11/03/2008

Lágrimas para irmãos siameses

Eram duas vezes dois irmãos siameses, nascidos um com o braço no braço do outro fundido. Se pareciam como uma folha e a seguinte. De nomes como assim: Osório e Irrisório. Cresceram os dois, um em consequência do outro. Recíprocos, simultâneos e simétricos. Ainda menininhos, o doutor advisou a mãe:
- “Podemos separá-los agora, este é o momento conveniente”.
Separá-los. Porquê? Se Deus os queria carne com osso? Se davam bem, amiguíssimos, vizinhos, repartindo o tudo e o nada. Os pais, remediados, compraram um único relógio que ambos partilhavam no comum antebraço. Ao apertar a corrente do relógio, a mãe sentenciou:
- “Assim, o tempo nunca lhes vai dividir”.
O tempo, esse mesmo, foi descaiando espelhos e os siameses começaram a engrossar a vista em saia e peito. Osório, sobretudo, era mais espevitado. Irrisório era mais metido em si, olhos caseiros. Osório, às duas por muitas, se apaixonou por Marineusa. Se adonzelou com ela, esfregando-se nela até gastar o umbigo. Havia, óbvio, o problema do mano que estava ali, mesmo ao braço de semear. Osório lhe pedia que fechasse olho, tapasse ouvido, alheasse sentido. Irrisório tranquilizava:
- “Sou homem correcto, descanse mano ó”.
Irrisório, por voz de promessa, sossegava o irmão. O pai, sabedor da vida, sugeriu um encontro familiar. E disse assim:
- “Vão chegar mulheres e amores. Melhor é vocês separarem-se!”
Mas eles negaram. Eram fiéis, como a canção: juntos para sempre. O pai manteve o mandamento. Porém, foi enfraquecendo perante a insistência dos gémeos:
- “Mas, pai, nós, assim alicateados, saímos baratos a Deus: precisamos só de um anjo da guarda”.
E o outro ainda reforçava:
- “Como podemos separar? Se cada um da gente só tem uma mão?
- “É. Só os dois é que somos um”.
Todos riram, arrumado o assunto. Antes de se retirar, o pai ainda sacudiu uma resignação:
- “Vão ver, o amor junta, o amor separa”.
E mais nada. Até que numa noite tempestosa Marineusa dormiu no mesmo leito dos irmãos. Irrisório se insentou, virado para a oposta parede. Fora, trovejava, chovia a rios. A arribombação escondia os gemidos dos amantes. Osório se estava combustando na escalada dos prazeres quando, repente, acreditou ver um braço alheio apalpilhando as traseira, da moça. Foi como relâmpago, dentro e fora dele. Visão incerteira mas que lhe rasgou o pensamento. Irrisório se aproveitava? A miúda, magoada, pranteou. Osório queria tudo a pratos lavados:
- “Explique-me, Marineusa!”
Ela levantou o braço pedindo pausa. E recolheu uma lágrima na ponta do dedo. Fez sinal para que ele espreitasse a gotinha de tristeza. E Osório, maravilhado, viu surgir seu rosto na lágrima de sua amada.
- “Sou eu?
- “Veja, essa é prova, a verdade saída do meu coração”.
Na seguinte madrugada, a moça já tinha saído, Osório ainda foi assaltado por uma tardia suspeita. Aquele braço, em meio de relâmpago? E falou para o irmão:
- “Cuidado, mano! Você desce da cama e entra na cova!
- “Está com ciúme, Osório?
- “Ciúme, eu?
- “Ou está com dores no meu cotovelo?
- “Eu só digo: veja essa sua mão, seu mãojerico”.
Acabaram brincando, amolecidos. E ficou-se sem dito nem feito. O ciúme, porem, cismava em garimpeirar o peito do irmão apaixonado.
Um dia, aproveitando o sono de Irrisório, Osório perguntou a Marineusa:
- “Você, afinal: de quem gosta mais de mim?”
Inesperadamente, a miúda desabou em choro. Falava em lágrimas. Osório se debruçava sobre o rosto dela a ver se entendia palavra. Mas nada. A namorada se inexplicava.
- “Quê? Você se entrega com ele?”
Ela adensou o choro. Irrisório pareceu querer despertar.
- “Dorme, pá!”
Osório punha e contrapunha. Como Marineusa não desse acordo com as falas ele exigiu:
- “Mostre-me uma lágrima!”
Ela hesitou. O homem gritou e Marineusa ainda recusou. Mas ele ameaçou e ela acedeu, gota tremeluzindo no estremecente dedo. Osório espreitou mas virou o rosto, fulminado pela visão do irmão bailando na película da lágrima. Com voz rouca, fechou o momento:
- “Você, nunca mais me compareça!”
Mas ela, passadas três semanas, voltou a aparecer. Abriu a porta e ficou ali parada, olhos térreos. O coração de Osório trepidou, ansioso. A moça correu em direcção a ele. Osório levantou seu único autónomo braço, pronto a sanar e perdoar. O amoroso volta sempre ao local do amor? Mas eis que Marineusa se enviesa e se atira no braço de Irrisório. E os dois se beijaram, as bocas emigraram deles e molharam o mundo em volta. E se trocaram em ternuras e suspiros. Osório descabia em si. Virou o rosto e ferveu sem água, vinagrada a vista, salgado o sangue.
Nessa mesma noite, os dois irmãos, sozinhos, descascavam o silêncio. Osório quebrou o frio:
- “Amanhã, vou-me separar de você.
- “Vai cortar o braço?
- “Sim, vamos directinhos no Hospital.
- “Esse braço é mais meu, não se corta”.
E discutiram. Que parte, que músculo, que osso era de cada um? Os ânimos esquentaram a pontos de pancadarias. Passados minutos, os dois acabaram cheios de hematombos, todos traupartidos. Amarrados um no outro, os irmãos não se podiam desviar, nem furtar aos socos e pontapés. E adormeceram, de cansaço, uma mão segurando a outra, por precaução.
Manhã cedo, recomeçaram a briga. Um puxava o outro para o hospital. O outro gritava que não, que nunca, que nem que ele passasse por cima do cadáver dos dois. E mais socos, chutapés. A mãe gritava pelos vizinhos, ai que meus filhos se matam, um mais o outro! O pai avançou, peito arrojado:
- “Deixem que eu separo-os!”
Rápido, corrigiu o verbo. “Quer dizer, separo-os parcialmente, isto é, separo aquela parte de lá”. Enquanto acertava a frase, o pai se deixou ficar em debate com os múltiplos vizinhos.
No meio da balbúrdia, eis que aparece Marineusa. Fez-se um silêncio, abriu-se passagem entre a multidão. Avançou até aos gémeos e levantou a mão solicitando um tempo. Sem que se percebesse razão, ela desatou a chorar. Recolheu as lágrimas na concha da mão e chamou os irmãos para que espreitassem. Então, eles viram um cordão de gotas líquidas, entreligadas como um colar. Eram lágrimas siamesas. E em cada gota, alternadamente, surgia o rosto de Osório e de Irrisório. Ela tomou aquele longo rosário de gotas e o enlaçou em redor dos dois manos. Beijou-os na face, levantou-se e saiu entre alas de muito espanto.


Mia Couto, Contos do nascer da Terra