27/03/2008

A Mulher do Farmacêutico

A cidadezinha de B., composta de duas ou três ruas tortas, dorme um sono profundo. No ar parado tudo é silêncio. Ouve-se apenas, ao longe, decerto além da cidade próxima, o tenorzinho ralo e rouco dos latidos de um cão. Aproxima-se a madrugada.
Há muito tempo que tudo dorme. Só não dorme a jovem esposa do farmacêutico. Tchornomordik, dono da farmácia de B. Por três vezes ela já se deitou – mas o sono teima em não vir – e não se sabe porquê. Ela sentou-se junto à janela aberta, de camisola, e olha para a rua. Está com calor, aborrecida, entediada – tão entediada que tem até vontade de chorar, mas por que – também não se sabe. Sente um bolo esquisito no peito, querendo subir para a garganta a toda hora... Atrás, a alguns passos da mulher, aconchegado junto à parede, ronca pacificamente o próprio Tchornomordik. Uma pulga voraz grudou-se-lhe ao nariz, mas ele não a sente, e até sorri, porque sonha que na cidade todos estão tossindo e compram-lhe incessantemente “Gotas do Rei da Dinamarca”. Agora não é possível acordá-lo nem com picadas, nem com canhões, nem com carinhos.
A farmácia fica quase na beira da cidade, de modo que a mulher do farmacêutico pode ver campina, bem longe. Ela vê como pouco a pouco clareia a borda oriental do céu, e depois fica rubra, como que do clarão de um grande incêndio. De repente, de trás de uma touceira distante, aparece uma grande lua de cara larga. Está vermelha (em geral a lua, quando sai de trás dos arbustos, costuma estar, não se sabe porque, horrivelmente encabulada).
Súbito, no silêncio noturno, ressoam passos e o tinir de esporas. Ouvem-se vozes.
“Devem ser oficiais voltando do distrito policial, para o acampamento” – pensa a mulher do farmacêutico.
Pouco depois, aparecem dois vultos vestidos com as túnicas brancas de oficiais; um grande e gordo, o outro menor e mais esguio... Preguiçosamente arrastando os pés, eles vêm andando ao longo da cerca, a conversar em voz alta. Chegando até a farmácia, os dois vultos começam a andar ainda mais devagar e olham para as janelas.
- Cheira à farmácia... – diz o magro. – E é uma farmácia mesmo! Ah, já me lembro... estive aqui na semana passada, comprei óleo de rícino. De um farmacêutico de cara azeda e queixada de burro. E que queixada, homem! Foi com uma dessas que Sansão matava os filisteus.
- Hum... – diz o gordo com voz de baixo. – Dorme a botica. E o boticário também dorme. Aqui, Obtiossov, existe uma boticária bonitinha.
- Eu a vi. Ela me agradou muito... Diga-me, doutor, será possível ela amar essa queixada de burro? Será possível?
- Não, decerto ela não o ama – suspira o doutor com expressão de quem tem pena do farmacêutico. – E agora, dorme a belezinha atrás da janelinha! Hein, Obtiossov? Descobriu-se com o calor... a boquinha entreaberta... e a perninha pende para fora da cama... Vai ver, o burro do farmacêutico nem entende nada desta riqueza... Para ele, quiçá, uma mulher ou uma garrafa de ácido carbólico, é a mesma coisa!
- Sabe duma coisa, doutor? – diz o oficial, parando. – Vamos entrar na farmácia e comprar qualquer coisa. Quem sabe, vai dar pra ver a “farmacêutica”.
- Que idéia! No meio da noite!
- E daí? Então eles não têm obrigação de atender também à noite? Vamos, amigão!
- Vá lá...
A mulher do farmacêutico, escondida atrás da cortina, ouve a campainha esganiçada. Com um rápido olhar para o marido, que ronca como dantes e sorri beatificamente, ela enfia o vestido, põe os sapatos nos pés descalços e corre para a farmácia.
