06/04/2008

A morte do gaio

Esta, que é a mais ligeira de todas as coisas acontecidas, passou-se há um bom par de anos. Era eu rapazola. Costumava ir às temporadas para uma aldeia santarena, de nome Romeira, e de lá me ficaram estas e outras lem­branças. Todas tão singelas! Mas naquele tempo as coisas impressionavam-me...

O que foi, que pouco tem que contar, passou-se assim: Já era noite. Estava um magote de gente, da casa e do trabalho, na cozinha da senhora Joaquina, de conversa. Chega o Rabugem e fica entreportas. Andava ali uma gata velha e dois gatinhes pequenos que a senhora Joaquina de vez em quando espantava, sem resultado: eh! mofinos, raios os partissem! Ensarilhados sempre nos meus pés! Os cães do casal também entravam e saíam à vontade. Os dois filhos mais novos da senhora Joaquina tinham-se sentado em medidas postas de borco, no chão.

E o Rabugem sai-se de lá com esta: cacei um gaio.

Todos se riram.

E ele: aquilo é que eles são velhacos! Escondem-se da gente, mas na passagem de árvore para árvore é que é apa­nhá-los. A cantar, a cantar... cegam uma pessoa, aqueles catitas! E até parece que vão atrás dela! O mariola... tumba! chumbei-lhe uma perna e uma asa. Caiu-me logo de uma azinheira aos pés, e com uma asinha atravessada nas goelas, nem lhe dei tempo a ela ir para baixo. Isso é que as mulheres riam! Se o queriam ver, à bicada a mim, à bicada a mim, o danadinho!

E que é que tu fizeste dele? pergunta o Joaquim, que era mazombão, mas amigo de troça. Um jantar?

Que é que eu fiz? Dei-o à Eovi, responde inocente­mente o Rabugem.

Vivo ou morto?

Morto, ele morreu dali a pouco, torna o Rabugem, já desconfiado. Não me queres acreditar, mas porquê? Aposto já em como tu nunca apanhaste nenhum.

E ganhas, ó Rabugem.

A minha patroa tirou-lhe logo as penas, prossegue o homem com os olhos na senhora Joaquina, que se tinha virado para ele. A Lovi queria-as, mas ela não lhas deu.

Pois, são bonitas para pôr numa jarra, remata a senhora Joaquina, arrimada à sua chaminé, com as mão debaixo do avental.

Então a Eovi ficou com o pássaro desrabado? pergunta do seu canto o Manuel, o mais novo dos rapazes do casal, e deu uma gargalhada.

O Rabugem não gostou e respondeu-lhe torto. Ca­lem-se daí! interveio a dona da casa. Porém, os rapazes continuaram na sua chacota.

Eu estava no escuro da cozinha e via o Rabugem de cara. Um simplório! E vi também cair o gaio das suas palavras chochas — um pássaro tão bonito! Aquele serzinho verde e fugaz, com uma asinha atravessada nas goe­las... Acendi um sol claro, apesar de fazer noite, separei as árvores umas das outras, fiz o gaio cantar e esvoaçar de ramo para ramo. Senti nitidamente o tiro e fui aparar a vítima com as mãos do espírito. Inanes! Mas ela bicou--me. Deixei então o Rabugem senhor da sua presa e ouvi até as gargalhadas das mulheres do trabalho. Desamparei tudo, desejoso apenas de que todos os gaios dali para diante redobrassem de sagacidade.

Entretanto o Rabugem deu as boas-noites e sumiu-se.

E a senhora Joaquina, depois de ele virar costas, disse, para os filhos com a sua voz um tanto áspera, mas de cana rachada — era boa criatura.

É preciso respeito. Ele é um homem casado e pai de filhos, vocês não passam ainda de uns fedelhos!

O Joaquim e o Manuel riram-se ainda mais. O mais velho dos dois até arrumou um pontapé rasteiro a um cão, que se levantou sem rosnar para mudar de poiso.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma