06/05/2008

O Artilheiro

- Carlos Pinto, um seu criado! O Artilheiro... - proclamou, alto e bom som, no silêncio da sala, o filho do Alma em Pé.

E o Tribunal não pôde deixar de ter um sorriso de simpatia pelo moço que, da pequenez a que fora condenado, atirava à cara carrancuda da justiça aquela grande e poderosa palavra.

- Artilheiro, é boa! - fungava o delegado, a imaginar o que seria uma praça com pouco mais de um metro de altura a manobrar os canhões de Amarante.

Se perguntassem em Malhão o nome do autor de todas as alcunhas que no povo definiam quem tinha definição, ninguém sabia. A crisma nascia anónima e certeira, englobando num, só palavra um mundo de realidades contraditórias, admiráveis e ridículas, bonitas e feias, dignas de indulgência e merecedoras de escárnio. A história humana da terra estava inteira nos apelidos dos seus filhos. João, António, Francisco, Carlos da Lousa ou Joaquim da Fonte individualizavam gente, mas não testemunhavam vida e acção. Já Fogo-Morto, Nalguinhas, Chega-me-Isso e Pé-Tolo exprimiam defeitos e virtudes concretas que todos conheciam. Eram instantâneos onde a aldeia podia ver os seus títeres ao natural. Às vezes o apodo não tinha aparentemente qualquer significação. Lafunfa, por exemplo, não queria dizer nada. E, contudo, nenhuma palavra podia retratar tão completamente a pessoa atarracada, frascária e casamenteira da Gregória.

O portador do cartaz zombeteiro, como uma truta presa no anzol, a princípio saltava e barafustava. A tudo Malhão assistira, nesse capítulo. Zangas, injúrias e tiros, até! O curioso é que daí a pouco tempo a própria vítima se servia desse cartão de identidade, mais explícito e universal.

- Saiba V. S.a que a minha graça é Gabriel dos Anjos... - explicava o interessado, a tentar receber no Banco um cheque que lhe manda o filho do Brasil.

- Acredito. Mas traga., traga um fiador... Ou então arranje uma casa comercial que o abone...

- Talvez V. S.a tenha ouvido falar no Luminárias...

- Ai vossemecê é que é o célebre Luminárias! Mas Isso é outro cantar!... Assine aqui...

Embora a coisa fosse um bocadito amarga e dolorosa, o rabo-leva era tão simples e prático que não havia remédio senão um homem resignar-se. De resto, nem todos se mostravam igualmente sensíveis a estas radiografias cruéis. A maioria aceitava com estoicismo e dignidade o diagnóstico colectivo. E à cabeça do rol desses heróis estava o Artilheiro.

Lapantim, muito teso dentro da roupa, desde pequeno que qualquer coisa na sua pessoa denunciava uma impossibilidade eterna de chegar ao estalão. E um dia a alcunha surgiu, justa por antinomia. O Carlos, porém, não se deixou vencer pela chacota. Foi crescendo até onde pôde, aproveitando os milímetros, e à frente da figura mirrada, confiante e risonho, erguia sempre, como um cartaz identificador, o grande nome que Malhão lhe dera.

Nem mesmo na carta que escreveu à Guiomar, quando o tempo do amor chegou, se esqueceu de acrescentar o epíteto de guerra.

Como não recebeu resposta, meteu no caso a Lafunfa, que tentou amaciar a rapariga.

- Valha-te Deus, mulher! É o céu que to manda!

- O Artilheiro?! Eu queria lá um meio-alqueire daqueles! Quando casar, há-de ser com um homem que me aqueça os pés... Não me fale em semelhante enfezado!

- Olha que é como os outros... - insinuava, maliciosamente, a velha alcoviteira. - Experimenta...

- Experimentar?! - exclamou a desamorável, entre ofendida e pasmada.

- Experimentar, é como quem diz... Não quero que te metas com ele na cama... Atendê-lo, a ver...

Batida e pelada como uma fraga do ribeiro, a Lafunfa era a casamenteira da terra. Por um miçoilo de qualquer coisa, não havia cachopa que não levasse à bebida, nem estola que não atasse a mãos namoradas desavindas. Beata, sempre a pregar moralidade, todo o amor de Malhão passava por sua casa.

- Entra... - sussurrava em tom cúmplice a quem, levemente e a altas horas, lhe batia à porta.

- Sou eu, o Abel... - Pois sim, filho. Senta-te ao lume, que eu vou já...

