29/03/2008

Havia Sol na Praça



E era assim todas as manhãs. Eu subia a rua para a repartição ele descia-a para a vadiagem. Vinha com as suas grandes barbas numa caranguejola a quatro rodas, puxada por um jerico. Era velho o jerico, devia ser da idade dele, com placas lazarentas a surrarem-lhe o pêlo. E a caranguejola era uma espécie de jangada com várias pranchas pregadas umas às outras. Mas como era aí que ele vivia, em cima dela cabia tudo: manta para dormir, vários trastes de cozinha e às vezes roupa, como galhardetes de um navio, suspensa de um fio a secar. A proa, sentado no traseiro, viajava um cão a gozar a paisagem. E sentado no meio a tocar realejo, viajava ele. Na cidade e redondezas toda a gente o estimava muito. E como resolvera em quatro pranchas o problema da habitação e transportes, também toda a gente o admirava. Os garotos faziam-lhe uma festa quando ele aparecia com a viatura a tocar realejo:

- Eh, Fadista!

Fadista propriamente era o nome do cão. Mas como constituíam uma família e a vida do homem podia cantar-se no fado, o nome de Fadista ficou para ele. A garotada seguia-lhe a caranguejola a bater palmas, mas o homem nem ouvia. Só a polícia embirrava com ele porque, além de perturbar o trânsito, tinha a mania de parar às vezes em certo sítio da praça para catar o piolho. Podia catá-lo noutro lado. Não catava - era ali. Chegava mesmo a despir a camisa para uma pesquisa mais conscienciosa, menos sujeita à contingência da simples apalpação. E, certo dia, levado no entusiasmo da busca, acabou por desapertar outras peças de roupa que já não eram de desapertar. As senhoras que ~ passavam, passavam de olhos no chão ou bastante no ar para não olharem para ele depois de terem olhado. E como ele não sabia que as partes do corpo que se podem mostrar não eram todas as que ele mostrava, a polícia deitou-lhe a mão e levou-o ao posto para o esclarecer.

Teve-o lá um dia e uma noite. Mas o cão fazia um alarido infernal, e havia ainda o burro, De modo que, passada a noite e o dia, soltaram-no outra vez. E um dia que eu subia a rua para a repartição, descia-a ele outra vez para a vadiagem. Até que, depois de fazer a sua ronda por longe, voltou de novo a estabelecer-se na praça. Gostava de certo sítio onde batia o sol, sobretudo no tempo frio, parava o burro e estava ali. Como a caça ao piolho o levara à cadeia, já não caçava. Gostava era daquele sítio batido do sol e de ver a gente a passar. As vezes, quando chegava, atravancando quase toda a rua, os carros buzinavam à volta dele com uma fúria de canzoada, mas ele nem ouvia. Travava o burro, o cão à proa sentado no traseiro, ficavam os três ali, parados ao sol. De modo que as forças vivas da cidade, para clarearem um pouco o aspecto da praça e praticarem a justiça social, meteram-no no as!!? A caranguejola ficou encostada ao alto, no pátio, talvez para ser queimada por altura de mais frio, o cão andava aos ossos pela cozinha e o burro ajudava as carroças que por lá havia. Fadista estava outro, lavado à agulheta, tosquiado, metido numa farda grande de asilado. De uma vez que passei ao pé, lá o vi ao alto no muro, sentado ao sol com os colegas. Tinha um capote castanho com uma gola que lhe subia até ao queixo e um barrete de pala na cabeça.

- Eh, Fadista!

Ele rodou a cabeça devagar, fez-me um gesto brusco com o queixo como a mandar-me aonde não devia. Depois, como havia sempre outras coisas para lembrar, acabei por esquecê-lo. Até que um dia, subia eu a rua para a repartição, descia-a ele outra vez na caranguejola.

Foi o director do asilo que nos contou. Certa madrugada, apanhou o burro e o cão, endireitou a jangada e partiu. Foi passado ainda um mandado de busca ou de captura. Mas como o não encontraram e havia sempre outras coisas para buscar, também o esqueceram. Quando tempo depois voltou a aparecer, na praça, como havia muita coisa burocrática a pôr em andamento, largaram-no de mão. Assim Fadista se estabeleceu de novo na ordem da vida e voltou à praça outra vez. Os motoristas buzinavam à volta dele, diziam-lhe à passagem muitas ordinarices, ele nem ouvia. De modo que, muito tempo antes de ele tirar a camisa, já toda a gente voltava a escandalizar-se. E foi assim que, para aclarar a limpeza da praça e pôr em acção a justiça social, empalmaram-no outra vez e meteram-no outra vez no asilo. Um dia que eu passava cá em baixo do muro, lá o vi ao alto, sentado com uma farda nova entre os colegas. Por um impulso irresistível de solidariedade humana e porque já me fazia falta a sua passagem na rua, parei e disse-lhe lá para cima:

- Eh, Fadista!

