20/05/2008

Marcos

Enjeitado e comido de cieiro, o Marcos apareceu em Valdigem. a pedir. Os pés, descalços e pequeninos, pareciam dois aranhiços vermelhos a cirandar na neve. Pelos rasgões das calças viam-se-lhe retalhos do corpo de criança. Um bragués ensebado caía-lhe sobre as orelhas e tapava-lhe os olhos de doninha. E um casaco de homem, de mangas arregaçadas e ombros caídos, cheio de cunetas e fechado na gola com uma segurança, acabava por fazer dele um cabide sem pernas.

- Não podes trabalhar, rapaz? - ralhou-lhe a Engrácia, a dar-lhe um migalho de pão.

- Posso, sim senhora. Quer-me para moço? Não o quis a Engrácia, mas ficou em casa do Maia.

- Onde arranjaste o enxalmo, João?- perguntou-lhe o cunhado.

- Na rua... É cão vadio...

- Está bem! E meteste-o de portas para dentro sem saber nada dele?

- Tens medo que me degole? E o Maia ria-se daquela desconfiança crónica do parente.

- Mas pode-te roubar... - Caldo da panela! A conversa do costume. Na monotonia rotineira da povoação, só o Mala conseguia agitar o espírito de todos com o simples gosto de estender a mão ao desconhecido. Sem grande generosidade e amigo de acautelar o que lhe pertencia, tinha contudo um fraco: a novidade. E o que aparecia na terra de inesperado ou de pitoresco passava-lhe pelo quinteiro. Nas histórias de Valdigem entrava sempre o seu nome, duma maneira ou doutra. Uns ciganos que deixara acampar no souto levaram-lhe a égua; o homem dos Robertos, que agasalhara em casa, fez uma pantomina no dia seguinte das zangas dele com a mulher; uma recoveira de Freixo pariu-lhe numa loja. Mas o Maia achava graça a tudo e, mal se oferecia nova oportunidade, ei-lo metido outra vez a empresário de aldeagantes. Olhava os seres estranhos com a curiosidade dum espectador. Muito embora às vezes eles comessem a isca e sujassem no anzol, nem por isso deixava de se rir como um perdido, se o caso o merecia. No fundo, era um imaginativo sem imaginação. E aplaudia incondicionalmente a dos outros, mesmo quando fazia figura de asno. O Alexandre Rato é que se doía, zeloso do bom nome da família.

- Como se chama o pequeno?

- Marcos. - Marcos quê? - Marcos. É tudo o que sei dele. Não interrogava os actores. Dava-lhes um palco para a representação e ficava à espera. Nem conhecia o passado, nem lhe interessava o futuro de nenhum.

- Tu lá te entendes. Mas eu cá, pelo sim, pelo não... O rapaz não caiu do céu! Há-de ter vindo de alguma parte. Ao menos perguntar-lhe a terra onde nasceu!

- Nada. Não pergunto nada. - Olha, oxalá tenhas sorte... Encolheu os ombros, indiferente à ambiguidade do voto. Deus, ou quem mandava no andamento do mundo, conhecia bem as suas necessidades. Há muito que não fazia outra coisa senão plissar as leiras com a aiveca da charrua, numa desconsolação de corpo e alma. Por isso, tudo seria bem vindo, menos a sensaboria de mais um serviçal com pia de baptismo conhecida e boas informações. Objectivamente., precisava de alguém para substituir o Acúrcio, convocado para o serviço militar. Porque não havia de ser justamente o arábias do rapaz, arribado a Valdigem como andorinha nova, tresmalhada do bando e do tempo?

- Que andas tu a fazer, gabiru? - perguntara-lhe à salda da venda do Belchior, ao vê-lo de penugem arrepiada e com duas torcidas de ranho no nariz.

- A pedir. Sem saber porquê, gostou da pinta do miúdo. E não esteve com meias medidas:

- Queres guardar gado?

- Quero, sim senhor.

- Então, vem daí. A mulher, acostumada já àquelas manias, nem reagiu. Quando o novo hóspede lhe entrou a medo pela cozinha dentro, só disse:

- Assoa-te, ao menos.

