25/05/2008

A Donzela e o Fantasma



Capítulo I

Quando o Senhor Hiram B. Otis, o Embaixador americano, adquiriu o Parque Canterville, não faltou gente a adverti-lo de que cometia uma loucura, porque na habitação apareciam, indubitavelmente, almas do outro mundo. Na verdade, o próprio Lorde Canterville, cujo carácter era dos mais exigentes em escrúpulos, supusera do seu dever sublinhar o fato, chegado o momento de discutirem as condições do negócio.
— Até nós mesmos tínhamos já muito pouca vontade de residir aqui — disse Lorde Canterville — desde que a minha tia-avó, a Duquesa donatária de Bolton, desmaiou de terror (ela nunca pôde restabelecer-se desse abalo moral) quando as mãos de um esqueleto lhe assentaram nas espáduas, numa ocasião em que se vestia para o jantar. Devo igualmente dizer-lhe, o Sr. Otis, que o fantasma tem sido visto por muitos membros ainda vivos da minha família, assim como pelo cura da paróquia, o Reverendo Augustus Dampier, agregado do King's College, em Cambridge. Depois do desgraçado acidente sucedido à Duquesa nenhum dos nossos criados novos quis manter-se ao serviço, e Senhora Canterville raramente conseguia conciliar o sono durante a noite por causa dos misteriosos ruídos vindos do corredor e da biblioteca.
— Lorde Canterville, — respondeu o Embaixador — eu sou comprador da propriedade e do fantasma pelo valor que lhes seja atribuído. Venho de um país moderno em que se tem tudo quanto o dinheiro pode obter. Não é certo que a nossa atrevida mocidade revoluciona o Velho Mundo? Não vos arrebatam as melhores actrizes e prime donne? Se existisse um fantasma na Europa, dentro em pouco o teríamos lá, estou convicto disso; ele seria exposto num dos nossos museus ou exibido nas ruas.
— Pois muito receio que o fantasma ainda, de fato, exista — disse, sorrindo, Lorde Canterville. — Pode ser que haja resistido às propostas dos vossos arrojados empresários. É bem conhecido desde há três séculos, precisamente a partir do ano de 1584, e nunca deixou de fazer a sua aparição em vésperas do falecimento de cada pessoa da nossa família.
— Oh! em todas as famílias o médico faz exactamente o mesmo, Lorde Canterville. Vamos, fantasmas, é coisa que não há. Não creio que as leis da natureza abram excepção a favor da aristocracia inglesa.
— Os senhores, na América, são, não há dúvida, muito naturais — comentou Lorde Canterville, sem bem compreender a última observação do Sr. Otis — e, se lhe é indiferente ter um fantasma de portas a dentro, estamos entendidos.
Passadas umas semanas a transacção estava concluída, e, já quase no termo da época, o Embaixador e a família foram instalar-se no Parque Canterville.
A Senhora Otis, em solteira, Senhorita Lucrécia R. Tappan, de West 53 rd. Street, havia sido célebre em Nova-Iorque pela sua beleza. Era agora mulher de meia idade, muito agradável, com belos olhos e soberbo perfil. Muitas americanas, ao abandonarem o país natal, dão-se ares de mulheres atingidas por um mal incurável, imaginando ser essa uma das formas da subtileza europeia; mas a Sr.ª Otis não caíra nunca em semelhante erro. Desfrutava uma compleição invejável e possuía maravilhoso equilíbrio animal. Em boa verdade e sob numerosos aspectos, era muito inglesa e oferecia excelente exemplo de que a Inglaterra e a América não têm hoje nada que as distinga uma da outra, salvo, bem entendido, a linguagem.
O filho primogénito, a quem, num impulso de patriotismo que ele jamais deixara de lamentar, os pais haviam posto o nome de Washington, era um rapaz de cabelos louros e muito bem encarado; parecia integralmente dotado para entrar na diplomacia americana, pois levava de vencida os Alemães, três estações a fio no casino de Newport. A reputação de exímio dançarino que havia conquistado precedera mesmo a sua chegada a Londres. As gardénias e o pariato eram as únicas fraquezas do seu espírito; abstraindo isso, mostrava ter muito bom-senso.
A Senhorita Virgínia E. Otis era uma mocinha de quinze anos, graciosa e ágil como corça recém-nascida e cujos olhos rasgados e azuis refletiam uma bela franqueza. Era uma admirável amazona. Certo dia batera, em corrida, o velho Lorde Bilton, dando duas voltas ao parque em cima do seu potro e ganhando por comprimento e meio, precisamente em frente da estátua de Aquiles, isto com grande enlevo do jovem Duque de Cheshire. O Duque logo nesse instante tinha pedido a mão dela, e, remetido nessa mesma tarde para o colégio pelos encarregados da sua educação, regressara a Eton derramando lágrimas torrenciais.
A seguir a Virgínia contavam-se os gémeos, correntemente designados por "os condenados ao açoite". Eram ambos adoráveis rapazinhos e, com o digno Embaixador, os únicos verdadeiros republicanos da família.
Como o Parque Canterville se encontra a sete milhas de Ascot, a estação ferroviária mais próxima, o Sr. Otis telegrafara no sentido de os irem buscar de carruagem; e, cheios de alegria, puseram-se todos a caminho.
Era por uma linda meia tarde de Julho, em que o aroma dos pinheiros embalsamava o ar. De quando em quando ouviam um pombo bravo arrulhar docemente, ou enxergavam, escondido entre os rumorosos fetos, o brilhante peitilho de plumagem de um faisão. À sua passagem, pequenos esquilos, no seio da rama das faias, ficavam-se a olhá-los, e, alçando a cauda branca, os coelhos fugiam a bom fugir através dos silvados ou galgavam os cômoros recobertos de musgo.
Todavia, na ocasião em que se entranhavam na alameda do Parque Canterville o céu cobriu-se subitamente de nuvens, uma calma estranha pareceu envolver a atmosfera, um bando de gralhas passou silenciosamente por cima deles e, antes que houvessem atingido a casa, começaram a cair grossas gotas de chuva.
Uma mulher já idosa acolheu-os no alto dos degraus. A maneira como se apresentava era irrepreensível. Envergava um vestido de seda preta, avental branco e touca desta mesma cor. Era a Sr.ª Umney, a governanta. A Sr.ª Otis, a instâncias de Senhora Canterville, consentira em conservá-la ao seu serviço. Quando puseram pé em terra, ela fez a cada um dos seus novos amos uma rasgada mesura e disse, com solenidade já desusada:
— Desejo que sejam bem-vindos ao Parque Canterville.
Seguiram-na e, depois de terem atravessado um belo átrio no estilo Tudor, entraram na biblioteca, sala de grande extensão, de tecto baixo e ao fundo da qual se via uma ampla janela com vitrais. Fora aí que se preparara o chá, e, após terem-se despojado das vestes de viagem, sentaram-se e puseram-se a olhar em volta, enquanto a Sr.ª Umney os servia.
De súbito, a Sr.ª Otis descobriu no soalho, nas peças de madeira embutidas, perto do fogão, uma mancha de tom vermelho escuro, e, longe de suspeitar o que aquilo significava, disse à Sr.ª Umney:
— Estou imaginando que caiu e alastrou ali qualquer coisa.
— Sim, minha senhora, — respondeu em voz baixa a antiga governanta — é sangue.
— Mas é horrível! — exclamou a Sr.ª Otis. — Não gosto nada de ver manchas de sangue nos salões. É necessário fazer desaparecer isso imediatamente!
A velhota sorriu e informou, na mesma voz baixa e misteriosa:
— É o sangue da Senhora Eleanor de Canterville, assassinada precisamente neste lugar pelo marido, Sir Simon de Canterville, em 1575. Sir Simon sobreviveu-lhe nove anos e desapareceu de súbito, em circunstâncias muito estranhas. O corpo dele nunca foi encontrado, mas o seu espírito culposo vagueia ainda por esta casa. A mancha de sangue provocou sempre o pasmo dos visitantes e dos turistas. De resto, não se pode fazer desaparecer.
— É absurdo! — exclamou Washington Otis —. O Pinkerton, o rei dos sabões para tirar manchas, fá-lo-á desaparecer num abrir e fechar de olhos.
E antes que a governanta, apavorada, pudesse intervir, Washington, pondo-se de joelhos, esfregava vigorosamente o piso com um pequeno bastão que se parecia com um cosmético negro.
Instantes depois a mancha desaparecera por completo.
— Eu sabia que o Pinkerton dava resultado! — proclamou o rapaz relanceando um olhar pela família, toda ela em atitude admirativa.
Mas, mal acabara de pronunciar aquelas palavras, iluminou por inteiro o sombrio compartimento um terrível relâmpago e um estrondoso ribombo de trovão fê-los erguerem-se bruscamente, ao passo que a Sr.ª Umney perdia os sentidos.
— Que monstruoso clima! — proferiu com serenidade o Ministro americano, acendendo um charuto. — Este vetusto país é, suponho, tão excessivamente povoado que não há bom tempo que chegue para todos os seus habitantes. Foi sempre opinião minha que a emigração era a única solução para a Inglaterra.
— Meu querido Hiram — gritou a Sr.ª Otis — que havemos de fazer de uma mulher que perde assim os sentidos?
— Suspender-lhe o ordenado quando tal suceda, de sorte que acabará por renunciar aos desmaios.
A Sr.ª Umney não deixou de voltar a si dentro em breve. Estava porém, indubitavelmente, muito comovida. Com ar grave, preveniu a Sr.ª Otis de que não tardariam a registar-se acontecimentos perturbadores.
— Tenho visto com os meus próprios olhos — asseverou ela — coisas de pôr os cabelos em pé, e durante noites sobre noites não tenho podido pegar no sono, por causa do que de terrível se passa aqui.
O Sr. Otis e a esposa afirmaram à boa mulher que não tinham medo de fantasmas, e depois de ter impetrado as bênçãos da Providência para os seus novos amos e procedido de jeito a obter aumento de salário, a velha governanta recolheu-se ao seu quarto coxeando levemente.