Aparecia embrulhada no chaile e, a cada lamento do apaixonado, só dizia:

- A grande tola!... Coitada, ainda ninguém lhe mostrou a verdade...

Depois, o Romeu saía, a noite apertava as malhas, e o dia só raiava ao fim de muitas horas de suspiros. Mas logo nessa mesma tarde os olhos da ovelha arisca brilhavam com outra brandura e consentimento.

- Farta de o ver estou eu! - defendia-se a Guiomar com bravura. - Olhe que ele vê-se depressa...

- Enganas-te, filha. Enganas-te... Os homens às vezes parecem uma coisa e são outra. Aquele tenho a certeza que é dos tais... Não fales antes de lhe tomares o gosto...

- Quem a ouvir, há-de dizer que já o provou!... - Na minha idade!... Quem me dera! E com mais duas conversas assim o Artilheiro tinha namorada. Mas como sabia o que a velha lutara para conseguir o sim, e como desejava tirar todas as dúvidas à cachopa, não esteve com demoras. Na primeira altura que pôde, em vez de lhe aquecer os pés, aqueceu-lhe o corpo inteiro.

A rapariga viera ao penso para o gado, à tardinha, a uma hora em que as próprias silvas adormecem brandas nas sebes. E o rapaz, que a viu passar, foi-lhe no encalço. Largou a enxada e o lameiro, e resolveu tratar doutra sementeira.

A primeira facha desatou-se. E, quando a moça se baixou à procura do vincilho, duas mãos ávidas e seguras agarraram-na pelos seios de granito.

- Jesus!

O grito alarmado não queria significar recusa.

Surpresa, apenas. Enleada, morna, submissa, a carne aceitava o abraço e o resto que ele prometia.

- Pode vir gente...

- Quem há-de vir? A porta deslizou nos gonzos e, à branda luz que adoçava o medo, os dois deram-se com toda a força da juventude.

Rijo, só músculos e tendões, viril como um gato ágil, o Artilheiro parecia um raio a varar aquela virgindade. E a Guiomar, se não sentia nos braços um homem do tamanho do Marão, abria-se: inteira à eficiência de uma força sem dispersão, rápida, concêntrica e desfibrada.

- Meu amor... Começava uma verdadeira e pura fonte apenas dentro dela e a inundá-la da única paz que é na vida o remédio de todas as feridas.

- Meu amor... Casta., das funduras da alma, a paixão irrompia pela crosta dos sentidos e aparecia à tona em palavras que as outras horas não deixavam dizer.

O rapaz ouvia confusamente a confissão rendida. E uma alegria de triunfo total irradiava-lhe das fontes a latejar. .

Foi no intervalo de dois beijos que um alarme inesperado os acordou.

- Ó Júlia, não viste por acaso a minha Guiomar? Veio ao feno e nunca mais apareceu...

- Eu não senhor! - Vou espreitar aqui à loja. Está a chave na porta...

Invejoso de tanta felicidade, o mundo vinha desprendê-los dum abraço de comunhão perfeita e lançar o Carlos fora da intimidade que o tornava desmedido.

- Guiomar! Onde raio se meteu o demónio da cachopa?

O Artilheiro estava já escondido debaixo de uma meda de canas, e a rapariga limpava e desenrugava a saia como podia.

- Guiomar! - e o velho e a luz entraram de repelão na loja.

- Meu pai...

Bem que o pé remexia o chão, tentava disfarçar o ninho de felicidade. Patente, natural e denunciadora, a cama daquela hora nunca mais se desfigurava.

- Que estavas tu aqui a fazer? Afogueada ainda, a rapariga não respondeu. Que poderia ela responder? A evidência do que se passara metia-se pelos olhos dentro. Não tinha medo, de resto. Tentara apagar as marcas da sua entrega, mais por um sentimento superficial de pudor do que por íntima vergonha. Se alguma coisa lhe pesava ali era não ter a seu lado, altivo, de cara descoberta, o homem que a possuíra.

Sem querer encarar a verdade, o velho quase lhe pedia que o enganasse.

- Anda, responde! Se fosse uma ou duas horas depois, quando dentro dela não ressoasse já a voz alvoroçada do instinto acordado, talvez pudesse mentir-lhe. Em pleno deslumbramento, não.

- Que quer que lhe responda? Não vê?... Ia caindo o palheiro.

- Ó sua recai Sua galdrona! Seu grande coiro! E quem foi o maroto, o safardana? Onde está, que o mato. Mas

A pequenez do Artilheiro começava a ser um pesadelo no espírito da rapariga. Se ao menos o rapaz pudesse ter saído da loja a tempo, pronto, não ouvia o pai e depois o tempo diria. Agora assim alapardado enquanto ele disparatava, era de desesperar.

E foi então que a Guiomar viu novamente crescer diante dela o homem que a Lafunfa lhe prometera. Antes que as coisas passassem a mais, intrépido, digno, o Artilheiro saiu de dentro da moreia e apresentou-se.

- O maroto sou eu, ti Adriano.

- Ó meu excomungado! Meu ladrão, que te bebo o sangue!

- Não se exalte! Isto tinha de se fazer... Amanhã trata-se dos papéis.

- O que tu merecias, bem sei eu, patife! - espumava o velho, a meter-lhe os punhos à cara e a olhar o feno onde os dois tinham rolado.

- Acalme-se, homem de Deus! Não faça escândalo! Lembre-se que vou ser seu genro... E um genro às direitas, verá. Como vossemecê nunca avezou!

Amainado a custo o temporal, silenciosos, deixaram os três o palheiro. No largo, o pai e a filha foram sós para casa.

- Que te aconteceu? - perguntou a Gaudência, intrigada, ao ver entrar o homem carrancudo.

- Olha, foi esta bácora! Fui encontrá-la fechada na loja com o badana do Artilheiro!...

-- Artilheiro' não! Carlos, se faz favor. Pode-lhe chamar pelo nome... - reclamou a rapariga, já senhora de si e cheia da seiva do namorado.

- Com o Artilheiro! Nem me digas! - Pois, então! De tantos rapazes que havia na terra, só lhe serviu o senhor Artilheiro! E com medo que ele lhe fugisse, deu-lhe a esmola antes do padre-nosso... - Já disse que o tratem pelo nome, com mil diabos! - protestava a Guiomar, indignada, e cada vez mais firme no seu amor.

- Cale-se, sua desavergonhada! Só por escárnio! Se algum dia eu calculei que me caía em casa um fedunças daqueles!

À dor sincera do pai misturava-se a raiva do homem. Sem o Adriano querer, o instinto bruxuleante tinha guinadas de rancor a lembrar-se da facha macia e perfumada de feno, pisada e ainda quente no chão.

O rifão popular é que não podia faltar: casa com a filha do rei, que as pazes eu as farei. A vergonha e os melindres foram passando., a vida continuou, e, quando apareceu o primeiro fruto do matrimónio, a família inteira foi baptizá-lo a Paços.

- Ele sai ao pai? - perguntou, ao vê-los, passar, o Mareante, uma das vítimas amorosas de Guiomar, que não engolia o triunfo do Artilheiro.

- Sai, queres ver? - respondeu a mãe babosa, lorpa, a descobrir o crianço.

- Pois sai, sai, coitadinho!... Ainda há-de vir a ter menos um palmo...

O Mareante era um rapagão como uma torre e o Artilheiro, ao pé dele, parecia um frango. Mas ainda todos, o sogro principalmente, estavam a mastigar a ofensa, já o atrevido tinha uma paulada nas fontes e gemia no chão.

Correu gente, acomoda daqui, ampara dali, e vá lá ninguém estancar a bica de sangue que esguichava do toutiço do desgraçado!

- Um meio tostão daqueles, hein?! - comentava o Sequinho. - Pequenino, pequenino, e por um triz que não lhe punha os miolos ao sol!

Na vila, que só com uma operação de urgência se lhe podia valer. Nada mais que trepanar-lhe a cabeçal

Lá o salvaram, mas no tribunal, depois, é que foram elas! O próprio advogado torcia o nariz. As coisas estavam muito fuscas.

- Bem escusávamos disto, se tu fosses outra! - resmungava o Adriano, com os olhos no genro, muito teso, prestes a sentar-se no banco dos réus. - Olhe lá não lhe caia a pedra de armas! - refilou a Guiomar, cada vez mais orgulhosa do marido.

- Silêncio! Como se chama? E foi então que o rapaz, corajoso e leal, disse escaroladamente ao juiz o seu nome civil e o apelido que Malhão lhe dera. E como o crime não era de morte nem fora premeditado, e há pessoas que entram no coração da gente sem se saber por quê, o magistrado ouviu as testemunhas e a defesa, pensou, pensou, mediu as razões do ofendido, e acabou por aconselhar ironicamente ao Mareante que para outra vez tivesse mais juízo, e não se metesse com homens de brios, de mais a mais Artilheiros!

Miguel Torga, Novos Contos da Montanha