O que o pequeno fez à manga do casaco. E logo no dia seguinte o Marcos palmilhava a serra a passear as ovelhas, feliz da vida.

- Por acaso, parece que acertaste... - confessava o Rato, tempos depois, rendido. - É danado., o garoto! ontem encontrei-o nos Pitões com três borregos às costas, acabados de nascer.

- Tem jeito, tem... - Tem jeito., ou tu nunca avezaste coisa tão boa?!

- Ora., não avezei!

- Passa-mo, que eu agradeço. Se não estás contente,, dá-mo.

- Não posso dar aquilo que não é meu! Falava com um espinho a picar-lhe a alma. Muito embora reconhecesse a boa vontade e finura do ganapo,, no fundo, esperava dele outra coisa. Não sabia o quê, evidentemente. Mas qualquer maluqueira. Uma façanha inesperada, que desse brado! Assim, diligente e desenxabido, é que era de perder a paciência. E, como não podia confessar os motivos da desilusão, tergiversava diante do entusiasmo do cunhado e dos mais. O rapaz não se distinguia, afinal, dos outros da terra. Aparecia de vez em quando em casa com um láparo arrancado duma lura., soltava-se-lhe o sangue do nariz, mijava na cama - bolas para tal riqueza! E., ainda por cima, sempre ensacado no maldito balandrau,> agora mais esfarrapado ainda.

- Trazes o moço tão mal arranjado., João! - protestou um dia o Moisés.

- Bem anda. Desde que tenha a barriga forrada de broa, o resto é luxo.

E o tempo ia correndo na pobreza serrana de Valdigem. Acabou o inverno, passou a primavera, entrou o verão, e o Marcos na mesma triste figura de pobre pedinte, encafuado nos trapos.

- Dá uma roupa ao desgraçado! - aventurou a irmã, a mulher do Rato, já com vergonha de uma tal miséria.

- Dou-lhe mas é cabo do canastro, se torna a roubar uvas a alguém! Que me venham fazer queixa outra vez...

O Marcos recolhia o gado na loja e por acaso ouviu a conversa.

- Mesmo de cotim... - teimava a Júlia.

- Calas o povo.

- O povo não tem nada com a minha vida. Começava a odiar o rapaz. A monotonia das coisas secava-lhe a humanidade. Tinha necessidade de fantasia, de variedade, de abalos súbitos na pasmaceira das horas. Então, sim! Diante duma situação inesperada, trágica ou grotesca, tanto fazia, abria-se-lhe o coração e a carteira.

- Também não sei que mal te fez a criança! - desabafou a irmã, agora com sentimentos de mulher.

- Nem mal, nem bem... Não vale a água que bebe! Mas, enfim... Mudemos de conversa.

- Eu vejo-o é derreadinho o dia inteiro, como um escravo. Logo de manhã cedo, lá vai aquele infeliz...

- Não é por muito madrugar... Debatia-se entre duas forças opostas: por um lado, uma vontade insofrida de correr com o moço a pontapés; por outro, uma espécie de superstição inibidora, uma necessidade secreta de não aceitar a falência da sua esperança. Apesar de tudo, não queria desesperar. Despedir o catraio parecia-lhe dizer adeus para sempre à ilusão. E, acabadas as conversas laudatórias do cunhado, da irmã ou dos outros, continuava a espiar disfarçadamente o rapaz, a ver se o milagre acontecia.

Caiu-lhe a alma aos pés quando ouviu contar que em Grijó um pastor da idade do Marcos, por falta de um espelho onde visse a figura que fazia com a primeira camisa que ia estrear, a vestira ao cão do rebanho, transformado em manequim. Nisto aparece um lobo e quem é que segura o laboreiro? O pequeno bem corria atrás dele a berrar: jau, Jau, dá-me primeiro a camisa! jau, ouve cá, ouve... Era o mesmo que gritar a um mouco. Os que presenciavam a cena riam-se como perdidos... E o maluco às asneiras a quem fazia caçoada e sempre a Jau, olha que ma rasgas!... Jau... Jau...

Um pratinho! Segue-se que quando o cão regressou do combate trazia apenas o colarinho muito bem abotoado à volta do pescoço. O resto tinha ficado em tiras, nas urgueiras.

