30/03/2008

Luísa filha de Nica

O mar batia com ímpeto contra as rochas do ilhéu dos Pássaros e escorria meloso pelas escarpas.


"Bocês tem mania de esconder nome de doenças. Anton veio de Santo Antão tão doente, tão magro, tão amarelo e toda a gente só sabe dizer ele tem pedras no fígado. Três dias estendido naquela cadeira de lona aí do corredor com espasmos e sem forças para falar, e bocês a es¬conder, a esconder."
Luísa brigava com a mãe. Parecia transtornada. Brigou, brigou.
"Esta mania tua, mamã. Meteste o Anton cá em casa e ainda nós tude vamos ficar tuberculosos cá dentro dês casa."
Nica mãe de Luísa, não conseguia dizer duas seguidas. A filha não a deixava. Nica não era Ni ca. Era um autómato atrás da filha a tentar explicar-lhe, mas Luísa não a deixava falar.
"Credo, Luísa", conseguiu articular, a língua entaramelada. Parecia uma terceira pessoa em cena. "Estas falas de gente tuberculosa e estas falas de pedras no fígado. Credo, Luísa!"
"Bocês tem mania de esconder doenças, mamã. Anton está tuberculoso, já disse. Ba espiai, anda! Ba espiai sê boca sempre aberta ta solve ar." E apontava para a porta do corredor.
Esta conversa passava-se no quintal.
"Ah, mamã, Deus livre se Anton ouvisse esta conversa." Luísa descaiu numa mansidão sem explicação. "Coitado, mesmo se ele estivesse a morrer, a gente tinha de lhe dizer de outro modo, não é? Ia melhorar ia passar, não é, mamã?"
Luísa abriu a cancela e entrou no corredor. A meio do corredor parou junto da cadeira de lona. "Amanhã levo-te ao hospital, levo-te ao Dr. Augusto, ouviste, Anton?"
Do quintal a voz da mãe chegou até ela. "Luísa, nha fidje, cala com esta conversa. Pelo amor de Deus, cala com esta conversa."
Saíram de casa cedo ainda, pá mode sol na cabeça. Andavam um bocadinho, logo paravam para descansar. Andavam outro bocadinho, tornavam a parar. Anton gemia e punha a mão sobre o lugar do fígado. Era ali a dor. "Sossega Anton, não há-de ser nada."
Nica ficara à porta a ver a filha a ir por ali adiante. Alguém vira-a a puxar a Luísa para casa. Por fim largou-a. Começou daí a esfregar a cara com as duas mãos. Esfregou, esfregou, bô dzê ela queria tirar a pele do rosto de tanto esfregar.
Quando dobrava a esquina para a Rua dos Descobrimentos pararam outra vez, Luísa viu Muna debruçada à janela.
Ah gente, tinha-me esquecido do baile para logo à noite. Minha cabeça, minha cabeça, eu fiquei de ir pedir um fato de Carnaval para ela. E de arranjar umas meias brancas para mim. E Anton agora.
"Vamos mais depressa, sim? Chegamos ao hospital e já não apanhamos consulta."
Luísa levantou os olhos e alongou a vista até à janela da Nuna. Já lá não estava. Tinha puxado e trancado as persianas.
Anton começou a andar mais depressa mas teve de parar. "Desculpa, Luísa, eu não posso andar. A dor não me dá sossego. Vou estar por pouco."
"Tontice, Anton. Anda, experimenta e vais ver."
Oh, senhores. Nem uma ajuda há nesta terra para um desgraçado. Nem um carro, nem uma maca, nem duas tábuas para levar uma criatura ao hospital. Ele pode morrer pelo caminho, es¬tou a ver.
Anton suava. A camisa pegada ao corpo, a testa húmida, a cara sumida.
Ao passar pela janela da Nuna, Luísa esprei¬tou por entre as tabuinhas das persianas verde escuras. A vidraça também estava fechada e na¬da pôde descortinar para além da penumbra envolvente do quarto.
"Trouxeste o teu boné, Anton? O sol vai aquentar, tens de cobrir a cabeça."
Anton tirou o boné do bolso do casaco de caqui.
"Está um tempo abafado! Vai chover."
Pôs o boné e parou. "Vai chover." Olhou à volta. "Vai chover."
"Qual chover, Anton. Tu não conheces o ca¬lor de Soncente. Este calor é do suão. Há-de surdir um vento quente lá para a tarde. Vai-nos queimar e gretar a boca se não pusermos vaselina de roda da boca. E de noitinha o vento sopra¬rá mais forte. E hás-de ver a terra a entrar pelas gretas das janelas, as roupas, papéis e monturo hão-de fugir dos quintais e o vento vai indo enrodilhado neles a fugir por essas ruas, como meninos no jogo da reianata. Não é assim no Paul, Anton?"
"Não, no Paul quando faz muito calor e vira assim um tempinho esquisito, certo vamos ter chuva."
Luísa deu um suspiro. "Já sei onde vou pedir umas meias brancas. Nair vai-me emprestar as suas meias de casamento. Vou-me mascarar de arlequim mercano. Chapéu alto, casaca de cetim preto sem mangas, short aos quadrados preto e branco, peitilho plissado de organdi branco, meias brancas, sapatos rasos pretos, uma bengala. E luvas brancas. Não, vou dar outro nome ao meu disfarce. Ah, já sei. Vai ser, preto quando tem vintém."
"Vamos, Anton, temos de nos despachar."
Ele respirava com dificuldade, (ou não respirava?) de uma maneira estramontada.
"Estou tão cansado, Luísa. Mão tenho forças. Ainda é muito longe?"
"Apoia-te no meu braço. Vamos andando na calma, sem pressa. Estás a ver aquela mulher li assim sentada na porta de D. Angélica? Quando passarmos por ela não digas nada. Nem bom dia, nem boas horas nem nada. Ela é um bocadinho deslocada da cabeça, mas é mansa."
Luisa contava os passos. Sete, oito, ainda tenho de coser os quadrados de cetim branco sobre o short. E comprar borato para espalhar na sala do baile.
O braço de Anton pesava sobre o dela.
"Aquela mulher está atravessada no passeio, Luísa. Não vamos passar por cima dela, não?"
Uma frieza tornou-lhe conta do corpo. Fraco, sem forças, como poderia descer o passeio para se desviar da mulher?
A mesma frialdade sente-a Luísa dentro de si.
"Não tem importância. A gente passa e passa mesmo."
Arrastam os sapatos pelas pedras num caminhar de quem não sabe andar.
Luísa parou junto da mulher. Esta levantou-se e abriu os braços. Luísa decidiu-se, estendeu as mãos e afastou-a.
"Com licença, nha Ninha. Rua é para a gente passar nela."
"Quem disse outra coisa? Rua é para andar, porta é para passar, casa é para morar. E eu vou casar e vou levar uma coroa de urtigas."
"Está bem, nha Ninha. Com licença."
Antes de prosseguir Luísa franziu o nariz e torceu a boca. "Bocê anda com um cheirinho morrinhento, nha Ninha. É de andar por aí a roçar pelo chão. Bocê é gente-grande, bem podia ter mais juízo. E se bocê fosse mudar de roupa de baixo?"
Nha Ninha encostou-se na porta e sacudiu a saia com a mão, depois a saia de baixo, esfregou os pés um sobre o outro.
Anton começou a tossir. Segurava o peito com as duas mãos.
Luísa estava arrependida de o ter trazido sem ajuda de alguém, sem avisar o Dr. Augusto.
Ele não aguenta. Mesmo assim, com mais de meio caminho para andar não vou desistir. Adê, Deus livre. Andar para trás! Nem flaça! Andar para trás é andar para trás. Nem fôche. "Anton, vamos. É só mais um bocadinho."
Ele estava sem cor. A cara tornara-se acinzentada. Fez menção de se vergar.
Vai sentar-se senhores. E agora?
Luísa olhou para os dois extremos da rua. Encostou-se à parede da casa do Sr. Inácio, e segurou o braço de Anton metido no dela.
As casas de traça pombalina, todas tinham as persianas fechadas. No primeiro andar em frente podia-se ver Nha Joaninha sentada à va¬randa numa cadeira de verga. Estava a tomar o fresco de palmanhã. Nha Joaninha endireitou-se na cadeira, pôs o queixo sobre o peitoril da varanda e espreitou a rua. Depois deixou-se estar como estive-ra até aí, mãos sobre o regaço, olhos parados, espírito descansado.
Nhã Ninha sentara-se na useira da porta. Saia descaída entre as pernas um pouco afastadas por via do calor, uma mão no queixo, olhou assim de baixo para a Luísa.
"Ocê está encostada na parede de uma ma¬neira. Parece como menina-de-vida."
A mão de Anton tornou-se leve no seu braço. Luísa sentiu-se livre para apontar com o dedo para a velha. "Eles dzê que bocê é deslocada da cabeça. Que bocê é escloca. Mas quando quer insultar gente-home ou gente-mulher já não é es¬cloca, n'é devera?"
Nhã Ninha deu um risinho baixo como um sininho. "Inton, sou leve de cabeça, n'é? Inton, se uma criatura de Deus encosta sozinha como ocê, assim na parede, é ou não menina-de-vida? Logo pela manhã encostada na parede, ah gen¬te, ou ocê é frouxinha de cabeça ou então é menina-de-vida. Ou não?"
Luísa sentiu um calor pelo corpo todo. O sangue subiu-lhe à cabeça.
"Sozinha? Bocê não tem olhos na cara, Nha Ninha?"
"Sozinha, sim senhor. Não quer ser menina-de-vida, mas é como se fosse. E depois?"
O sininho do seu riso tocou e tremelicou outra vez.
Nhã Ninha é doida varrida. Não é de dar trela a esta conversa descosida.
Apesar do fogo pelo corpo todo como onda de sangue a querer saltar-lhe pela boca, Luísa tinha de resolver a sua vida e a de Anton.
Ele havia soltado o braço do dela.
"Anda, Anton, vamos. Nha Ninha é doida e dar-lhe troco é perder tempo e paciência."
Voltou a cara para ele.
Oh coisa estranha. "Adê Anton, para onde foste? "Não pode ser. Anton nunca podia ter saído daqui. Ele nem consegue dar dois passos seguidos. Nem aguentava andar até ao fim da rua. Ainda são umas bem boas jardas. Não pode ser.
Luísa deu uma corrida até à esquina. Perscrutou a Rua de Lisboa. Credo, esta coisa é obra de feitiçaria. Nem cabe na minha cabeça. Ou estou avariada?
Apertou o passo até perto do Palácio. Anton não poderia ter passado do largo do Palácio. Deu-lhe vontade de começar a gritar, a berrar, até juntar povo. O seu coração era um tambor. Rangeu os dentes e retornou rua abaixo. Ia devagar, os olhos à toa. Entrou no pelourinho, subiu as escadas e ficou em frente ao talho.
"Oh gente, oh gente, isto é obra de feitiçaria!"
Apenas um som. As palavras nem saíam da boca seca e sem cor. Desceu as escadas do pelourinho aos dois degraus de cada vez.
Tanta mosca no pelourinho. Tanta mosca so¬bre as bananas, goiabas, mangas. Moscas a cirandarem nos sacos abertos de batata-doce, nos montinhos de mandioca ou nas pontas dos pedaços de cana.
Ao chegar à rua já não sabia para onde se voltar. Atrás dela ficou o conversar alto das mulheres, a zoada preguiçosa do pelourinho onde menino-pequenino furtava laranjas e pedia um tostão para um docinho de coco.
Andou, andou. Cortou por vielas e caminhos. Já não era Mindelo a sua terra. Já não eram as ruas da morada, de menininhas a saracotearem com samatá de pele de cobra da Guiné e vesti¬dos de cetim da casa dos indianos. Donde mocinhos a venderem contrabando, cigarros de Gold Flake, bandejas de alumínio, chocolates de bordo de vapor, margarina da Argentina, carne do Norte tão sabe e também colchões furtados a bordo dum noruega, dum sueca. Donde latas de jam e queijos da Holanda? Que terra é esta donde só se vê grama e uns pedrona e ela escorrega por um funil tão estreitinho, nem uma lagarta de feijão poderia lá passar?
Um vento empurra-a para fora do seu chão, para um espaço de ventona, de calhaus, de vulcões mortos, de poeira redemoinhada. Tapou o nariz com as duas mãos e caminhou de cabeça inclinada, corpo em arco, contra a tempestade sem chuva, sem trovões ou relâmpagos. E este desfragar de rochas desfeitas em pedregulhos sempre atrás dela. E ela sempre a fugir e as pe¬dras aos saltos, em passadas certas e fragoro-sas. São passos de canelinha. Canelinha é tão leve e tão corpo uno de pernas braços, cabelos, um todo canelinha, tíbia ou peróneo, tanto faz, é sempre canelinha.
