02/03/2008

O meu noivo


Acreditem-me ou não, tanto faz, mas isto passou-se assim:

Estava eu ao pé da costureira e pedi-lhe uma agulha. Não, ela é que ma pediu a mim e eu levantei-me e fui buscar o meu agulheiro. Ofereci-lho, dizendo: olhe que está aí um cento de agulhas, que tal?

E uma riqueza, foi como ela me respondeu.

Salta logo dali o meu irmão: é mentira!

E mentira? — pergunto-lhe eu indignada.

E mentira e é mentira e é mentira!

Meu grande malcriado!

Não são agulhas, são soldados, diz-me ele.

Desatei a rir e desenrosquei o meu agulheiro. Eu a tirar as agulhas e o João a gritar: ena, tanto soldado! Não fiz caso do que ele dizia e volto-me para a mu­lher.

Conta-me uma história?

Ainda é menina de história? respondeu-me ela. E eu corei.

Então cante-me uma cantiga.

Uma cantiga?

Tornei a corar. A costureira troçava-me, já se sabe. Disfarcei então e pus-me a falar de fatos. Gostava de ter um muito lindo e muito comprido...

Para ir ao baile? diz-me ela.

Isso mesmo, para ir ao baile, respondo-lhe eu. Faz-me um assim?

Porque não hei-de fazer? E riu-se. Eu ri-me também.

Passaram naquele momento dois rapazes a cavalo e eu fui vê-los à janela, Vai um, atira-me uma flor que trazia na boca. Apanhei-a no ar. Volto-me para a mulher, en­vergonhada. Ela riu-se outra vez.

Estou noiva, disse-lhe eu.

Parece-me que sim. E desatamos ambas à gargalhada.

Conhece-os? perguntei-lhe eu.

Muito bem. Um é Julião e o outro Jerónimo.

O meu noivo é o Jerónimo. Casaremos para o ano. A senhora quer fazer o meu enxoval?

Então não havia de querer? respondeu-me a costu­reira.

Um enxoval lindo, que eu tudo mereço!

Pois...

Mal sabia ela!

Isto foi num dia, num dia... de Abril ou de Maio. Havia já muitas rosas. Depois, quantas vezes tornou Jerónimo a passar, a pé e a cavalo?

O certo é que nos vamos casar. Dizem que ainda sou muito nova, mas se eu gosto tanto dele!


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma