22/04/2008

A Confissão

Sentia ainda o cinturão do sargento a cortar-lhe a carne. A mocidade de Fontela, amontoada no posto da guarda, em Freixeda, ia sendo interrogada assim.

- Outro! - ordenava a voz sinistra lá de dentro.

E enquanto o cabo Silvino atirava pela porta fora um desgraçado de camisa despedaçada e a escorrer sangue, recebia guia de marcha novo bombo para a festa.

- Tu.

- TU.

- Tu.

- E agora nós... Retesou a vontade. Já só faltava ele e a própria mudança no tom e nos termos da intimação dizia tudo.

Preso logo a seguir ao crime, negara redondamente que fosse o criminoso. E o inquiridor recorria ao seu processo habitual nos casos complicados: juntava os suspeitos e os insuspeitos no mesmo redil e levava-os a cito. A verdade acabava por sair do látego, ou confessada ou denunciada.

Entrou calmamente e tentou provar mais uma vez a sua inocência. Brigara, realmente, na noite de Reis com o Armindo, de quem, como toda a gente podia testemunhar, era amigo. Andavam na paródia, beberam muitos quartilhos e, às tantas, por dez réis de coisa nenhuma, pegaram-se. Dera, levara, mas em luta aberta e leal. No fim da zaragata, bem apalpados ambos, seguira cada qual o seu caminho e do fundo da rua é que ouvira gritar aqui del-rei.

- Confessa. Confessa, que é melhor... - Já lhe disse que não fui eu!

- Queres provar da marmelada, está visto. Pois seja feita a tua vontade.

Olhou fixamente o fatinário antes do primeiro golpe. Sabia que as aparências o comprometiam e que caíra nas mãos do Diabo. Todos, aberta ou encobertamente, o consideravam o autor do crime. A própria vítima o apontara à justiça.

- Ah! Bernardo, que me mataste! - gemera o Armindo, ao sentir-se trespassado pelas costas.

E a Júlia Garrido, que já estava na cama e ouvira a acusação, acrescentava que, sem pôr as mãos nos Evangelhos, ia jurar ter reconhecido o vulto dele a esgueirar-se pelo quelho, quando, alarmada, correu à janela.

Com provas de tal natureza, ninguém duvidava da sua culpa. E muito menos o sargento, que só por táctica armara aquela comédia. Até no simples facto de o guardar para remate do arraial mostrava claramente o jogo. Tentava atemorizá-lo pondo-lhe diante dos olhos o sudário prévio do que se ia passar. Mas um homem é um homem e quem não deve não teme. Altivamente estremou os campos.

- Faça como entender, na certeza de que está muito enganado se cuida que me obriga a ser o que não sou.

- Talvez mudes de opinião daqui a nada. Ora vamos lá...

O azorrague zuniu e nem se queria lembrar do tempo que durara aquele malhar sem tino. Os últimos golpes já quase os não sentira, de tal modo ardia todo numa dor viva. Por sinal que foi durante a pancadaria que teve o pressentimento do que se passara. De repente, como que iluminado por dentro, viu o Reinaldo apagado na escuridão a assistir à bulha, seguir o Armindo depois da refrega e aproveitar a ocasião para o esfaquear à falsa-fé quando o desgraçado virava a esquina da casa. Despeitado por se ver preterido por ele no coração da Silvana, vingava-se a coberto de qualquer perigo. Se tinha havido barulho antes da morte, nada mais natural do que pensar num desforço traiçoeiro do adversário de há pouco...

O vozeirão do sargento quebrou-lhe o fio à meada.

- Então? Chega ou queres mais? Arquejante, numa posta de sangue, ainda arranjara forças para recalcitrar.

- Nem que me corte aos bocados! Nego e torno a negar.

O carrasco abaixou o chicote e chamou o ajudante.

- Solta os outros e põe este de salmoura. Amanhã continuamos.

