeiro, atento, com a espingarda pendurada ao ombro pela bandoleira, de canos voltados para o chão. Não queria ser visto e em Carvas a vida principiava cedo. Felizmente, quando a manhã se abriu de todo, e o leque de povo se abriu também nas leiras, já ele se distanciara da zona de perigo.

Situada no termo da povoação, a quinta dos Balaus era uma propriedade vedada, onde o Sr. Casimiro, o homem que lhe tinha roubado nos tribunais a posse da mina, mourejava de sol a sol. Na ocasião, podava à beira da estrada a vinha nova, toda enxertada de moscatel, donde saíam dornas e dornas de uvas, no Setembro. Rico e manhoso, movia montanhas a cavar o dia inteiro, sem ninguém descortinar como conseguia ter Portugal nas mãos quase sem sair da terra.

Do alto da Silveirinha, o Lopo, lobrigou-lhe o vulto ao fundo, debruçado, maciço, ainda mal desenhado na penumbra da manhã. Fez de conta que nada e continuou a caminhar mergulhado nos seus pensamentos.

Passada a encruzilhada de Fermentões, a estrada afundou-se entre barrancos. Só ao cabo de mais de cem metros é que novamente o horizonte se rasgou. Mas apenas dum lado. Porque do outro erguia-se agora o muro da quinta, por detrás do qual o ladrão do seu trabalho tirava os olhos cegos às videiras.

Chegou-se adiante, ao portão, espreitou por entre as grades, e calculou exactamente a que sítio do caminho vinha ter uma perpendicular tirada do sujeito. Depois, sem pressas, chegou-se a esse ponto e subiu à parede.

Agachado e embrulhado no varino, a crucificar o presente em nome do futuro, o senhor Casimiro lá continuava no seu afã de impor ao sono das cepas um despertar fecundo. Tanto empenho punha no trabalho que nem dava conta do que se passava à volta. E foi preciso o Lopo gritar duas vezes para que sentisse ruído e se erguesse a ver o que era.

- Sou eu - disse-lhe então o Lopo, direito em cima do muro, com ele já no ponto de mira.

- Sou eu que lhe trouxe este recado da Vila...

O tiro partiu, o podador caiu de bruços sobre a videira, e o sol por detrás dos montes começou a tentar encher o dia de inverno de uma luz doirada de primavera.

O Lopo, então, saltou ao caminho, regressou a casa pelo Lenteiro, depois de atirar a caçadeira a um poço, e falou assim à mulher:

- A questão está perdida e o ladrão já foi prestar contas a Deus. Sigo agora para Fermentelos, a ver se o Grilo me arranja dinheiro e passo a fronteira ainda esta noite. Embarco em Vigo. Não levo nada, para ir mais leve e ninguém desconfiar. Tu ficas aqui, muito calada, até eu dar notícias. Adeus, e não chores.

Miguel Torga, Novos Contos da Montanha