- Não ser o meu! - desabafou o Maia, sem querer.

- Dá-lhe primeiro a camisa... Coçou a barba, constrangido. - Dava, dava, se ele a merecesse... E largou, para não lhe pedirem mais explicações.

Acabou por ser a própria mulher, a Laura, mísera como uma fuinha, a reclamar:

- Não tens remédio senão comprar uma andaina ao cachopo, agora na Senhora da Saúde...

- Se estiver tão livre da peste!

- Então, manda-o embora.

- Ah! mande! Sossega. Mas primeiro temos de ajustar umas contas velhas. Deixa-me acabar de encher.

O Marcos ouvia a conversa, da cama. - Mas põe-mo a andar antes da festa! Não quero mais falatórios.

- Descansa! já te disse que não vai de anjo na procissão. Até lá, há-de saber o gosto que o fado tem. Pedaço de asno! A gente a matar-lhe a fome, a metê-lo dentro de casa, e sai-me um bandalho que não presta para nada...

A mulher, alheia às razões íntimas de um tal rancor, e sem procurar sequer conhecê-las, começou a roncar. E o Maia adormeceu também.

O Marcos, na sua enxerga, é que ficou ainda a ruminar. Tinha portanto doze dias, quantos demorava ainda a romaria, para pôr o corpo a são e salvo das iras do patrão. Estava informado.

Começou então uma luta surda entre os dois.

O Maia a arranjar pretextos para tosar o miúdo, e este, finório, a redobrar de solicitude, a quebrar-lhe as mãos.

- O filho da puta do rapaz parece que me adivinha os pensamentos!

- Compra-lhe a roupa e fica com ele.

- Não. Prova-me as unhas e depois rua! Foi justamente na véspera do arraial que o Maia conseguiu o almejado pé que esperava. Ergueu-se um migalho mais tarde e, quando foi a dar conta, o gado berrava na loja cheio de fome. Ahn?! Queriam ver? Tinha ou não tinha razão? Ora ali estava o grande zelo do senhor moço!

O sol a pino e sua excelência ainda no primeiro sono!

Sem mais delongas, não fosse o diabo roubar-lhe aquela oportunidade de explodir, entrou no curral de soga na mão. O facínora lá estava ferrado a dormir, com o chapéu esbadanado a cobrir-lhe a cara, por causa das moscas. O grande como! Até que enfim podia dar-lhe uma lição! E sem lhe ficar a doer a consciência... Nada!

O estupor do valdevinos não valia um cigarro. Nem brios, nem criação, nem piada, nem coisíssima nenhuma! Nunca lhe entrara em casa traste tão reles!

De sorriso sardónico nos lábios, pé ante pé, para que fosse a primeira vergastada a acordar o malandrim, chegou-se junto do catre e descarregou a füxia. Mas nem o som da pancada lhe agradou, nem o dorminhoco se doeu. E foi já desconfiado que secundou o golpe.

Viu então com alegria que estava diante duma mistificação. O Marcos enchera as calças e o casaco de palha, metera o corpo debaixo da manta, no sítio da cabeça colocara o cabaneiro, e deixara-lhe ali o fantasma do corpo.

- Ai o grande malandro, que chegou para mim!

Agradecido ao céu por aquele desfecho inesperado, subiu novamente a escada e entrou na cozinha perdido de., riso.

- Tu que tens? - quis saber a mulher, pasmada do despropósito.

- O rapaz saiu-se à última hora! Anda ver...

Até ela achou graça, sem se lembrar que o pequeno não se pusera na alheta nu como viera ao mundo.

Prepararam-se para-a missa e, quando depois no adro os dois contavam o caso, a Elvira Concha, iluminada, responsabilizou-os por uma roupa nova do filho, que na véspera lhe desaparecera de casa misteriosamente. A Laura, semítica e assomadiça, ainda quis discutir. Mas o Maia continuou com a mesma boa disposição, prometeu pagar o prejuízo, e passou o dia a perguntar a todos se precisavam dum espantalho nas leiras, porque tinha lá um.



Miguel Torga, Novos Contos da Montanha