17/04/2008

Bambo



O filho do caseiro novo é que lhe fez aquilo. Devagar, muito devagarinho, chegou-se a ele e - zás!: espetou-lhe a estaca nas costas. Depois ergueu-o e, de barriga para o ar, deixou-o ali suspenso a espernear ao sol.
O menino era mau de natureza. Furava os olhos dos passarinhos e cortava as pernas dos saltaricos quando podia. Mas, no caso de Bambo, portou-se assim porque a Joana Angélica lhe encheu primeiro os ouvidos. À noite, na fiada, tanto disse e ladrou dos sapos, do coxo e das feitiçarias, que o pequeno, pela manhã, mal deu com Bambo na horta, varou-o de lado a lado. E o pobre não teve outro remédio senão morrer trespassado na ponta do pau, a servir de espantalho às levandiscas. Com as chuvas, o sol e as geadas apodreceu por dentro, cheirou mal, secou e tornou-se num fole retesado. Uma sementeira mais, e desfez-se em pó.
Bambo, o sapo! Criou-se ao deus-dará, como tudo o que é bom. Sem pressas, confiado no tempo e na fortuna, foi estendendo a língua pelos anos adiante até se fazer o homem que depois era, largo, grosso, atarracado. Trouxe logo do berço os olhos assim saídos e redondos, e aquelas pernas de trás em dobradiça, no mesmo instante um banco ou uma catapulta. E também a boca de pasmo, com que pelas noites adiante engolia a imensidade do céu, lhe veio de nascença aberta e vazia como um poço. Mal gatinhava ainda nas beiradas do charco onde nascera, já o corpo lhe pedia mundo, terras novas. E devagar, moroso, a suar o visco que o defendia de tudo, à chuva e ao vento, umas vezes a morrer de fome, outras entoirido de fartura, tanto andou, que não havia segundo da sua criação que tão profundamente conhecesse a veiga de Vilarinho. Contudo, e não se sabe porquê, só aos vinte anos deu entrada na quinta da Castanheira que o tio Arruda trazia de renda. Pelos quinze de Agosto quando os milhões pareciam canaviais... Eram duas da madrugada. A aldeia, adormecida, sonhava. Caía um luar sereno, rarefeito, por sobre o casario negro. Ao longe, as matas do Infantado enquadravam o vale num abraço soturno. Nem a água da mina velha, que corria pela embelga fofa, fazia o mais pequeno barulho. Nada! Um silêncio de pedra! Tio Arruda recordava-se bem do dia, da hora e de todos os pormenores do acontecimento. Por sinal que atravessava nessa altura uma crise de desânimo. À ceia, duas batatas cozidas, apenas. Depois, um homem cansa-se de regar milhão a vida inteira. Uma existência triste, a sua... Sempre a trabalhar por conta dos outros... Ficara solteiro... Convivia pouco... Nisto, ao tornar a água - tchap! Foi a ver - e sai-lhe um sapo!
Simplesmente, Bambo não era um anfíbio qualquer. Embora modesto na escala animal, tinha a sua personalidade. Precatado, discreto, negava-se a cair nos braços do primeiro que lhe desse a salvação.
- Ora viva quem também anda acordado a estas horas!
Não respondeu.
- Na boa da conquista, está-se mesmo a ver!...
Moita. Nunca dera troco a brincadeiras tolas. De resto, não andava às gatas, como o outro insinuava. Amores, só na primavera e na ribeira de Arca.
A desculpa é que tio Arruda desconhecia a vida do futuro amigo. Além de que dizia estas coisas por dizer, sem segundas intenções. Saudava apenas, num alvoroço justificado de solitário, aquela alma que lhe aparecia. Ah, mas Bambo não se entregava assim sem mais nem menos! Na maneira de fitar o interlocutor, no modo reservado como se foi afastando, mostrava claramente que não abria o coração antes de saber a quem.
Contudo, tempos depois, quando se viram de novo no tendal de feijões, tudo correu melhor. Nem sombras da natural desconfiança do primeiro dia, nem nada que se assemelhasse ao retraimento antigo, com o salto por um pêlo a guardar as distâncias. Coisa muito diversa. Agora, Bambo, embora não correspondesse aos cumprimentos, mostrava-se tão urbano, dava tais provas de lhe ter caído bem semelhante encontro, que tio Arruda parecia ter corda na língua.
- Felizes olhos, amigo! Até que enfim! Que ausência foi essa? Grande passeata!
Tio Arruda ignorava que ele, Bambo, passava o inverno recolhido. Que se retirava discretamente num buraco da parede da quinta mal vinha Outubro, e ali permanecia imóvel, calado, sonolento, Novembro, Dezembro, Janeiro, Fevereiro e Março. Daí a razão de semelhante escarcéu.
Ignorância desculpável, aliás. A gente entende pouco do semelhante. Cada um de nós é um enigma, que a maior parte das vezes fica por decifrar.