Capítulo II

Naquela noite a tempestade desencadeou-se com violência, mas nada aconteceu de particular. Todavia, na manhã seguinte, ao descer para o café da manhã, os Otis verificaram que a horrível mancha de sangue reaparecera.
— Seguramente, a culpa não é do sabão para tirar manchas — disse Washington — pois sempre o empreguei com êxito. Isto deve ser o fantasma.
E o rapaz conseguiu fazer desaparecer a mancha pela segunda vez; no dia seguinte, porém, ela estava de novo patente. No outro dia, a mancha lá se via, se bem que a biblioteca tivesse sido, na véspera à noite, fechada pelo Sr. Otis em pessoa, que levara a chave para o seu quarto.
O interesse de toda a família encontrava-se agora desperto. o Sr. Otis começou a suspeitar de que havia sido excessivamente dogmático ao negar a existência de fantasmas. Exprimiu o propósito de pedir a sua inscrição na Sociedade de Estudos Psíquicos, e Washington enviou uma extensa carta aos senhores Myers e Podmore, acerca da "Persistência de manchas de sangue após o crime".
Nessa noite todas as dúvidas a respeito da existência objectiva de espectro se dissiparam para sempre. O dia tinha estado quente soalheiro, e quando a proximidade da noite trouxe alguma frescura a família completa partiu para um passeio de carruagem. Não regressaram todos senão às nove horas e tomaram em seguida uma ligeira ceia. De modo nenhum a conversa incluiu a menor alusão a fantasmas, de maneira que se não poderiam pôr em causa essas preliminares condições de expectativa e auto-sugestão que tantas vezes precedem a aparição dos fenómenos psíquicos, Como o Sr. Otis mo contou mais tarde, a discussão apegou-se aos triviais assuntos que constituem a conversação dos americanos cultos da melhor sociedade: a superioridade imensa da Senhorita Fanny Davenport, como actriz, sobre Sarah Bernhardt; a dificuldade de obter milho verde, bolos de trigo mouro e polenta, mesmo nos melhores estabelecimentos ingleses; a importância de Boston no desenvolvimento do espírito universal; as vantagens do sistema de registo das bagagens; a suavidade da pronúncia das palavras em uso em Nova-Iorque comparada com o pronúncia arrastada de Londres. Nenhuma menção de coisas sobrenaturais. Nenhuma alusão a Sir Simon de Canterville. Dadas as onze horas, a família recolheu-se e, às onze e meia, todas as luzes estavam apagadas.
Decorrido um certo tempo, o Sr. Otis foi despertado por um ruído singular que vinha do corredor, perto do seu quarto. Dir-se-ia um tinido de metais que se entrechocam, e o ruído parecia de cada vez mais próximo. Levantou-se imediatamente, acendeu um fósforo e viu o relógio. Era uma hora em ponto. Muito calmo, o Sr. Otis tacteou o pulso. Não se tratava de febre. O ruído estranho continuava e, dentro em pouco, o Sr. Otis percebeu distintamente passos. Enfiou as pantufas, tirou do seu estojo de toilete uma garrafinha oblonga e abriu a porta.
Diante de si, à pálida claridade do luar, via um horrendo ancião. Os olhos dele, que se assemelhavam a carvões em brasa, lançavam clarões vermelhos. Caíam-lhe sobre os ombros os cabelos compridos cor de cinza, em madeixas emaranhadas. A roupa que vestia, de corte antigo, estava cheia de manchas e em farrapos. Pesadas cadeias, todas cheias de ferrugem, pendiam-lhe dos pulsos e dos tornozelos.
— Meu caro senhor, — disse o Sr. Otis — perdoe-me importuná-lo, mas é absolutamente necessário que unte essas correntes. Pensando na sua pessoa, peguei neste frasquinho de lubrificante. Dizem ser muito eficaz logo à primeira vez que se aplique. No prospecto junto achará muitos atestados dos mais eminentes sábios do país. Vou deixá-lo aqui, o frasco, junto dos candelabros, e sentir-me-ei deveras feliz em arranjar-lhe outro se tiver precisão dele.
Ao dizer isto, o Ministro dos Estados Unidos colocou o frasco sobre o tampo de mármore de uma mesa e, fechando a porta, voltou a meter-se na cama.
O Fantasma de Canterville ficou uns instantes imóvel, cheio de uma indignação bem natural; depois, arremessando violentamente o frasco ao chão encerado, sumiu-se ao longo do corredor a soltar grunhidos cavernosos e projectando em redor terrificantes clarões verdes.
Ao atingir, porém, o alto da grande escadaria de carvalho, abriu-se bruscamente uma porta, apareceram dois pequenos vultos vestidos de branco, e um rotundo travesseiro passou-lhe, zumbindo, rente à cabeça! Decididamente, não havia tempo a perder e, adoptando como rápido meio de salvação a quarta dimensão do espaço, esvaiu-se através do revestimento de madeira das paredes, após o que a habitação recuperou a sua calma.
Tendo alcançado uma alcouvazinha secreta situada na ala esquerda do edifício, apoiou-se, para retomar fôlego, num raio de luar e pôs-se a reflectir no que lhe acabava de suceder. Em toda a sua carreira de trezentos anos, brilhante e ininterrupta, nunca fora insultado tão grosseiramente. Recordou o estado de terror em que lançara a Duquesa donatária quando ela se contemplava ao espelho, taful de diamantes e rendas; as quatro criadas que haviam tido uma crise de nervos muito simplesmente porque ele, rindo escarninhamente, as espreitara através dos cortinados de um dos quartos de hóspedes; o cura da paróquia, cuja vela apagara com um sopro quando ele saía uma noite da biblioteca, onde se retardara um pouco mais, e que depois, vítima de acidentes nervosos, estivera a ser tratado por Sir William Gul; a velha Senhora de Tremouillac, a qual, tendo acordado de manhã muito cedo e visto um esqueleto sentado numa poltrona, junto do fogão, imerso na leitura do seu diário íntimo, foi obrigada a conservar-se de cama durante seis semanas, presa de uma febre cerebral. A Duquesa, logo que se vira curada, reconciliara-se com a Igreja, quebrando todas as relações com o Senhor de Voltaire esse céptico notório.
O fantasma lembrou-se também da terrível noite em que esse patife do Lorde Canterville foi encontrado no seu gabinete de vestir meio sufocado, com o valete de ouros no fundo da garganta; precisamente antes de morrer confessara ter trapaceado no jogo por meio dessa carta e roubado a Charles James Fox, em casa do Crockford, cinquenta mil libras esterlinas. O fantasma, jurava ele, obrigara-o a engolir a carta.
O fantasma de Canterville revia, em pensamento, as suas mais belas façanhas. Evocou o caso do mordomo que, na copa, se suicidara com um tiro de revólver por ter visto uma mão verde bater nos vidros; depois, e da bela Senhora Stufield, que se intimou a trazer sempre em volta do pescoço uma fita de veludo negro, para ocultar a marca que cinco dedos de fogo haviam imprimindo na sua pele branca de leite, e que acabara por se afogar no lago das carpas, ao fim da alameda do Rei.
Com o egoísmo entusiástico do verdadeiro artista, o fantasma passou em revista as suas realizações mais famosas. E com um sorriso cheio de azedume recordou-se da sua última aparição como "Ruben, o Vermelho", ou "O Bebê Estrangulado", da sua estreia no papel de "Gibeon, o Vampiro de Bexley Moor", e da agitação que provocara, numa encantadora tarde de Junho, jogando muito simplesmente o chinquilho com a sua própria ossada, em cima da grama do campo de ténis.
E, ao cabo de todos estes altos feitos, eis que uns miseráveis americanos modernos lhe vinham oferecer lubrificante e arremessar-lhe travesseiros à cabeça! Era verdadeiramente intolerável. Nunca fantasma nenhum fora tratado daquela maneira. Decidiu, pois, vingar-se; e até romper a aurora permaneceu em atitude de profunda meditação.


Capítulo III

Na manhã seguinte, durante o café da manhã, o fantasma constituiu o objecto de prolongada discussão. O Embaixador dos Estados-Unidos estava, como é natural, um pouco aborrecido por ver que a sua dádiva não tinha sido aceite.
— De modo nenhum tive a intenção de dirigir ao fantasma uma injúria pessoal, e, sendo certo que ele reside na casa há tantíssimo tempo, vocês devem confessar que é muito pouco delicado atirar-lhe travesseiros à cabeça...
Lamento ter de declarar que, perante esta justa advertência, os gémeos desataram às gargalhadas.
— Por outro lado — prosseguiu o ministro — se ele se recusa, teimosamente, a empregar o lubrificante, teremos de confiscar-lhe as cadeias. É impossível dormir, com um barulho assim no corredor!
Mas durante todo o resto da semana o fantasma não os incomodou absolutamente nada. A coisa única a excitar a atenção era o reaparecimento contínuo da mancha de sangue no soalho da biblioteca. E essa era uma estranha coisa, porque o Sr. Otis fechava a porta à chave todas as tardes e mandava correr bem as janelas. O fato de a mancha mudar tantas vezes de tom como um camaleão provocava igualmente numerosos comentários. Em determinadas manhãs, aparecia de um vermelho escuro, quase um vermelho indiano; no dia seguinte, era um rubro retinto; no outro dia, era um violeta sumptuoso; e até uma vez, quando os Otis todos desceram para as orações familiares, conforme os ritos cheios de simplicidade da Igreja Livre Americana Reformada e Episcopal, verificaram que a mancha era de um verde-esmeralda esplendente. É bem de ver, estas mutações caleidoscópicas divertiam muito a família; e, todas as noites, estabeleciam-se apostas a seu respeito. A única pessoa que não tomava parte na brincadeira era a pequena Virgínia, que, por qualquer ignota razão, parecia sempre consternada ao ver a mancha de sangue e esteve pertíssimo de desatar a chorar na manhã em que a mancha apareceu no tom verde-esmeralda.
A segunda aparição do fantasma efectuou-se no Domingo à noite. Pouco tempo depois de se terem metido na cama, foram de súbito alarmados por um medonho estrondo vindo do vestíbulo. Descendo precipitadamente a escada, verificaram que uma grande e antiga armadura, despegada da sua peanha, fora projectada para o lajedo, enquanto o Fantasma de Canterville, sentado numa cadeira de alto espaldar e com uma expressão de angústia, esfregava os joelhos.
Os gémeos, que se tinham munido das suas zarabatanas, descarregaram imediatamente dois pequenos projécteis sobre o fantasma, com essa precisão de pontaria que só longos e sérios exercícios, tendo por alvo um professor de escrita, pode dar, enquanto o Ministro dos Estados-Unidos, mantendo-o sob a ameaça do seu revólver, lhe intimava, segundo a etiqueta, que pusesse as mãos ao alto.
O fantasma levantou-se bruscamente, com um medonho grito de raiva, e deslizou por entre eles todos tal qual um nevoeiro, apagando na sua passagem a vela de Washington Otis e deixando-os em escuridão completa.
Ao alcançar o cimo da escadaria o fantasma recobrou ânimo e decidiu soar o famoso carrilhão de risos demoníacos, cuja utilidade mais de uma vez havia experimentado. Contava-se que aquilo fizera embranquecer, no decurso de uma noite apenas, a cabeleira postiça de Lorde Raker, e que provocara a demissão de três das governantas francesas da Senhora Canterville antes de findo o seu primeiro mês de serviço. Por conseguinte, riu com o seu riso mais horroroso, até o velho teto abobadado repercutir com o estrépito desse riso infernal. Mas, mal extinto o último eco, abriu-se uma porta e a Sr.ª Otis apareceu embrulhada num roupão azul pálido.
— Receio que o senhor não esteja bem de saúde. Trago-lhe aqui um frasco de tintura do Doutor Dobell. Se é uma indigestão, verá que o remédio é excelente.
O fantasma fixou-a, cheio de fúria, e esteve prestes a transformar-se num cãozarrão negro, realização que lhe tinha valido um justo renome e ao qual o médico da família atribuía sempre a idiotia incurável do tio de Lorde Canterville, o nobre Thomas Horton. Mas um rumor de passos que se aproximavam fizeram-no hesitar no cruel projecto. Contentou-se em tornar-se levemente fosforescente, e esvaiu-se com um grunhido sepulcral no momento preciso em que os gêmeos chegavam à altura em que se encontrava.
Tendo regressado ao seu quarto, num enorme abatimento, dentro em pouco apossou-se dele a mais violenta agitação. O desplante dos gémeos e o materialismo grosseiro da Sr.ª Otis eram, sem sombra de dúvida, extremamente aborrecidos; mas o que o consternava mais era não ter podido envergar a armadura. Acrisolara suas esperanças em que até mesmo uns americanos modernos não deixariam de perturbar-se à vista de um espectro com armadura guerreira, senão por inteligentes razões ao menos por respeito por Longfellow, seu poeta nacional, cujos versos graciosos e cheios de encanto o tinham ajudado mais de uma vez a passar o tempo durante a ausência dos Canterville. Para mais, era a sua própria armadura. Ostentara-a com grande êxito no torneio de Kenilworth e recebera os mais calorosos cumprimentos da Rainha-Virgem em pessoa. Mas quando quisera, agora, enfiar a armadura, fora de todo em todo esmagado pelo peso da enorme couraça e do elmo de aço, e caíra desamparadamente sobre o lajedo, esfolando a valer os dois joelhos e contundindo as articulações da mão direita.
Esteve doente durante muitos dias e não saiu do quarto senão para manter a mancha de sangue. Todavia, com grandes cuidados, restabeleceu-se e resolveu fazer terceira tentativa para aterrorizar o Ministro dos Estados Unidos e sua família. Escolheu a sexta-feira, 14 de Agosto, para a nova aparição, e ocupou a maior parte desse dia a passar em revista o seu guarda-roupa. Optou, por fim, por um chapéu de abas largas ornado de uma pluma vermelha, um sudário recortado nos punhos e no pescoço e uma adaga ferrugenta.
No decurso do serão surdiu uma violenta tempestade. O vento soprava tão forte que sacudia janelas e portas da velha moradia. Era exactamente este o tempo de que o fantasma gostava. Eis o plano em que assentara. Iria de manso e manso até ao quarto de Washington Otis; junto do leito, soltaria gritos e enterraria três vezes a adaga na sua própria garganta, ao som de uma lânguida música. Alimentava uma razão de queixa especial contra Washington, por saber muito bem, como sabia, que era ele quem, com o seu sabão para tirar manchas, fazia incessantemente desaparecer a famosa mancha de sangue dos Cantervilles. Após ter submetido o descuidado e audacioso rapaz a um estado de abjeto terror, dirigir-se-ia então ao quarto ocupado pelo Embaixador dos Estados Unidos e sua mulher; pousaria na testa da Sr.ª Otis a mão cheia de visco, ao mesmo tempo que insinuaria ao ouvido do esposo, todo ele numa tremura, os horríveis segredos de além-túmulo.
Quanto à pequena Virgínia, ainda nada decidira. Era meiga e bonita e nunca o insultara. Alguns grunhidos roucos e profundos vindos de dentro do guarda-roupa seriam, pensou, mais do que suficientes, e se por acaso eles a não despertassem poderia puxar com os dedos descarnados e trémulos o couvre-pied da rapariguinha.
Na parte concernente aos gémeos estava deveras decidido a dar-lhes uma lição. Naturalmente, a primeira coisa a fazer era sentar-se sobre o peito deles, de maneira a produzir a sufocante sensação do pesadelo; depois, ficando as suas camas tão juntinhas, surgiria de permeio sob a forma de um cadáver verde e gelado, até que os irmãos se pusessem paralíticos de medo; por último, despojando-se do sudário, rojar-se-ia em volta de todo o aposento com a sua ossada embranquecida, fazendo ao mesmo tempo girar as meninas dos olhos, numa imitação de "Daniel o Mudo", ou o "Esqueleto do Suicida", papel no qual produzira grande efeito em muitíssimas ocasiões e a que atribuía a mesma importância que à sua famosa personagem de "Martinho, o Louco" ou "0 Mistério Mascarado".
Às dez horas e meia percebeu que a família ia se deitar. Esteve um bocado de tempo perturbado pelas sonoras risadas dos gémeos, os quais, com a descuidada alegria de estudantes, certamente se divertiam antes de se enfiarem na cama. Mas às onze e um quarto tudo estava em sossego e, ao soar a meia-noite, ele partiu para a sua expedição.
O mocho vinha roçar as asas nos vidros das janelas, o corvo crocitava no cimo do velho teixo e o vento vagueava em volta da casa, gemendo como alma penada. Mas a família Otis dormia, inconsciente do seu destino, e o cadenciado ressonar do Ministro dos Estados Unidos cobria o ruído do temporal. O fantasma esgueirou-se para fora da madeira das paredes sem dar sinal de si. Sobre a sua boca murcha e cruel desenhava-se um aflitivo sorriso, e a lua escondeu-se por detrás de uma nuvem quando ele passou junto da grande janela ogival ornada de um brasão azul e ouro, que representava as suas próprias armas e as da sua mulher assassinada. Deslizava como uma sombra funesta e até as trevas pareciam odiá-lo. De súbito, supôs ouvir alguém a chamá-lo. Deteve-se; mas apenas o latido de um cão subia da Granja Vermelha. Prosseguiu caminho, resmungando pragas do século dezasseis e brandindo de quando em quando a adaga corroída de ferrugem.
O Fantasma atingiu, por fim, o recanto do corredor que conduzia ao quarto do infortunado Washington. Parou um instante. O vento sacudia-lhe as madeixas compridas de cor de cinza e fazia ondular de maneira grotesca e fantástica o sudário de morto. O quadro inspirava indizível horror. O relógio soou então o quarto de hora. Compreendeu que tinha chegado o momento. Soltou, baixinho, uma risadinha de escárnio e transpôs a esquina do corredor. Mas, mal tinha dado aí um passo, logo recuou com um lamentoso gemido de terror e logo também ocultou nas suas mãos ossudas a face macilenta.
Diante de si erguia-se um horrível espectro, tão imóvel como uma figura de pedra, tão monstruoso como o sonho de um louco. A cabeça dele era calva e luzidia, a face redonda, gorda e branca. Um riso ignóbil parecia ter-lhe contorcido as feições numa expressão eterna de zombaria. Dos olhos escorriam-lhe clarões escarlates. A boca era um largo poço de fogo e uma horrenda vestimenta, semelhante à sua, envolvia de longas pregas brancas o vulto titânico. Um letreiro contendo uma inscrição em caracteres estranhos e antigos ornava-lhe o peito: sem dúvida, um certificado de infâmia, a narrativa de medonhas faltas, uma lista de crimes espantosos. Com a mão direita, brandia um gládio de aço brilhante.
Nunca tendo visto, até à data, nenhum fantasma, sentiu naturalmente um grande pavor. Lançou, rápido, outro olhar ao terrível espectro e desatou a fugir para o seu quarto, tropeçando, ao seguir pelo corredor, no longo sudário que trazia. Por último, deixou cair a adaga ferrugenta dentro das grossas botas do Embaixador, onde o mordomo a foi encontrar no dia seguinte de manhã.
Uma vez no refúgio da sua alcova, atirou-se para cima da estreita cama de lona e enterrou o rosto nos lençóis. Mas transcorrido um algum tempo a antiga coragem dos Cantervilles recuperou os seus direitos. Decidiu ir falar com o outro fantasma, logo que nascesse o dia. E apenas a aurora prateou as colinas, voltou ao lugar onde havia, pela primeira vez, lançado os olhos sobre o formidável espectro, raciocinando que, no fim de contas, dois fantasmas valiam mais do que um, e que com a ajuda do seu novo colega talvez vencesse melhor os gêmeos.
Mas quando ali se encontrou, no mesmo lugar, um horrível espectáculo feriu seus olhos. Era de todo evidente que acontecera qualquer coisa ao fantasma, porque a luz lhe desaparecera completamente das órbitas, o gládio brilhante escorregara-lhe da mão e o corpo encostava-se à parede numa atitude de constrangimento e incómodo.
Precipitou-se para ele e tomou-o nos braços. Mas, com assombro seu, a cabeça do outro rolou para o chão; o corpo foi-se também abaixo, e percebeu que estreitava apenas um cortinado de cama, de fustão branco, ao mesmo tempo que uma escova de cabo, uma machada de cozinha e um nabo oco lhe jaziam aos pés. Incapaz de compreender esta curiosa transformação, pegou no letreiro com pressa febril e, à luz fosca da aurora, leu estas palavras abomináveis:

O FANTASMA OTIS

é o único, autêntico e original
Desconfiem de falsificações!...
Como num relâmpago, compreendeu tudo. Tinham-lhe pregado uma partida! A característica expressão, dos Cantervilles perpassou-lhe nos olhos; cerrou as maxilas sem dentes e, levantando muito alto, acima da cabeça, as mãos descarnadas, jurou, segundo a fraseologia pitoresca da escola antiga, que, quando o galo fizesse ouvir mais duas vezes o seu alegre apelo, haviam de dar-se ali acontecimentos sangrentos e a morte deslizaria por aqueles lugares em silenciosos passos.
Mal formulara este terrível juramento, subiu, à distância, de uma granja coberta de telhas vermelhas, a voz de um galo. O fantasma soltou um prolongado e amargo riso e esperou. Hora após hora, esteve à espera; mas, por qualquer razão estranha, o galo não repetiu o canto. Por fim, às sete e meia, a chegada dos serviçais obrigou-o a abandonar o seu horrível posto de sentinela. Regressou ao quarto a passos lentos, a meditar na sua vã esperança e no seu abortado plano. Consultou então muitas obras a que dedicava particular apreço e que tratavam da antiga cavalaria. Aí verificou que, de todas as vezes que tal juramento havia sido formulado, sempre o galo cantara a segunda vez.
— Diabos levem aquele maldito volátil! — resmungou ele. — Ah! não me encontrar ainda no tempo em que, com minha intrépida lança, lhes trespassaria a goela e o teria obrigado a cantar só para mim até perder o sopro!
Depois estendeu-se num confortável ataúde de chumbo, em que permaneceu até o cerrar da noitinha.


Capítulo IV

No dia imediato o fantasma estava muito fraco e muito cansado. Começava a ressentir-se dos efeitos da medonha agitação das quatro últimas semanas. Com os nervos quebrados, até o menor ruído o sobressaltava. Não saiu do quarto durante cinco dias e decidiu por fim renunciar à mancha de sangue no chão da biblioteca. Se a família Otis não queria aquilo, claro estava que nem por sombras era digna do caso. Com plena evidência, essas pessoas viviam num plano de existência de baixo materialismo e eram em absoluto incapazes de apreciar o valor simbólico dos fenómenos sobrenaturais. O assunto das aparições espectrais e o desenvolvimento dos corpos astrais eram, sem dúvida, coisas diferentes e alheias à atenção daquela gente. Ele, fantasma, tinha como missão, como missão solene, aparecer no corredor uma vez por semana e ulular através de um janelão em ogiva na primeira e na terceira quartas-feiras do mês, e não via maneira de poder subtrair-se honrosamente às suas ocupações. A sua vida, é certo, fora culposa; mas, por outro lado, ele era rigidamente escrupuloso em tudo quanto se relacionava com o sobrenatural.
Três sábados a fio o fantasma atravessou, portanto, o corredor como de costume, entre a meia-noite e as três da manhã, tomando mil precauções para não ser visto nem ouvido. Tirou os sapatos, pisou tão levemente quanto possível as faixas do parquete roídas pelo caruncho, enrolou-se num amplo manto de veludo negro e decidiu-se a empregar o lubrificante para untar as suas cadeias. É-me forçoso reconhecer que não foi sem dificuldade que veio a adoptar este derradeiro meio de protecção; mas, uma noite e à hora em que a família da casa se preparava para ir jantar, introduziu-se nos aposentos do Sr. Otis e lançou mão do respectivo frasco. Ao fazê-lo experimentou, a princípio, um pouco de humilhação, mas logo adquiriu a inteligência bastante para se inteirar de que a invenção estava longe de ser má e de que, até certo ponto, lhe favorecia os planos.
Apesar de tudo, não o deixavam, entretanto, em paz. Estendiam constantemente cordas no corredor, nas quais, quando estava escuro, tropeçava; e uma vez em que se encontrava vestido para desempenhar o papel do "Negro Isaque" ou "O Caçador de Hogley Woods", sofreu uma queda muito grave sobre um resvaladouro que os gémeos haviam armado e que ia desde a Sala das Tapeçarias até ao cimo da escada de carvalho. Esta última afronta pô-lo em tamanha fúria que resolveu fazer um derradeiro esforço a fim de restabelecer a sua dignidade e a sua posição social. Decidiu pois uma visita, para a noite imediata, aos juvenis e insolentes colegiais de Eton, no seu famoso disfarce de "Ruperto, o Arrisca-Tudo" ou "O Conde-sem-Cabeça".
O Fantasma já não fazia qualquer aparição mascarado desta maneira desde mais de setenta anos atrás, precisamente desde que, assim vestido, aterrorizara a gentil Senhora Bárbara Modish, ao ponto de ela ter rompido bruscamente as promessas de noivado com o avô do Lorde Canterville actual e fugido para Gretna Green com o belo Jack Castleton, declarando que nada deste mundo a decidira a entrar numa família que deixava um tão horroroso fantasma percorrer o terraço, ao cerrar-se o crepúsculo. Mais tarde, o pobre Jack foi morto em duelo por Lorde Canterville em Wandsworth Common, e a Senhora Bárbara, com o coração despedaçado, morreu em Tunbridge Wells antes de findo esse mesmo ano; de sorte que, sob todos os aspectos, fora um esplêndido êxito.
Todavia, tratava-se de uma "composição" extremamente difícil (se me é permitido usar esta expressão de teatro a propósito de um dos maiores mistérios do sobrenatural, ou, para empregar um termo científico, do mundo supra-normal), e foram-lhe precisas três boas horas para executar os preparativos. Tudo se aprontou, finalmente. Estava muitíssimo satisfeito com o seu aspecto. As altas botas de montar que condiziam com o trajo eram um tanto largas de mais para ele, e não tinha podido achar senão uma das pistolas dos coldres da sela; mas, em suma, estava muito contente, e, à uma hora e um quarto, deslizou através do forro de madeira e desceu suavemente para o corredor. Chegado ao quarto que os gémeos ocupavam (designavam-no por "o quarto azul", por causa do tom das pinturas), encontrou a porta entreaberta. Querendo fazer uma entrada de pleno efeito, empurrou bruscamente a porta, mas o conteúdo de um grande balde de água entornou-se em cima dele e o próprio balde, ao cair, roçou-lhe pela espádua esquerda. No mesmo instante, risadas que alguém procurava reprimir subiram dos leitos de colunas. O abalo nervoso que experimentou foi tamanho que desatou a fugir para o seu esconderijo com a maior celeridade. No dia seguinte, muitíssimo resfriado, teve de conservar-se na cama. A consolação única que lhe restava era de não ter levado a sua própria cabeça nesta expedição; de contrário, a imprudência poder-lhe-ia ter acarretado as mais graves consequências.
O fantasma abandonou então toda a esperança de assustar aquela grosseira família americana e contentou-se, afinal, com percorrer de pantufas de solas de feltro os corredores, o pescoço envolvo num espesso cachecol vermelho por causa das correntes de ar e empunhando um bacamartezinho com receio de ser atacado pelos gémeos. Foi em 19 de Setembro que ele recebeu o golpe final.
O fantasma descera ao vasto hall de entrada, certo de que aí ninguém o molestaria, e divertia-se a alvejar com observações satíricas as grandes fotografias do Ministro dos Estados Unidos e de sua mulher, assinadas por Saroni, que haviam substituído os retratos da família dos Cantervilles. Vestia-o um longo sudário, muito simples mas decente, salpicado de manchas de lama vinda do cemitério. Atara os queixos com uma ligadura de tela amarelada e segurava uma pequena lanterna e uma enxada de coveiro. Numa palavra, estava disfarçado para o papel de "Jonas, o Morto sem Sepultura", ou "O Ladrão de Cadáveres de Chertsey Barn", uma das suas mais notáveis criações, da qual ora os Cantervilles tinham excelentes razões para se lembrar, porque fora essa a verdadeira origem do pleito com o seu vizinho, Lorde Rufford.
Eram aproximadamente duas horas e um quarto da manhã. O fantasma poderia afirmar que todos os moradores da casa repousavam. Mas ao dirigir-se, em ar de passeio, para a biblioteca, no fito de ver se ainda restava qualquer vestígioda mancha de sangue, saltaram de súbito sobre ele, de um recanto escuro, dois vultos que agitavam ferozmente os braços por cima da cabeça e lhe berravam "U-u! U-u!" aos ouvidos.
Tomado de pânico, o que em tais circunstâncias era muitíssimo natural, precipitou-se para a escadaria: aí, porém, esperava-o Washington com a grande mangueira do jardim. Cercado de todos os lados pelos inimigos, literalmente encurralado, desapareceu no interior da enorme lareira, que, felizmente para si, não estava acesa. Teve de abrir caminho através dos canos e das chaminés e alcançou o seu quarto num lamentável estado de sujidade, desarranjo e desespero.
Após esta aventura renunciou às expedições nocturnas. Os gémeos muitas vezes se esconderam à sua espera e, todas as noites, juncavam de cascas de nozes os corredores, coisa que aborrecia bastante os país e os criados; mas foi tudo inútil. Era manifesto que o fantasma, ferido em seus sentimentos, se recusava a aparecer. Em consequência, o Sr. Otis retomou a sua grande obra sobre a "História do Partido Democrático", em que trabalhava havia uma porção de anos. A Sr.ª Otis organizou um maravilhoso prato de frutos do mar, que causou espanto em toda a região. Os rapazes dedicaram-se ao cross, ao écarté, ao poker e a outros jogos nacionais americanos. E Virgínia percorreu no seu poldro todos os caminhos circunvizinhos, em companhia do Duque de Cheshire, que tinha vindo passar no Parque Canterville a sua última semana de férias. Supôs-se, naturalmente, que o fantasma abalara dali, e o Sr. Otis escreveu a Lorde Canterville a informá-lo do caso. Este respondeu que a notícia lhe dava grande prazer, e enviou os seus cumprimentos à digna esposa do Ministro.
Mas os Otis enganavam-se, porque o fantasma permanecia ainda na casa e, se bem que estivesse agora quase inválido, não tinha de forma nenhuma a intenção de ficar quieto, sobretudo desde que soube que, entre os convidados, se encontrava o Duquezinho de Cheshire, cujo tio-avô, Lorde Francis Stilton, apostara um dia cem guinéus em como jogaria aos dados com o fantasma de Canterville, vindo a ser encontrado, na manhã seguinte, estendido no chão da sala de jogo completamente paralítico. Não obstante ter vivido até avançada idade, nunca mais pôde dizer senão isto: "duplo-seis!".
A história era bem conhecida na época em que sucedera o caso; mas, para poupar o sentimento de duas famílias nobres, tudo foi tentado para abafar a coisa. Todavia, encontrar-se-á uma sua narrativa pormenorizada no terceiro volume da obra de Lorde Tattle: "Memórias Relativas ao Príncipe Regente e seus Amigos".
Era, por conseguinte, natural que o fantasma quisesse provar que não tinha perdido a influência sobre os Stilton, aos quais o unia um parentesco afastado, devido a uma sua prima-irmã ter casado em segundas núpcias com o Senhor de Bulkeley, de quem os Duques de Cheshire, como se sabe, descendem em linha directa. Consequentemente, tomou as suas disposições para aparecer ao juvenil enamorado de Virgínia na sua célebre criação do "Monge Vampiro", ou "O Beneditino Exangüe", espectáculo horrível que a velha Senhora Startup, ao dar com os olhos nele, o que lhe sucedeu nessa fatal véspera do ano de 1764, desatou nos mais dilacerantes gritos, que terminaram por um ataque de apoplexia; morreu três dias depois, não sem ter deserdado os Canterville, seus mais próximos parentes, e deixado todo o dinheiro que possuía ao seu boticário de Londres.