Ele rodou o pescoço, olhou-me algum tempo cá em baixo e fez-me um gesto brusco com o queixo como a mandar-me aonde não achei bem que mandasse. Mas desta vez, como nos explicou no café o director do asilo, escavacaram-lhe a caranguejola e desfizeram-se para longe do burro e do cão para ele se não tentar outra vez. A cidade acabara por se interessar pelo vagabundo. Mas escavacado o seu meio de locomoção e havendo sempre coisas novas para lembrar, acabou outra vez por esquecê-lo. Eu, como tinha também sempre coisas novas a lembrar, acabei também outra vez por esquecê-lo.

Até que alguns meses depois, subia eu a rua para a repartição, descia-a ele de novo para a vadiagem. Vinha já de barbas numa caranguejola nova a quatro rodas, puxada por um jerico. Era um jerico muito velho, já com certa relutância em puxar, cheio de placas lazarentas no lombo surrado. A um impulso irresistível de simpatia humana, saudei-o com entusiasmo:

- Eh, Fadista!

Ele sentava-se no meio da jangada cheia de trastes velhos de cozinha tocando gaita-de-beiços, com roupa como galhardetes suspensa de um fio a secar. E postado à proa, sentado no traseiro, viajava um cão a gozar a paisagem. E pouco tempo depois estava outra vez na praça. Estava frio e havia lá um sítio onde batia o sol. Os motoristas deram urros quando o viram, porque a caranguejola era larga e atravancava o trânsito. Guinavam bruscamente com o volante para se desviarem dele e à passagem diziam-lhe tudo. Mas ele nem ouvia entretido a caçar o piolho. Chegou mesmo a abrir a camisa para uma busca mais meticulosa, e certa vez, largado no entusiasmo, foi descendo na procura até a sítios onde já não devia procurar. As forças progressivas da cidade puseram-se outra vez em andamento, mas teve de se esperar algum tempo para acertar a burocracia. Até que tudo se acertou, e um dia que ele passava na praça e nem sequer ficara ao sol, a polícia deitou-lhe a mão e todo o progresso da cidade rejubilou. Certa vez que eu passava cá em baixo do muro, lá o vi outra vez, sentado no parapeito, já metido no capote do fardamento, ao pé dos outros colegas. Por um impulso expansivo de calor humano gritei-lhe cá de baixo:

- Eh, Fadista!

Mas ele, dessa vez, nem me olhou. Tinha o queixo enterrado na gola do capote e assim ficou. Um pouco vexado de me não ligar importância, ao menos para me mandar aonde tinha o mau hábito de me mandar, voltei a berrar-lhe com mais força:

- Eh, Fadista!

As pessoas que passavam olhavam acima e abaixo a medirem-nos aos dois, sorriam e desandavam. E os colegas, desejosos de colaborar, olhavam-me também e tocavam-lhe com o cotovelo. Mas ele, embezerrado, não se mexeu. E um dia que eu voltei a passar ao muro, não o vi lá. Olhei de novo, não o vi lá. E outro dia que voltei a passar, também o não vi. E como a vida tem sempre coisas novas para pensarmos, deixei de pensar nele.

Até que um dia o director do asilo se veio sentar de novo à nossa mesa de café. Era um tipo muito alto e muito progressivo. Acomodou-se à mesa e, como o clube da terra tinha perdido, falou de futebol. Depois, como era muito progressivo e tinha um convívio diário com a justiça social, falou de justiça social. E então bruscamente lembrei-me do Fadista. Que era feito dele? Quando é que ele voltava a aparecer com a caranguejola? O homem, que era muito abonado em ironia, disse-me que de caranguejola? O Fadista? Só se fosse no Paraíso.

- Morreu - clamei eu, iluminado de evidência.

- Mas diga-me o meu amigo o que é que a gente havia de fazer. Nós a querer fazer-lhe bem, ele a teimar. A gente a lavá-lo, ele a encher-se de bicharia. A gente a querer a limpeza da cidade, ele a dizer que não. Foi assim.

- E morreu.

- A gente a querer o bem dele, ele a estragar.

- E matou-se. Enforcou-se.

- A gente a querer corrigir as injustiças sociais, ele a tramar-nos a vida. E desculpem que tenho agora uma reunião.

- E enforcou-se.

- Tenho agora uma reunião.

Levantou-se, tinha agora uma reunião. Estava um dia bonito. Havia sol na praça.


Vergílio Ferreira, in Contos,