Atrás da porta de vidro percebem-se duas sombras. A mulher do farmacêutico aviva o fogo da lâmpada e corre para abrir a porta, e já não está tão aborrecida, nem entediada, nem tem vontade de chorar, só o coração bate com muita força. Entram o gordo doutor e o esguio Obtiossov. Agora já dá para examiná-los. O barrigudo doutor é moreno, barbudo e desajeitado. Ao menor movimento, a túnica lhe estala no corpo e o suor lhe umedece o rosto. Já o oficial é rosado, glabro, efeminado e flexível como um relho inglês.
- O que desejam os senhores? – pergunta a mulher do farmacêutico, aconchegando o vestido sobre o seio.
- Dê-nos... eeehh... quinze copeques de pastilhas de hortelã.
A mulher do farmacêutico alcança sem pressa o pote na prateleira e põe-se a pesar. Os compradores, sem piscar, fitam-lhe as costas; o doutor franze o rosto como um gato satisfeito, mas o tenente está muito sério.
- É a primeira vez que vejo uma senhora trabalhando numa farmácia – diz o doutor.
- Isso não tem nada de extraordinário... – responde a mulher do farmacêutico, olhando de esguelha para o rosto rosado de Obtiossov. – Meu marido não tem auxiliares, e eu sempre o ajudo.
- Ah, é assim... pois a senhora tem aqui uma farmácia muito simpática... Que quantidade destes... diversos potes! E a senhora não tem medo de mexer com estes venenos! Brrr!
A mulher do farmacêutico fecha o pacotinho e entrega-o ao doutor. Obtiossov dá-lhe quinze copeques. Meio minuto passa em silêncio. Os homens se entreolham, dão um passo em direção à porta, entreolham-se novamente.
- Dê-nos dez copeques de bicarbonato! – diz o doutor. A mulher do farmacêutico, movendo-se preguiçosa e lentamente, torna a estender a mão para a prateleira.
- Será que não existe aqui na farmácia alguma coisa assim... – balbucia Obtiossov, mexendo os dedos – alguma coisa assim, sabe, alegórica, um fluido vitalizante qualquer... água de Seltzer, talvez? A senhora tem água de Seltzer?
- Tenho – responde a mulher do farmacêutico.
- Bravo! A senhora não é mulher, e sim uma fada. Arranje-nos três garrafinhas!
- A mulher do farmacêutico embrulha apressada o bicarbonato e desaparece na escuridão atrás da porta.
- Que fruto! – diz o doutor, piscando um olho. – Uma romã dessas, Obtiossov, nem na ilha da Madeira você encontra. Hein? Que acha? Entretanto... está ouvindo o ronco? É o próprio senhor farmacêutico que se digna repousar.
Um minuto depois, volta a mulher do farmacêutico e põe sobre o balcão cinco garrafas. Ela acaba de voltar do porão e por isso está corada e um pouco excitada.
- Pssst... mais baixo – diz Obtiossov, quando ela, abrindo as garrafas, deixa cair o saca-rolhas. – Não faça tanto barulho, senão vai acordar o marido.
- E que é que tem, se o acordar?
- Ela está dormindo tão gostoso... sonhando... com a senhora... À sua saúde!
- E depois – diz o doutor com sua voz de baixo, arrotando devido à gasosa – os maridos são uma historia tão cacete, que fariam bem se dormissem o tempo todo. É, com esta agüinha seria bom um vinhozinho tinto.
- Essa agora, que idéia! – ri a mulher do farmacêutico.
- Seria excelente! Pena que nas farmácias não vendam bebidas espirituosas! Entretanto... a senhora deve vender vinho como remédio. A senhora tem “vinum gallicum rubrum”?
- Tenho.
- Então! Traga-o aqui! Com os diabos, carregue-o para cá.
- Quantos desejam?
- “Quantum satis!” Primeiro a senhora nos dá uma onça para cada copo, e depois, veremos... Hein, Obtiossov? Primeiro, com água, e depois, per se...
O doutor e Obtiossov sentam-se junto ao balcão, tiram os quépis e põem-se a beber o vinho tinto.
- Mas este vinho, força é confessar, é o que há de péssimo! “Vinum ruinzissimum”. Porém, na presença de... eeeh... ele parece um néctar! A senhora é encantadora, madame! Beijo-lhe em pensamentos a mãozinha.
- Eu pagaria caro para poder fazê-lo sem ser em pensamentos! – diz Obtiossov. – palavra de honra! Eu daria a vida!
- O senhor, por favor, deixe disso... – diz a senhora Tchornomordik, enrubescendo e fazendo uma cara séria.
- Mas como a senhora é coquete! – ri o médico em voz baixa, fitando-a de esguelha, com ar malandro. – Os olhinhos soltam chispas, dão tiros: pif! Paf! Meus parabéns! A senhora venceu! Fomos derrotados!
A mulher do farmacêutico observa os seus rostos corados, ouve a sua tagarelice e logo também fica animada. Oh, ela já está tão alegre! Ela entra na conversa, ri, coquete, dengosa, e até, após longas súplicas dos compradores, bebe umas duas onças de vinho tinto.
- Os senhores oficiais deveriam vir mais vezes para a cidade, lá do acampamento – diz ela – porque senão aqui é um horror de cacete! Eu quase morro.
- E não é para menos! – horroriza-se o doutor – uma romã assim... maravilha da natureza... neste deserto! Como tão bem o disse Griboiedov: “Para o deserto! Para Saratov!” Mas já é tempo de irmos. Muito prazer em conhecê-la... imenso! Quanto devemos?
A mulher do farmacêutico ergue os olhos para o teto e fica muito tempo movendo os lábios.
- Doze rublos, quarenta e oito copeques! – diz ela.
Obtiossov tira do bolso uma carteira recheada, remexe longamente no maço de notas e paga.
- Seu marido dorme deliciosamente... tem sonhos... – murmura ele, apertando a mão da mulher do farmacêutico em despedida.
- Não gosto de ouvir tolices...
- Que tolices são essas? Pelo contrário... não são tolices... Até Shakespeare já disse: “Feliz quem jovem foi na juventude!”
- Solte a minha mão!
Finalmente, os compradores, após prolongadas despedidas, beijam a mão da mulher do farmacêutico e, hesitantes, como que ponderando se não esqueceram alguma coisa, saem da farmácia.
E ela corre depressa para o quarto e senta-se junto da mesma janela. Ela vê como o doutor e o tenente, saindo da farmácia, preguiçosamente se afastam uns vinte passos, depois param e começam a cochichar entre si. Sobre o que será? Seu coração palpita, as fontes latejam, e por que – ela mesma não sabe... O coração bate com força, como se aqueles dois, cochichando lá fora, estivessem decidindo seu destino.
Uns cinco minutos depois, o doutor separa-se de Obtiossov e se afasta, ao passo que Obtiossov volta. Ele passa pela farmácia uma vez, outra... Ora se detém perto da porta, ora recomeça a caminhar... Finalmente, cautelosa, tilinta a campainha.
- O que foi? Quem está aí? – Ouve ela de repente a voz do marido. – Estão tocando lá fora, e você não escuta! – diz o farmacêutico, severo. – Que desordem!
Ele se levanta, veste o roupão, e, cambaleando meio adormecido, arrastando os chinelos, vai para a farmácia.
- O que... deseja? Pergunta ele a Obtiossiov.
- Dê-me... dê-me quinze copeques de pastilhas de hortelã.
Com infinito resfolegar, bocejando, adormecendo em pé e batendo com os joelhos no balcão, o farmacêutico escala a prateleira e alcança o pote.
Dois minutos depois, a mulher do farmacêutico vê Obtiossov sair da farmácia e, depois de alguns passos, jogar as pastilhas de hortelã na estrada poeirenta. Detrás da esquina, ao seu encontro, vem o doutor... Os dois se juntam e, gesticulando, desaparecem na névoa matinal.
- Como sou desgraçada! – diz a mulher do farmacêutico, olhando com raiva para o marido, que se despe apressado para voltar a dormir. Oh! Como sou desgraçada! – repete ela, debulhando-se, de repente, em lágrimas. – E ninguém, ninguém compreende...
- Esqueci quinze copeques sobre o balcão – balbucia o farmacêutico, puxando o cobertor. – Guarde, por favor, na gaveta.
E adormece imediatamente.


Anton Tchecov