Capítulo V

Passados dias, andavam Virgínia e o seu apaixonado de cabelos em caracóis a percorrer a cavalo as pradarias de Brockley, eis senão quando a mocinha, sentindo-se presa numas urzes, rasgou o vestido de amazona tão desastradamente, que, ao reentrar em casa, decidiu tomar a escada secreta para que ninguém lhe pusesse a vista em cima. Ao passar, porém, a correr, diante da Sala das Tapeçarias, cuja porta precisamente estava aberta, julgou perceber a presença de alguém no interior. Vindo-lhe à ideia que seria a criada de quarto da mãe, a qual às vezes ia para ali costurar, entrou para pedir à mulher que lhe consertasse a saia.
E, com imensa surpresa sua, Virgínia viu o Fantasma de Canterville em pessoa! Estava sentado junto da janela, a contemplar o ouro das árvores amarelentas, a ver as folhas rubras rodopiarem como loucas na grande alameda. A cabeça apoiada na mão, toda a sua atitude traía uma depressão extrema. Na verdade, ele apresentava um ar tão desolado e tão lamentável, que a pequena Virgínia, cujo primeiro movimento foi fugir e encerrar-se no quarto, tomada logo de piedade resolveu tentar reconfortá-lo. Os passos de Virgínia eram tão leves e a melancolia do fantasma tão profunda, que este não teve consciência.
— Sinto-me contristada por sua causa — disse Virgínia — os meus irmãos voltam amanhã para Eton e, se o senhor se portar bem, ninguém o atormentará.
— Pedirem-me que me porte bem! Mas é absurdo! — respondeu ele com os olhos escancarados de espanto à vista daquela gentil donzelinha que ousava dirigir-se-lhe. — É completamente absurdo! É imprescindível que eu faça ranger as minhas cadeias e ulule pelos buracos das fechaduras e passeie por aí de noite, se é a isto que a menina faz alusão. Essa é a minha única razão de existência.
Mas, à última hora, o terror que lhe causavam os gêmeos impediu o fantasma de abandonar o seu quarto. E, na câmara real, o Duquezinho dormia em paz no vasto leito de baldaquino ornado de plumas e sonhava com Virgínia.
— Isso não e uma razão de existência, e o senhor bem sabe que tem sido muito mau. A Sr.ª Umney disse-nos, no dia da nossa chegada aqui, que o senhor matou a sua mulher.
— Bem, concordo — disse com vivacidade o fantasma —; mas trata-se de um assunto de família com o qual os outros nada têm.
— É muito mal feito matar alguém — insistiu Virgínia, que, vezes, mostrava uma encantadora expressão de gravidade puritana, herdada de qualquer antepassado da Nova Inglaterra.
— Oh, detesto esse corriqueiro rigor da ética abstrata! Minha mulher era feia, não engomava nunca convenientemente a minha gola de folhos e não entendia nada de cozinha. Olhe, eu tinha matado um veado nos bosques de Hogley, um veadozinho magnífico. Quer saber como ela o fez aparecer à mesa? Mas que importa o caso, presentemente?! Tudo isso acabou. Não creio, porém, que fosse muito bonito da parte de seus irmãos fazerem-me morrer de fome, embora eu a tenha matado.
— Fazê-lo morrer de fome? Oh, senhor Fantasma... quero dizer, Sir Simon... o senhor tem fome? Tenho ali um sanduíche. Quere-a?
— Não, obrigado, já não como nada, agora. Mas é, apesar de tudo, muita amabilidade da sua parte. A menina é muito mais gentil do que o resto da sua horrenda família, grosseira, vulgar, indigna!
— Cale-se! — bradou Virgínia batendo com o pé no chão. — Quem é grosseiro, horrendo e vulgar, é o senhor; e, quanto a indignidade, sabe perfeitamente que foi o senhor quem roubou os tubos de tinta da minha caixa de pintura para tentar avivar essa ridícula mancha de sangue na biblioteca. Primeiramente, deitou mão a todos os meus vermelhos, sem esquecer o vermelhão, e tive de deixar de pintar o pôr do Sol; depois arrebatou o verde-esmeralda e o amarelo cromo; e, finalmente, só me restavam o anil e o branco da China, de modo que só podia pintar paisagens à luz do luar, que deprimem tanto quando as olhamos e que são tão pouco fáceis de executar. Eu nunca disse nada contra o senhor; contudo, andava muito aborrecida e tudo aquilo era bastante ridículo. Já se viu sangue de tom verde-esmeralda?
— Mas — disse o fantasma acalmando-se um pouco —, que hei-de fazer? Nestes nossas dias, é muito difícil encontrar sangue verdadeiro e, visto que foi o seu irmão a começar com o tira-manchas, não vejo motivo para não lançar mão das tintas que lhe pertencem. Quanto à cor, é simples questão de gosto: os Cantervilles, por exemplo, têm sangue azul, o mais azulado de Inglaterra, mas sei que vós outros, os americanos, troçais a valer de tudo isto.
— O senhor nada sabe a esse respeito, e o melhor que tem a fazer é emigrar, para cultivar o espírito. Meu pai não deixará de sentir-se muitíssimo feliz em lhe conseguir uma passagem gratuita. O senhor não encontrará dificuldade alguma na alfândega, onde todos os funcionários são democratas. Uma vez em Nova Yorque, alcançará o maior dos êxitos. Conheço uma porção de gente que daria cem mil dólares para ter um antepassado, e ainda mais para ter um fantasma na família.
— Tenho a convicção de que não gostaria da América.
— Porque, suponho, não temos lá ruínas, nem curiosidades — disse Virgínia ironicamente.
— Nem ruínas! Nem curiosidades! — replicou o fantasma — Mas tendes a vossa marinha e essas vossas maneiras!
— Adeus! Vou pedir ao meu papai que conceda aos gêmeos uma semana suplementar de férias.
— Não, não vá, Senhorita Virgínia! — implorou o fantasma. — Estou tão só e tão desgraçado e não sei verdadeiramente o que fazer. Quero dormir e não posso.
— Mas isso é absurdo! Basta deitar-se e soprar a vela. Às vezes é difícil a gente manter-se acordada, na igreja sobretudo, mas é coisa bem fácil dormir. Até os bebês sabem isso; todavia, não são muito inteligentes.
— Há trezentos anos que não durmo, — disse ele com tristeza (os belos olhos azuis de Virgínia dilataram-se de espanto). — Há trezentos anos que não durmo, e estou tão cansado!
O rosto de Virgínia tornou-se grave e os labiozinhos puseram-se-lhe a tremer como pétalas de rosa. Aproximou-se do espectro e, ajoelhando-se junto dele, ergueu os olhos para a velha face pergaminhanda.
— Pobre, pobre fantasma! — murmurou — Não há então lugar onde possa dormir?
— Além em baixo, para lá do pinhal — respondeu ele numa voz lenta e meditativa —, há um jardinzinho. A erva cresce ali, espessa e alta, salpicada das grandes estrelas brancas da cicuta, e o rouxinol canta lá toda a noite. Toda a noite ali canta o rouxinol, e a fria lua de cristal reclina-se para ver melhor, e o cipreste estende seus braços gigantescos sobre os dormentes.
Os olhos de Virgínia velaram-se de lágrimas e ela escondeu o rosto nas mãos.
— Quer aludir ao jardim da Morte — murmurou.
— Sim, da Morte! A morte deve ser tão bela! Repousar na terra doce e escura, tendo as ervas a ondular por cima de nós, e escutar o silêncio! Não ter ontem nem amanhã! Esquecer o tempo! Esquecer a vida, estar em paz! A menina pode ajudar-me. Pode abrir para mim as portas da casa da Morte, porque traz o Amor consigo e o Amor é mais forte do que a Morte.
Virgínia pôs-se a tremer, percorreu-a toda um frémito gelado e, durante momentos, fez-se silêncio. Tinha a impressão de estar sonhando um terrível sonho.
O fantasma voltou então a falar, e a sua voz ressoava como um suspiro do vento.
— Já leu alguma vez a velha profecia inscrita nos vitrais da biblioteca?
— Oh, muitas vezes! — exclamou a donzelinha erguendo os olhos. — Conheço-a muito bem. Está pintada em curiosas letras a negro e é difícil de ler. São apenas seis versos:
Quando uma criança de coração puro conseguir
Colher dos lábios pecaminosos uma prece,
Quando a estéril amendoeira florescer,
Quando dos olhos puros brotar uma lágrima,
Esta casa ficará para todo o sempre tranquila
E a Graça voltará a Canterville.
"Mas não sei o que isto quer dizer".
— Quer dizer — respondeu ele tristemente — que a menina deve chorar comigo pelos meus pecados, porque eu já não tenho lágrimas, e rezar comigo pela minha alma, porque nada me resta de fé. Então, se tiver sido sempre meiga e boa, o Anjo da Morte terá piedade de mim. Há-de ver, na escuridão, vultos horríveis, vozes maldosas falar-lhe-ão ao ouvido, mas não sofrerá mal nenhum porque o Inferno nada pode contra a pureza de uma criança.
Virgínia não respondeu e o fantasma torceu as mãos com desespero, baixando o olhar sobre a cabeça coroada de cabelos de ouro reclinada perto dele. A jovem ergueu-se de súbito, muito pálida. Um estranho clarão lhe perpassou nos olhos.
— Não tenho medo — disse ela com firmez —. Rogarei ao Anjo que tenha piedade de vós.
O fantasma endireitou o busto ao mesmo tempo que soltava um débil grito de alegria, e, inclinando-se com uma gentileza já há muito fora de moda, pegou na mão da mocinha e beijou-a. Os dedos de Sir Simon tinham a frialdade do gelo e seus lábios queimavam como fogo, mas Virgínia não sentiu o menor desfalecimento enquanto ele a fazia atravessar o compartimento cheio de sombras. Bordadas nas tapeçarias, cujo tom verde fora desbotando, viam-se figurinhas de caçadores. Estes sopraram nas suas trompas ornadas de glandes e, com as minúsculas mãos, fizeram-lhe sinal para que arrepiasse caminho.
— Retrocede, Virgíninha — gritavam eles — vai-te embora!
Mas o fantasma estreitava-lhe a mão com mais força e Virgínia fechou os olhos para os não ver. Horrorosos animais de cauda semelhante à dos lagartos, olhos salientes de cabeça, pestanejaram-lhe repetidamente, de cima da lareira esculpida, e murmuraram:
— Toma cuidado, Virgininha, toma cuidado, olha que talvez nunca mais te voltaremos a ver!
Mas o fantasma deslizou com mais celeridade e Virgínia não deu ouvidos àqueles. Ao atingirem a extremidade da sala, o fantasma parou e murmurou palavras que Virgínia não podia compreender. Ela abriu os olhos e viu a parede desaparecer lentamente como um nevoeiro, após o que se encontrou diante de uma grande caverna negra. Envolveu-os um vento áspero e frio e a jovem sentiu que a puxavam pela saia.
— Depressa! Depressa! — gritou o fantasma —. Senão será demasiadamente tarde.
Num instante o forro de madeira tornou a cerrar-se por detrás deles. A Sala das Tapeçarias ficara deserta.