Estendido nas lajes da prisão, com a roupa colada ao corpo retalhado, malucou naquela miséria. Por todos os lados que a encarasse, ia dar sempre ao mesmo. Ninguém o acreditaria, dissesse o que dissesse. Infelizmente, a verdade, no seu caso, não tinha demonstração. Teimar em proclamá-la? De que valia? Surdo, o sargento não a podia ouvir. E o sargento era Freixeda e o resto do mundo. Lançar o nome do Reinaldo na fogueira? Talvez outros o fizessem. Ele é que nunca. Nem tinha a certeza, nem era denunciante. Portanto, só havia um recurso: fugir.

E fugira, realmente, nessa mesma noite, coisa que não passara sequer pela cabeça do da guarda. Tanto assim que nem sentinela mandara pôr à porta da velha cadeia concelhia onde agora o guardava sozinho. Embora a saber que escapulindo-se confirmava para o resto da vida a acusação que lhe faziam, às tantas da manhã, com a energia, a paciência e a arte de que apenas se é capaz nas horas apertadas, ala que se faz tarde.

Passou por casa, mudou de roupa, pediu dinheiro emprestado, e antes de o sol nascer atravessou a fronteira.

Voltava agora, decorrido meio século, velho, pobre, amargurado, com toda uma existência de exilado atrás de si e dorido ainda dos golpes injustos que recebera. A que vinha? Rever a terra da criação, rezar duas avé-marias na sepultura dos pais e calar uma ânsia obscura de resgate que os anos tornavam cada vez mais premente.

Não anunciara a chegada nem mesmo à única irmã que lhe restava. Vinha como um fantasma sorrateiro apropriar-se da realidade de que fora espoliado.

Passageiro anónimo da camioneta da carreira, apenas ela o alijou no largo, ficou-se pasmado a olhar o fontanário, o cruzeiro, o rego de água que atravessava a povoação e o casario que a tarde mortiça tornava sonolento. E apeteceu-lhe chorar.

O que ele fora e o que ele era agora! Naquela terra sonhara e confiara. E daquela terra o expulsara a maldade de alguém que, sem remorsos, ali pudera continuar no aconchego das coisas familiares. Cinquenta anos de vida errante, com o labéu dum assassinato a roê-lo. Aonde chegava, chegava a sombra do homicida que não era. Até nos olhos dos que não conheciam a história do crime lia sempre a negra acusação. O tempo acabara por lhe delir na própria lembrança a imagem vislumbrada do possível criminoso. Nítido na sua consciência e na do mundo, apenas um nome infamado: o seu. _ Oh! Bernardo! - gritou-lhe uma voz cavernosa atrás das costas.

Voltou-se. Era o padre Artur, seu companheiro de meninice, ainda seminarista na altura do crime. Sempre a pastorear freguesias longínquas, fora finalmente encarregado do rebanho nativo.

- Oh! Artur! - correspondeu num alvoroço, esquecido de distâncias e conveniências.

Caíram nos braços um do outro, num irresistível impulso fraterno.

- Ainda bem que voltaste! Ia-te escrever hoje. Até pedi a direcção a tua irmã. Tinhas-lhe dito que vinhas?

- Não valia a pena...

- Então vai ter com ela e amanhã falamos. É que o Reinaldo morreu esta manhã. Ouvi-o ontem de confissão... Eu sempre acreditei na tua inocência, rapaz!

Melancolicamente, pegou na mala e deu alguns passos em direcção à casa paterna. Mas logo adiante parou, depus o carrego e mudou de rumo.

No cimo da rua principal desandou à esquerda, atravessou vários quinteiros, subiu as escadas do Reinaldo e entrou.

O ambiente era lúgubre. Havia lágrimas e luto em todos os olhos.

Rompeu por entre a multidão que se acotovelava, sem ninguém o reconhecer.

- Quem é? - perguntavam. - Não sei.

O cadáver jazia ainda sobre a cama, já vestido, à espera do caixão.

A passos lentos aproximou-se e fitou durante alguns momentos a figura hirta e mirrada do defunto. De repente, num ímpeto, deitou-lhe as mãos às abas do casaco, ergueu-o e rouquejou, fora de si:

- Estás morto, é o que te vale. Mas mesmo assim não vais deste mundo sem duas bofetadas na cara, covarde!

E deu-lhas.


Miguel Torga, Novos Contos da Montanha