Porque, na verdade, Tio Arruda estava diante de um ser complicado. Com os anos é que verificou como eram enganadoras as primeiras impressões. Também ele fizera juízos temerários, fizera! Magia negra, bruxarias, o diabo à meia-noite nas encruzilhadas... E, afinal... Parecia mentira, realmente. Mas viessem ver a realidade. Viessem ver o demónio do batráquio, reluzente de luar e alheado como um poeta... Quem na freguesia inteira passeava assim cheio de calma e de compenetração no silêncio carregado de estrelas? Quem, àquelas horas mortas, se maravilhava de igual maneira, a olhar deslumbrado a poalha de luz da estrada de Santiago, aberta no céu? Ninguém, a começar por si próprio. Há sessenta anos no mundo, e ceguinho como uma toupeira. E os outros na mesma conformidade. Para todos os habitantes de Vilarinho, sem excepção, as noites eram noites
- escuridão apenas. E os dias pior ainda, apesar da claridade.
Ricos e pobres nem no brilho do sol reparavam. Comiam, bebiam e cavavam leiras, numa resignação de condenados.
- A vida é assim...
£ a vida, como um fruto, estava cheia de doçura. Mas fora preciso, para o saber, que Bambo lhe aparecesse...
Perguntou-lhe:
- E então agora? Quanto tempo por cá?
Até ao fim das colheitas. Enquanto houvesse um bocado de calor capaz de aquecer o lombo dum cidadão, faziam companhia um ao outro. Punha uma condição: apenas se podiam ver depois de sol posto. Razões particulares...
Tio Arruda achou bem. As noites estavam realmente maravilhosas. A água da mina, pela calada das horas, rendia mais... De maneira que...
Bambo, desde o primeiro instante, manteve o silêncio habitual. E Tio Arruda acabou por entender. Afinal, ali, de pés sobre a melhor terra da veiga de Vilarinho, onde as minhocas engordavam como vacas, palavras só de quem tivesse a lábia do pregador de Passos, que subia ao púlpito e fazia chorar os santos no altar. O raio do homem parecia um saca-rolhas a trazer à tona da consciência o que ia dentro da alma de cada um! Mas, fora esse, ninguém na aldeia sabia abrir a boca. Por isso, mais valia seguir o exemplo do amigo, que era de mudez completa.
E a verdade é que nunca encontrara tanto sentido e beleza às coisas que o rodeavam, como naquelas horas silenciosas. Nelas, até as próprias sombras faziam confidências ao entendimento...
Tio Arruda andara por maus caminhos. Confessou isso honradamente à porta da igreja, no domingo. Riram-se-lhe na cara. Quem havia de acreditar que um sapo fosse capaz de ensinar a alguém a ciência da vida? Impossível. E Tio Arruda, desiludido daquela incompreensão, voltou às suas regas e à comunhão íntima com a natureza. Precisava de chegar ao fim. Necessitava de aprender o resto da lição de Bambo, guarda zeloso dum mundo fremente de germinações. Entender em que medida ele se considerava responsável pelo pequeno grão que caía desamparado na terra, e até que ponto o rodeava de protecção. Inesperadamente, quando o sol, pela manhã, ao começar o seu giro, coscuvilhava os recantos do planeta, um canteiro, que no dia atrás era chão enigmático, aparecia coberto duma verdura virgem, casta, feita de esperança, água e cor. E só mesmo Bambo conhecia a grandeza do mistério, e o cercava de amor. Nenhuma outra consciência seguira no coração da noite os transes da transmutação germinativa. E nenhuma outra inquietação fazia sentinela ao milagre.
Seduzida e contagiada, a alma do trabalhador abria-se pouco a pouco às íntimas razões dessa comunhão profunda. Até ali, do crepúsculo ao alvorecer, as horas eram feitas de egoísmo e alheamento. Agora, Tio Arruda descobria em cada gomo ou em cada folha a porta dum Sésamo. E tudo obra de Bambo! Ao lado da sua serenidade e do seu apego à terra, do que nela havia de essencial - o dom de fecundar e parir -, ia conseguindo auscultar as imponderáveis palpitações da seiva. Nada de parecido com o interesse mesquinho, utilitário, que sentia outrora diante duma sementeira a despontar. Numa curiosidade progressiva, verificava com espanto que, além da fome, havia outras verdades. E, como Bambo, já não combatia as pragas apenas para salvar a colheita. Deitava enxofre e sulfato nas videiras, simplesmente para defender a vida. É certo que matava vida. Mas unicamente aquela que, errada e parasitária, estava desde a nascença a soldo da morte. Depois, preservado o rebento, expurgada de ervas daninhas a relva tenra do linho, dava largas aos sentidos. E ficava-se também, quieto e deslumbrado, a olhar uma gota de orvalho pousada no cetim de uma pétala, ou a escutar, de ouvido fito, um rouxinol que cantava na Silveirinha...
Assombrado com semelhante transfiguração, o povo começou a falar. E, pela voz do Chico das Eiras, caçoava:
- Como vão esses amores, Tio Arruda? Já há menino?
Nem sequer respondia. Baboseiras, todos as sabiam dizer. Do esforço de descer ao coração das coisas, é que nenhum era capaz.
Mas um dia Tio Arruda morreu. Um resfriado, e ninguém lhe pôde valer. Nem mesmo a lembrança do mestre, que nesse Dezembro nevoso hibernava filosoficamente num buraco. E, com a sua morte, veio novo caseiro e foi-se de Vilarinho o único homem que sabia de ciência certa quem era Bambo, o sapo.

Miguel Torga, Os Bichos