Capítulo VI

Daí a dez minutos, a sineta tocou para o chá e, como Virgínia não descesse, a Sr.ª Otis mandou-a chamar por um dos criados. Passado um momento, este voltou para dizer que não tinha encontrado Senhorita Virgínia em parte nenhuma. Como a jovem adquiria o costume de ir todas as tardes colher flores para o jantar, a Sr.ª Otis não se inquietou; mas ao soarem as seis horas sem que a filha tivesse reaparecido, começou verdadeiramente a alarmar-se e mandou os rapazes à sua procura, ao mesmo tempo que ela própria e o Sr. Otis percorriam a casa, compartimento por compartimento.
Às seis e meia estavam de volta os rapazinhos sem terem podido achar o mais leve vestígio da irmã. Todos se encontravam agora na maior agitação e não sabiam que fazer, quando o Sr. Otis se lembrou de repente que, uns dias antes, concedera licença a um bando de ciganos para acamparem no parque. Imediatamente partiu para Blackfell Hollow, onde, sabia-o, os ciganos deviam agora estar. Acompanhavam-no seu filho mais velho e dois criados da granja. O Duquezinho de Cheshire, louco de ansiedade, insistiu veementemente em se lhes juntar, mas o Sr. Otis opôs-se temendo que se travasse ali uma desordem. Ao chegar, porém, ao sítio em vista, descobriu que os ciganos haviam desaparecido. O lume, que ardia ainda, e alguns pratos dispersos pelo solo denunciavam claramente uma retirada repentina.
Depois de ter ordenado a Washington e aos dois homens que explorassem as circunvizinhanças, o Sr. Otis regressou a toda a pressa e expediu telegramas para todos os inspectores de polícia do Condado, pedindo-lhes que procurassem uma menina que fora raptada por vagabundos ou ciganos. Em seguida, mandou que lhe selassem o cavalo, intimou a esposa e os três rapazes a tomarem o seu jantar e, acompanhado de um lacaio, dirigiu-se para Ascot. Mas mal percorrera duas milhas ouviu atrás de si um galope. Voltando-se, descortinou o Duquezinho, que vinha montado no seu poldro, o rosto muito afogueado e cabelos ao vento.
— Lamento muito — disse o rapazinho numa voz ofegante —, mas não poderei jantar enquanto Virgínia não for encontrada. Peço-lhe que não se zangue. Se o senhor tivesse consentido, o ano passado, no nosso ajuste de casamento, nada disto teria sucedido. Não vai mandar-me para trás, não é verdade? Eu não quero ir para casa! Não quero ir para casa!
O Ministro não pôde impedir-se de sorrir ao juvenil e encantador doidivanas e sentiu-se muito comovido com a devoção dele por Virgínia. Inclinando-se do alto do seu cavalo, deu uma palmada no ombro do rapaz e disse:
— Pois bem, Cecil, se você não quer ir para casa, tenho de levá-lo comigo, suponho. Comprar-lhe-ei um chapéu em Ascot.
— O chapéu que vá para o diabo! Da Virgínia é que eu preciso! — exclamou, a rir, o Duquezinho.
Galoparam até à estação do caminho de ferro, onde o Sr. Otis perguntou se não tinha sido ali vista, na gare, qualquer pessoa correspondendo aos sinais de Virgínia; mas não pôde obter qualquer indicação. Contudo, o chefe da estação telegrafou para todas as outras estações da linha e prometeu fazer exercer por toda a parte uma severa vigilância. Depois de ter comprado um chapéu para o Duquezinho a um comerciante de novidades, que ia precisamente naquele momento encerrar a sua loja, a Sr.ª Otis dirigiu-se para Bexley, aldeia a quatro milhas dali, a qual, segundo lhe haviam dito, era local de encontro dos ciganos, por lá haver um prado comunal. Chegados a esse sítio, o Sr. Otis e o seu companheiro acordaram o guarda campestre mas não puderam extrair dele a menor informação e, após terem percorrido o prado inteiro, retomaram o caminho de casa e alcançaram o Parque Canterville pelas onze horas da noite, completamente esgotados e desesperados. Washington e os gémeos esperavam-nos ao pé do gradeamento com lanternas, porque a alameda estava muito escura.
Não se conseguira descobrir o mais leve rasto de Virgínia. Os ciganos tinham sido concentrados nas pradarias de Brockley, mas a jovem não se encontrava entre eles. Uma confusão de datas explicava a sua brusca partida: a feira de Chorton, que se realizava mais cedo do que pensavam, obrigara-os a abalar a toda a pressa. A verdade é que até eles haviam ficado consternados ao saberem do desaparecimento de Virgínia, porque guardavam grande reconhecimento ao Sr. Otis por este lhes ter permitido acamparem no seu parque, e quatro companheiros do bando ficaram para trás a fim de colaborarem nas pesquisas. O tanque das carpas fora esvaziado e todo o domínio batido de lés a lés, mas sem resultado. Era forçoso renderem-se à evidência: pelo menos naquela noite, Virgínia estava perdida para eles; e, profundamente abatidos, o Sr. Otis e os rapazes dirigiram-se para casa seguidos do lacaio, o qual conduzia à mão os dois cavalos e o potro.
Encontraram no átrio um grupo de criados cheios de medo. A pobre Sr.ª Otis estava estendida num divã da biblioteca, semi-louca de inquietação e de pavor; a velha governanta banhava-lhe a fronte com água de Colónia. O Sr. Otis insistiu imediatamente com ela para que tomasse qualquer alimento e mandou servir o jantar para todos.
Foi uma bem triste refeição, em que quase se não proferiu palavra. Os próprios gêmeos estavam aterrados, amachucados, porque adoravam a irmã. No fim do jantar o Sr. Otis, não obstante os rogos do Duquezinho, ordenou que todos se deitassem, dizendo que nenhuma outra coisa poderia ser feita nessa noite e que, no dia seguinte de manhã, telegrafaria à Scotland Yard (5),para lhe serem enviados imediatamente alguns agentes.
Precisamente no instante em que saíam da sala de jantar soava a meia-noite no relógio da torre e, quando retiniu a décima segunda pancada, ouviram todos um enorme estrondo, seguido de um grito penetrante. Um formidável trovão abalou a casa, os acordes de uma harmonia irreal flutuaram no espaço, no alto da escadaria abriu-se um dos panos das paredes e, no patamar, apareceu Virgínia, muito pálida, com um cofrezinho na mão.
Foi um instante enquanto todos se precipitaram para ela. A Sr.ª Otis abraçou-a apaixonadamente, o Duque afogou-a com a violência dos seus beijos, e os gémeos executaram em volta do grupo uma dança guerreira.
— Santo Deus, donde vens tu?! — perguntou o Sr. Otis numa voz bastante irritada, ao pensar que a filha lhes tinha pregado uma partida insensata —. Cecil e eu cavalgámos toda a região, à tua procura, e tua mãe esteve prestes a morrer de angústia. Aconselho-te a não voltares a entregar-te a farsas tão estúpidas como esta.
— Excepto contra o fantasma! Excepto contra o fantasma! — bradaram os gémeos entre mil piruetas.
— Minha querida, graças a Deus tenho-te aqui! É preciso que nunca mais me deixes — murmurou a Sr.ª Otis, enlaçando a criança, a qual tremia e alisava os seus caracóis de ouro todos emaranhados.
— Papá — disse Virgínia num tom calmo — eu estava com o fantasma. Ele morreu. Devem ir vê-lo. Era muito mau, mas arrependeu-se verdadeiramente do que fez e, antes de morrer, deu-me este cofrezinho com maravilhosas jóias.
Toda a família a fitava, os olhos escancarados de surpresa, mas ela permanecia grave e séria; desviando-se, guiou-os através de uma abertura no forro de madeira das paredes até um estreito corredor secreto. Washington seguia-os empunhando uma vela que havia tirado de cima da mesa. Chegaram por fim a uma grande porta de carvalho ornada de pregos cheios de ferrugem. Quando Virgínia lhe tocou a porta girou nos gonzos, e encontraram-se todos numa salinha baixa, de tecto de abóbada e cujo único meio de renovação do ar era uma minúscula janela gradeada. Uma enorme argola de ferro estava chumbada à parede e, encadeado à argola, via-se um grande esqueleto estendido ao comprido no chão de pedra, parecendo tentar agarrar uma escudela velha e uma vasilha colocada fora do seu alcance. A vasilha devia ter contido outrora água, porque se mostrava por dentro coberta de bolor. Na escudela não existia senão uma camada de pó.
Virgínia ajoelhou-se junto do esqueleto e, juntando as delicadas mãos, pôs-se a rezar em silêncio, enquanto a horrível tragédia cujo segredo lhe era assim revelado.
— Olhem! — gritou de repente um dos gêmeos, o qual se dependurara da janela para observar em que ala da edificação se situava aquele quarto. — Olhem! A velha amendoeira toda sequinha está em flor! Vêem-se muito bem as flores, à claridade do luar.
— Deus perdoou-lhe — proferiu gravemente Virgínia, erguendo-se; e uma luz maravilhosa parecia banhar-lhe o rosto.
— És um anjo! — exclamou o Duquezinho, que lhe lançou um braço à volta do pescoço, estreitando-a contra si.