Luísa dava passadas no ar, as pernas afastadas por treino olímpico tocavam cor-rectamente o chão. Podia competir com canelinha. Cada passada tinha o tamanho de um dia.
A ventona aqueceu, era um bafo de caldei¬rão, bafo de óleo de purgueira. Apertou o nariz de novo. Uma espuma de óleo esparramou-se à sua frente. Começou a catar sementes de pur¬gueira. Saltavam saltos de canelinha e ela agarrava-as e ia-as enfiando num espeto. Depois largava-as ao longo do caminho e chegava-lhes um fósforo. Repetiu esta operação um cento de vezes, ou sejam cem canelinhas de vezes. Cada canelinha seria da medida de uma fita cor de ferrugem.
Ia iluminando a superfície e escorregava em bicos de pés. Ensaiou um bailado e gargalhou. Andou, escorregou, deslizou de gatas. Atravessando colinas de espuma, sem-pre em bicos de pés no cocuruto de cada ciminho, trepou ondas de óleo de purgueira pastosas e mornas, agarrando-se a ramos de calabaceira como aranhas cinzentas entre a coisificação da vida sem vida.
Nunca mais chegava ao termo da jornada e nem já tinha conta do tempo. Ouviu longe, lá do outro lado, o eco do gargalhar de quando en¬saiou o bailado, este bailado de canelinha, do gargalhar viajeiro no tempo e a procurá-la outra vez.
O bom filho à casa torna, pensou. Ouves Luísa? Eu-Luísa, tu-Luísa, deixa as gargalhadas pródigas e despacha-te. Despacho-me Eu-tu-Luísa vamos. Vai e entra. Luísa correu, correu. Ouviu a trombeta e correu mais. Voou. Chegar a tempo antes dos portões se fecharem. A trombeta soava mais perto, os portões, ei-los. Ao morrer o último som da trombeta, os portões cerrar-se-iam para sempre. Reparem bem, para sempre. Voava, Luísa de cabelos soltos, seios virgens expostos, para amamentar quantos mil filhos viessem.
A trombeta soltou o último arpejo em agonia. Os portões fecharam-se sem pressa. Luísa gritou (uivou?) e foi de encontro aos batentes onde socou cem vezes com os punhos em força. Escorregou, as mãos desceram pela superfície do portão e deixou-se então embalar no mar de espuma de purgueira quente.
O mar batia com ímpeto contra as rochas do ilhéu dos Pássaros e escorria meloso pelas escarpas.
A mãe levantou-a do chão, hirta, lábios roxos, baba seca nos cantos feridos.
Nunca mais acordava. Chamou-a pelo nome, sacudiu-a. Luísa, Luísa, Luísa.
Arrastou-a pelo quintal até à porta do corredor. Deu um suspiro de alívio. Feliz-mente ninguém dera pela Luísa caída à porta de casa. Ainda bem. Na Soncente gostam de inventar coisas, logo haveriam de começar os murmúrios sobre nada, coisas de namorados, abertos, chicanas em barda e o nome de uma menina-nova sujado sem mais nem um.
Nica não sabe a conta das noites em branco à cabeceira da filha. E ela sem acordar. Dez, vinte anos, cem anos? Nica perdeu-lhes a conta.
Tatóia desconfiou do silêncio da casa de Ni¬ca e foi lá bater-lhe à janela. Nica abriu uma greta. Trazia um pano dobrado na testa, atado atrás da cabeça.
"Tenho uma dor de cabeça, Tatóia. Nem con¬sigo abrir os olhos."
Os olhos de Nica pareciam dois papos de pregas.
"Ah, Nica, Nha irmom, essa coisa é aranha que te mijou na capela dos olhos. Deixa-me ver. Abre esta capela, fecha. Agora estoutra. Abre. Fecha. Foi aranha, foi. Não tens água fluídica? Se não tens eu trago-te uma garrafinha. Esta se¬mana mandei fluidifi-car quase cinco litros de água."
Nica descansava a cabeça na persiana meio aberta e escutava de olhos fechados. Tatóia falava, ah como ela falava!
"Gosto mais de água fluidificada por nhô Henrique. Ele é um bom médium e só atrai bons elementos. Nos dias de sessões de limpeza psíquica levo sempre água para fluidificar. Apois, vou trazer-te água fluidica para pores uns pachos sobre a capela dos olhos. Vão ficar desinchados num rufo."
Nica tossiu.
"Inton, Nica, não tenho visto a Luísa. Ela não está?"
Nica entrou em pânico. Tremia sem parar.
"Nica, Nha irmom, tu estás apoquentada." Tatóia começou a magicar. Essas menininhas de agora começam a namorar, começam a ir para o escuro, depois são os abortos ou então menino novo nos braços. "Inton, Nica, nada de apoquen-tação."
"Entra, Tatóia, entra. Vou abrir-te a porta."
Nica cerrou as persianas, trancou as vidra¬ças e foi levantar o trinco da porta. "Anda, vem ver a Luísa. Deu-lhe uma coisa agoturdia pela manhã e até hoje ainda não acordou." Fechou a porta e foi andando assim ao lado de Tatóia. "Deixa-me benzer mesmo. Padre, Filho, Espírito Santo. Passe de largo coisas de intentação."
Tatóia estava perplexa e não exagerava nadinha. Seria aborto ou não? Ou teria sido seduzi¬da?
Nica levou-a ao quarto de Luísa. A cama encostada à parede, Luísa toda coberta, a cabeça tapada com uma colcha de algodão. Num dos cantos uma máquina de costura de manivela sobre uma mesa. Uma janela dava para um quintal sem serventia.
"Está assim há quantos dias! Não come, geme todo o tempo. Tenho-lhe metido umas colheres de caldo pela goela abaixo mas ela cospe tudo, trinca a colher com os dentes, esbraceja, um inferno."
"Não chamaste o doutor, Nica?"
Sentada numa cadeira, as mãos de dedos entrelaçados, os polegares rodando um atrás do outro. Tatóia na sua frente, segue com muita atenção tudo quanto a amiga vinha contando.
"Com esta dor de cabeça, nem tenho tido tino para nada. É uma coisa diferente, não é doença pá doutor. Quando ela apareceu caída na porta de entrada, dias-há vinha dizendo umas conversas estranhas. Às duas por três eu também já estava enrodilhada na conversa. Eu sabia ser tudo invenção, mas ia na conversa."
"Que espécie de conversa?"
Ah minha ansiedade de saber. Tatóia tem calma, tem paciência. Não estejas assim a levantar e a descer o teu peito raso. Esta é uma conversa de espíritos, é uma conversa de morto-vivo, de avassalamento, de coisas de intentação. Nada de perguntas. Despa-cha-te, Tatóia, vai para casa, este lugar deve estar avassalado, não aqueças esta cadeira de palhinha onde estás sentada. Ainda os espíritos podem cangar em ti.
Nica começou a soluçar. "Ah gente, ela só falava de Anton. Anton pra cima, Anton 'para bai¬o, e quando eu adiantava para dizer qualquer coisa, sim, porque eu tinha de dizer alguma coisa, ela cortava logologo a conversa. Brigava comigo, Tatóia. Ia fazer assim, ia fazer assado. Foram mais de quantos dias de afronta. Mas eu sabia, Tatóia, e tu também sabes, Anton, nosso primo de Santo Antão, lá da Ribeira de Paul, morreu dias-há no mundo, nem Luísa ainda tinha nascido."
"Credo, Nica, credo. Esta casa está avassalada. Vou já, Nica, vou já mandar um recado pâ senhor Henrique. Tens de fazer limpeza psíquica senão bocês tudo li dentro vão ficar doidas varridas. E ela, Nica, precisa de uma boa surra de cavalo-marinho, Nica."
O quarto escureceu. Ou és tu, Tatóia, cega sem mais nem quê? Bolinhas de terra atiradas contra a parede, desfaziam-se espalhando-se pelo chão. A colcha estava toda pintalgada. Pareciam espirros de lama. Nica agarrou a filha e sacudiu-a. Luísa era toda convulsões e ranger de dentes.
Tatóia fugiu pelo corredor, a bater no peito e a chamar-se Tatóia, Tatóia, Tatóia!
Bolinhas de lama choviam-lhe em cima. "Senhores, credo! Passe de largo os maus elementos." As mãos batem com vigor no peito, "Tatóia, Tatóia, Tatóia!" (não fossem os espíritos cangar nela também), a voz acompanha esta histeria.

Carnaval de 77

Orlanda Amarílis, Ilhéu dos Pássaros