Capítulo VII

Quatro dias após estes curiosos acontecimentos, um préstito fúnebre deixava o Parque Canterville pelas onze horas da noite. Oito cavalos negros puxavam o carro mortuário e sobre as cabeças deles agitavam-se grandes penachos de plumas de avestruz. Um suntuoso pano cor de púrpura, que as armas dos Cantervilles, bordadas a ouro, ornavam, cobria o caixão de chumbo. Junto do carro marchavam os criados empunhando tochas e todo o cortejo assumia singular imponência.
Lorde Canterville dirigia o enterro. Tinha vindo expressamente do País de Gales para assistir à cerimônia e ocupava a primeira carruagem, acompanhado da jovem Virgínia. A seguir iam o Ministro dos Estados Unidos e a esposa, depois Washington e os três rapazes, e por fim, na carruagem da cauda, a Sr.ª Umney. Partiu-se da convicção de que a governanta, que durante mais de cinquenta anos havia sido apoquentada pelo fantasma, tinha o direito de o ver desaparecer para sempre. Fora cavada num canto do cemitério uma profunda sepultura, precisamente sob a ramagem do velho teixo, e as preces foram proferidas pelo Rev.º Augustus Dampier da maneira mais impressionante.
No termo da cerimônia, os criados, conforme um costume tradicional na família Canterville, apagaram as suas tochas e no momento da descida do caixão ao coval, Virgínia avançou e depôs sobre ele uma grande cruz tecida de rosas e flores de amendoeira. Simultaneamente, a Lua surgiu de trás de uma nuvem e, com as suas ondas silenciosas e argênteas, iluminou o pequeno cemitério; e do recesso de uma moita, à distância, subiu o canto de um rouxinol. A jovem recordou a descrição que o fantasma fizera do Jardim da Morte. Velaram-se de lágrimas os seus olhos e mal articulou palavra durante o caminho de regresso.
No dia seguinte de manhã, antes do Lorde Canterville partir para Londres, o Sr. Otis conferenciou com ele a respeito das jóias dadas a Virgínia pelo fantasma. Eram de notável magnificência, em especial certo colar de rubis com um engaste veneziano, admirável trabalho do século dezasseis, e o valor delas todas era tal que o Sr. Otis sentia grandes escrúpulos em consentir que a filha as aceitasse.
— Lorde Canterville — disse o Ministro —, eu sei que o regime dos bens chamados de mão-morta é aplicável neste país tanto às jóias como às terras, e parece-me evidente que estas jóias de família lhe pertencem, por conseguinte. Devo, pois, pedir-lhe que as leve para Londres e que as considere simplesmente como uma parte da vossa herança, agora restituída em inesperadas circunstâncias. Quanto à minha filha, ela é ainda uma criança e (sinto-me feliz em dizê-lo) não presta mais do que medíocre interesse a esses vãos acessórios de luxo. Para mais, minha mulher, que, ouso afirmá-lo, é em matéria de arte uma autoridade com a qual é necessário contar — ela gozou do privilégio de passar muitos Invernos em Boston quando ainda solteira — comunicou-me terem essas jóias elevado valor monetário. Postas à venda, atingiriam altíssimo preço. Nestas condições, Lorde Canterville, estou certo de que compreenderá não poder eu permitir a nenhum membro da minha família conservá-las na sua posse. E, em boa verdade, todos esses frívolos, adornos, por mais adequados ou indispensáveis que sejam à dignidade da aristocracia inglesa, estariam em absoluto deslocados entre pessoas educadas nos princípios severos e, suponho, imortais, da simplicidade republicana. Talvez me seja lícito acrescentar que Virgínia deseja vivamente que a autorize a guardar para ela o cofrezinho, a título de recordação dos desvairos e dos infortúnios desse vosso antepassado. Visto que o cofre se acha muito velho e muito estragado, talvez o senhor julgue razoável deferir o pedido. Pela minha parte, confesso estar bastante surpreendido vendo um dos meus filhos exprimir simpatia pelas coisas medievais, seja sob que aspecto for, e não posso explicar isto a mim próprio senão pelo fato de Virgínia ter nascido num dos vossos arrabaldes londrinos pouco tempo depois da chegada de minha mulher, que regressava de uma viagem a Atenas.
Lorde Canterville escutou com muita gravidade o discurso do digno Ministro, repuxando de quando em quando as pontas do seu bigode grisalho para dissimular um sorriso involuntário; e quando o Sr. Otis acabou de falar, apertou-lhe a mão cordialmente e disse:
— Meu caro senhor, a sua encantadora filhinha prestou a Sir Simon, meu infeliz avoengo, um serviço de importância, e eu e a minha família devemos muito à maravilhosa coragem dela. Claro está que as jóias lhe pertencem; e, por minha fé, creio que se eu tivesse tão pouco coração que lhas tirasse, o maroto do velho sairia, antes de quinze dias decorridos, do seu túmulo e arranjar-me-ia uma vida de inferno. Quanto a constituírem jóias de família, tal só seria possível se figurassem num testamento ou em documento legal, e a existência dessas jóias era-me completamente desconhecida. Asseguro-lhe que não tenho mais direitos sobre elas do que, por exemplo, o seu mordomo, e, ouso dizê-lo, quando Senhorita Virgínia for crescida desvanecer-se-á ao usar esses lindos objetos. O senhor esquece também, o Sr. Otis, que comprou em conjunto a propriedade e o fantasma passou, implícita e imediatamente, para a sua posse, pois por maior atividade de que Sir Simon tenha dado sinal durante a noite, nos corredores da casa, ele estava verdadeiramente morto do ponto de vista jurídico, e a aquisição feita pelo senhor tornou-o possuidor dos bens dele.
O Sr. Otis, muito comovido com a recusa de Lorde Canterville, suplicou-lhe que reconsiderasse na sua decisão, mas o excelentíssimo membro da Câmara Alta inglesa permaneceu firme e, acabou por persuadir o Ministro a que consentisse à filha guardar o presente do fantasma.
E quando, na Primavera de 1890, a jovem Duquesa de Cheshire foi, por ocasião do seu casamento, apresentada a primeira vez na recepção da Rainha, as jóias que ostentava tornaram-se tema da admiração geral. Porque Virgínia recebeu a coroa, que é a recompensa de todas as boas meninas americanas, e desposou aquele que a amava desde a infância logo que ele atingiu a idade conveniente.
Eram ambos, tão sedutores e amavam-se tanto, que esta união encantava toda a gente, salvo a velha marquesa de Dumbleton, que havia tentado apoderar-se do Duque para uma das suas sete filhas ainda solteiras e que, com esse desígnio, dera nada menos que três dispendiosos jantares; e se bom que possa parecer estranho, também não encantava o próprio o Sr. Otis. O ministro sentia pelo Duquezinho uma grande afeição, mas, em teoria, não era partidário de títulos nobiliárquicos e, para empregar mesmo palavras suas, "temia um tanto que, por causa da influência amolecedora da aristocracia apaixonada pelo prazer, os verdadeiros princípios da simplicidade republicana fossem esquecidos". Mas houve quem deitasse por terra as suas objeções; e creio bem que, ao avançar com a filha pelo braço, na nave da igreja de São Jorge, da Praça Hanover, não houve, no instante, homem mais orgulhoso do que ele na Inglaterra inteira.
Após a sua lua-de-mel, o Duque e a Duquesa voltaram ao Parque Canterville; e no dia seguinte ao da chegada foram, pela tarde, de passeio até ao cemitério solitário circunvizinho do pinhal
A escolha da inscrição para a lousa tumular de Sir Simon tinha levantado muitas dificuldades, mas fora finalmente decidido mandar gravar nela as simples iniciais do velho aristocrata e os versos inscritos na biblioteca.
A Duquesa havia levado consigo umas rosas adoráveis, que espalhou sobre a sepultura; e depois de se conservarem em recolhimento alguns minutos, os jovens foram, sempre passeando, até ao santuário em ruínas da velha Abadia. Sentou-se então a Duquesa numa pilastra quebrada do templo, enquanto o marido, estendido a seus pés, fumava um cigarro, o olhar fito nos belos olhos da moça. De súbito, arremessando para longe o cigarro, pegou-lhe na mão e disse-lhe:
— Virgínia, uma mulher não deve ter segredos para seu marido.
— Querido Cecil, não tenho segredos para ti.
— Tem-los, sim — replicou ele a sorrir; — tu nunca me disseste o que te aconteceu quando estiveste encerrada com o fantasma.
— Nunca o disse a ninguém — respondeu Virgínia com ar grave.
— Sei isso, mas podias dizer a mim.
— Não me peças tal, Cecil; eu não posso dizer-te. Pobre Sir Simon! Devo-lhe muito. É verdade; não rias, Cecil. Mostrou-me o que é a Vida, o que significa Morte e porque razão o Amor é mais forte do que a Vida e a Morte.
O Duque, pondo-se de pé, abraçou com ternura sua mulher.
— Podes reservar o teu segredo por tanto tempo quanto eu guardarei o teu coração — murmurou.
— Ele sempre te pertenceu, Cecil
— E di-lo-ás um dia aos nossos filhos, não é verdade?
Carminaram-se, de pejo, as faces de Virgínia.

Oscar Wilde